quarta-feira, 15 de junho de 2016

Bons Ares




            Estive na capital argentina por três vezes: quando eu era criança, depois pós adolescente e mais tarde adulto. Certa vez ouvi a frase: “Os argentinos são italianos que falam espanhol e se acham ingleses”. Talvez essa frase tenha sido dita após o episódio da Guerra das Malvinas, na qual Argentina e Inglaterra disputaram um arquipélago no Hemisfério Sul, conflito que trouxe baixas para ambos os lados. Semelhantes ao Brasil, os argentinos passaram por um período de ditadura militar, e foram esses ditadores que fizeram questão de pisar nos calos da Inglaterra e fazer do episódio uma bandeira de propaganda do regime opressor argentino. A própria Margareth Thatcher, primeira ministra inglesa na época, chamou os militares da Argentina de “gangue de fascistas”. Eram os anos 1980, e o mundo voltou suas atenções à disputa. Inclusive, quando foi lançado o jogo de tabuleiro “War”, naquela década, o filme publicitário mostrava sósias de personalidades mundiais jogando e disputando terras ao redor do mundo, e uma das sósias era de Teacher, digo, Thatcher. A Argentina perde a guerra e os militares passam do “prazo de validade”. A ditadura cai de podre. E há em Buenos Aires um memorial em homenagem aos mortos no conflito – uma gigantesca flor artesanalmente feita com pedaços dos aviões argentinos que lutaram nas Malvinas. A flor da paz é maior do que o sangue da guerra. O orgulho inglês saiu renovado, visto que a Inglaterra teve (e ainda tem) uma atitude colonizadora, vendo outrora na Argentina uma oportunidade de investimentos civilizatórios, como estradas de ferro cortando o país. Mas, hoje, argentinos e ingleses estão em paz, sem mais agressividade, e cada um fica quieto no seu canto. As guerras são sempre arrasadoras para todos os lados. Não se respiram bons ares na raiva.

            A Argentina tem um charme especial, e o Sol de lá parece ser mais dourado do que o comum. Por que será? Mas dizem que, meteorologicamente, Buenos Aires é uma cidade “bipolar”, pois o inverno é bem frio e o verão é bem quente, e o calor é turbinado pelo grande acúmulo de concreto e asfalto.

            Há a face negra da nação argentina – o racismo. Assim como o Brasil, a Argentina teve a força econômica de trabalho da escravatura, e negros foram arrancados da África para o trabalho forçado, e assim foi com os afrodescendentes argentinos destes, nesse absurdo que é a escravidão. Só que há um ponto contrastante no momento da abolição da escravatura: no Brasil, os negros foram libertados e passaram a ser cidadãos brasileiros, herdando de seus senhores os seus sobrenomes – é por isso que há tantos Silva no Brasil, por exemplo; já, na Argentina, os negros foram libertados mas foram todos reunidos e mandados de volta à África, sendo inaceitável serem convertidos em cidadãos – os escravos na Argentina foram usados e descartados como Kleenex. Uma parente minha viajou para Buenos Aires em excursão e, quando o grupo chegou à porta de uma casa noturna, o segurança, ao saber que se tratava de um grupo brasileiro, perguntou se neste havia algum negro, e minha parente disse ao segurança que, no Brasil, o portenho seria processado por injúria racial. Em outra oportunidade, um amigo meu estava com um grupo de amigos em um restaurante portenho, e uma de suas amigas era negra. Então o meu amigo disse que ouviu pessoas locais que, ao saírem do restaurante, olharam para a moça negra e disseram: “Não dá mais para vir aqui”. Será que os argentinos têm inveja dos brasileiros pela Argentina não ter tido um Pelé? Será que os argentinos gostam de haver uma família negra na Casa Branca nos EUA? Levando em conta o racismo, seria coincidência o fato de que vários nazistas refugiaram-se na Argentina após a II Guerra Mundial? Eu, hein. Preconceito é uó.

            Certa vez em uma entrevista, o ex jogador Diego Maradona fez uma gozação do estilo brasileiro e da tradição do futebol arte brazuca. Cidade que respira futebol, BA é o cenário da ópera rock “Evita” de Andrew Lloyd Webber. A larga avenida 9 de Julio tem a reputação de fazer com que as pessoas, por causa da alta poluição, fiquem com resquícios de poluentes nas narinas, mas é puro mito. O célebre obelisco na avenida é símbolo do orgulho portenho, numa urbe que abriga em sua região metropolitana um terço de toda a população da Argentina. Os portenhos curtem uma boa cafeteria, tendo uma certa semelhança com Porto Alegre, sendo que esta tem mais a ver com BA do que com o Rio de Janeiro. A sofisticada avenida Santa Fé abriga uma livraria, El Ateneo, que se instalou onde era certa época um teatro. A mistura ficou excelente e inusitada, um símbolo da paixão portenha por cultura. El Ateneo aproveita todos os espaços – os camarotes laterais também abrigam livros e, mais ao fundo, no palco, há uma cafeteria, num conceito muito criativo, equiparando-se à Livraria Cultura na cidade de São Paulo. Ainda falando da 9 de Julio, o centro de Buenos Aires já não respira o glamour portenho de outrora, e há prédio antigos decadentes e pichados, há camelôs vendendo tranqueira e há mendigos.

Berço do tango, com shows gratuitos da dança pela rua, a Big Apple da Argentina tem, em uma bela galeria em art déco, o teatro Astor Piazzolla, cujo nome homenageia o célebre músico astro do tango. O impecável show de tango, nesta dança apreciada por Eva Perón, é apresentado após servido um jantar, um bom programa para namorados e casais em geral. A técnica dos dançarinos é perfeita e, num certo momento da apresentação, há uma dança gauchesca extremamente parecida com as tradições do Rio Grande do Sul. São os pampas.

O grandioso Museu de Arte Latinoamericana, o Malba, com suas paredes brancas, lembra um pouco o MoMA de Nova York. Vibrante, o centro cultural portenho sempre traz mostras, e, quando fui, deparei-me com uma instalação indescritível. Foi a catarse mais forte e marcante que vi na minha vida. Uma porrada na mente. Não lembro do nome do autor e nem quero lembrar, hehehehe! E o monumental Puerto Madero é um bom programa de passeio, com gastronomia e muitos barcos atracados, num espaço que Porto Alegre quer fazer semelhantemente no Cais Mauá, no centro da capital gaúcha.

Na luz do dia, Buenos Aires é uma cidade relativamente segura. Bater perna é bom, visto que os pés bombeiam o sangue para o resto do corpo. Os guias recomendam não caminhar na rua após as 22 horas, e estão havendo vários furtos pelas ruas da cidade, em plena luz do dia. Os portenhos não vivem absolutamente seguros. Uma característica dos boêmios portenhos é o horário, pelo menos em boates onde fui – a festa começa, de fato, só às 3 da manhã, e vai até as 8 horas da matina. Cidade de passado rico e próspero, Buenos Aires respira o poder da Casa Rosada, num bom passeio, com uma entrada especial para turistas, com grandes quadros pintados com ícones da história política argentina. Mas, quando fui, observei algo instigante: num mastro estava hasteada a bandeira nacional, só que esta estava absolutamente esfarrapada, em frangalhos. Seria por causa de uma tradição que desconheço? Quanto pode custar uma bandeirazinha nova?

Na última vez, hospedei-me no Hotel Bisonte, com um ótimo café da manhã, servido até as 13 horas. O táxi na cidade é barato, até barato demais, e a categoria, na época em que fui, estava insatisfeita com as baixas tarifas. Alguns taxistas não são lá muito gentis. Ainda por cima, há táxis não regulamentados e não licenciados trabalhando pela cidade, e você tem que se assegurar que está pegando um táxi legalizado. Além do mais, circula em Buenos Aires muito dinheiro falso, e há até taxistas que passam aos passageiros cédulas inverídicas, e é por isso que os guias recomendam nunca dar cédulas de valor muito alto, pois, no troco dado pelo motorista, pode haver “ouro de tolo”. Deus que me perdoe, isso tudo numa cidade tão bonita. Por fim, o trânsito é meio caótico, e, em avenidas largas, com várias pistas, os carros nunca ficam na mesma pista, e invadem incessantemente as outras pistas demarcadas no asfalto. Mas isso Dios perdoa, mesmo porque é portenho o Papa Francisco. E abençoados são os shoppings de BA, que são finos, como as Galerias Pacífico, com seus afrescos pintados, com algo que amo – uma loja da rede mundial de cafeterias Starbucks, com um cappuccino excelente, só que caro. Diz-se que Francisco adorava tomar café pela cidade.

No retorno de minha terceira viagem a Buenos Aires, quando fui com minha família em um feriadão de Corpus Christi, uma pessoa de minha família, que adora doce de leite, adquiriu um vidro do produto na cidade. Chegamos em Porto Alegre e desembarcamos. E eu, para poupar os mais velhos de grande esforço, coloquei em meu carrinho a maior parte das malas. O que eu não percebi é que eu estava com “cara de sacoleiro”, como se eu estivesse cheio de contrabando. Então o funcionário da alfândega, ao me ver, solicitou que eu colocasse as malas sob o raio x, e o pote de doce de leite foi descoberto. O funcionário informou que, por ordens da vigilância sanitária, doces de leite da Argentina não podem entrar no Brasil. Aí o homem abriu o pote na nossa frente e o descartou, pra mostrar que o produto seria de fato jogado fora. E lá se foi um delicioso doce de leite. Fazer o quê? Inclusive, o funcionário nos deu um folder explicando as razões da legislação. Firme, porém, gentil.

Há o tradicional passeio pelo bairro El Caminito, com sua casas multicoloridas – como no Pelourinho em Salvador –, e há a feira de antiguidades no bairro de San Telmo. É bom também fazer visitas guiadas pelo colossal Teatro Colón. Buenos Aires é uma cidade grande e aberta ao mundo, numa bela escolha de lua de mel, por exemplo. BA é doce. Os argentinos retribuem as visitas dos turistas brasileiros, e vão às praias brasileiras no verão – vi até argentinos em um resort em Salvador. Certa vez, no verão em Capão da Canoa, eu cheguei em um café e sentei-me inocentemente em uma mesa. Então veio um argentino que disse-me em espanhol – como seu eu, no Brasil, tivesse a obrigação de entender a língua dele – que ele estava sentado, antes de mim, na referida mesa. Cedi gentilmente, dizendo que eu não sabia. Não vou puxar briga com um argentino, principalmente por uma mesa em um café em Capão da Canoa. Em outra ocasião, em Gramado, duas senhoras argentinas estavam batendo fotos, e eu me ofereci para tirar fotos delas. Quando lhes devolvi a máquina, uma delas agradeceu e disse-me, em espanhol, que eu era muito amável. Amo a Argentina, principalmente os vinhos!

E não podemos esquecer da Republica de Los Niños, ou seja, a República das Crianças, parque temático fundado por Evita Perón nos anos 1950 – olha ela aí de novo, tendo sido tema deste mesmo blog anteriormente. Reza a lenda que quando Walt Disney visitou o parque, teve a inspiração para construir a Disneylândia na Califórnia, EUA. Falando em crianças, certa vez minha família alugou nossa casa no litoral para um casal argentino com filhos. E também tive a oportunidade de conhecer, no Brasil, o portenho Félix Monti, o talentoso diretor de fotografia de cinema.

Na ilustração desta postagem, um banco exótico no interior do Malba. É a sofisticação dos citadinos hermanos.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

The die of Di




            Ela tinha um carisma mágico. Sua morte virou o mundo de cabeça para baixo. O título de Lady ela herdou de sua avó, que legou-lhe no testamento. A família de Diana é muito discreta, se comparada à visadíssima família real inglesa. Filha de conde, Diana teve uma vida confortável, cheia de privilégios. Reza a lenda que Di foi apresentada ao príncipe Charles por Camila Rosamaria Shand, a qual tornou-se amante deste e, anos depois, casou-se com o príncipe, sendo a segunda esposa dele. A história de Charles e Diana é um conto de fadas ao contrário: não foi o sapo que virou príncipe, mas o príncipe que virou sapo. O início do casamento destes até foi harmonioso, mas a coisa começou a azedar – ele passou a ficar indiferente em relação a ela. Com uma forte tendência à depressão, Diana quase tentou suicídio, tal sua insatisfação na vida de cônjuge. Pessoa extremamente pública, Diana fazia questão de expressar a própria tristeza e insatisfação. Di era autêntica e espontânea, arrebatadora, como uma Nefertiti pós moderna. O povo adorava essa transparência. Fina como cristal.

            Diana tinha o dom de “orquestrar” a mídia global em torno de sua própria figura de princesa e ex-princesa. Diana foi uma popstar de brilho esmagador. Com o divórcio, Di tinha tudo para cair no mais completo esquecimento, como o que ocorreu com a ex concunhada Sarah Ferguson: Fergie – a imprensa inglesa adora apelidar pessoas famosas – passou pela mesma experiência, decepcionando-se no casamento com um príncipe. Até hoje lembro-me do casório de Ferguson. Era uma fria manhã de domingo de inverno em Caxias do Sul – pelo fuso horário, meio-dia no verão inglês – e Fergie entrou na igreja com um vestido de uma cauda monumental. Na saída do templo, o casal recém enlaçado passeou de dourada carruagem pelas ruas de Londres saudando o povo londrino e jogando pelas ruas muitas pétalas de flores brancas. Um verdadeiro espetáculo midiático. Os casamentos exercem um fascínio sobre o ser humano, pois a vida em sociedade é repleta de rituais, seja em tribos amazonenses, seja no Japão, seja no Ocidente. O ritual impõe ordem e clareza ao caos da existência, numa promessa de um mundo melhor. E a junção entre homem e mulher é de forte ritualismo, na junção de Yin e Yang, resultando em Tao, ou seja, Deus. É a tentativa humana de tocar o divino e compreender este. É a promessa de um mundo maravilhoso.

            Certa vez um oportuno jornalista comparou Fergie e Di, e lembrou-se do conto de fadas sobre duas princesas: uma, quando falava, saiam da própria boca flores perfumadas; a outra, quando falava, saia da própria boca carne podre – a primeira é Di e a segunda é Fergie. SF nunca soube brilhar muito, nem teve horrores de carisma. Com o divórcio, Ferguson caiu no esquecimento. Realmente, Di era única, e ninguém, nem mesmo a rainha inglesa, esperava que a tímida menina do conde Spencer tornar-se-ia esse colosso midiático, esse gigante planetário, uma estrela em seu próprio modo. Pessoas como Diana coruscam de qualquer maneira. É coisa do espírito do indivíduo. É algo imutável, que é figura na pessoa – usando aqui o termo “figura” como termo técnico da Psicologia. É o perfume comportamental da pessoa. E Diana dava um banho de charme.

            O casamento real da jovem Diana também causou comoção nas massas. Ao sair da igreja, já casado, o casal foi saudado por uma multidão de súditos encantados, e Diana olhou para tudo aquilo overwelmed – assoberbada. No fim das contas, Diana deu-se conta de que não seria algum dia rainha da Inglaterra, mas que seria rainha nos corações das pessoas.

              Há dois filmes sobre Diana – um bom e um ruim.
            O bom chama-se “A Rainha”, que deu um (merecido) Oscar a Helen Mirren, a qual interpreta a rainha Elizabeth II nos dias que se seguiram da morte da ex nora da regente. O roteiro é calmamente bem contado, delicioso. Filmão. A rainha fica confusa: Diana não morreu oficialmente princesa, pois, com o divórcio, perdeu o título de “Princesa de Gales”, logo, não seria digna de um funeral de realeza. Mas a força do senso comum falou mais alto, e Elizabeth II passou a sentir-se extremamente pressionada a fazer um enterro de princesa a Di. No frigir dos ovos, Diana será sempre a “Princesa do Povo”, e seu memorial em Londres ostenta o título de “Princesa de Gales”. Ao ver que o povo estava insatisfeito com o seu posicionamento de monarca, a rainha vê-se praticamente forçada a tomar certas atitudes, não só como dar um enterro de realeza como também baixar as bandeiras nacionais a meio mastro e fazer uma declaração na televisão, declaração esta que repercutiu no mundo inteiro. Nesse momento, a rainha teve que prestar um tributo e, no filme, antes de ir frente às câmeras, diz a frase “Do I have a choice?”, ou seja, “Tenho eu uma escolha?”, mostrando-se um pouco irritada pela pressão sobre si por causa da lady morta. “A Rainha” mostra uma mulher que foi pega de surpresa pelas esquinas da vida, achando a monarca que, em um primeiro momento, era histeria coletiva a comoção popular pelo falecimento de Spencer. Elizabeth achava que, por ser então um pouco idosa, nada mais tinha a aprender. Grande engano;
            O filme ruim chama-se “Diana”, com Naomi Watts no papel título, num roteiro mal costurado e pretensioso, narrando o relacionamento amoroso da lady, então divorciada, com um cirurgião de origem indiana. O final é super sem graça. Uma pena, visto a estrela que é Naomi Campbell, digo, Watts.

            É claro que a morte da lady resultou no que resultou, pois não foi só a morte de uma popstar amada como também o óbito da mãe do futuro rei da Inglaterra. Não deve ser fácil entrar para uma família real, inserir-se num clã tão evidenciado pela mídia e pelas milenares tradições de um país como a Inglaterra, nação de passado glorioso. O funeral de Diana foi fenomenal, não apenas pela pompa e circunstância de realeza, mas pelo comportamento das pessoas. À medida que o carro fúnebre passava pelas ruas de Londres, adornado por uma carta escrita a Di pelo filho Harry, então infante, as pessoas jogavam delicadamente flores em cima do carro, e não foram necessários cordões de isolamento, tal o respeito das pessoas pela falecida. Como manda a tradição, até a rainha tem que se curvar perante o caixão de uma princesa, e a rainha o fez. Longeva e produtiva, Elizabeth II ultrapassou a recordista bisavó Vitória em anos de reinado e está dando sinais de que só deixará o cargo quando São Pedro lhe chamar. Deve ser assoberbador sentar no mesmo trono de um Henrique VIII, uma Elizabeth I ou uma Vitória. As pressões são inevitáveis, e foram exatamente essas pressões que deixaram Diana estupefata e fizeram esta mandar tudo para aquele lugar, e era exatamente esse ímpeto que fazia com que as pessoas se apaixonassem cada vez mais por Di. “Eu só quero ser feliz”, diria a lady. E o povo entendia isso. Carisma total. Suas transgressões eram cativantes, pois Di não o fazia por mal, e o povo identificava-se com ela, que brilhava como uma diva de Hollywood. Sensível e criativa, Diana tinha alma de artista. Sua própria vida pública foi tela, tintas e pincel em suas mãos.

            Recém após a morte de Di, a popstar Madonna declarou que, pela primeira vez em anos, pôde caminhar sozinha na rua, tal o impacto que o falecimento trouxe ao mundo – naquele momento, as pessoas passaram a refletir sobre a superexposição de celebridades, e como estas perdem a liberdade e a privacidade. Inclusive, Madonna homenageou a Princesa de Gales no clipe de Substitute for Love, no qual a cantora mostra como o assédio e a falta de respeito podem ser complicados para uma pessoa pública. Amante das artes e grande amiga de Luciano Pavarotti, Diana causou comoção ao ir assistir ao espetáculo The Girlie Show de Madonna em 1993, em Londres – dois monstros midiáticos pertinho um do outro. Lá pelo ano de 1998, Xuxa Meneguel entrevistou Madonna e, quando perguntou a esta qual a primeira coisa que vinha à sua mente quando ouvia a palavra “fama”, Madonna disse:
            – Prisão.
            E Diana sentia isso. As pessoas comuns não sabem o que é ser esse “prisioneiro”, e a corajosa Diana queria, além de ser famosa, ter liberdade, num flerte irresistível entre comum e excepcional. É claro que o assédio dos paparazzi era insuportável, e Diana tinha uma relação de amor e ódio com eles: Di gostava de ser popstar, mas não gostava da falta de respeito. Diz-se que o acidente automobilístico que lhe ceifou a vida aconteceu por Diana solicitar que o motorista acelerasse fundo para fugir dos jornalistas montados em motos, tal a obsessão destes de capturar imagens e obter informações sobre Diana, visto que essas fotos e esse assunto eram comprados a peso de ouro pela mídia sensacionalista inglesa. Como acidentes de carro são comuns, foi-se Diana na flor da idade, em 1997. Falando em flor, a música tema English Rose, ou seja, Rosa Inglesa, cantada por Sir Elton John, foi tema do funeral de Di, do mesmo modo que a canção Coração de Estudante, cantada por Milton Nascimento, foi o tema do funeral de Tancredo Neves nos anos 1980 – eu me lembro deste, apesar de eu ser criancinha na época. Há funerais que se tornam grandes eventos de massa, pois o funeral, ao lado do casamento, é um ritual extremamente difundido ao redor do mundo.

            Certa vez tive um professor na Faculdade dos Meios de Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre. O funeral de Diana recém tinha acontecido, e o professor disse:
            - Tantos os problemas que temos para resolver e temos que ouvir essa musiquinha babaca e sentimental do funeral da Diana!
            Concordo e discordo. Concordo porque o circo midiático é inegável; discordo porque temos que ter respeito aos mortos. O assédio da imprensa a Diana foi denunciado pelo irmão, pois, na morte dela, ele declarou publicamente que a imprensa tinha sangue nas próprias mãos.

No filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, cuja trama enlaça-se com momento da morte de Diana, um personagem chauvinista desdenha da lady, e diz que deve-se valorizar o que é francês, como, por exemplo, Renoir. Mas Di brilhava além de nacionalidades. Era universal. Um fenômeno. Após o divórcio, Diana perdeu os guardacostas de quando era alteza, e não se importou com isso. Mas, ao viajar acompanhada dos filhos, Elizabeth II disse:
- Meus netos não vão a lugar algum sem guardacostas.
Diana confiava no bom senso das pessoas. Não queria viver numa redoma. Mereceu ser considerada a “irmã” do povo, uma mulher que emanava simplicidade e fineza, num glamour “herdado” por Michelle Obama e “ensinado” por Jackie Onassis. Diana era a primeira dama do mundo.

Certa vez, Diana promoveu um leilão beneficente de seus vestidos em Nova York, por sugestão do filho William. E essa era outra faceta de Diana: a filantropia. Nos anos 80, quando a AIDS apareceu, Diana foi precursora ao apertar a mão de pacientes com HIV, algo pouco feito então. Diana tinha todo um dinamismo beneficente – uma pessoa bem intencionada. Tudo tem seu ônus e seu bônus, e Diana pagava o preço da sua própria estrela. Ao perder o título de Her Royal Highness, ou seja, Sua Alteza Real, Diana permaneceu nobre no imaginário popular. O povo jamais lhe deu as costas. Descanse em paz, rosa inglesa. Um mito digno de deusa grega.

            O título em inglês desta crônica quer dizer “O Destino de Di”.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Diana, a princesa do Jazz




            Há muitos anos escrevi uma pequena crônica sobre Diana Krall no site de crítica cultural argumento.net, site que sempre me deu muitas oportunidades, e hoje volto a falar desta canadense que conquistou o público que curte música minimalista e sofisticada. Diana está desde sempre batalhando, lançando seu primeiro trabalho de estúdio em 1993. Só pelo final dos anos 1990 eu entrei em contato com o trabalho de Di, quando eu estava numa megastore em um shopping tradicional de Porto Alegre. Eu estava recém aventurando-me e começando a me alinhar com o Jazz, gênero musical único que surgiu da cultura afrodescendente do sul dos Estados Unidos - precisamente de Nova Orleans -, e que se misturou com outras vertentes, como o Soul, o Blues e o Gospell, enamorando-se também pelo Rock e o Country. O que seria dos EUA sem essa vibração das culturas afro? Branca canadense que nasceu a muitos quilômetros de distância de Nova Orleans, Diana Krall começou a tocar piano quando era uma criancinha, construindo uma intimidade de décadas com o instrumento. Só para fazer aqui um aparte, outro grande artista jazzista o qual admiro é Harry Connick Jr, o qual é de Nova Orleans e tem vasta obra de bom Jazz, como no álbum que gravou inspirado no formidável filme “Harry e Sally - Feitos Um para o Outro”. Como eu gostaria de ver Harry C. e Diana trabalhando juntos! Connick é também pianista. Dois monstros contemporâneos do Jazz. Só que Harry é também ator, e Diana é exclusivamente musicista.

            Há uma característica predominante na obra de Di: ela quase nunca gravou canções inéditas. Diana ama os clássicos, e os reverencia regravando-os. Normalmente, ela usa poucos instrumentos na produção, apesar de em turnês viajar com uma orquestra primorosa, incluindo o brasileiro Paulinho da Costa na percussão. Os CDs de Diana são “orgânicos”, sendo que, em toda sua carreira, apenas no trabalho mais recente, o Wallflower, há uma sutil percussão eletrônica - o referido álbum é o único de Diana em que esta revisita o Pop, pois Diana sempre foi uma jazzista por excelência, e nos seus trabalhos é frequente também uma delicada guitarra. Diana sabe que fraco é forte, numa classe equiparável à das criteriosas brasileiras Marisa Monte e Elis Regina.

            No primeiro CD de Diana que eu adquiri - All for You, de 1996 -, fui seduzido pela capa: a diva estava de pés descalços, e a simplicidade me deslumbrou, na falta de pretensão, sendo o mercado fonográfico de massa tão cheio de excessos. Já no início da primeira canção, sua voz grave me surpeendeu. Diana tem uma obra a qual vale a pena ser revista inúmeras vezes. Você nunca vai enjoar dela, e praticamente todos os dias ouço-a. Essa inegável veia jazzística da artista sofreu uma reviravolta decisiva em When I Look in Your Eyes, de 1999: o casamento entre Jazz e Bossa Nova prova ser delicioso como morango com champagne. Lançando mão de uma voz quase sussurrante, Diana, com este trabalho, filou um Grammy. O álbum de 1999 é de uma sofisticação inegável. Há melancolia, como na faixa título, mas há clássicos revisitados, como I’ve Got You Under My Skin, e canções mais animadas, como Popsicle Toes. A paixão de Diana pelo Brasil a fez passar em turnê pelo país, e o casamento com o ritmo brazuca intensificou-se no álbum The Look of Love, de 2001, o qual, de tão similar, parece ser um Volume II de When I Look..., numa tentativa clara da artista de se manter em um doce momento de sucesso, sendo que este, como eu já disse, é um amante infiel. O CD Quiet Nights, de 2009, sela de vez esse flerte com a Bossa Nossa, digo, Nova, numa Diana com a voz ainda mais sussurrante e introspectiva, com direito a ela cantando em português Este Seu Olhar, sendo inevitável também cantar uma versão de Garota de Ipanema, ou seja, The Boy From Ipanema. A sensualidade da América do Sul seduz o mundo há tempo. E a voz de Diana é sedutora. Eu estava assistindo a um filme certa vez, do qual infelizmente não lembro o nome, mas em um momento da película, Diana faz uma participação cantando, e um dos personagens comentou esse it, esse charme especial da jazzista.

            Há algumas semanas atrás, eu estava fazendo compras em um supermercado quando ouvi Diana tocando nos altofalantes de música ambiente do estabelecimento. Ouvir esse tipo de música enquanto fazem-se compras - não tem preço. Infelizmente Krall não incluiu a América Latina em sua atual turnê. E que turnê: é uma trabalheira danada. Krall é uma trabalhadora, uma hard working woman. Imagine ter que se deslocar ao redor do globo com tantos músicos, instrumentos e equipe técnica. E dê-lhe aeroporto, dê-lhe hotel. Recentemente, a musicista disse que mal espera pelos filhos terem idade o suficiente par acompanhá-la nas turnês. Diana é casada com o músico Elvis Costello.

            De tudo gravado por Di até hoje, a faixa que mais amo é a canção Dreamsville, de um miniálbum natalino de 2001. Uma sutileza presente, num fonograma usado pela rádio Antena 1 para anunciar o Big Hour, a programação de fim de tarde da emissora. A delicadeza da artista ao piano vale cada centavo para se comprar seus álbuns. E há um mérito em Diana em sua discrição: ela sabe que não canta como uma Barbra Streisand, logo, vai até onde pode. Mas essa discrição é tão grande que o ouvinte acaba se rendendo ao vocal despretensioso dessa princesa do Jazz. O DVD dela ao vivo em Paris, de 2002, mostra o bom gosto na hora de se contratar músicos, com um início arrebatador, com o barulho da chuva parisiense misturando-se com o som dos aplausos da plateia. Sem mil e uma pirotecnias, um locutor anuncia a artista em francês e a diva simplesmente entra no palco e começa a trabalhar. Veludo puro.

            Diana tem a força para move on, ou seja, sobreviver ao showbusiness. A artista mostra estar empenhada em se reinventar. No ótimo álbum Glad Rag Doll, de 2012, ela regrava canções pouco conhecidas, ao contrário dos grandes clássicos famosos do Jazz que Krall ama tocar e cantar. Só para fazer outro aparte, recomendo o excelente trabalho Cheek to Cheek, de 2014, que o monstro sagrado Tony Bennett gravou com o monstro pop Lady Gaga - esta canta tão bem que não passa vergonha ao lado de Tony. Uma delícia para se ouvir na estrada, por exemplo. Fico gago com o talento jazzístico desse dueto.

            Difícil falar de Jazz sem mencionar o grande mestre Cole Porter, ídolo do diretor Whoody Allen, que é outro amante do Jazz e integrante de uma banda. Certa vez, em Porto Alegre, tive a oportunidade de ver um show da banda Jazz 6, à qual integra o escritor Luis Fernando Verissimo. Em outra oportunidade, presenciei uma versão que um produtor musical fez da canção All Through the Night, de Porter, artista este muito regravado, inclusive por Krall, como também na versão pós moderna da banda U2 de Night and Day. Em toda essa regravações, existe em Cole um namoro entre antigo e novo, um contraste doce. Um trocadilho infame: o Jazz não jaz.

            Na ilustração desta postagem, uma homenagem a Krall na Calçada da Fama do Canadá, numa estrela inaugurada em 3 de junho de 2004.

            A seguir, um breve apanhado biográfico, o qual não aparece no site oficial da cantora, numa vida dedicada à Música:
1964 - Nasce em 16 de novembro na Colúmbia Britânica, Canadá, Diana Jean Krall, em uma família musical, como na família de Michael Jackson. A pequena Diana passa a tocar piano aos quatro anos de idade, o que enraizou uma grande relação com as teclas. Nos anos 1970, no colegial, Diana integra uma banda de Jazz.
1979 - Diana começa a se apresentar em restaurantes.
1981 - Diana ganha uma bolsa de estudos no Berklee College of Music, em Boston, EUA. Findados os estudos, muda-se para Los Angeles, onde continuou estudando, firmando uma parceria musical com o pianista e cantor jazzista Jimmy Rowles, falecido em 1996.
1990 - Diana vai para Nova York e passa a trabalhar na Big Apple.
1993 - Lançado o primeiro álbum de Diana, Stepping Out, chamando a atenção do produtor Tommy Li Puma.
1994 - Tommy produz o segundo álbum de Krall, Only Trust Your Heart.
1996 - O terceiro álbum de Diana é lançado, All For You, que homenageia o ícone jazzístico Nat King Cole. O álbum leva uma indicação ao Grammy.
1997 - O álbum Love Scenes é lançado, sendo sucesso de vendas com um enxuto trio de Jazz.
1999 - Ano capital na vida de Diana: é lançado o álbum de super sucesso When I Look in Your Eyes. A artista leva um Grammy, o de Melhor Artista de Jazz do Ano.
2000 - Diana faz uma parceria com Tonny Bennett para uma turnê.
2001 - É lançado o álbum The Look of Love, e Diana fila outro Grammy. Em setembro, Diana sai em turnê e grava seu primeiro álbum ao vivo, em Paris, trabalho lançado no ano seguinte. O ano de 2001 também contou com Diana lançando um miniálbum de Natal.
2003 - Diana e Elvis Costello casam-se.
2004 - Diana torna-se compositora com o álbum The Girl in the Other Room. A artista recebe uma homenagem na Calçada da Fama do Canadá.
2005 - Diana adora Natal, e mais uma vez lança um álbum para a data, desta vez com mais canções do que o álbum natalino anterior.
2006 - Ano de gravidez e parto, e nascem gêmeos da união de Krall e Costello: Dexter e Frank. Diana lança o álbum From This Moment On, trabalho que conta com uma versão em inglês para o clássico brasileiro Insensatez, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
2007 - Diana apresenta-se integrando uma campanha da companhia japonesa automobilística Lexus. Ano que também teve Diana lançando a primeira coletânea, com CD e DVD.
2009 - O sexy álbum Quiet Nights é lançado.
2012 - O álbum Glad Rag Doll é lançado, resgatando canções “perdidas”. Diana, de personalidade forte, foi convencida a posar na capa com roupa e pose pouco ortodoxas. Em geral, Diana gosta de visuais mais discretos. Diana definitivamente não quer ser um sex symbol nem uma megacelebridade. Ela quer é fazer música.
2015 - É lançado o álbum Wallflower, que não traz apenas Jazz.

Diana, cuja voz flui como um plácido córrego, já teve oito canções integrando a trilha sonora de novelas da Rede Globo. Segundo o site no qual fui buscar insumos para esta crônica, normalmente os álbuns de Krall aparecem em prestigiadas posições nas paradas de Jazz da Billboard, ranking que mostra os artistas em evidência no momento. O que esperar do próximo trabalho de Krall? Muito critério, sempre. Bom gosto. E a assinatura despretensiosa desta jazzista de mão cheia. Uma exceção foi quando Diana regravou o bolero Besame Mucho, que ficou famoso tocado pela orquestra de Ray Conniff, e um jornalista escreveu:
- Nem o bom gosto de Diana Krall é capaz de disfarçar a cafonice de Besame Mucho.
Kkkkk!!!

Diana leva uma vida reservada e pacata, como a discreta atriz Meryl Streep. Harry Connick Jr, abaixo de muita pressão profissional - esperou-se “apenas” que ele seria o novo Frank Sinatra -, certa vez envolveu-se com drogas. Diana não deve sofrer tantas pressões nem ter problema com álcool ou drogas, pois a canadense sabe que a discrição tem doces frutos - o quanto mais “invisível” eu for, menos encherão meu saco. Essa questão da pressão e das drogas pode ser complicada, como no caso da cantora Whitney Houston, que cedeu às drogas depois de um marco em sua vida, o mega álbum do filme O Guarda Costas. O sucesso pode ser pernicioso se a pessoa não tiver estrutura psicológica forte, se não souber ficar com os pés no chão. E Diana Spencer, digo, Krall tem os pezinhos bem no chão.

Referência bibliográfica:
Diana Krall. Disponível em <pt.wikipedia.org/wiki/Diana_Krall>. Acesso em 28 mai. 2016.