quarta-feira, 21 de junho de 2017

Simples Sol Nascente




            Eu devo ter sido japonês em outra encarnação, pois adoro tudo relativo ao país do Sol nascente: Folclore, Arquitetura, Cultura, Gastronomia, Arte. Esbaldei-me na seção japonesa do Metropolitan, de Nova York. Existe na cultura japonesa uma simplicidade, um minimalismo elegante e impecável, uma limpeza de formas, num povo discreto, num país onde o analfabetismo é zero. Há no senso comum japonês um espaço para a meditação, a ponderação. Os japoneses são polidos. Quando eu estava no Ensino Médio, em Caxias do Sul, veio estudar no meu colégio, na minha sala de aula, uma menina adolescente japonesa. Inteligente, ela escrevia em Português muito bem, e numa de suas redações citou que gostou muito do vinagre de vinho tinto, algo que provavelmente não deve ser muito comum no Japão, apesar deste país estar começando a aflorar como pólo de vitivinicultura, algo que me dá curiosidade para, quem sabe um dia, provar os vinhos japoneses – eis que o Japão não produz só saquê. Esta adolescente disse que, em seu país de origem, o professor dá a aula no mais completo silêncio, e que, ao fim da aula, cada aluno que tiver dúvidas vai falar individualmente com o professor. O Japão sabe que a base de uma nação próspera é a produção de cultura erudita, a qual inicia-se nos bancos escolares.

O Japão é um gigante econômico, mas um anão político, e nunca se mete nos assuntos de outros países. De passado xintoísta, religião pagã, o Japão hoje é budista, pois existe toda uma vertente filosófica oriental que é esquecida pelo Ocidente, como o Taoísmo, por exemplo. Exótico para nós da América, o Japão exerce fascínio, como no filme A Época da Inocência, no qual o personagem Newland quer se desligar da insuportável vida burguesa novaiorquina e aventurar-se nas longínquas terras japonesas. Infelizmente, o Japão sofre com terremotos, e um dos grandes abalos sísmicos recentes provocou um desastre atômico em Fukushima. Mas o Japão sempre acaba reerguendo-se, resiliente.

            A História do Japão é a da Fênix, que ressuscitou das cinzas. A humilhante derrota na II Guerra Mundial, com duas bombas atômicas no país, depois do infame ataque japonês a Pearl Harbor, nos EUA, fez parecer com que o Japão jamais se reerguer-se-ia. No divertido filme De Volta para o Futuro, em uma cena ocorrida nos EUA dos anos 1950, mostra que, na época, a tecnologia japonesa era uma piada, digna de incredulidade e indigna de respeito, mas o mundo dá voltas. Uma pessoa de minha família, alguém que já viajou por muitos lugares do mundo, já esteve no Japão, e eu, na minha curiosidade sobre este país, perguntei-lhe como eram as coisas lá, e essa pessoa me disse que fica-se embasbacado com a riqueza do Japão. Por exemplo, há em Tóquio uma avenida do porte de uma Avenida Paulista, só que apenas de lojas de eletrônicos. Então imagine uma avenida tão vasta como a Paulista, inteira de eletrônicos. É muita riqueza. País da flor nacional que é a sakura, a primavera no Japão é exuberante, e a sakura segue como símbolo dessa beleza, como no lobby do hotel Matsubara de São Paulo, numa pintura de uma grande árvore de sakura florida, tendo no mesmo hall uma armadura de samurai, remetendo ao interessante filme O Último Samurai, com Tom Cruise, película que mostra os costumes de um tradicional Japão prestes a entrar na Modernidade, pois tive uma professora que dizia que o Cinema é uma ótima forma de se narrar costumes de comunidades e países distantes.

            O Japão é homenageado pela Disneyworld na Flórida, EUA, pois nos pavilhões dos países no Epcot Center, há um impecável arranjo arquitetônico que honra as tradições estéticas japonesas. O bairro japonês de São Paulo, chamado Liberdade, tem um excelente restaurante de sushi onde almocei por duas ocasiões com minha família. Na divertida personagem Dona Xepa, vivida por Marília Pêra, Xepa é levada a um restaurante de sushi e não entende porque tudo era cru, perguntando: Mas não tem nem uma colher de óleo para fritar esse peixe? Mas nem tudo são flores, pois o restaurante de sushi tem que ser de confiança, tendo-se a certeza de que o peixe é fresquinho, pois por duas ocasiões, em restaurantes japoneses do RS, passei mal depois de comer sushi com peixe passado. Isso é uma sacanagem para com o cliente. O que ocorreu? Eu nunca mais fui comer nestes dois restaurantes. Isso se chama Dissonância Cognitiva, que é quando a pessoa pega nojo de algum produto ou serviço. Ainda falando em sushi, há um divertido episódio do seriado The Nanny em que a personagem Fran vai a um restaurante novaiorquino de sushi e, depois de mastigar um sushi de borracha que era só para exposição, quase “morre” ao ingerir, inadvertidamente, uma grande quantidade de raiz forte, o condimento que deixa o sushi extrapicante. O sushi ganhou o mundo, numa comida relacionada a conceitos de sofisticação e luxo, visto que não é tão simples assim fazer sushi, e o sushiman, o fazedor do sushi, tem que ser habilidoso, senão o sushi fica com cara de rocambole. No seriado Sex and the City, a personagem Samantha prepara uma surpresa de Dia dos Namorados ao namorado, e o espera deitada nua, apenas coberta de sushis. E por que a Liberdade chama-se assim? Porque os imigrantes japoneses, ao vir ao Brasil, foram escravizados, forçados a trabalhar para senhores gananciosos e inescrupulosos, algo muito bem mostrado em um filme da cineasta Tizuka Yamasake. Os imigrantes, depois de sofrer, finalmente foram libertados do trabalho escravo e fincaram-se profundamente na sociedade paulistana. A Liberdade é um bairro vibrante, com muito comércio e restaurantes.

            Monarquia parlamentar, o Japão honra suas tradições, como por exemplo por meio da Família Imperial do Japão. Há ainda muita tradição, como nas gueixas, que são arquétipos femininos de delicadeza, perfume, poesia, beleza, graça e, acima de tudo, sedução. Uma pessoa de minha família fez certa vez uma exposição de óleos sobre tela, e um dos quadros era do rosto de uma gueixa, tradicionalmente aprumada, com um olhar um tanto triste, como se assoberbada pela aprumação e pelo comportamento esperado de uma gueixa. Esta pessoa, ao ver que gostei do trabalho, deu-o para mim, e até hoje tenho a tela com muita estima, exposta ao lado de meu computador, pois, segundo o fengshui, ao lado da mesa de trabalho tem que haver ou uma janela ou algo que seja quase como uma janela, como uma pintura, por exemplo. Certa vez vi uma reportagem sobre o Japão, e nas ruas de Tóquio passeava um tradicional casal, com a mulher trajada tradicionalmente, sendo que o homem, absolutamente sisudo e sério, caminhava passos à frente da esposa, que por sua vez era totalmente sorridente e simpática, saudando a câmera de reportagem. É o arquétipo universal de Razão versus Loucura, sendo um a contradição do outro, como falam as leis filosóficas da Dialética Grega. O equivalente gaúcho da gueixa é a prenda, a qual é doce, graciosa e agradável, num contraponto ao gaúcho machão. O universo das gueixas já seduziu a popstar Madonna, a qual no clipe de uma canção aparece como uma gueixa pós-moderna, com o cabelo lisíssimo do povo japonês.

A bandeira nacional japonesa é de uma elegância incrível, ao ponto de me fazer dizer que é a bandeira mais bonita do mundo, mesmo sendo eu patriota e achando a bandeira brasileira bela também, só que a bandeira do Brasil é mais complexa, fugindo do minimalismo oriental. A inspiração para a bandeira do Japão é o místico nascer do Sol de lá, o qual nasce rubro e envolto de uma névoa alva. Esta bandeira é de uma limpeza primorosa, numa composição gráfica que sabe que menos é mais.

Em meus tempos de residência em Porto Alegre, eu morava na quadra da casa do Cônsul do Japão, uma estrutura que posteriormente foi demolida, transformando-se em prédio residencial. Falando em consulados, o filme O Império do Sol, com um infante Christian Bale, mostra o estopim da II Guerra Mundial, narrando a história de uma família cujo chefe era Embaixador dos EUA no Japão. Só que os pais, por acidente,
perdem contato com o filho, vivido por Bale, e o menino vê-se sozinho na casa dos pais, num ponto em que a penúria causada pelo conflito causou a falta de água na casa, e o menino passa fome e necessidades. É uma história de um menino que se tornou homem em poucos anos, finalmente reencontrando os pais ao final da Guerra, abraçando a mãe e fechando os olhos, como se estivesse acordando de um longo e penoso pesadelo. Ainda falando em filmes, a película Encontros e Desencontros, com Bill Murray, mostra a paixão dos japoneses pelo videoquê, e mostra também a prostituição no país, quando ao personagem de Murray é oferecido o serviço de uma bela e discreta prostituta.

            Um dos sinais de discernimento dos japoneses é curvar-se para saudar alguém, em consonância com o Taoísmo, que prega que, para se conquistar, é necessário antes ser humilde e curvar-se perante a situação, como no polido cumprimento de curvatura entre os oponentes no Judô, o qual é uma das mais expressivas tradições desportivas japonesas, num esporte olímpico que ganhou o mundo, inclusive o Brasil. O Judô é sábio, em golpes que fazem com que o atleta pareça vencível perante o oponente, quando que, na verdade, são movimentos que mostram que quem é subestimado, vence. Em um episódio de Mr. Bean, o personagem-título tem uma aula de Judô, e acaba enrolando o professor (ou sensei) no tatame, o colchonete sobre o qual o esporte é praticado. Ainda falando em desporto, há o tradicional Sumô, praticado por homens obrigatoriamente obesos. Ainda falando em curvar-se, há a famosa imagem de Barack Obama, no início do primeiro mandato, curvando-se humildemente perante um japonês. E só quem se curva pode vencer, eliminando-se assim a arrogância e a presunção.

            Por fim, não posso deixar de falar da expressiva Cultura de Massa japonesa, principalmente no que tange à programação infantojuvenil. Cresci assistindo aos seriados de super-heróis japoneses, como Spectroman, Ultraman, Jaspion e Changemen. A trama é basicamente sempre a mesma: seres maléficos do espaço querem conquistar e destruir a Terra, e os guardiões da Humanidade surgem para enfrentar gigantescos monstros que querem destruir tudo e todos em seu caminho. Há personagens inesquecíveis como o monstrinho Ghioday, que é redondo e tem um grande olho só, e tem o poder de transformar monstros pequenos em titãs do Mal. É sempre o combate de Bem versus Mal, no qual o Bem prevalece, pois na cabeça da criança é tudo muito simples: ou algo é do Bem, ou é do Mal. Os Figurinos e a Direção de Arte são normalmente loucos nesses seriados japoneses. Um videoclipe da cantora Mariah Carey satiriza isso tudo, e mostra monstros gigantescos destruindo prédios no Japão enquanto as pessoas trabalham naturalmente, sem sobressaltos. Outro aspecto de Entretenimento Infantil é a tradição de desenhos animados japoneses, em muitos dos quais os personagens tem olhos grandes e redondos, extremamente ocidentais, contrapondo-se aos olhos orientais puxadinhos. Irônico, não?

            Quem sabe um dia vou ao Japão, talvez encontrando museus que tratem da Arte daquele país.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Brilho Total




            Ela é mais do que estrela; ela é monstro, daqueles que carregam tudo e todos consigo, como um tsunami. Segundo Tao, aquele que é subestimado, vence. Gisele está no topo do topo e ninguém percebe, considerando-a apenas uma modelo. No Brasil, ela é a top do mundo; já, no mundo, ela é UMA das tops, como disse esses dias o entrevistador e ator Jimmy Fallon no talk show deste. Uma bomba de carisma, Gisele é soda, tão carismática quanto o ex-namorado Leonardo. Mas é claro que ninguém é perfeito – há rumores de que Gisele até fez teste de câmera para interpretar Mulher Maravilha nas telonas, mas dizem que a voz da top foi um empecilho. Mesmo assim, isso não impede Gisele de ser poderosa. Concordo plenamente com a capa da revista Veja no ano 2000, em que a modelo é equiparada a Senna e Pelé. Mas o status estelar transcende, e, quando vemos Gisele, estamos diante de uma presença esmagadora, e não apenas diante de alguém que tem que trabalhar para ganhar a vida. Enquanto umas trabalham e são dignas de respeito, outras reinam.

            Meus caros, ouçam o que vou dizer: todas as mulheres, do Oiapoque ao Chuí, de Los Angeles a Tóquio, da Europa à África, gordas e magras, velhas e jovens, negras e brancas: TODAS imitam o cabelo de Gisele, que é de um ondulado, entre liso e crespo. É uma tendência capilar fortíssima, intransponível. TODAS as mulheres imitam Gisele, mesmo vertiginosas estrelas sodonas como Julia Roberts, Charlize Theron, Madonna e lá vai uma lista interminável. O cabelo de Gisele está em seu ápice estilístico, derrubando por terra a ditadura dos lisos. O cabelo de Gisele é natural: ela não faz força para ser assim. Uma psicóloga já me disse: admiração e raiva andam juntas. Portanto, a nível inconsciente, as mulheres têm inveja e raiva de Gisele, e querem “arrancar” da estrela o que esta tem de tão quente e maravilhoso – daí nasceu esta tendência capilar. As mulheres querem ter a beleza, o carisma, o talento e o dinheiro de Gisele. Nada mais natural, então, do que imitar o cabelo da top.

É claro que não é para qualquer um. Trata-se de um dom – ou você tem, ou não tem. Quando a pessoa tem um dom, uma vocação, um talento, tudo o que esta pessoa precisa é de persistência. Reza a lenda que o reinado de Gisele começou quando esta fez fotos para o baile de debutantes de sua cidade natal, a minúscula Horizontina, tal qual o Super-Homem, que viveu como criança em uma cidadezinha também. Nessa foto de debutante, vemos uma juveníssima Gisele esfomeada, faminta para devorar o mundo, ambiciosa, devorando impiedosamente a lente do fotógrafo, o qual percebeu o potencial da menina e a encaminhou para fazer um book – álbum de fotos dos modelos que servem para a agência “vendê-los” – em uma agência de Porto Alegre, e este foi o primeiro duro passo de Gisele longe de casa. Gisele firmou uma relação de amor com POA, tendo anos depois, já famosona, ter sido clicada por um anônimo portoalegrense no Parcão, com o detalhe que Gisele no clique estava disfarçada, com chapéu, óculos escuros e peruca crespa morena, no prazer anônimo de uma pessoa comum que quer curtir a vida e não só trabalhar. Na agência de modelos em POA, as pessoas, os agentes de moda, perceberam o potencial da moça, e não demorou até Gisele ir para a cidade mais influente da América Latina – São Paulo. Numa vida dura de modelo em Sampa, Gisele declarou anos depois que quando pensava em desistir, podia quase ouvir uma voz dizendo-lhe: Não desista. Na metrópole paulista, berço da MTV Brasil, Gisele gravou um programa do canal, o MTV Al Dente, que mostrava modelos sensuais apresentando clipes. Só que, na ocasião, pouca gente deu bola, e Gisele passou quase despercebida, e é esta invisibilidade que permite que as pessoas invisíveis surpreendam. Então, o maior passo da vida de Gisele foi ir para os braços de Tio Sam, para Nova York, um dos poucos grandes megapólos de moda do mundo, e isso quando tinha 15 aninhos, ou seja, uma criança que aprendeu rápido a ser adulta, numa fibra incrível. Inclusive, às vésperas de se tornar uma Brazilian Bombshell, ou seja, Uma Granada Brasileira, Gisele foi entrevistada por Paulo Francis na Big Apple, e Francis ficou impressionado que aquela menininha de 15 anos parecia ter 20. Paulo anunciou: Tem avião novo na praça, pressentindo o estouro. Em NY, Gisele passou a mostrar ao mundo um inconfundível porte na passarela, como um elegante cavalo nobre, e dona de uma fotogenia misteriosa e inegável, visto que a fotogenia é um mistério: o que faz uma pessoa clicar deslumbrantemente frente às frias lentes? Recentemente, Gisele aposentou-se das passarelas, e seu derradeiro desfile custou-lhe lágrimas. Foi o fim de uma era.

            O que Gisele tem que fazer para manter-se no topo? Nada, absolutamente nada, só continuar trabalhando e produzindo, visto que qualquer ser humano tem que se ocupar. Seu reinado global permanecerá enquanto a própria Gisele manter-se humilde e nunca deixar de ser produtiva. Gisele, como toda pessoa grande, sabe que, se parar, virará peça de museu. O ambicioso diretor Fábio Barreto tentou seduzir Gisele a interpretar a louca Jacobina no filme que, no fim, acabou sendo protagonizado por Letícia Spiller, ambas “alemoas”. Na apoteótica abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, Gisele cruzou de ponta a ponta, de salto alto e vestido justo, o Maracanã, ao irresistível som de Garota de Ipanema. Gisele brilha tanto que sua simples presença preencheu completamente o Maracanã e as telas TV do mundo inteiro, num momento bem marcante, um orgulho nacional.

            É claro que nem tudo são flores. Gisele teve uma época em sua vida em que ambicionou uma carreira de atriz, obtendo papel de destaque no filme Táxi. Na première, Gisele chegou no tapete vermelho em um táxi, numa ironia, e estava acompanhada dos pais, apoiando a filha em sua empreitada. Na época do lançamento, uma revista brasileira de cinema colocou Gisele no grande destaque da capa, enaltecendo grandemente a película e a participação de Gisele. Interessante observar que a mão que acaricia é a mesma que apedreja. Tempos depois, na mesma revista, foi feita uma recapitulação dos piores filmes dos últimos anos, e Táxi estava nesse infame rol. Nunca ouvimos que na vida não se pode ter tudo?

Vida de modelo não deve ser fácil. Há anos trás, o jornal Zero Hora fez um ensaio fotográfico com a irmã mais nova da simpática e talentosa modelo Shirley Mallmann. Então, o jornal entrevistou Shirley e perguntou se sua irmã seguiria os seus passo no mundo da Moda, e Mallmann foi contundente, dizendo algo do tipo: Amo minha irmã. Logo, não desejo vida de modelo para ela. O mundo da Moda é extremamente concorrido, com muitos corpões e rostos belos concorrendo pela mesma oportunidade de trabalho. É um trabalho no qual o modelo tem que se “matar” para manter-se no condicionamento físico exigido pelo mercado. Ainda por cima, é um mercado volúvel, sempre em busca de novidades e caras novas. Vencer todas essas vicissitudes é só para os excepcionais.

É claro que não são todas as modelos que se tornam top – as tops são apenas a pontinha do iceberg. O mundo da Moda está repleto de frustrações. Gisele teve que morar por um tempo em um apartamento com mais outras várias meninas modelos, rateando o aluguel. Uma dessas modelos contou, recentemente, que Gisele é meio pão dura, e que esta exige respeito – é esse respeito por si mesma que fez Gisele tão grande. Na geladeira do apartamento, havia um tomate de Gisele, e esta colocou um bilhete ao lado do tomate dizendo: Este tomate é meu. Por que você está mexendo nele? Coloque-o de volta. Eu entendo Gisele – ela não quer tomate; quer respeito, o qual pode ser simbolizado pelo tomate mas não é tomate por si só. Dá para entender. Mãe coruja, Gisele declarou que sua obrigação é prover um ambiente seguro para que as crianças floresçam e sejam a luz que são.

            Como diz uma pessoa de minha família, Gisele chegou lá. Gisele está no plano de uma Lady Gaga, e esta também conquistou o mundo e ninguém percebeu. Tao é o invisível que entra sem ser percebido, impecável, simples, consistente. A atriz veterana Suzana Vieira já se declarou publicamente fã de Gisele, e disse que esta é a vitória da cabeça sobre a bunda. Aliás, observo o volume de fãs mulheres de Gisele na faixa etária entre meia e terceira idade. Gisele angaria fãs de todas as idades, no poder da estrela de unir as pessoas, na promessa de um mundo melhor. A estrela é um sinal de que há um mundo melhor à nossa espera. O que Gisele é? Gisele é forte, uma Mulher Maravilha de imbatível. Gisele é uma Carmen Miranda, uma vogue, que avassala. E Gisele aprendeu sozinha a ser Gisele.

Houve um momento em que Gisele ficou no “olho do furacão”, quando, desfilando em NY, a modelo foi alvo de pessoas que protestavam contra o uso de peles de animais na Indústria da Moda, e estas pessoas subiram na passarela e, aos berros, ostentaram cartazes que diziam: Gisele é a escória das peles. Com nervos de aço, Gisele desfilou normalmente, ignorando altivamente os trancos e barrancos da vida.

No tapete vermelho do Oscar, no ano em que DiCaprio concorria dor O Aviador, Gisele apareceu com um vestido branco, inconscientemente na cor das noivas, e Gisele estava uma Vênus cristalina ao amanhecer. Tempos depois, a socialite Paris Hilton, em seu próprio videoclipe, imitou não só o vestido e o cabelo, como também os trejeitos que fizeram Gisele célebre. Na ironia de que Paris e Gisele têm proveniências extremamente diferentes uma da outra, e a menina que nasceu rica e privilegiada não chega aos pés da menina que veio de Horizontina, RS. A humilde horizontinense já declarou que não é toda aquela deusa que as lentes captam. E o mundo não é dos humildes?

sábado, 10 de junho de 2017

De Frente, Sempre




Com décadas de experiência profissional, Marília “Gabi” Gabriela é uma das maiores entrevistadoras da História do Brasil, ao lado de um grande nome como Jô Soares. Já tendo conversado com grandes pessoas do Brasil e do Mundo, Gabi também dá espaço a entrevistas esclarecedoras, entrevistando pessoas menos famosas, como médicos especialistas, os quais respondem a perguntas que moram na cabeça do senso comum, tendo nestas a entrevistadora frequentemente lançando mão de perguntar um sofisticado e maduro “por quê?”. Gabi sabe a arte da conversa, e concentra-se ao máximo no momento da entrevista, nunca tirando os olhos de cima do entrevistado. Dedicação. Direta, simples e prática, Gabi frequentemente, em uma pergunta, lança mão do “ou, ou”, no sentido de perguntar ao entrevistado se algo é deste ou daquele jeito. Gabi sabe que é irritante o entrevistador que quer aparecer mais do que o entrevistado.

Workaholic, Gabi nunca pára, podendo inclusive trabalhar em dois canais de TV ao mesmo passo. Gabi também já se mostrou viciada em sites de notícias, passando boa parte de seu tempo em sites noticiosos, numa pessoa antenada e moderna, sempre a par do que ocorre ao seu redor.

O implacável programa humorístico Pânico na Band já tratou de homenagear Gabi, com a personagem Marília Gabiherpes, a qual tem uma herpes e-nor-me no lábio superior. Então, a primeira entrevistada de Gabiherpes foi a Gabi real, a qual dava gargalhadas com a imitação do talentoso humorista Ceará. Gabiherpes tem uma verdadeira coleção de óculos com armações coloridas, imitando o trejeito de Gabi de tirar e pôr os óculos durante vários momentos nas entrevistas. Ao abrir suas entrevistas, Gabi sempre evoca grandes pensamentos, com frases de pensadores renomados, célebres e respeitado, sempre com pertinência, com frases capazes de resumir, identificar a apresentar o entrevistado. Então, Gabiherpes abriu uma entrevista dizendo: Antes de entrar no elevador, certifique-se de que o mesmo esteja parado no seu andar. Ceará imita a voz grave, com um sutil biquinho nos lábios de Gabi enquanto esta fala. Gabi é assim: ela não entra no elevador sem se certificar de que o mesmo esteja parado no seu andar. Criteriosa na hora de fazer perguntas, nunca pisa em um terreno escorregadio, estando segura de si. Tanto que, num comercial de um desodorante masculino, Gabi aparece entrevistando um homem, o qual fica de costas para a câmera, e Gabi começa a titubear e perder a concentração. Então, o slogan do comercial é mais ou menos assim: Este desodorante deixa inseguras até as mulheres mais seguras.

Outra sátira foi a de Jô – olha ele aqui de novo – no extinto (e formidável) televisivo humorístico Viva o Gordo, da Globo. Jô aproveitou a deixa de um programa de Gabi na época, o Face a Face, cuja angulação de câmera dava a impressão de entrevistador e entrevistado estarem com os narizes colados um no outro – isto é coisa de Gabi, a qual traça uma simples linha reta em direção ao entrevistado. Na referida sátira, havia o Fuça a Fuça, e os atores, de fato, estavam colados um na fuça do outro, quase se beijando. As sátiras, já ouvi dizer, são declarações de amor.

Uma entrevista muito curiosa foi a de Fausto Silva, o qual, com décadas de calejado estilo profissional, simplesmente parou de olhar para Gabi e direcionou-se à câmera, como o faz no programa Domingão do Faustão. Então, Faustão fez exatamente o que faz ao discursar no seu televisivo dominical, absolutamente dispensando perguntas da parte de Gabi, a qual, num extremo momento, disse aos berros a Silva: Esse programa aqui é meu! A coisa ficou engraçada porque Faustão inverteu o jogo e começou ele a apresentar Gabi para a câmera, enaltecendo a entrevistadora, mas perdendo a noção de que ele era o entrevistado. Engraçado.

Ser midiático, Gabi adora aparecer, e o fez inúmeras vezes com quem namorou uma época, o galã Reynaldo Gianecchini, o qual tem idade para ser filho de Marília – uma deixa que sobrou a um humorista que, ao ver Gabi e Reynaldo chegar de carro num evento, perguntou a ela: É teu filho? E Gabi sorriu, mostrando ter senso de humor. Gabi é um misto de intelectual com show woman, sempre primando pela inteligência, mas também gostando de ser celebridade.

            Multimídia, Gabi é atriz também, já tendo feito TV e Teatro. No tablado, se não me engano, interpretou Shakespeare, aceitando desafios e encarando a tarefa difícil de atuar; na TV, fez uma personagem que conheceu a Rainha da Inglaterra numa trama há décadas atrás, tendo Gabi num inglês um pouco sofrível, mas razoável. Dona de uma pele linda, Gabi parece não envelhecer, mesmo sendo uma figura midiática, que volta e meia está nos meios de comunicação, pertencendo ao rol das figuras as quais estão sempre expostas ao público, envelhecendo a olhos vistos. A cabeça de Gabi permanece jovem, sagaz e questionadora, sendo moderna. Numa recente chamada do canal pago GNT, Gabi aparece fincando uma espada de esgrima bem no meio de um combalido alvo, retirando a máscara de esgrima e revelando-se ao público telespectador. Gabi vai direto ao ponto, indo o mais profundo possível. Isso se reflete em uma mesa que numa época serviu de cenário a seu programa de entrevistas no GNT, uma mesa cuja tábua era em forma aproximada de um “C”, com Gabi sentada numa posição que “invade” o entrevistado. Gabi finca uma espada bem no meio do entrevistado, mas é por interesse e não por agressão. Simplicidade de quem entrevista bem.

            Por fim, evocarei o ditado em latim que diz que a verdade é filha do tempo, ou seja, se quisermos enxergar algo com clareza, deixemos o tempo passar. Na famosa entrevista de Gabi com Madonna, a entrevistadora não gostou do resultado. Depois da infame entrevista, Gabi foi entrevistada por Astrid Fontenelle, num programa da MTV Brasil, quando Gabi revelou os bastidores de tudo. Ao decidir que queria entrevistar a Rainha do Pop, Gabi, sempre batalhadora, entrou em contato com a Warner Brasil, a qual, disse Gabi, foi extremamente cordial, mas foi tudo uma longa negociação, talvez a maior da carreira de Gabi. A Warner entrou em contato com a matriz americana, e, então, o escritório de produção de Madonna exigiu vários planos de entrevista, geralmente rechaçando-os, e também exigiu vídeos de entrevistas de Gabi com pessoas de renome mundial. Após findada esta etapa, a produção pediu um plano de divulgação da entrevista, e, num dado momento, disse à produção de Gabi: Vocês são amadores! Isto é uma entrevista com Madonna! Marília Gabriela, com suas décadas de experiência, ser chamada de amadora – nesse ponto, no qual foi insultada, Gabi deveria ter desistido, mas persistiu. Gabi, acostumada a entrevistar pessoas durante quase uma hora, teve que se curvar à exigência de Madonna da entrevista ser de apenas meia hora. Então, foi marcada a entrevista em um restaurante decorado com velas, cedo da manhã, e Madonna chegou com um séquito de produção, e a van, na qual chegou, ficou o tempo todo ligada, caso Madonna se irritasse com a entrevista e simplesmente quisesse deixar o local. Que diva, hein? Ao apertar a mão da estrela, Gabi abriu o jogo logo de início e disse que considerava ela, Madonna, do Balacobaco, o “b” do borogodó, e Madonna agradeceu sumariamente. Para Astrid, Gabi disse que viu na diva uma pessoa mais esperta do que inteligente, com uma Madonna um tanto na defensiva, uma diva calejada por décadas lidando com uma imprensa nem sempre disposta a falar bem de Madonna – e isso confirma-se nessa entrevista de Gabi a Astrid, na qual Marília espinafrou Madonna, quase como uma vingança. Gabi disse que Madonna chegou lá na defensiva, desconfiada, dura, difícil, inacessível, com respostas breves e curtas a perguntas que poderiam render grandes desenvolvimentos de pensamento.

Ao findar a entrevista, Gabi disse ao produtor que achou Madonna muito calada, e o produtor disse que Madonna sempre é assim, monossilábica; o mesmo, ao fim da gravação, cumprimentou Gabi, dizendo que aquela foi uma das melhores entrevistas que alguém já fez com Madonna. E eu concordo. Todos dizem que a entrevista foi Madonna dando coices o tempo todo em Gabi, mas não vejo desse modo. Há momentos em que Madonna se esforça para dar respostas profundas. Gabi disse que, ao elogiar o corpo de Madonna, a mesma debochou, como se Gabi a estivesse cantando. Em outra pergunta, quando Gabi cita uma certa escritora, Madonna diz que esta é desagradável e infeliz – nessa pergunta, Gabi ficou com as expectativas de que Madonna desenvolveria pensamentos mil, mas não foi assim que ocorreu. O problema é que Gabi chegou na entrevista cheia de expectativas, e é difícil de se imaginar Gabi entrevistando a diva novamente, tal o trauma da experiência. Gabi chegou na entrevista com um complexo de inferioridade, o qual acomete os latino-americanos.

Bem humorada, Madonna brincou que chegaria um dia em sua própria vida em que receberia desconto para idosos nas salas de cinema. Madonna é uma pessoa que se construiu em meio às vicissitudes inevitáveis da vida, assim como Gabi construiu a si mesma. Foi o encontro de duas mulheres fortes, porém diferentes uma da outra, bem diferentes. O fato é, antes da entrevista, Madonna não fazia ideia de quem era Gabi, mesmo como todo o cordial intermédio da Warner Brasil, a qual serviu de “cartão de visitas” para Gabi encontrar-se com Madonna, a qual é dura mas não é desumana. Certamente foi uma boa entrevista, mesmo que revelada de um modo o qual Gabi não imaginara. O bom da vida é que nada ocorre como pensamos que iria ocorrer. Gabi deveria perder esse complexo de inferioridade e ver que a entrevista com Madonna foi ótima, mesmo que atípica.

Gabi é como um bom vinho, e está sempre melhor. Tomara que ela nunca faça o que Jô Soares fez – abandonar a carreira de entrevistador, tendo a ausência de Jô abrindo espaço para Pedro Bial. Give time time, ou seja, Dê tempo ao tempo. A verdade vem à tona.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quais são as novas, Nova York?




            Uma pessoa de minha família sofreu em Nova York uma gigantesca decepção. O que aconteceu é que esta pessoa, ao acertar os valores na agência de viagens, antes de viajar, foi informado de que poderia comprar ingressos para ver, ao vivo, ninguém menos do que Frank Sinatra. Então esta pessoa chegou em NY cheia de expectativas e, na noite do espetáculo, foi ao teatro da Broadway, e na bilheteria havia um atestado médico exposto, dizendo que o show estava cancelado porque o Sr. Sinatra estava doente a afônico. Mesmo tendo o dinheiro devolvido, esta pessoa de minha família pegou um táxi e voltou ao hotel, indo dormir com esta frustração, na cidade que nunca dorme. Falando em celebridades, uma jornalista brasileira, certa vez em um guia de viagens, disse que uma das coisas mais maravilhosas de NY era ver na rua passeando, sozinha, Jackie Onassis, a qual tem um lago no Central Park que leva o seu nome. Isso se chama respeito – passear tranquilamente e ser, ainda assim, famosona, assim como NY.

            Como neste blog já falei sobre o Metropolitan Museum of Art, o Met, vou dar apenas rápidas pinceladas sobre este, mas já vou avisando: se NY fosse um trem, o Met seria a locomotiva, o nervo, o condutor. O resto da cidade viria engatado atrás. Nada contra os vagões atrás, mas o que move a Big Apple é a fina cultura de um museu cosmopolita e rico, riquíssimo, muito graças aos milionários americanos que fizeram e fazem gordas doações ao museu. Em NY, por favor, vá ao Met. Outra pessoa de minha família disse que o que mais valeu a pena em NY foram o Met e o Central Park.

            NY já foi cenário de tantos, mas tantos filmes, que quem chega lá não se sente em uma terra totalmente estranha. Filmar em NY é caro, e requer, além de autorização da Prefeitura, pagar altas taxas, o que faz com que diretores americanos optem por filmar na cidade americana de Vancouver, a qual tem ruas extremamente fiéis às de NY, tanto que o que é filmado em Vancouver, o expectador jura que foi filmado em NY. É muito mais barato filmar em Vancouver. É claro que a Big Apple tem atrações estritamente turísticas, como passear de charrete pelo Central Park, algo romanceado em tantos filmes. NY segue sendo sedutora, benéfica, cruel, bela, forte. Como diz Madonna em uma música que leva o nome do slogan famoso I Love New York, esta cidade não é para mulherzinhas; ou em uma canção de outra artista, as luzes desta cidade inspirarão você, e não há algo que você NÃO possa fazer lá. NY é coração do Mundo Ocidental, com paixão declarada de gênios como Woody Allen, que usou a cidade em tantos de seus filmes, com inesquecíveis trilhas sonoras, como da célebre obra de Ira Gershwin, que traz identidade cultural a esta ilha bonita. Outras das inúmeras declarações de amor a NY são os seriados Friends, Seinfeld, Sex and the City e Will & Grace.

Todos querem morar em NY. O turista sente-se num filme. Sem falar que é uma cidade de clima diversificado: o verão é o cúmulo de quente e o inverno é o cúmulo de frio, com dias de tanta neve que a Prefeitura tem que orientar os nova-iorquinos a não sair de casa. Ouvi dizer que NY no outono é belíssima, por causa das cores das árvores. Antigamente, as ruas de Caxias do Sul eram adornadas por plátanos, mas foram eliminadas porque, na época, achava-se que os plátanos causavam tuberculose. Hoje, na cidade serrana, só há plátanos em pontos específicos. Uma pena. Em NY, a manutenção do Central Park é terceirizada, e a Prefeitura sabe que o parque tem que ser extremamente bem cuidado, pois é um dos espaços verdes mais famosos do mundo, incrustado em uma frenética selva de pedra, onde reinam oportunidades, sucessos e frustrações. Há de tudo em NY.

            Era fevereiro de 1998, e fui com um amigo. Ao chegarmos de manhã cedo no Aeroporto JFK, diga-se de passagem bem pequenino para ser um aeroporto de NY, esbarrei-me com o frio, depois de uma noite meio mal-dormida no avião, inevitavelmente mal-dormida – não estou reclamando. No controle alfandegário, fui atendido por uma moça bonita que tinha o cabelo igual ao de Courteney Cox em Friends. Como nós, os passageiros, só poderíamos chegar no hotel ao meio-dia, pegamos um ônibus com os viajantes da excursão, e no ônibus começou a tocar, a todo volume, New York, New York, algo interessante se a noite tivesse sido bem-dormida. Well, fizemos um passeio de barca para ver a Estátua da Liberdade e depois fomos a um shopping bem na ponta sul da ilha, com uma inesquecível loja de esculturas em madeira. E, finalmente, chegamos no hotel, um Hollyday Inn muito bom. Na excursão, havia um casal simpático que me chamavam de “Caxias”, pois sabiam que sou de Caxias do Sul. Havia também um rapaz que comprou centenas de CDs nesta viagem.

            Fiz algo de que me arrependi: como eu sabia que seria um clima frio, fui com um par de botinas, compradas especialmente para a viagem. Só que eu não tinha noção de que deve-se bater muita perna por NY, para aproveitar as ruas da cidade. Lá pela quinta quadra, meus pés começaram a doer, e tive que comprar, às pressas, um par de tênis confortáveis. Na loja, eu disse à simpática atendente negra que meus pés doíam, e ela disse I undestand; I’m a woman, ou seja, Eu entendo; sou mulher. Normalmente, os nova-iorquinos são abertos à interação e ao intercâmbio cultural, numa urbe tão heterogênea.

            Para continuar aguentando o frio, fui à tradicional loja de departamentos Macy’s para adquirir um sobretudo, o qual tenho orgulhosamente até hoje, usando-o no auge do inverno serrano gaúcho. Na Macy’s, atendeu-me um rapaz italiano muito polido, que me disse que morava no bairro Village, o mesmo de Friends. O rapaz viu meu sobrenome italiano e perguntou se eu era da Itália. Ainda na loja, vesti o casaco, e, no mesmo estabelecimento, tratei de comprar um cachecol. Em Chinatown, passei por uma linda loja de artigos chineses, e me vidrei num belo par de dragões de porcelana, fantásticos, fortes, estranhos, vibrantes, finos. Então, aconteceu um fato engraçado, pois o atendente, um chinês filho do dono da loja, propôs-me um trambique: ele diria ao pai que me vendeu o par por 120 dólares, mas na verdade o filho embolsaria 20 dólares a mais que eu daria a este “por baixo dos panos”. Que sacanagem com o velho! Na tradicional bookstore Barnes & Noble, adquiri um livro sobre o faraó Aquenáton, um regente que me fascina, o que me remete à deslumbrante sessão egípcia do Met, com suas esculturas perfeitas em granito. Também adquiri um livro na loja de sebo Strand Bookstore. Na giftshop do Met, adquiri dois pôsteres florais e um bloco de cartões postais de temática japonesa. Na famosa loja de brinquedos F.A.O. Schwarz, bem do ladinho do The Plaza Hotel, adquiri um bicho de pelúcia, numa loja de atendentes extremamente corteses. Em outra bookstore, adquiri o livro sagrado do Taoísmo, algo que já mencionei neste mesmo blog, numa postagem sobre Taoísmo. Como já disse neste mesmo blog, comprei também uma caneca do seriado televisivo The Nanny, do qual sou fã, mas depois, em casa, a peça caiu e quebrou – que pena. Também dei-me ao luxo de adquirir um perfume marcante, o Xeryus, de Givenchy. Se algum dia eu voltar a NY, farei menos compras, pois uma cidade é muito mais do que lojas.

            Pessoas de minha família foram a NY no outono, e deve ser uma época boa de se visitar a ilha, sem muito frio nem calor. Uma amiga minha disse que foi no verão, e que o verão nova-iorquino é muito quente, assim como dizem que Buenos Aires é cálida nos meses de verão. E, como eu já disse aqui, o inverno da Big Apple pode ser bem complicado. Quando fui, praticamente não choveu, mas um vento frio e cortante cruzava a ilha.

            Aconteceu algo de que não esquecer-me-ei: meu amigo e eu estávamos caminhando na rua e recebemos panfletos de uma casa tradicional de shows, de cujo nome não lembro, mas achamos desinteressante e jogamos fora os papéis de divulgação, sendo que, só depois, ficamos sabendo que, na noite anunciada, ninguém menos do que Madonna fez um show surpresa, cantando algumas canções do álbum que estava lançando na época, o respeitado Ray of Light, trabalho que até levou um Grammy. Por que eu não fui à casa de shows? Que ódio! Coisas de Manhattan. Falando nisso, mandei um e-mail para Lucas Mendes do programa Manhattan Connection, da Globo News, falando que tomei café da manhã no The Plaza Hotel, o que me custou cerca de 40 dólares, para comer o mesmo sucrilhos que encontro em qualquer lugar do mundo, até no supermercado do ladinho da minha casa, e Lucas concordou comigo. O Plaza é tão pretensioso que a chapelaria custa 3 dólares, contra o preço-padrão de 1 dólar em todas as outras chapelarias da cidade. Na verdade, eu só quis ir ao Plaza por causa do filme Cuidado com as Gêmeas, com Bette Midler e Lily Tomlin, e decepcionei-me ao ver que o interior do saguão, no filme, foi todo construído em set, sendo muito diferente da recepção real do emblemático hotel nova-iorquino.

No MoMA, jamais esquecer-me-ei de estar a poucos centímetros de distância de um trabalho de Salvador Dalí. No Guggenheim, caminhei pela famosa rampa em caracol. Em Little Italy, almocei uma deliciosa pasta ao molho vermelho. Em Chinatown, comemorava-se o Ano Novo Chinês, e vi um cortejo fúnebre passando na rua, mas não tirei fotos em respeito ao falecido. Na Times Square comi uma pizza em um restaurante bem sujinho, bem New York. Num restaurante chinês, comi um delicioso pato ao molho de morango. Fiz uma visita guiada pela tradicional escola de design gráfico Parsons. Fui a diversos night clubs, pois NY é uma cidade de vida noturna intensa e diversificada, com ótimos DJs.

            Conheço uma pessoa que me disse que não curtiu NY. Que pena. A cidade é cheia de brasileiros, tanto residentes quanto turistas. Vi ficar deslumbrado um carioca com um show de artistas de rua. Outro aspecto que me chamou a atenção foi ver tantos turistas japoneses em NY. Falar em artistas, fui ver três shows da Broadway: Titanic, que nada tem a ver com o filme, Miss Saigon, sobre uma inocente e adorável menina em dissonância com um ambiente mundano, e O Fantasma da Ópera, com a célebre cena do lustre caindo “em cima” da plateia. Dizem que Cats e O Rei Leão são fantásticas. Da próxima vez, não verei tantas peças; verei apenas uma – já está bom vendo uma só. Aconteceu algo engraçado quando eu estava na fila para comprar ingresso para a Broadway: eu estava distraído lendo os painéis com os nomes das peças e uma nova-iorquina abordou-me severamente, como se eu estivesse me insinuando para desrespeitar a fila. Eu, hein.