quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Mago (Parte 4)




Falo pela quarta vez sobre o célebre artista MC Escher. As imagens analisadas aqui foram todas extraídas do site oficial do artista. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.

Acima, Metamorfose I, xilogravura de 1937. Escher adora estampas em xadrez. Seu trabalho é tijolo por tijolo, imaginando transições matemáticas. Não sabemos se a metamorfose começou pela esquerda ou pela direita. Na extrema direita, ou seja, no Extremo Oriente, vemos um chinês sorridente, tipicamente trajado, num Escher universal. O chinês vai tornando-se formas de aspecto estelar, até resultar em cubos de brinquedo, que por suas vezes viram uma colina rochosa de uma praia, talvez grega. O mar não está revolto, e requebra em discretas ondas na margem. A cidade parece ter sido esculpida na rocha, e a colina oferece uma vista invejável, de frente para o vasto oceano, o vasto universo, cheio de galáxias, com estrelas que somam maior quantidade do que os grãos de areia em todas as praias da Terra juntas. Temos aqui uma liquidiscência, e extrema esquerda e extrema direita mesclam-se como no oceano da cena, e temos um degradê, um gradiente entre opostos, unindo o mundo, o ser humano dentro de si unido, inteiro, sem preconceitos de raça. Ambas as extremidades estão mergulhadas no preto, o qual é o pai, a mãe, a origem misteriosa, o útero espiritual. Trata-se de uma cena essencialmente noturna, e o oceano está imerso em sombras, na incerteza da existência, nas dúvidas de como será o futuro, o amanhã, o desencarne. Ao centro do quadro temos cubinhos de brinquedo, desafiando a criatividade da criança, e temos aqui um Escher criança, divertindo-se na tarefa meticulosa de criar de inventar possibilidades, pois, como eu já disse, MC Escher tem veia de arquiteto – uma pena que o artista nunca tenho feito projetos arquitetônicos, os quais seriam, certamente, um deslumbre. Preto e branco casam-se e unem-se, bailando juntos para que formas sejam claramente delineadas, numa maestria em jogar com apenas duas cores, na charmosa simplicidade da foto sem cores. Por que será que Escher raramente usa cores? Seu traço é tão genial que cores tornam-se desnecessárias, e o artista decide jogar com simplicidade, como ocorre nas xilogravuras, uma técnica que não permite cores e mais cores. Pessoas, pequenas como formigas, passeiam pela cidadela rochosa, cuidando de suas vidas ou, simplesmente, passeando. A cidadela parece estar banhada por luz, apesar do oceano estar negro. Escher aproveita muito bem os espaços em branco, na base alva do papel virgem, pronto este para ser “manchado” pela xilo, desvirginado. A xilogravura é uma agressão, só que uma agressão do bem, positiva, buscando possibilidades de criação. Os cubinhos, surgindo após a cidadela, vão se revelando formas geométricas modernas, simples, retas, como manda a Arquitetura Modernista, que tomou corpo em princípios do Século XX. Ao contrário, a arquitetura da cidadela não é tão simples assim, revelando formas mais complexas. Os cubinhos vão tornando-se escadas, na paixão de Escher por escadas, e arcos revelam-se sensuais, numa noite grega de luar e céu limpo, na sensualidade do ar circulando, trazendo vida que pulsa. São blocos que vão construindo uma pirâmide, como pixels, que, um a um, começam a revelar uma obra, revelar algo que existe na mente do artista. Após os cubinhos, vemos as formas ficarem mais complexas, como em formas de asterisco, até revelarem o homem chinês, num processo de transformação. Fica a dúvida em saber como Escher, trabalhava; quais eram seus rascunhos, seus projetos; quanto tempo levava para fazer um trabalho. O chinês, com o chapéu típico de seu país, veste uma estampa florida e quadriculada, do modo como Escher revela-se um mestre de estampas, sempre imaginado, de forma líquida, as possibilidades de transformação – nada para Escher é estático, e sua mente é um corpo vivo, como tem que ser a mente de qualquer pessoa que queira fazer Arte, pois, como diz a Dialética, tudo é processo, e o infinito se revela em todo o seu poder. Os cubos são escadarias modernas. As rochas ao pé da cidadela permanecem firmes, resistentes ao chicotear das ondas. O homem chinês simboliza a universalidade da mente de Escher, que é um homem de uma mente sem fronteiras. Cinza, preto e branco bailam numa só pista de dança, elegantemente. O título “Metamorfose” é muito pertinente, e não há linhas divisórias no quadro, como o girino tornando-se sapo – há gradiente, sem bipolaridade, sem latência.

Acima, Ciclo, litogravura de 1938. Aqui, um Escher biólogo, ciente dos ciclos na Natureza, na noção de que nada se perde; tudo se renova. Os homens correndo pelas escadas parecem duendes, apressados. Ao fim da escadaria, mergulham num mar e mesclam-se numa espécie de oceano mãe, transformando-se em cubos, que se transformarão em escadas novamente, fechando o ciclo, como na Cadeia Alimentar. O piso quadriculado neste quadro lembra-me do piso de um colégio de padres no qual estudei, e é uma charada, pois tem duas leituras, sendo uma a contradição da outra. Os homens estão afoitos, com os braços para cima, como se estivessem rendendo-se frente a uma arma de um policial ou ladrão, como uma vez apontaram uma arma para o coração de uma amiga minha, tendo os ladrões levado o carro dela. Os duendes surgem milagrosamente de uma porta arqueada, como os arcos na casa onde cresci em Caxias do Sul. Os duendes vêm do nada, simplesmente aparecendo, do modo como tudo veio do nada; veio de Tao. É o milagre da vida. Aqui, tudo retorna à fonte, e há muito movimento, oxigenação, vida em movimento. Há um vaso de plantas na beira de uma janela, simbolizando a vida, os seres vivos da Terra. A planta parece dançar ao doce sabor da brisa, do modo como o movimento aqui gera arejamento, vida. Há uma janela gradeada, proibida, secreta, como se guardasse um segredo inviolável de uma paixão inflamável. É o segredo divino, o enigma da vida e da morte: por que há nascimento e óbito? Os cubos são a infância, a brincadeira criativa, na diversão de construir, desconstruir e construir de novo, como em castelinhos de beira da praia, num eterno aprendizado. Há outra janela aqui, só que sem grades, na transparência dos vidros, do modo como é transparente o fato de Escher ser um grande talento – é fácil de observar. Bem ao fundo na cena, um rio em um vale fértil, no caminho da vida, pois Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. E Tao é este caminho. A água segue seu incansável curso, alimentando o mundo, irrigando plantações, hidratando seres vivos – o líquido essencial da vida na Terra. O grande rio caudaloso ao fundo lembra o plano de fundo da Monalisa de da Vinci, na Mãe Natureza em sua interminável tarefa de fazer a vida e guiar esta. É como uma professora bela é sábia, hipnotizando o aluno. As formas na parte inferior do quadro trazem formas de quebracabeça, num Escher debruçado em raciocínio, encaixando pacientemente as pecinhas umas nas outras, enfrentando as vicissitudes iniciais e triunfando ao final, com o quadro montado, no doce sabor do êxito. O quebracabeça me lembra de um montado no consultório de minha dentista, quando eu era criança. Era a figura de um grande castelo europeu, e o enigma foi montado pelo filho de minha dentista, e esta expunha orgulhosamente o quebracabeça em seu consultório. É o raciocínio que desvenda charadas, e Escher é um exímio charadista, sempre brincando com as percepções do espectador. Sua paixão por escadas reside no fato destas trazerem truncadas fases distintas mas que, colocadas lado a lado, revelam uma continuidade, uma liquidiscência gostosa, no conforto do útero, do lar. As colinas ao fundo são a Geologia, traçando terrenos e impondo-se como percalços aos colonizadores, desafiando a sede de crescer do ser humano. Certamente Escher crescia a cada trabalho que concluía, apaixonando-se pelo processo criativo, tornando-se popular e amado – o labor faz crescer. O rio corre como os duendes, com pressa, na demanda do day by day, do dia a dia. Este rio lembra a capa do livro Gênesis do fotógrafo Sebastião Salgado, pessoa já comentada aqui no blog. Na capa, o rio revela-se a fonte da vida, o provedor, sendo a gênese, o princípio imutável e eterno. Existe algo mais poderoso do que a eternidade? Nenhuma pedra preciosa supera a eternidade, pois a matéria está condenada à danação, danando-se cedo ou tarde – pedras são matéria. As escadarias são teclas de piano ou de dominó, rendendo várias leituras e releituras. Virando o quadro de pontacabeça, temos a impressão de que flocos de neve caem do céu, na beleza do inverno, na Natureza congelada, eternizada, cristalizada, na beleza de Galadriel de O Senhor dos Anéis. E céu e terra dançam a doce dança da vida, fazendo amor. Escher, mestre da Geometria. As desérticas colinas ao fundo trazem a solidão do trabalho de criação, no qual o artista está só consigo mesmo, tendo paz e sossego para criar. É o Vale dos Vinhedos de Bento Gonçalves, irrigando parreirais e fazendo a vida virar prazer em bebida. Cada obstáculo é uma perspectiva de crescimento. Uma grande amiga minha psicóloga me disse: “As crises são positivas”.

Acima, Olho, meia tinta de 1946. Como num espelho, o espectador se olha. É o olho de Deus, sempre observando seus filhos. É o olho no topo da pirâmide nas notas de dólares, sempre ciente, sempre no controle de tudo e todos no universo inteirinho. Onisciência, onipresença. Não deixa de ser um autorretrato, com o artista olhando a si mesmo, num momento de reflexão, de olhar interno, de momento de introspecção. O traço é primoroso, com cada cílio como detalhe, com cada textura epitelial desenhada, num Escher mestre em luz & sombra, retratando o lustro do olho, provavelmente refletindo uma janela, dando a entender que a luz é natural neste trabalho. A pálpebra é cuidadosamente desenhada, e é quase um retrato fotográfico de tão perfeito. Quem sou eu? A íris também é primorosamente delineada, e até podemos ver pequeno vasinhos sanguíneo no branco ao redor da íris. O olho parece piscar, como se observasse o espectador, numa troca de olhares, num flerte, num momento de troca e comunicação, de contato. Bem ao fundo na pupila vemos uma caveira, que é a finitude, a morte inevitável, num artista que se pergunta o que vem após o óbito do corpo de carne. É o Castelo de Grayskull de He-Man, a caveira cinzenta da dúvida, entre preto e branco, podendo ser tanto do Bem quanto do Mal, numa eterna disputa entre forças antagônicas, na luta da virtude contra o mundanismo; do material versus o espiritual. O artista observa sua própria ruína, seu destino, perguntando-se se sua obra entrará para a História da Arte. É Van Gogh, que morreu pobre sem testemunhar o próprio êxito de reconhecimento e valorização. É uma bandeira de pirata, anunciando o crime de pirataria, na falsificação de produtos, num mercado negro, ilegal, vulgar. O olho é como um peixe nadando, livre pela água, perguntando-se se existe vida fora da água: como se pode respirar fora d’água?, pergunta-se o peixe. Podemos também observar delicados pelos de sobrancelha, num artista perfeccionista, é claro. O interessante ó observar que olhos, na verdade, não olha só para frente, mas olha um pouco do lado esquerdo, como se Escher quisesse evitar um olhar inquisidor do espectador; como se o artista previsse um incômodo, uma verdade nua e dura. É como se o espectador fosse a própria caveira, estando refletido na pupila do artista. É o “ser ou não ser” shakespeareano, encarando a morte inevitável: o que tenho para contribuir ao mundo? O espectador é a Morte. O olho está cheio de dúvidas e questionamentos, e está meio cansado, exausto de tanto labor, mas é um cansaço recompensador, de quem merece uma pausa, ou de um desencarne pacífico, rechaçando o suicídio. É um olhar puro e inocente, e tudo gira em torno da discreta caveira, como no rótulo de algum produto tóxico. Escher tem cautela em fazer Arte, e nunca se contenta com o óbvio ou o medíocre. A caveira ri discretamente, zombando do medo que os homens têm da Morte, do desencarne, do desapego do material, da dimensão material: vão-se os anéis; ficam os dedos. Escher tem uma vontade de “fotografar” – será que poderia ter sido um fotógrafo de fato? E a caveira sorri para o artista, o qual encara de frente o óbito. Aqui, o espectador é a caveira. Teria Escher medo do público, do mundo que observa o trabalho do próprio Escher? É um olhar meio triste, catarseando uma melancolia. Tudo gira em torno da caveira, do destino escrito. E Escher tem que resolver o que fazer com esses dias que lhe restam no mundo. “Sem a poesia, o que faria eu desta tarde brumosa?”, disse minha querida avó Nelly em um de seus poemas. A vida é uma tarde brumosa e cinzenta, como a caveira, e temos que fazer escolhas – realmente, não há como fugir da Vida. Para os que vão, praia brancas; para os que ficam, a dúvida cinzenta. Escher despede-se triste, mas com uma pontinha de esperança, distraído no vaivém dos momentos existenciais – as coisas passam. E da janela vem a luz de esperança, como a luz no fim do túnel. E como é sombrio o túnel, e como nos guia a luz no fim dele. A janela é a Estrela D’Alva, anunciando um novo dia, anunciando um amanhã onde só resta o espiritual. A Aurora vence tudo.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mago (Parte3)




Falo pela terceira vez sobre o célebre artista MC Escher. As imagens analisadas aqui foram todas extraídas do site oficial do artista. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.

Acima, Casa de Escadas, litogravura de 1951. Criaturas extremamente curiosas, frutos da mente fértil de Escher – são lagartixas que parecem ser pequenos robôs. Aqui, volto a falar das fascinantes escadas do artista, num cômodo sem Lei da Gravidade, onde cada um caminha por onde bem entende. É certo dizer que Escher inspirou a abertura da telenovela da Globo, Top Model, no finzinho dos anos 80. Nela, modelos desfilam por escadas sem ponto de referência gravitacional. É nesta obra escheriana que observo algo parecido com o interior de um formigueiro, com operárias ocupadíssimas, cumprindo suas funções instintivas, nunca descansando. Como eu já disse, o divertido de Escher é observar cada quadro nas quatro posições cardeais, e assim teremos um novo quadro, na piada lendária de Escher: Onde estou e para onde vou? É uma charada. É uma dimensão nova e misteriosa, e não sabemos o que se esconde por trás deste quadro; não sabemos o que está além. São pequenos androides de nanotecnologia, numa colmeia incessante, e podemos ouvir um barulho intermitente de muitos passos, no dia a dia de uma empresa vibrante, laboriosa, movimentada. Este é o Escher trabalhador, ralador, que se dava a um trabalho muito meticuloso. Podemos ver Escher em seu atelier, e as horas passando, numa mente perfeccionista. A luz entra pelas portas em arco, numa arquitetura romana, sensual, renascentista. Cada uma das lagartixas tem dois grandes olhos negros, como duas bolas negras de sinuca, no jogo da vida, onde as possibilidades são encaradas e as chances sendo feitas. Aqui, temos uma foto tirada por uma lente grande angular, aproveitando cada espaço na cena. Cada ladrilho é o esforço de Escher, construindo sua obra passo a passo, ladrilho por ladrilho, ignorando o tempo passando, mergulhando na dimensão atemporal, onde tempo de nada serve. São máquinas automotivas; são uma indústria movimentada, onde muitos operários montam carros, num processo longo e dotado de muitas etapas. O engraçado é observar que há muita harmonia aqui, e que as lagartixas nunca entram em atrito umas com as outras, e cada passo delas é matematicamente calculado, e nunca vemos aqui colisões ou acidentes de trabalho, na perfeição da Natureza em reger a vida e o labor do dia. São como filhos de uma mesma rainha, iguais, nunca maltratando uns aos outros, num Escher sedento por harmonia e paz, tendo o artista testemunhado a II Guerra Mundial. Aqui é tudo incessante, e não temos dia nem noite, nem dias úteis ou de descanso – a Natureza não para. As lagartixas têm escamas metálicas, fortes, impenetráveis, com a capacidade de dizer “não” e de refratar possíveis perigos. São carros blindados, paranoicos sempre com a possibilidade de ser assaltados por bandidos profissionais. A harmonia é tanta que não parece provável a possibilidade de se adicionar algo a este trânsito frenético – a colmeia basta a si mesma, como numa cidadestado, autossuficiente, cercada por muralhas protetoras, como Minas Tirith em O Senhor dos Anéis, uma cidade esculpida na pedra da uma montanha. É como num convento, e cada freira aqui tem uma função importante a desempenhar: umas cuidam da horta; outras, da limpeza; outras, do almoço, e assim por diante. É um organismo absoluto em si, em freiras que só saem do convento para fazer algo que realmente não possam fazer dentro do convento. Do mesmo modo, só permitindo entrar no convento alguém que realmente tenha que estar ali dentro, talvez para fazer algum conserto ou obra de pedreiro. As lagartixas não falam umas com as outras, pois cada uma sabe o que cada uma tem a fazer, e conversas são desnecessárias, pois espantam a paz do claustro religioso, algo que me remete a um hotel que visitei em Salvador, que foi construído em um antiquíssimo monastério baiano. Aqui, a guerra é derrotada pela paz, e a produtividade vence o ócio.

Acima, Outro Mundo, xilogravura de 1947. Nos trabalhos de Escher, é a segunda vez que me deparo com esta ave metálica com cabeça humana. Por que será que a ave é reincidente? Como eu já disse, ela é a Sabedoria – a cabeça humana representa o pensamento racional; as asas, a liberdade de pensamento. Aqui, temos três enfoques para a mesma cena, e Escher explora as possibilidades de pontos de vista, como numa Democracia, onde as diferenças existem e são respeitadas. A estrutura de arcos está harmônica, bastando a si mesma, num Escher com um pé na Arquitetura. Os arcos são sensuais passagens sensoriais que revelam uma paisagem cósmica, espacial, fora da Terra. Vemos crateras em uma superfície lunar, como cicatrizes, contando uma história, uma proveniência, uma origem, como rugas em pessoas mais velhas, sinais de idade que contam uma trajetória, uma estrada, nos vários momentos de vida encarnada e desencarnada de um espírito, um ser, uma pessoa, um humano. Vemos dependurados três formas que parecem uma corneta, ou um corno de animal, como na corneta de Boromir em O Senhor dos Anéis, sendo o corno um instrumento que emite um som poderoso, forte amedrontador, num forte aviso de que algo acontece, como os boiadeiros, com seus mugidos de corneta, guiam o gado pelo campo. A corneta ruidosa é a divulgação, a Propaganda, num Escher que sabe muito bem “vender-se”, obtendo reconhecimento justo e merecido, pois se alguém quer fazer sucesso, este alguém tem que fazer algo para obtê-lo. Cada corno está suspenso por dois fios, numa suspensão que desafia a Lei da Gravidade, como veias e artérias que sustentam um corpo, nutrindo-o. As aves metálicas posam com tranquilidade, e apreciam a cena. Parece que a temperatura da cena é extremamente agradável, primaveril, num universo ideal, no qual há vida incessante e vibrante, numa dimensão agradável, quase impossível de ser imaginada. Em partes do quadro, vemos o Universo, negro em seu fundo, misterioso, vasto, infinito, um verdadeiro enigma para a Humanidade desvendar – o Ser Humano é ainda muito jovem. Galáxias jogam-se pelo Cosmos como conchinhas à beiramar, na leis eternas da Natureza, da dimensão material, onde matéria é tudo, onde riqueza é tudo – são as mazelas do Ser Humano: a ganância. As galáxias giram freneticamente como discos de vinil no tocadiscos, galáxias tão distantes que fica impossível as visitar. Vemos aqui, também, Saturno, com seus sensuais anéis, num Sistema Solar ainda enigmático para a Ciência. Apesar do som não se propagar no vácuo espacial, podemos aqui ouvir barulhos orgânicos, como tripas trabalhando na digestão do alimento, nos sons de um organismo pulsante. Bem ao centro do quadro vemos uma esfera recatada e discreta, talvez um planeta próximo, como Marte, na cor vermelha da Guerra, do sangue, da luta agressiva pela sobrevivência, num Escher incansável, guerreiro, que construiu toda uma obra venerável. As crateras são como gotas caindo sobre uma plácida superfície líquida, propagando ondas de som pelo cosmos, num dia cinzento e chuvoso. As crateras aqui são cinzentas, entrando em harmonia com o Universo tão negro e indecifrável. Este quadro é como uma caixa de interior misterioso, como se fosse uma porta para a entrada em uma dimensão mágica, que desafia a Lógica. As formas arquitetônicas são ladrilhadas, construídas pacientemente uma a uma, num artista absorvido pelo próprio trabalho. Aqui, não podemos fazer uma escolha, porque todas as opções aqui são respeitáveis. Temos que lidar com essa pluralidade e aceitar as diferenças, no sentido de que cada pessoa é o tijolo de uma sociedade. Os arcos, arredondados, são sensuais e femininos, como no corpo de uma mulher que abriga um ser, um filho. A ave aqui é este filho, e este ser contempla o universo, num Escher contemplativo, que gosta de observar a Vida. Parece uma sala de espelhos, na qual há caminhos enganosos (e divertidos). Vemos três reflexos em um só enfoque, e podemos observar a ave em três dimensões, só que em um quadro de apenas duas dimensões – este é Escher, um transcendente. Escher nos abre uma porta e nos convida a entrar em seu mundo. E estrelas salpicam a escuridão do Universo, brilhando em meio a uma escuridão tão imprevisível, sendo este negror relativo a galáxias que estão tão longe que sua luz sequer chegou até nós, na Terra. É como um triplo enfoque sobre uma mesma notícia, contando todos os lados da história, de modo que cada personagem tem seu ponto de vista sobre um mesmo filme ou livro. São três mundos em um só, numa abordagem a mais abrangente possível. Como eu já disse em outra postagem, o engraçado de Escher é observar cada quadro não só na posição original, mas também de cabeça para baixo, revelando-nos um quadro totalmente novo, numa montanha russa. A sensualidade dos arcos deixa a brisa passar e ventilar, numa mente ventilada e jovial, sempre aberta a novos conceitos. Não canso de dizer que Escher tem um pezinho na Renascença, adorando Arquitetura. É o interior de uma casa com muitos corredores, como uma intrincada teia de aranha, pronta para captar uma mosca distraída, para captar a atenção do espectador. A ventilação aqui é arrebatadora, e podemos respirar um ar muito puro de temperatura amena, do modo como é sempre agradável a temperatura das Colônias Espirituais, onde vivem felizes os espíritos desencarnados. É como uma história em quadrinhos, com os momentos abraçando uns aos outros. O título desta obra evoca uma dimensão nova e diferente, longe do dia a dia terreno.

Acima, Três Mundos, litogravura de 1955. Esta imagem me remete a uma passagem do sagrado livro do Tao. Esta passagem aconselha ao leitor ser discreto, quieto, pacífico e “invisível”, sendo um peixe que nada tranquilamente pelas águas profundas, nunca mordendo iscas nem nadando às vistas dos pescadores. Aqui, este peixe está em paz consigo mesmo, nadando sob as folhas outonais, que assinalam a passagem do tempo e a chegada de uma nova estação do ano, num Escher observando sua própria vida e observando também a passagem do tempo. Este é um peixe que deve ser delicioso de ser devorado, como faz o monstrinho Gollum de O Senhor dos Anéis, um ser que captura capciosamente o peixe e o come cru, com o bicho ainda se retorcendo em resquícios de força frente aos dentes de Gollum. Aqui, temos muita placidez e silêncio, e um sutil barulhinho d’água ilustra a cena, numa quietude profunda como o inverno. As folhas boiam e enfeitam a superfície, como barcos em águas quietas e irresistivelmente pacífica, de modo como Tao diz que a Paz é maior do que a Raiva. Este peixe aqui não tem raiva alguma, e vive em paz com o universo, com o lago, com as folhas. As folhas claras entram em contraste com a profundidade negra do lago, e esta superfície reflete a luz do dia e as árvores mais atrás, como veias irrigando um organismo, talvez o peixe mesmo. As três árvores refletidas são irmãs, crescendo uma ao lado da outra, como trigêmeos compartilhando um útero – nunca vou me esquecer quando vi, certa vez, um carrinho de bebê com trigêmeos. É o milagre da vida, da procriação, como Jesus multiplicando pães e peixes. É uma ninhada de cachorros. As árvores aqui estão completamente nuas, em pleno inverno, e as folhas, cedo ou tarde, afundarão e nutrirão o fundo das águas turvas. Não podemos aqui ver o fundo do lago, e só o peixe pode transitar pelos níveis misteriosos da profundidade. O peixe nada sensualmente, retorcendo-se e parecendo um verdadeiro modelo em uma passarela. As águas e o peixe entram em harmonia, formando um só corpo. Aqui, a natureza é um espectro só; uma esfera só. Suas escamas são visíveis, e seus olhos, acostumados com a escuridão, enxergam à noite, na lei biológica da adaptação. A imagem aqui é quase uma fotografia, num Escher hábil em produzir efeitos entre claro e escuro, com o cinza intermediário. O peixe realmente parece mover-se na cena, curvilíneo, liquidiscente, somando-se ao meio ambiente – é o modo sexy como o Universo é um só corpo; um só organismo pulsante. As folhas são de espécies diferentes, assinalando uma diversidade, um pluralismo, como os flocos de neve são diferentes uns dos outros, como impressões digitais, trazendo identidade – cada ser vivo tem um papel a desempenhar na cadeia natural. As árvores parecem ser idênticas, mas não o são – a prova disso são as folhas diferentes. Só que, nuas, aprecem ser iguais, do modo como a nudez igualada os seres, na sensualidade universal de Igualdade da Revolução Francesa. A nudez ilustra o Universo, e a nudez é absolutamente natural na Arte. O peixe nada tão placidamente que sequer emite ondas de movimento na água, sendo discretíssimo e recolhido, modesto em viver sua própria vida com simplicidade. As árvores aqui parecem também ser raízes profundas que mergulham n’água, como na Floresta Amazônica, numa interminável cadeia de nutrição botânica. O peixe, apesar de ser visível aqui, passa a maior parte do tempo no fundo, só vindo à superfície para se alimentar, sabendo do perigo de anzóis de pescadores. É a seleção natural – aquele que é esperto não sofre danos, podendo assim passar para frente a sua própria genética; aquele que se expõe ao perigo, não passa. Os troncos negros contrastam com o céu alvo, ficando firmes em seus galhos e raízes desenvolvidos. O peixe parece um desenho japonês, numa cena de quietude na qual o animal é o rei do lago, regendo este com calma e ponderamento, nunca interferindo na quietude de seus próprios súditos; nunca abusando do povo com impostos altos. O peixe sabe que sabedoria é querer paz.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mago (Parte 2)




Falo pela segunda vez sobre MC Escher. As imagens analisadas aqui foram todas extraídas do site oficial do artista. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.

Acima, Natureza Morta e Rua, xilogravura de 1937. O perto fica longe; o longe fica próximo. Os livros estão dispostos em forma de degraus, para diferentes posições, e são a escada para a Cultura e o Conhecimento, na coincidência de que acabo de vir da Feira do Livro de Caxias do Sul, uma verdadeira Disneylândia para quem gosta de ler. Ler exige paciência e tempo; exige disciplina. Os livros transformam-se em prédios, na edificação de uma nação, construção esta que só é possível com cidadãos letrados e eruditos – nunca ouvimos falar que para parar de construir presídios temos que construir escolas? O cachimbo repousa ao lado de uma caixa de fósforos, no hábito diário de fumar ou de tomar um vinhozinho, no conforto da casa, do lar, da proveniência. Temos um Escher disposto a descobrir seu próprio lar, seu chão, sua base. Numa cena de cidadela italiana, roupas estão estendidas para secar, e são panos brancos que clamam por Paz. É uma vizinhança cheia de vida, com flores nas janelas, com a movimentação da vida – quem é saudável quer ter vida. A ruela medieval perde-se ao fundo, parecendo ser infinita. É uma ruela torta, curvilínea, sinuosa como uma serpente amazônica. As roupas nos fios de varal alcançam distância longínqua, no prazer de se deitar numa cama com lençóis limpos e perfumados, como no espírito Patrícia em Violetas na Janela. A limpeza traz prazer, pois Tao é limpeza, é o essencial, é o importante, é o indispensável. As donas de casa, aqui, debruçam-se sobre suas tarefas diárias, cuidando da casa. As janelas estão quase todas com as venezianas abertas, deixando a luz do dia entrar e arejar os cômodos. Na “minibiblioteca” aqui, vemos um efeito de luz, de um Sol que brilha à esquerda do quadro, projetando sombras suaves, sem haver aqui espaço para escuridão – o Conhecimento ilumina, como diz o slogan de uma instituição caxiense de Ensino Superior. À esquerda do cachimbo vemos um baralho de cartas, no prazer de jogar, de raciocinar, de se concentrar sobre uma mesa cheia de signos, como num jogo de tarô. O cinco de espadas pronuncia-se no topo do baralho, no poder fálico da espada, no Código de Hamurabi, na verdade retilínea que opõe à mentira tortuosa, como na imagem de Nossa Senhora esmagando com os pés a serpente da malícia. Abaixo desta carta, um pequeno vislumbre sobre uma carta de rei, dama ou valete, e ´so podemos observar uma coroa, do modo como o artista tem a majestade sobre sua própria criação, fazendo da censura algo insuportável, uma ofensa horrível, uma frustração. Abaixo desta “coroa”, vemos um signo de copas, no formato de coração, no sentimento do artista, sendo este sentimento cristalizado na forma de desenho, catarseando e libertando o próprio artista. É o coração valente de um rei destemido, que lidera seu próprio povo para a vitória em um conflito inevitável. Abaixo do “coração de leão”, um signo de ouros, no ouro da vitória, da superação, na beleza áurea de um amanhecer majestoso, um tesouro. Ao lado do baralho, vemos uma compota, como uma urna de cinzas, na homenagem póstuma de Escher recebe e ainda receberá por muito tempo, na infinitude de reconhecimento frente a alguém talentoso, visto que talento é um dom divino, uma manifestação de Deus, de Tao. A compota é lustrosa e reflete objetos à sua volta, guardando um verdadeiro mistério dentro – o que será? É o mistério existencial, no qual a pessoa não tem uma ideia extremamente clara do que lhe ocorrerá, como ocorrerá e quando ocorrerá, pois há coisas que a Divina Providência só revela com tempo – se soubéssemos exatamente o que nos aconteceria, não passaríamos pelo que teríamos que passar. É a Caixa de Pandora, que deve permanecer fechada. No lado esquerdo do quadro, vemos um livro com uma capa orgânica, tortuosa, insinuante, como mármore, numa contradição: como uma pedra tão dura pode ser tão liquidiscente? Tudo o que é material está condenado à ruína. A riqueza de Jesus Cristo, por exemplo, está nos pensamentos que Ele propagou, e não no aspecto material. Cada livro aqui tem sua identidade, seu jeito de ser, numa diversidade política, num pedido por Paz em um mundo tão birrento. O senso de humor de Escher reside no fato de só percebemos “tarde demais” o que estamos vendo de fato. Aqui, por exemplo, estamos vendo uma mesa sobre a qual os livros estão dispostos, e só lá depois, no fundo, percebemos que, o tempo todo, estávamos vendo também uma ruela. Então o invisível entra e Tao se faz presente, numa piada fina. No cinzeiro, a finitude, os vestígios do dia, com palitos queimados, que já exerceram seu papel e sua função, na eterna demanda de uma casa cheia de vida, de trânsito, de pessoas convivendo sob o mesmo teto. No rótulo da caixa de fósforos, a identidade, a proveniência de produtos que vieram de algum lugar, de algum fabricante. Como eu já mencionei (e não me canso de mencionar), Escher trabalha muito bem com luz & sombra, trazendo nuances de iluminação, sendo um projetista arquitetônico, ciente da existência de um foco de luz, de uma direção, uma referência astronômica. Outro talento de Escher é em relação à perspectiva, numa nuance renascentista, num momento em que a geometria complexa toma conta do Mundo. A riqueza de Escher é tal que, apesar de dele ter trabalhado sempre com preto & branco, quase podemos ver cores em sua obra, trazendo-nos um verdadeiro enigma: o que é o talento? Talento é o infinito; é Tao. O infinito está além de qualquer interpretação.

Acima, Céu e Água, xilogravura de 1938. Escher abraça as contradições naturais da existência. Como falei na Face sobre esta postagem, o sertão vira mar; o mar vira sertão. Meticuloso, debruçado em resoluções matemáticas, buscando sempre ironia. Escher é um piadista total, e, em vida, deveria ser uma pessoa divertida e jovial, assim como o foi Leonardo da Vinci. Escher prega peças, como a comediante Ellen DeGeneres, que é uma moleca! Aqui, o preenchimento de espaço é assombroso, como numa perfeita equação, mostrando a ligação entre Ciência Humana e Exata, opostos que fazem parte de um mesmo espectro intelectual, visto que a mente do ser humano é universal. Escher faz piada com a Teoria da Evolução, e do modo como as mutações genéticas foram moldando “o barro” e geando espécies novas, adaptadas às mais variadas realidades, seja, por ar, seja por água. O quadro todo aqui parece lustrosas escamas de peixe, e podemos sentir o delicioso gosto de sushi, ou de um bom galeto. A ave ao topo voa muito livre, mas com um objetivo – a sobrevivência em meio à Natureza, às Leis Naturais. Parece a logomarca da loja Brooksfield, no apelo aristocrático da vida ao ar livre, das caçadas, do prazer de lutar pelo alimento, uma luta referente a qualquer ser vivo. Aqui, a água é negra, bem negra; o céu, branco. É claro que tudo aqui funciona à base do contraste, do choque cromático, num Escher apaixonado por preto & branco, como se o artista soubesse como é simples e charmosa a foto bicromática, como nos áureos tempos do Cinema, nas “telas prateadas”. Aqui, há o brilho de prata, num Escher que só muito tempo depois, em sua própria vida, veria o Cinema a cores. Os peixes e as aves vão mudando sutilmente, até tornarem-se nada, apenas água e ar. Tudo na dimensão material está condenado à danação, ao fim, ao apodrecimento, numa vida que, do mesmo modo que inspirou, expirou. É a inevitabilidade da morte, opondo-se à vida eterna espiritual, que está ligada à infinitude do amor e da paciência de Deus. Aqui, as leis entram em harmonia, e natureza revela-se um só corpo, um só plano, e tudo está conectado, como uma versão orgânica da Internet. Os peixes vão perdendo as escamas até esvaírem-se no ar, morrendo e deteriorando-se, pois a Natureza é a maior cadeia de reciclagem – tudo volta à Fonte, e o planeta basta a si mesmo, só precisando do Sol. Os pássaros vão mergulhando na água e dissolvendo-se nesta, afogando-se e fornecendo insumos orgânicos putrefatos, na fertilização da terra, nutrindo. É a Cadeia Alimentar, num ciclo voraz onde tudo serve para algo, na perfeição das teias biológicas. O negror do Mar aqui é bem profundo, misterioso, e não podemos ver o que se faz ali dentro. Por outro lado, os Céus são observáveis, num jogo sensual de mostra/esconde, como num striptease, provocando sensações eróticas na junção uma do Universo: há um só Deus, um só Tao, um só Caminho, como dizia Jesus. O Monoteísmo revolucionou a Humanidade, pois a ideia de um só Senhor é simples, portanto, poderosa. O formato de losango desafia o quadriculado desta obra, como querendo arredondar arestas, do modo como uma encarnação é um abrandamento enorme de arestas espirituais. Escher encarnou dotado, muito dotado, e mostrou isso ao Mundo. Imagina-se aqui a paciência para moldar cada detalhe, cada escama, cada pena, e lacunas revelam-se preenchimento. É interessante observar que o artista respeitou a linha horizontal. O que isso quer dizer? Quer dizer que, em cada linha horizontal, os peixes ou as aves são o mesmos, no recurso xilográfico de repetição. É claro que Escher fazia inúmeros rascunhos antes de debruçar-se de fato sobre o quadro, num trabalho em que o laboratorista não revela pressa em executar, nada de pressa, bem pelo contrário, vemos em Escher uma pessoa que desprezava o passar das horas, assim como, reza a lenda, Albert Einstein não tinha noção de tempo, e o cientista tinha que perguntar que dia da semana era. Como encontrar sentido em uma dimensão tão realista, tão pragmática, onde tudo está pré-condenado? O peixe bem ao fundo e a ave bem ao alto estão em paz, e correspondem ao topo de um processo evolutivo, num ponto de estabilidade e aprimoramento – são um ponto final. É a capacidade de adaptação, num Escher que se adaptava às possibilidades geométricas, desenhando o que era possível desenhar. É como a água adaptando-se, preenchendo os lugares. E engraçado observar que as aves e os peixes rumam na mesma direção, encontrando um sentido na vida, estabelecendo um rumo, uma meta, um ponto de encontro, passando como carros e aviões em vias terrestres e aéreas muito atribuladas e demandosas. É a vida acontecendo. Tenho até a impressão de que há uma corrida sendo apostada, e todos nesta participam, na inevitável concorrência biológica e existencial, como inúmeros espermatozoides concorrendo pelo mesmo óvulo. É um desafio, e a vida não tem graça (nem sentido) sem vicissitudes. Já ouvi dizer que a gravidez é uma grande piada de Deus para com a mulher: aquele ser tão íntimo seu, entranhado, de repente, é parido, não mais fazendo parte do corpo da mãe. Escher chama nossa atenção para o fato de tudo virar nada, causando surpresa.

Acima, Natureza Morta com Espelho Esférico, litografia de 1934. A ave metálica tem vida e, calva, sorri, na satisfação de alguém que faz algo que dá orgulho a si mesmo. A ave é a sabedoria, embasada por letras – jornal e livro. A grande esfera é uma maçaneta, trazendo uma porta para outra dimensão; para a cabeça de Escher. A esfera também pode ser vista como um vaso de bico bem estreito, pouco deixando passar, num ambiente hermético, restrito, privado, como alguém que clama por privacidade. No reflexo vemos o atelier de Escher, e ele trabalha sobre uma base, talvez uma xilogravura. A luz do dia entra pelas janelas da sala, fornecendo ao artista a bênção da visibilidade. É um ambiente limpo, organizado, e, ao fundo do artista, vemos várias estantes de livros, talvez num Escher apaixonado pela leitura. A ave “robótica” também está refletida, e seu reflexo é como se fosse um bebê, um rebento, e a ave maior é a mãe zeladora, num artista que zela muito por sua própria obra. O traço impecável de Escher nos traz uma imagem que poderia ter sido fotografada, tal o esmero do artista em reproduzir a realidade sem cores – temos que entender que Escher é da época do Cinema sem cores. Alguns quadros nas paredes estão refletidos – será que quadros do próprio artista? Há também uma singela luminária no teto, auxiliando na iluminação. O jornal é o dia a dia, nas notícias pertinentes ao cotidiano, num Escher sempre antenado a tudo ao seu redor, no infalível olho artístico, fotográfico. O livro é a base de tudo; é o princípio, do modo como a Civilização surgiu em torno das Letras. Ao fundo no atelier, duas portas, dois caminhos, duas escolhas, sendo ambas dirigindo à escuridão, à sombra, assim como o fundo do quadro aqui é também de um negro profundo, assim como a superfície da mesa é negra. Aqui, o artista é também espectador da cena, na ironia de Escher entre causa e efeito – quem vem antes? O engraçado é que a ave tem cabeça humana, numa junção entre humano e animal – a cabeça é a liberdade que o pensamento traz, e suas asas complementam esta liberdade psíquica, pois Escher foi livre, muito livre para criar, do modo como o Espiritismo diz que todo espírito é livre para escolher o que fazer. E por que será que o fundo é tão preto? Talvez para trazer contraste e delineamento ao restante dos elementos, que são banhados por luz. A ave aqui não tem penas – é uma máquina, não um ser vivo. Do modo como o pensamento racional, lógico, é frio e matemático, sem ser afetado pelos efeitos da dimensão material, da Natureza, da Biologia. A maçaneta é o momento da escolha, da opção, e girar este instrumento traz a perspectiva de liberdade. A fascinante mente de Escher é repleta de portas, de escadas, de nortes, de caminhos, e é divertido navegar pela mente de um artista assim. Num pequenino autorretrato no reflexo da esfera, Escher está imóvel, olhando para o espectador firmemente, colocando-se num papel modesto e coadjuvante mas, no fim das contas, domina a cena, como se tivesse sido subestimado. Atrás do artista há algo que parece um aquecedor, um fogão a lenha, trazendo o conforto de um ambiente acolhedor, do modo como o artista se sente em casa em seu ambiente de trabalho. A grande esfera é o planeta Terra, no seu ritmo incessante de rotação e translação, num tempo que passa sempre. Há alguns quadros dependurados nas paredes – o que será que Escher gostava de pendurar nas paredes? Trabalhos próprios ou de outros artistas? É o Narciso olhando o próprio reflexo, talvez aqui catarseando um narcisismo. Por que é importante para o artista estar na cena mesmo que em um papel tão diminuto (e poderoso)? A maçaneta lustrosa é uma fotografia em uma lente grande angular, buscando captar cada canto da cena, abrangendo. E por que havia tantas filas para ver uma exposição de Escher em São Paulo? É uma prova de seu magnetismo que desafia a passagem do tempo. Escher não tem muitas pretensões, e traz simplicidade temática, sem querer complicar muito. Escher é cristalino de ser observado. É um prazer. O artista olha sério para o espectador, enquanto a ave sorri suavemente, como o Kouros do Met de NY, num sorriso brando e polido. O livro é a base, o Norte, a referência. A ave parece estar sendo sugada para dentro da cena refletida, numa implacável Lei da Gravidade, e seu peito toca suavemente a esfera, numa paixão comedida e discreta. Enigma labiríntico, Escher prova ter poder.