quarta-feira, 21 de março de 2018

Amando Amaral



A intelectual Tarsila do Amaral foi uma das estrelas do Modernismo Brasileiro, movimento que revolucionou a Arte e rompeu com velhos moldes acadêmicos, trazendo frescor ao Século XX, numa onda revolucionária e impactante que desagradou os mais conservadores, pois, parafraseando Elis, “o novo sempre vem”. Obra de Tarsila já esteve no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, o MALBA, e, recentemente, Amaral ganhou mostra no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MOMA. Chic, não? Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, A Lua, 1928. Os mistérios dos ciclos lunares, nos mistérios do feminino, no oposto do Sol, pois, se não podemos ver este diretamente, podemos ver a branda Lua diretamente, numa suavidade feminina, numa Tarsila mulher expressando-se como tal, e temos em Tarsila o masculino também, numa artista que teve as bolas para ousar e transgredir, tendo coragem, apesar de sentir um friozinho na barriga. Aqui, temos uma cena solitária, sensual, e a Lua segue só no céu, cercada por sensuais brumas e nuvens, como véus mágicos de uma noiva estonteante, a estrela do casamento. A suave luz da Lua banha os céus, em curvas sedutoras, relaxantes, numa artista querendo relaxar e produzir no ateliê. É o enigma do luar: está noite mas, ao mesmo tempo, há uma certa claridade, nas noites claras tropicais de luar, do modo como os chineses se guiam pelo calendário nos ritmos lunares. Se o Sol é simples e direto, nascendo e morrendo linearmente ao dia, a Lua é mais complexa, alheia ao Sol, nos ciclos lunares que guiam os úteros menstruados – a Lua é linkada à Mulher. Estes céus têm um azul marinho discreto, fechado e denso, contrastando com as nuvens brancas, banhadas pela luminosidade do satélite natural. A cor desta Lua é amarelada, como se quisesse ser ouro e concorrer com o Sol para ver quem é mais belo. Este é um quadro sem linhas tensas, sem fálicos pensamentos racionais, sem a tensão do mundo dos Homens, sem guerras, sem tensões entre países, integrando o Globo sob a mesma mãe, ou seja, a Lua, pois, quando se viaja para o Exterior, até para os lugares mais longínquos, a pessoa fica espantada ao ver que, não importando onde está, a mesma Lua de sempre estará lá, unindo continentes, fazendo-nos humanos, igualando-nos. Esta Lua parece ser um colar dourado, adornando o pescoço de uma mulher nobre, numa Lua Minguante ou Crescente, sempre pulsando no seu ritmo de inchar e desinchar, como se respirasse como as ondas do Mar – a Natureza está toda interligada, numa única estrada, na sensualidade integradora de Tao, o Uno. Na porção terrestre do quadro, um gramado de um verde cinzento, discreto, perfeito como um carpete, convidando-nos a tirar os sapatos e sentir a suavidade desta grama divina, relaxante, reconfortante. Temos, cruzando este gramado, um rio curvilíneo, integrando-se à sensualidade fluidia da Lua e do Céu Noturno, deixando correr uma água fresca, pura, nutrindo as entranhas da Terra, num quadro tão paradisíaco como este, como se Tarsila soubesse como são acolhedoras as colônias espirituais da Dimensão Metafísica, do plano onde os arrogantes orgulhos mundanos perecem. E temos aqui uma forma enigmática: não sabemos se é um cacto ou uma figura humana. Se for um homem, ele parece abanar para a Lua, querendo falar com a noiva dos céus negros, seduzido pelo brilho suave e discreto dela, apaixonado por uma noite tão amena e gostosa, paradisíaca, ideal; se for um cacto, está absolutamente sem espinhos, sem as vicissitudes dolorosas e inevitáveis da Vida, num vegetal sem a agressividade espinhosa, num ser vivo relaxado e tranquilo, que não se sente obrigado a pegar em armas e matar seus irmãos – Tarsila era da Paz. Tudo neste quadro entra num só ritmo, numa só artista, na ambição de se unir ao Mundo e servir este, do modo como Tarsila o fez, sempre colocando sua inteligência a serviço dos outros seres humanos, merecendo reconhecimento nacional e internacional, ou seja, universal.


Acima, Abaporu, 1928. Este é um dos quadros mais emblemáticos da carreira de Tarsila. Não podemos ver se é um homem ou uma mulher, numa androginia, desprovida de sexo e de desejo sexual. O corpo está completamente nu, entregue, exposto, no sentido de que o artista coloca a cara a tapa, arriscando-se, ousando, equilibrando-se numa linha tênue, desnudando-se. Há aqui uma visão de perspectiva, como se o “fotógrafo” enquadrasse o modelo de baixo para cima, dando o efeito de desproporção. O pé e a mão são gigantescos, descomunais, como se, com seu peso, com a gravidade, estivessem puxando o corpo para baixo, aprisionando em uma dimensão inescapável, só escapável no momento do desencarne, na libertação do espírito. É uma pele bonita, homogênea, da raça branca, talvez um autorretrato de Tarsila. A minúscula cabeça está repousada no braço ao lado, como se estivesse pensando, pois Tarsila foi uma grande cabeça, acima de mediocridades. A cabeça tem cabelos negros curtos, talvez pela influência das tendências capilares da época, numa Tarsila moderna, cosmopolita, citadina, abrilhantando a cena cultural brasileira. Os olhos estão tristes, mergulhados em reflexão e Filosofia. Vemos um nariz delgado e não vemos boca, numa face minimalista, num quadro tão simples em formas, no poder da Simplicidade. Mais uma vez, vemos um cacto sem espinhos, sem amarguras, como se fossem pernas de mulher depiladas, femininas, preparadas para o Mundo, na questão da autoestima – cuidar-se, amar-se, aceitar-se. Ao fundo, um Céu de Brigadeiro, límpido, majestoso, rico em claridade, iluminando o Mundo e os seres deste. Esta forma humana repousa em um monte verde, suave, sem recortes de picos espinhentos, acolhendo como em um lar perfeito, reconfortante. As mãos não têm unhas, numa preocupação de Tarsila em se ater ao essencial. O pé tem unhas em quase todos os dedos, e o mindinho está carente, sem unha, desprotegido, na sensação desoladora de um morador de Rua, entregue à própria sorte, como um cachorro abandonado. Acima, regendo tudo e todos, um brilhante Sol dourado, como uma deliciosa rodela de laranja, trazendo toda a doçura da riqueza agrária brasileira. O Sol é um grande olho que tudo observa, banhando seus filhos, esbanjando vida e energia, nunca deixando de brilhar entre as esferas do Sistema Solar. É como uma moeda de ouro, trazendo a riqueza que é a Vida, por Terra, Ar e Mar, trazendo os seres vivos à Vida. É como uma bola de espelhos numa boate, exercendo fascínio, sendo, ao mesmo tempo, perigosa – não olhe diretamente para ela, no modo como uma nação é pacífica mas, se provocada, irá à Guerra. Precioso como uma pérola gigantesca, o Sol, um dia perecerá, e Tarsila traz o Sol para perenizar este, eternizando-o na forma de Arte, garantindo que, pintado aqui, jamais deixará de funcionar, na intenção artística de desafiar o tempo e os prazos de validade, na busca pela Vida Eterna – Tarsila quer se lembrada. Este quadro é maravilhoso em sua simplicidade, colocando na tela somente o essencial, trazendo a limpeza espiritual tão almejada pelos rituais de purificação humanos: banhar-se, escovar os dentes, lavar roupa e limpar uma casa. A pele desta figura humana tem um brilho saudável, viçoso, jovial, sem qualquer indício de rugas ou marcas de expressão, do modo como o pensamento racional não perece. Este Sol é como a explosão titânica de uma supernova, abalando as estruturas da Arte, trazendo o inevitável – a Evolução, e os novos capítulos vêm.


Acima, Antropofagia, 1929. Mais uma vez, o sol que parece uma rodela de laranja, na riqueza gastronômica popular brasileira, num refresco revigorante e delicioso, como foi a Arte Moderna Brasileira. O título traz dois corpos nus, entrelaçados um no outro, e um grande seio lactante é revelado, nutrindo a Natureza, no vínculo forte entre mãe e cria, no modo como a amamentadora dá tudo de si para o filho, do modo como uma cachorrinha que tive, que, ao amamentar a ninhada, ficou desnutrida, numa mãe sempre se doando ao máximo pelos filhos, numa Tarsila dedicada. As cabeças estão sem rosto, sem olhos nem nada, apenas cabeças carecas, numa Tarsila atenta ao essencial, ao mínimo, à elegância comedida. Estes corpos formam um só, como numa simbiose vegetal, onde um organismo beneficia o outro, e vice-versa. Ao fundo, uma grande folha de bananeira, nas densas matas virgens brasileiras desbravadas pelos portugueses, num fruto tão barato e nutritivo como a banana, no modo como o grande artista se torna alimento para os olhos do espectador, como Tarsila alimentou (e continua alimentando) inúmeros olhos. Um pouco abaixo da folha, uma forma que parece ser uma espátula vermelha, no sangue pulsante da Miscigenação Brasileira, numa mistura única, sem par no Mundo. É o sangue derramado nas guerras, que dizimaram os índios, que outrora foram senhores das Américas. Mais uma vez, a paixão de Tarsila por cactos, sempre sem espinhos, sempre gentis e suaves, na delicadeza contraditória da transgressão: violar e acariciar, ao mesmo tempo, sempre respeitando a tradição, apesar de contrastar com esta. Ao fundo, um céu limpo, sem nuvens cinzentas de incertezas existenciais, sem a dúvida cinzenta do que nos espera após o Desencarne. O quadro todo tem formas arredondadas, sem arestas a ser aparadas, e o seio descomunal tem papel central na história contada aqui, entrando em harmonia geométrica com o Sol, o provedor, o Senhor dos Planetas, o Tao provedor, o qual, apesar de nascer e morrer no horizonte, jamais se esgota, na estabilidade e na continuidade da produção de um artista, sempre criando, com uma mente inquieta, fértil como a Flora Brasileira. Os rostos sem face são como bonecos, seres estritamente espirituais, metafísicos, livres das vicissitudes existenciais, realizados em sua simplicidade, vivendo uma vida simples e prazerosa, na delícia do metafísico mortificante, que traz a existência racional, sem as marés traiçoeiras das emoções. A folha de bananeira parece tremular em uma brisa suave, e podemos ouvir o sensual farfalhar das folhas ao vento, um barulho aveludado, como uma dama caminhando e fazendo farfalhar o seu próprio vestido, num barulho minimalista, sutil, e, em paradoxo, poderoso e forte, pois a sutileza é uma onda de tsunami: curva-te e reinarás, diz Tao. É como um jardim fabricado, com plantas e gramados artificiais, de carpete, como uma casa confortável, cheia de prazeres de comodidade, um lugar que acolhe e traz a Paz ao filho que ali mora, no prazer de quem produz e contribui para com a Sociedade. Os tons de verde musgo trazem densidade e discrição, numa Tarsila também discreta, colocando a própria (aguçada) mente a serviço do Mundo.


Acima, Cartão Postal, 1928. Uma mãe macaca e seu macaquinho repousam alegremente em um galho – cada macaco no seu galho. Simples casinhas brancas e rosas trazem lares simples, acolhedores, sem as sobrecargas das vaidades humanas, que tanto atormentam a Sociedade. As folhas da árvore onde repousam os símios têm formas de coração, numa Tarsila tão apaixonada por Arte, tão envolvida em produzir com amor de mãe. O longo e forte rabo da macaca-mãe agarra-se ao tronco, como uma forte âncora, responsável por trazer estabilidade ao navio, fazendo Tarsila manter os pés no chão, concentrando-se em produzir obras dignas de reconhecimento. A vegetação é frondosa e abundante, brasileira. O Sol tem um formato oval, num mágico ovo de Páscoa, banhando de ouro as abençoadas terras tupiniquins, e abençoando Tarsila, a queridinha do Modernismo. Ao centro do quadro, parece ser o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, com suas rochas intimidantes e monumentais, enormes. Esta Baía da Guanabara tem uma água limpa, azul, deliciosa, e podemos ouvir o som de Bossa Nova, na tranquilidade morosa do carioca. Além do Pão de Açúcar, vemos mais formações gigantescas, num Rio de Janeiro abençoado por Deus, o Sol Criador, o fértil ovo. No lado esquerdo do quadro, duas palmeiras de proporções titânicas, desafiando a Lei da Gravidade, como na flora do Jardim Botânico do Rio, imperiais, altivas como os Orleans e Bragança. Ao lado do Pão de Açúcar, uma ponte, ligando lugares e pessoas; ligando Tarsila ao mundo de espectadores e admiradores. Aqui, temos uma tropicalidade idealizada, como a índia Iracema, de beleza arrebatadora.  A grande árvore à direita tem raízes fortes e profundas, trazendo estabilidade à copa, no modo como o Brasil se liga à Copa do Mundo, na tradição brasileira em torno do Futebol. A Arte se enraíza no indivíduo, provocando uma avalanche de percepções, pois, sabemos, a função da Arte é tocar o Humano, tornando-se indicador da Inteligência, do Metafísico.


Acima, O Pescador, 1925. As copas das palmeiras parecem aranhas, tecendo pacientemente suas teias, com uma precisão matemática. Parecem folhas de maconha, numa erva que anuvia o pensamento do usuário. Por todo o quadro vemos formas que parecem ovos, de várias cores, guardando vida dentro de si, esperando pela hora da desova, como um artista faz a desova de uma obra ou de uma exposição, esvaziando-se, colocando seus “filhos” no Mundo, com orgulho de mãe. A água aqui é doce e plácida, tranquila, muito calma, e o pescador exerce com calma e prazer sua função, captando um peixe em sua rede. O peixe é o alimento essencial e diário, na luta pela Vida, como índios homens de uma tribo, com a função de sair de casa e pescar ou caçar, na eterna divisão de tarefas entre homens e mulheres. O chapéu do pescador é a proteção, o resguardo, como usar filtro solar na beira da praia, na ação de precaução. A camisa e calça do pescador estão arregaçadas, não só para poder colocar os braços e pernas n’água, mas também para aguentar o calor tropical brasileiro. Mais ao fundo vemos morros arredondados que parecem seios femininos, na Terra Mãe, sempre provendo seus filhos, sempre exalando vida, como um belo chafariz, jorrando cornucópia, como as pérolas que Iemanjá dá aos pescadores, simbolizando a riqueza dos frutos do Mar. Como vemos com frequência em Tarsila, um céu plácido e limpo, glorioso, pacífico, sem as arestas do mau tempo, da chuva impiedosa, dos céus cinzentos e incertos da dúvida existencial – Tarsila retrata um Brasil ideal, paradisíaco, no desejo de ver o Brasil se tornando um lugar belo e harmonioso. Vemos pitorescas casinhas de pescadores, simples, convidativas, num lar que recebe o convidado oferecendo um cafezinho. Tarsila gosta dos biomas brasileiros, sendo uma amante da Natureza, numa época em que o Ambientalismo ainda não existia. Ao lado do pescador, uma planta de pontas afiadas, abrasivas, em meio a uma base inóspita, simbolizando o milagre da Vida, de um ser que encontrou força para prosperar na adversidade. Vemos também folhas gigantescas de bananeiras, num tropicalismo pré-Carmen Miranda e pré-Bossa Nova. Podemos ouvir o delicioso ruído de águas plácidas, como no reconfortante útero materno. Tarsila adora a simplicidade, e, em vida, deve ter sido uma pessoa simples, sem afetações ou frescuras. Inteligente.


Acima, Operários, 1933. Os rostos mostram a diversidade racial brasileira, com peles de vários tons, numa riqueza cromática, na diversidade. Ao fundo, as cinzentas chaminés industriais, jorrando fumaça aos céus, na “escravidão” industrial, onde tudo gira em torno de produtividade, exigindo o máximo de um operário, muitas vezes explorando este. Todos os operários aqui estão sérios, nunca sorrindo, numa vida dura e laboriosa, do modo como a Revolução Industrial trouxe uma nova escravatura, só que remunerada. Os prédios industriais aqui são impessoais, duros, num patrão que exige o máximo dos empregados. Seria este um manifesto político-social de Tarsila? Vemos apenas um homem de óculos, simbolizando a Intelectualidade, num trabalho duro que pouco exige da mente do operário, num trabalho subserviente, anônimo, que não traz muita realização pessoal. Os operários são anônimos tijolos em uma parede, indistintos, sendo apenas mais um impessoal peão no tabuleiro. Vemos tanto homens quanto mulheres, num mercado de trabalho aberto à diversidade de gênero. Vemos pessoas mais velhas e pessoas mais jovens, nas décadas que uma pessoa tem que trabalhar para poder se aposentar. É a passagem do tempo, e o indivíduo, involuntariamente, torna-se um agente desse sistema capitalista, onde tudo é dinheiro. Os operários olham diretamente para o espectador, trocando olhares, comunicando-se, expressando a cinzenta tristeza da vida de proletariado. Todos têm carteira assinada, e gozam de todos os direitos, num Brasil que não mais é exclusivamente agropecuário, num Brasil que está se industrializando, como no boom industrial chinês. A seriedade deste quadro é arrebatadora, e Tarsila faz questão de mostrar essa vida tão dura, de tantas horas de labor por semana. Talvez o operário esteja aqui de mau humor por se sentir mal-remunerado, na inevitabilidade do canibalismo capitalista, no qual o trabalhador acaba sendo lesado de alguma forma. É o Capitalismo, que só interpela quem tem dinheiro. Mais à direita, vemos um jovem negro, descendente de escravos, e o jovem, de algum modo, também é escravo, ironicamente, mesmo após o ano de 1888, na Abolição da Escravatura – a exploração do Homem pelo Homem não cessa.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Na Mira da Arte




O catalão Juan Miró emergiu como um dos principais artistas espanhóis da História. As formas simples e abstratas de JM continuam a fascinar o Mundo. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Azul II, 1961. O traço vermelho é como um ferimento sangrando, sendo vestígio de uma agressão, de uma transgressão, do modo como uma sociedade evolui a partir da transgressão de alguns de seus membros, no poder do Escândalo. É um traço tosco, estremecido, incerto, e é um falo descomunal, tentando impor ordem e razão a um mundo de caos. É como uma brecha, a entrada de uma vagina, no aspecto de ferimento, do modo como os transexuais se castram voluntariamente, almejando serem considerados mulheres pela Sociedade. O clitóris tem esse aspecto de castração, como se fosse uma genitália masculina castrada, mortificada, desprezada, algo que vai contra o Espiritismo, que diz se deve mortificar o espírito e não o corpo, mas cada um é livre para viver como quiser, e, nesse sentido, há o conceito de Livre Arbítrio do Espiritismo. Este quadro tem formas incertas, como se tivesse sido concebido através de um acidente, de porções de tintas caídas ao acaso sobre a tela, mostrando as saudáveis transgressões das Artes Plásticas no Século XX, um século de inovações, como o surgimento do Cinema e, mais ao final, da Internet. Este traço rubro deixa uma espécie de rastro, como cocozinhos de ovelha, do modo como as fezes representam a catarse: a expulsão de algo que, não expulso, estava fazendo mal ao indivíduo catarseante. São como esferas de um mesmo sistema solar, como uma família, com vários irmãos sendo criados debaixo do mesmo teto, num útero em comum, um tronco em comum, na Árvore da Vida. Os pontos negros são incerteza, num Miró que presenciou a Guerra, tendo esta deixando um rastro de destruição e amargura, no caos bélico, onde as pessoas padecem de fome, em meio a vidas dilaceradas e almas assassinadas. Ao fundo, temos um azul como Céu de Brigadeiro, limpo, claro, num Miró observando com certeza e clareza a própria existência. Só que, neste céu tão bonito e aberto, há os pontinhos negros de Morte, de incerteza, numa dúvida existencial: para onde vou? Miró não finge ser uma pessoa resolvida, uma pessoa absolutamente sem fraquezas ou inseguranças, pois quem entra em contato com a própria fraqueza, fica forte, no discernimento taoista: curva-te e reinarás. O céu azul também tem um quê de tristeza, mesmo frente a um dia tão ensolarado, pois os pontos de escuridão “poluem” a cena e trazem a indefinição do Ser Humano, indefinição esta que acaba por nortear as atividades humanas, como a Arte, pois um ser humano só pode fazer Arte sendo humano, incerto, inseguro, pois não haveria algo mais repulsivo do que uma pessoa que posa como dona da Verdade. A insegurança traz estabilidade. Os pontinhos parecem fazer fila, como patinhos seguindo a mãe, e esta mãe é o risco vermelho de sangue, de guerra, de morte violenta, como inúmeros mortos no Holocausto. Miró sabe que a Vida não é belíssima, e abraça este fato feio. Os pontos negros são como ilhas em um oceano paradisíaco, do modo como se diz que ser mãe é padecer no Paraíso. Estas ilhotas são incertezas cercadas, ilhadas, isoladas, e o artista consegue esse isolamento, do modo como o Ser Humano precisa de um pouco de solidão para produzir, pois nada mais doloroso do que estar, o tempo todo, cercado de pessoas – cada um tem que se recolher de vez em quando, e é esta a solidão saudável do estúdio do artista, de qualquer artista. O fundo azul é uma sopa, nutrindo, com ingredientes jogados aleatoriamente, e o líquido aqui está completamente parado e estagnado, pacífico, e tudo aqui paira em paz. O azul é a sensualidade da beira da praia, um espaço vazio, uma lacuna pronta para ser preenchida por vida, por pessoas, e é neste vazio onde reside o fascínio, como um copo, que brilha ao ser utilizado, sendo preenchido de água que mata a sede – propósito, função, dignidade, identidade. O traço vermelho, quente, contrasta com o azul frio, numa tentativa de equilíbrio, de obter uma temperatura ideal – nem quente, nem fria. O artista obtém estabilidade ao produzir, servindo ao Mundo, às demandas infindáveis do Mundo. Neste quadro há um equilíbrio de formas, nos mistérios assimétricos, como numa equação matemática. E esta causalidade, essas formas que pingaram por acidente, trazem o papel lúdico da Arte: ter senso de humor é imprescindível.


Acima, Mulher em Frente ao Sol, 1950. Seria a bola vermelha o Sol nascente da bandeira japonesa? Uma poça d’água quente, fervendo, num Miró ardente em criatividade. Três asteriscos brilham como estrelas, como nas Três Marias do Cinturão de Órion, guindo navegadores. São três mucosas anais, prontas para expelir o que deve ser expelido. Esta mulher é estranhíssima, com um olho só, no famoso personagem Guiodai do seriado japonês Changemen, ou como no monstrengo simpático do filme Monstros S.A., ambos com um só olho e uma cabeça descomunal, abrigando um cérebro grande, brilhante, como numa barriga de mãe pronta para o parto, pronta para fazer Arte. Os braços e pernas da mulher são curvos, parecendo um desenho infantil, numa criança se esforçando para se expressar ao Mundo. A mulher aqui tem um grande olho onisciente, que tudo registra, tudo controla, como num regime totalitário, ditatorial, que vigia e controla impiedosamente seus próprios cidadãos, como câmeras de um Big Brother, numa clareza fascista, como um corpo sendo velado por muitos olhos, num defunto pronto para levantar e avisar que não morreu. As estrelinhas ao redor são o encanto de uma fada, e uma das pernas da mulher segura uma varinha mágica, ou um pirulito, ou um cetro, reinando sobre o Povo. O cabo longo é a regência fálica, pronta para punir o cidadão que ferir a Lei. O corpo da mulher é num formato de saia, e o olho descomunal tem um formato de balão de festa de criança, num Miró que se diverte ao criar, na empreitada dos homens querendo ser mães, genitoras. Este balão a gás sobe aos Céus, nas alturas de sonhos, na marcha do Ser Humano para se libertar e viver feliz, sem tanta dor. No cabinho desse “balão”, um formato de gota vermelha, num nariz sangrando após sofrer uma agressão, numa lágrima rubra, cheia de vida, de dor e de propósito. Ao redor da cabeça da mulher vemos tentáculos, como uma Medusa, aprisionando e destruindo homens, castrando-os. É um polvo com várias faculdades, como um deus hindu, como um macrófago, que se alimenta das bactérias que fazem mal ao Organismo. O artista se nutre dessa bactéria, e produz Arte, curando-se de dentro para fora. O grande Sol vermelho está abaixo da mulher, e não sabemos se está nascendo ou morrendo, do modo que, sempre morrendo, o Sol renasce, nos mistérios da Ressurreição de Jesus, que deixou a Dimensão Material para trás e (re)ingressou no Plano Metafísico, onde tudo é mental e nada é material, numa dimensão em que as riquezas mundanas são desprezadas, trazendo, assim, felicidade incondicional. Este sol não é perfeitamente redondo, é incerto, imperfeito, e assim Miró o quis, como se o sol estivesse sofrendo influências de força maior, perdendo sua perfeição e ingressando nos maravilhosos meandros imperfeitos da Arte. Os asteriscos cercam a mulher como se quisessem protegê-la e abençoá-la. O sol está em segundo plano, superado pela mulher gigante, e é como uma bolha de sabão, tortuosa, fluidia, ultrassensível, podendo se desfazer com um simples toque ou sopro – é a fragilidade do Ser Humano. Os asteriscos têm pontas espinhosas e agressivas, e dão um aviso: mantenha-se distante. As pontas estão prontas para estourar o sol rubro, mas não parecem ter o mesmo poder sobre a mulher, a qual reina no quadro, preenchendo-o. É o enigma dos desenhos infantis, no qual a mar é retratada de forma gigantesca, como no famoso personagem Babyssauro, que chamava o próprio pai de “Não é a mamãe”. E por que um só olho? Porque representa a unidade do ser, que tem que ter uma vida só, uma única e simples vida, nunca almejando as sujeiras das vidas duplas. O olho uno é o desejo de paz e integração, e o círculo rubro é um doce tomate, suculento, pronto para ser devorado, no prazer de comer. Aqui, a cabeça da mulher imita o sol, tornando-se o único caminho, a única porta, no inevitável destino – o desencarne. De cabeça para baixo, o quadro parece trazer um tamanduá com um longo bico, nutrindo-se de uma ameba deliciosa e nutritiva, na luta pela Vida. O olho amarelo é o pus, resíduo da luta contra visitantes indesejados, no ato catártico de expulsão.


Acima, Ouro de Azure, 1967. O quadro tem um calor sedutor, num Miró sempre atento às cores, numa vibração espanhola, latina, apaixonada. Mais uma vez, vemos os asteriscos estelares, com traços um tanto tortuosos, incertos, infantis, trêmulos. O círculo azul, cercado por uma aura branca, num formato um tanto oval, é o fértil ovo de Páscoa, numa cor arejada, ao ar livre, na esfera azul que é a Terra, vista do Espaço pelos astronautas, fazendo estes crer em Deus, em uma inteligência suprema, que arquitetou o Universo. O ovo está prestes a explodir de vida, trazendo seres ao Mundo, numa passagem, como Jesus passou ao Mundo Espiritual e os judeus fugiram do Egito. Vemos um pequeno e discreto ponto em vermelho, como um semáforo que tenta impor ordem a um mundo de caos, tentando reger a Humanidade, tendo esta tentativa frustrada por tantas e tantas vezes, fazendo-nos crer que Tao tem paciência eterna para com os pecadores, assim como é rezado na Ave Maria. Este amarelo áureo enriquece o quadro, no prazer de um Sol quentinho no Inverno, numa consolação, na promessa de um Mundo mais elevado, espiritual. É como se pudéssemos olhar diretamente para o Sol, mas este nunca podendo ferir ou ofuscar nossas vistas, num Sol vibrante, porém clemente, num ponto de equilíbrio, de ponderação, numa contradição: é forte e fraco, ao mesmo tempo. Há também no quadro elementos negros, como gotas de piche à beiramar, sujando a orla, dando-nos um aviso: estamos inseridos, entranhados na Dimensão Material. Portanto, não devemos construir ilusões em relação a uma dimensão tão dura, tão exigente, como um duro professor, que cobra o máximo do aluno. Os pontos pretos são partes queimadas, carbonizadas, num fogo que fere e viola, como num sinistro que ocorre do nada, destruindo, do modo como a Gastronomia é uma Arte fadada a ser destruída pela mastigação e pelo estômago. A grande curva negra, em forma de “C”, é um momento de guinada, em que o artista olha a si mesmo e chega à conclusão de que é Arte o que quer produzir, numa pessoa encontrando a si mesma nos labirintos existenciais. A curva negra é como uma grande lombriga, um sociopata parasita, que se alimenta de almas, sendo um verdadeiro vampiro: o sociopata fica feliz com a infelicidade dos outros; o sociopata fica infeliz com a felicidade dos outros. É uma curva bem fechada, na estrada da Vida, e nunca sabemos ao certo o que iremos encontrar ao fim da curva, nessa estrada tão imprevisível, na qual nem tudo sabemos. Na extremidade direita da curva, uma forma que parece ser uma torneira, no dispositivo da Vida: a Água é essencial, e Miró tornou-se essencial à Arte Europeia. Bem ao centro do quadro, outro traço negro, só que mais sutil, discreto e delgado. É como se o traço quisesse dividir o quadro em dois, do modo como Jesus dividiu em duas a História da Humanidade. Em comparação à linha grossa, esta é uma linha fina e elegante, a qual nunca tenta se apoderar do quadro, sendo sempre subestimada, sendo quase invisível. Esta é uma curva mais suave, não tão fechada, na sensualidade das ondas indo e vindo, respirando à beiramar. Os pontos negros são como se o quadro tivesse sido usado como alvo de flechas, estando ferido, violado, estuprado. São como cigarros terem sido apagados nele, marcando-o para sempre, no trauma do Nascimento: vir ao Mundo é o primeiro grande trauma do Ser Humano, saindo do conforto zeloso do útero, enfrentando o Mundo lá fora, tendo que ser corajoso e aventureiro. O “ouro” do título é uma almejada medalha, no topo de um pódio, na intenção dos artistas em busca da valorização.


Acima, Paisagem Catalã – O Caçador, 1924. Mais uma vez, o sedutor Sol espanhol de Miró, dourado, abundante, rico, deslumbrante. Na extremidade superior esquerda, uma estrela negra, seguida de traços que fazem-na parecer a Estrela de Belém, que guiou os Três Reis Magos até a Manjedoura. A estrela, então, tem o papel de guia, de referência, guindo Miró em meio à produtividade, na magia natalina de um pinheirinho cercado de presentes, em meio à magia da Infância, com doces lembranças, como o Cidadão Kaine lembra carinhosamente de seu trenó Rosebud, com o qual, quando criança, brincada na neve, tendo Kaine passado por um trauma, sendo arrancado à força do adorado trenó, lembrando deste em seu leito de morte. Quase ao centro do quadro, vemos uma flecha fálica, agressiva, ditando ordens, direcionando a vida em Sociedade, estabelecendo noções e leis, as quais precisam ser respeitadas, pois, se não, o Caos toma conta do Mundo. É o caçador. Na porção inferior do quadro vemos uma serpente, sinuosa e sexy como o curso de um rio, atravessando vales, rebolando como numa lambada, ou fluindo poeticamente como em uma valsa, numa sensualidade elegante, desprovida de vulgaridade. Cruzando o quadro de ponta a ponta, vemos linhas que parecem ser de um exame cardiológico, no coração de Miró pulsando e construindo obras, apaixonado, vindo de um país que, um dia, foi a nação mais poderosa e temida da Europa. Essas linhas que cruzam o quadro são como picos de montanhas, espinhosos, prontos para agredir e ferir quem ousar chegar mais perto. Na extremidade superior direita, um círculo rubro, como uma lareira que seca a umidade, trazendo consolo em um dia úmido e frio de inverno. A bola vermelha parece se mover, deixando um rastro à sua direita, assim como a Estrela Guia, como pegadas na areia, fadadas a ser deletadas pelo simples galgar das ondas à beiramar. Acima da serpente, uma forma que parece ser uma mulher, com um corpo sinuoso, com seios e glúteos, num vestido como o de uma Mortícia Adams, uma mulher sedutora, pálida, dramática. Sua cabeça é um simples círculo, como uma poça d’água, num Miró sempre atento à simplicidade, nunca querendo carregar o quadro com elementos desnecessários. Por todo o quadro vemos outros elementos, e as nuances douradas trazem tanta riqueza. Ao lado da mulher, vemos uma forma estilizada, que parece ser um homem com os braços para cima, como numa grotesca pintura rupestre, na tentativa humana em perenizar o efêmero, produzindo registros que, mais tarde, transformar-se-ia em letras, trazendo o Homo Sapiens à Era da Civilização. Pelo quadro vemos várias outras formas redondas, como, por exemplo, os círculos concêntricos ao lado da bola vermelha, a qual é um nariz de palhaço, na missão da Arte em entreter, fazendo nascer as Artes Cênicas e, depois, o Cinema. Os círculos concêntricos são como linhas de planetas em rotação, em torno de uma estrela, uma mãe, um Sol capaz de trazer calor e, assim, estimular a Vida, impedindo que um planeta vire uma mera bola de gelo impenetrável e morto. É a dança dos planetas em torno de algo maior, como no topo de um bolo de casamento, no qual reina o casal de noivos; como numa sociedade monárquica: o rei (ou a rainha) é o cidadão mais importante do reino, na tentativa do Ser Humano em imitar as obras de Deus, as quais são infinitamente maiores e melhores do que as do Ser Humano. O artista cria como Deus cria, e este é um artista incansável, sempre criando. Portanto, só resta ao Ser Humano imitar Tao. No lado esquerdo da mulher, uma forma que parece ser um moedor de pimenta, trazendo calor e diversão à comida, na apimentada paixão espanhola, na beleza arrebatadora da Dança Flamenca, celebrando a vida e a vontade de viver, de vencer, de crescer, de se aprimorar. Ao lado do sistema planetário, um ponto negro oval, como um OVNI, bisbilhotando a Terra, tentando compreendê-la, na vontade do artista em entender a Vida, trazendo esta para o nervo da Arte. Temos um catalão apaixonado pela própria terra, sendo, inevitavelmente, amado por esta também. Nunca ouvimos falar que Amor é tudo?

quarta-feira, 7 de março de 2018

O Nascimento de um Gênio do Renascimento




Há poucos dias eu estava caminhando na Rua e vi um rapaz com a perna tatuada, e a tatuagem era nada menos do que O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. Este rapaz tatuado mostrou ser fã do artista, ao ponto de viver para o resto da vida com a pele daquele modo. Sandro foi uma das maiores estrelas do Renascimento, em quadros que trazem um frescor incrível, nos ventos de renovação que varriam o Mundo Ocidental da época, numa Europa navegadora. Outra memória que tenho, só que mais remota, é a de uma coleção de livros chamada “Gênios da Pintura”, de propriedade da biblioteca dos meus pais, e na coleção me deparei pela primeira vez com o encantador Sandro, e fiquei hipnotizado pelos tesouros renascentistas. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, A Anunciação de Cestelo, 1490. O anjo se curva perante a majestade de Maria. O anjo segura um ramo de flores, simbolizando a feminilidade, a sensualidade da Natureza, a força da Vida, vida esta que, a partir do momento da Anunciação, toma corpo de forma imaculada dentro do útero virgem de Maria. A virgindade faz metáfora com a concepção divina, no sentido espírita de que Deus nos faz do nada, de modo totalmente espiritual, sem a interferência da Matéria, pois pensamento é tudo; matéria é nada. É claro que, na história real, Jesus foi um homem de carne e osso, e foi um feto que resultou da junção de um óvulo com um espermatozoide. A Imaculada Conceição é carregada de simbologia, simbolizando o aspecto metafísico do espírito, o qual habita feliz a Dimensão Metafísica, para onde vamos quando desencarnamos. A virgindade representa a ausência de agressividade, do modo como a noiva pura e casta, toda de branco, é entregue ao noivo na igreja. A janela aberta dá um respiro, um sopro de renovação, e Maria diz “sim” ao Anjo – Maria não oferece resistência e cede passivamente, do modo machista como uma mulher não pode ter o controle sobre sua própria vida. Na cena, vemos um personagem marcante – uma árvore. Ela representa a Vida, no menino que começa a ser gerado no interior intocado de Maria. A árvore é a força da Natureza, pulsando e gerando frutos. Ao fundo, vemos um reino muito bonito, o Reino dos Céus, no qual reina a Ordem e a Paz, na promessa de um mundo melhor do que a Dimensão Física, a qual é caótica e aguerrida, longe do útero limpo de Maria – a Virgindade representa a limpeza de Tao, atentando-se ao essencial, ao minimalista indispensável, visto que a cor branca simboliza a limpeza, do modo como tomar banho, lavar uma roupa e limpar uma casa é, também, uma faxina psicológica. No chão vemos a angulação de perspectiva, recurso muito marcante no Renascimento. Tanto o anjo quanto Maria vestem-se de forma luxuosa. Maria é bela, uma deusa, e suas feições transmitem a ideia de imaculação. Ambos têm aureolas que denotam divindade, no plano de Tao sendo colocado em prática, projetando colocar no Mundo um espírito absolutamente aprimorado e benéfico – Jesus. Ao fundo na janela, um rio corre sinuoso, sensual como a Serpente do Éden, no pecado capital da Luxúria. O rio é o curso da Vida, sempre fluindo, nunca se estagnado nem se esgotando. É a vital água, essencial, insípida, incolor e inodora, assim como Maria, pura como um cristal translúcido, leve, elevado. A janela aberta é a Vida respirando sobre a cena da Anunciação, e parece ser um fresco dia de Primavera. Maria e o anjo vestem um véu extremamente fino, vaporoso, um tecido fino demais para existir na Dimensão Física. A leveza do véu é a leveza de uma mente virtuosa, nobre, nunca pesando, nunca causando incômodo, nunca sufocando a Vida. Embaixo de seu manto hierático, Maria revela um vestido de cor rosada, na cor do interior uterino, da Feminilidade. Ironicamente, podemos ver que a barriga de Maria já está com aspecto inchado, ou seja, Jesus já está sendo gerado e está a caminho do Mundo, mudando este para sempre. O anjo e Maria quase se tocam, e têm dedos delicados e aristocráticos, finos, polidos. Ao lado de Maria, um livro, representando as mulheres letradas da Aristocracia, numa época em que o Conhecimento não era amplamente difundido. As paredes da cena são de um cinza escuro, discreto, na discrição da própria Maria. E as flores do anjo se abrem para o Mundo, espalhando deslumbrante perfume, do modo como Tao é fino.


Acima, A Primavera, 1482. Esta é uma das cenas mais deslumbrantes do Renascimento, fazendo metáfora: o frescor da Primavera junto ao frescor renascentista. Grávida, representando a Vida, a Primavera está no centro, no nervo da cena, como Nossa Senhora. Acima, um querubim se preparando para atirar a Flecha do Amor, espalhando Romantismo no quadro, e o ato de se apaixonar traz todo o frescor primaveril, numa sensação deliciosa. Aqui, a Vida pulsa irrefreavelmente, e as flores trazem essa força implacável. Podemos ouvir “A Primavera” de Vivaldi. Vemos quatro donzelas quase nuas, vestindo um vaporoso vestido translúcido, no culto renascentista ao Corpo Humano, no Antropocentrismo, num momento em que o Vaticano não mais podia dominar culturalmente a Europa. Na extrema esquerda, o rapaz colhe um fruto, na sensualidade da Maçã do Éden. O rapaz também está quase nu, e porta uma agressiva espada, a qual representa o Pensamento Racional, do modo como o Paganismo Grego gerou gênios da Filosofia, e a Antiguidade Clássica, morta havia muitos séculos, retoma a Europa de assalto. O querubim mira em uma das donzelas, talvez querendo fazer com que ela se apaixone pelo rapaz, cuja espada é o senso competitivo de Botticelli, havendo em Florença uma competição atroz para ver quem seria o maior renascentista do Mundo. A donzela na extrema direita tem ramos de flores saindo de sua boca, na fertilidade da imaginação artística, na criatividade sempre germinante de Botticelli. Ao lado desta donzela, uma mulher totalmente estampada de flores, na beleza da vida que renasce após o Inverno gélido e desolador – é o milagre da Ressurreição de Jesus, que desencarnou e foi para um plano onde é sempre Primavera, sempre fresco e novo. É um quadro de predominância feminina, e Botticelli dá protagonismo ao Yin. Ao contrário do rapaz, as moças estão de pés descalços, pisando em um chão repleto de flores silvestres, flores que não tiveram que ser plantadas pelo Homem para florescer: elas simplesmente aparecem nesta época do ano, no milagre da Vida. A moça florada também está grávida, como se quisesse concorrer com a Virgem Maria, na junção renascentista entre sacro e profano; entre católico e pagão. Gordinho, o querubim é o Amor apaixonado, entrelaçando pessoas, na Divina Providência, que faz com que as pessoas passem umas pela vida das outras, nas teias de perfeição de Tao. Neste quadro, o fundo é um tanto sombrio, para fazer contraste com as formas humanas, que são mais claras, num jogo capcioso entre claro e escuro. A única figura humana escura do quadro está na extrema direita, repreendendo a moça de cuja boca saem involuntárias flores. Botticelli nos traz rostos humanos de beleza atemporal. As barrigas volumosas das donzelas são como ovos de Páscoa, no fascínio da Vida, que surge aparentemente do nada. Bem ao fundo, um céu límpido e azul. Vemos um Botticelli em seu estúdio, pintando a partir de modelos humanos. Na cena, a flecha do cupido está pronta para “perturbar” a Paz e a Inocência, visto que o rapaz e as três donzelas ao lado não parecem estar ainda apaixonados. E a Virgem ao centro rege a cena, mas nunca fazendo com que a Igreja impeça os ventos de renovação renascentista. A flecha do cupido e a espada do rapaz são um só, numa pitada de agressividade em um quadro tão feminino, perfumado e harmônico. A flecha é a Maçã do Éden, pronta para desvirginar, numa pitada necessária de agressividade, sendo esta ausente antes da maçã da inocente Branca de Neve ser mordida, pois temos em Jesus Cristo uma certa agressividade na hora de tecer críticas à Sociedade e ao Homem, do modo como Tao também critica amplamente os vícios e defeitos do Ser Humano.


Acima, O Nascimento de Vênus, 1486. Certa vez, no Cinema, a deslumbrante atriz Uma Thurman encarnou esta Vênus de Botticelli, e anjos vieram e vestiram-na. Aqui, temos toda uma simbologia, pois o Mar é associado ao sexo feminino. O cheiro de oceano é agregado ao sexo de Vênus, que se mostra muito tímida, uma dama recatada, cobrindo o sexo com os longos cabelos e cobrindo também um dos seios. Temos aqui uma Gisele, com seus cabelos ondulados seguindo as ondas do mar, no Calçadão de Ipanema, com os fios balançando docemente na brisa da orla, na sensação de liberdade que a beira da praia traz, com o ar puro vindo das entranhas oceânicas. Vênus nasce em uma concha como se fosse uma pérola, e revela-se uma virgem intocada, nascida pura d’água, limpa, perfumada. A concha aberta traz uma revelação, e a beleza é revelada, antes oculta e secreta. Seus cabelos estão um tanto revoltos sob o trabalho do Senhor dos Ventos à esquerda, que sopra como o sopro de vida que traz Vênus ao Mundo. Seus cabelos nunca foram cortados na vida, e é como uma Rapunzel, passiva, pronta para ser salva e desposada por um homem nobre e paladino, armado com uma agressiva espada. O quadro todo faz uma ode à umidade, como água correndo da torneira, sempre gerando vida, hidratando os seres vivos, no fascínio da Água, o solvente universal. Vênus nasce como uma estrela, anunciando a noite e o dia, sempre precursora, brilhando límpida, clara, preciosa, cristalina, assim como a água. Sobre Vênus caem flores perfumadas, glorificando a deusa, num quadro sem alusões religiosas, apesar desta Vênus ser virgem como Maria, como uma Iemanjá nua. O olhar de Vênus é triste e desatento, nunca tendo consciência do fascínio que exerce, sempre humilde, sempre brilhando inconscientemente, hipnotizando a inspiração de Botticelli. Aqui, temos um brinde à Feminilidade, à Mulher, numa Vênus capaz de desarmar até os homens mais agressivos, como King Kong e Hulk. As flores caindo são a Glória, e a deusa revela uma pele clara, quase alva, fazendo metáfora com a Virgindade. À direita, uma aia trata de recatar a deusa, buscando cobri-la com um manto avermelhado de estampa florada, assim como o recatado traje da aia é floreado também, num brinde à Identidade Feminina. As flores nada mais são do que os órgãos sexuais das plantas, ou seja, neste quadro temos uma menção sexual implícita, mas forte. Os seios de Vênus são proporcionais – nem grandes; nem pequenos. O manto avermelhado é o sangue pulsante, que bombeia vida pelo corpo, no encantamento de uma mulher vestida de vermelho. Todos no quadro estão de pés descalços, mostrando a simplicidade artística, pois, para o artista, muitos aspectos mundanos são desprezíveis. É claro que aqui podemos ouvir o barulho à beiramar, com o som incessante de ondas respirando, vivendo, indo e vindo, como no coito sexual. Este mar está desabitado, e não vemos ao fundo sequer uma única caravela, numa época em que as Navegações bombavam. Este mar é doce e plácido, sedutor por sua suavidade, e temos em Vênus o toque de seda, suave, feminino. Ao fundo, um céu limpo e plácido, com orlas sendo beijadas pela água. Atrás da aia, árvores escurecidas, contrastando com a clareza da aia e de Vênus. Esta Vênus é uma menina que sempre foi criada para ser passiva, uma dama, nunca desenvolvendo agressividade, projetando esta em outrem, em homens. A beleza da estrela venusiana é associada ao feminino, enquanto a estrela rubra, da cor do sangue, é associada a Marte, o agressivo deus da Guerra, derramando sangue em combate, ao contrário de Vênus, que só produz sangue na Menstruação, no mistério dos ciclos lunares. Num detalhe muito discreto, no canto inferior esquerdo do quadro, alguns ramos de vegetação praiana, na geração da Vida, do modo como a Vida nasceu nos Oceanos, dentro d’água. Vênus traz os mistérios da Vida, enigmática, nunca se revelando por total. Este quadro traz, ao mesmo tempo, exibição e recato, numa Europa que começara a lidar naturalmente com a Nudez – eram ventos de renovação. Vênus nasce assim como o próprio Botticelli nasce como astro renascentista, numa metalinguagem: estrela falando de estrela. E a mulher atrás do Senhor dos Ventos está extasiada com Vênus, contemplando toda a beleza da deusa, querendo um dia ser como Vênus, do mesmo modo como, no ano 2000, Gisele nasce das profundezas e é revelada ao Mundo – o Ser Humano é atemporal e universal.


Acima, Vênus e Marte, 1483. Aqui, temos uma mensagem clara: o Yang rende-se ao Yin. O agressivo Marte está entorpecido, adormecido, dormindo deliciosamente ao som dos diabretes, os quase debocham de Marte, vestindo seu elmo e portando sua lança fálica. Marte aqui tem um corpo de atleta no auge de sua forma, quase nu, enquanto Vênus está devidamente vestida e recatada, expondo de si mesma apenas um pé, mãos, pulsos, rosto e parte do peito, num vestido comportado, o qual marca discretamente o formato dos seios. Marte está em um sono muito, muito profundo, relaxando, deixando de lago a tensa agressividade, tão necessária (e capital) no Campo de Batalha. Vemos aqui quatro diabretes, maliciosos, e esses diabinhos, além de ter cornos, têm os membros inferiores em forma animal, sugerindo sexo, numa Vênus que parece ter um cuidado materno, nunca tendo intenções sexuais para com a Estrela da Guerra. Esta Vênus está tranquila, serena, e Marte é como se fosse um feto, dormindo incessantemente dentro de um útero, absolutamente dependente da mãe, no vínculo do Cordão Umbilical, o qual é aniquilado no parto, e dois seres, que eram um só, separam-se no trauma da vinda ao Mundo Físico. Vênus e Marte repousam sobre almofadas confortáveis, e a grama macia, como a do Éden, convida a tirar os sapatos, como no filme Uma Linda Mulher, em que a mulher na grama tira os sapatos do homem para fazer este sentir o prazer simples de viver. Temos aqui uma Vênus triunfante, que obteve sucesso na intenção de acabar com as guerras, na promessa da Harmonia que reina nas Cidades Espirituais. No centro do peito, Vênus tem um broche em forma de flor, simbolizando a Beleza da Vida, no modo como é a Criação de Deus e, do mesmo modo, é obra Dele a Evolução de Darwin. Ao fundo, um bosque sombrio, num recurso frequente em Botticelli – o escuro embasando o claro. Ao fundo, ao centro, um bosque com colinas, num reino abençoado, vestido por maravilhosas roupas de vegetação. O diabrete ao centro olha para Vênus, e debocha (e diverte-se) com o sono profundo de Marte. Os corninhos dos diabretes remetem ao sexo, ao desejo orgânico de se reproduzir, do modo como o Adolescente entra em uma fase de libido, como disse Marta Suplicy em uma palestra que assisti em Caxias do Sul: “A Adolescência é uma fase em que se masturbar dez vezes por dia é perfeitamente normal”. E Marte está seminu como Cristo na cruz, mas este não estava inconsciente, bem pelo contrário – sentiu cada pulsar de dor na crucificação. Marte está anestesiado, sem qualquer dor, no prazer do Recruta Zero de dormir, dormir e dormir, assim como o célebre espírito Patrícia, que dormiu por muitos dias após desencarnar – o Pecado Capital da Preguiça se revela nesta obra de Botticelli. Um dos diabretes faz uma melodia sedutora soprando uma concha, a qual, como em O Nascimento de Vênus, simboliza o Mar e o Sexo Feminino, a liquidiscência. Vênus zela por Marte, num quadro de amor e dedicação de um pintor apaixonado por Arte. Outra interpretação é a de que Marte está morto, sem mais respirar, como se tivesse sido abatido em combate, descansando finalmente, com a beleza da Estrela D’Alva triunfando sobre os horrores da Guerra, trazendo Paz.