quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Seguindo Segall



Nascido na Lituânia e radicado no Brasil, o judeu Lasar Segall sentiu na pele a perseguição e o preconceito. Segall é uma estrela do Modernismo Brasileiro. Por coincidência, nos dias em que eu redigia este artigo, passava um documentário sobre Segall no canal por assinatura Arte 1. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Aldeia Russa. Este quadro, de tão longa data, hoje estaria esteticamente na moda, pois traz uma tendência contemporânea – linhas retas e oblíquas, num namoro com o Cubismo. Um homem e uma mulher descansam languidamente em uma tarde preguiçosa, apenas observando o Mundo, sem interferir neste. As cores são vibrantes e saborosas, sem espaço para dúvidas cinzentas de um dia encoberto. Essas linhas são como um diamante lapidado, no modo como um artista vai lapidando a si mesmo, em constante processo, nunca achando que atingiu a perfeição, nunca achando que não mais deve lutar pela Vida, pois tudo é processo, numa Vida ininterrupta. Aqui há tensão, sem espaço para linhas orgânicas e curvilíneas, num ar truncado, tenso, apesar de ser uma cena de descanso e preguiça. É como uma Vênus e um Marte de Botticelli – o Feminino está desperto, num momento de descontração e descanso, e Marte repousa profundamente neste cenário tão lânguido, sendo Marte o princípio que leva o indivíduo lutar pela Vida, batalhando por um espaço no Mundo. Mas, neste momento, o guerreiro está em casa e a vontade, no domínio do Feminino, num lar tão aconchegante e acolhedor, deixando do lado de fora o labor, a luta pela Vida, num momento de se desligar do Mundo lá fora, entregando seus sentimentos e tristezas nas mãos de Vênus, a sempre bela, pois, apesar de “beleza não pôr à mesa”, num mundo em que agressividade e atitude são tão capitais, temos uma Vênus calma e plácida, conquistando o conquistador Marte, numa naninha gostosa, em que Marte se entrega incondicionalmente, num ato de rendição. Ao fundo vemos colinas piramidais, abrasivas, na atitude marciana de pegar a lança e o escudo e ir à luta. São espinhos que têm um aviso muito claro – não chegue perto demais; respeite. Essas linhas fazem metáfora com a Internet, o ambiente abstrato em que todos estamos interligados por linhas tensas, unificando a Humanidade, na metáfora espiritual de que todos somos interligados psiquicamente, na ordem da Divina Providência, a grande Internet Cósmica, interligando os espíritos, no fato de que absolutamente ninguém está de fora, desplugado. São as tentativas humanas de entender o Metafísico, a Grande Mãe Limpa que rege a Vida na Terra, num poder tão intenso que mal pode ser detectado, tendo no Sábio um representante no Mundo, pois este Sábio é quem sabe que Tao é o único caminho. Tudo neste quadro está interligado digitalmente, numa época em que a Internet sequer era Ficção Científica. São as mentes modernas, avançadas, um tanto mal interpretadas em sua própria época. E os visionários, com o passar do Tempo, acabam vencendo, sendo finalmente compreendidos, como meu querido bisavô visionário foi o Pai da Festa da Uva de Caxias. Logo acima da cabeça do homem, dois círculos que parecem dois mamilos, no modo como a Grande Mãe alimenta seus filhos, suas criações, suas concepções, na mais deliciosa caixinha de leite condensado, irresistível, sempre nutrindo, sempre regendo, na poderosíssima metáfora da Virgem Maria católica. Neste quadro, podemos ouvir o som de pássaros à tarde, embalando o sono, seduzindo a tensão, abrandando esta.


Acima, Bananal. Toda a brasilidade de um bananal, no modo como Hollywood “vendeu” Carmen Miranda, numa perfeita cafonice americana. É como no filme Bananas de Woody Allen, em que este vai para uma republiqueta latinoamericana, regida por um ditador militar, sendo este cercado de privilégios em meio a um povo tão pobre, no modo como as ditaduras buscam forçar uma ordem artificial, aterrorizando o cidadão comum, escravizando este. O homem no quadro tem traços mestiços, brasileiros, numa boca de descendente de africanos, e é como se este homem fosse parte do bananal, numa pessoa nascida e crescida no Brasil, encantando o Mundo com uma cultura exótica e única, no modo como muitos franceses, até hoje, creem que o Brasil é uma terra selvagem e florestal, sem espaço para qualquer vida urbana. Este homem é quase um gorila, pois somos todos símios racionais, e os laços evolutivos vão moldando o Homo sapiens, na eterna dúvida humana: O Ser Humano é fruto de quê? Este bananal é denso, fechado e misterioso, abrigando muita Vida, seja vegetal ou animal, e podemos ouvir o som de grilos no fim de tarde, ou o som de araras coloridas, no modo como as pessoas projetam seu próprio inconsciente na Vida Tropical, e o caótico Id é projetado em criaturas exóticas. Pura Psicologia. O bananal se estende até onde a vista pode alcançar, num labirinto florestal que tem suas próprias regras. São como lanças apontadas em um grande campo de batalha, numa cena de enfrentamento, de alguém enfrentando a si mesmo, encarando fatos e levando a Vida para frente. É como um grande oceano verde esmeralda, cheio de joias e dádivas. Por quase todo este bananal, só vemos folhas, e vemos apenas um pé de bananas de fato, e estão ainda verdes, impróprias para o consumo, no modo como a humildade faz com que a pessoa, tendo os pés no chão, sinta-se sempre despreparada, sempre verde, sempre aprendendo mais e mais. As folhas de bananeiras são generosas, e este bananal oferece uma sombra ininterrupta, numa bela riqueza de tons de verde, como um James Bond estiloso, que seleciona cuidadosamente as cores das peças de roupa que vai vestir, trazendo a sofisticação do Homem Britânico, na combinação de dois fatores norteadores – agressividade e charme, ou seja, Masculino e Feminino, e cada ser humano precisa ter ambos, seja homem, seja mulher. Ao fundo no quadro, vemos um céu cinzento, destoando do clima tropical alegre, mas também trazendo um céu de nuvens carregadas, prontas para soltar uma grande tempestade tropical, irrigando o bananal e fazendo a Vida fluir, na sensualidade das grandes tormentas tropicais, com seus poderosos raios e trovões, mostrando todo o poder da Natureza, inspirando um artista a imitar tal poder, no termo que usa para dizer que tal artista “fez o chão tremer”; no modo se diz que um artista é, em seu próprio talento, uma força da Natureza, uma supernova, nas eternas tentativas do Ser Humano em entender o Mundo por meio de metáforas, como tantas tribos e civilizações idolatravam deuses que representavam tais poderes naturais. E tudo que um artista quer é isso – estourar como uma supernova. E as catarses se formam, fazendo um artista causar assombro e comoção. Podemos ver as folhas de bananeira balançando suavemente ao vento, e o farfalhar das folhas traz um som sensual e acolhedor, no sexy fato de que a Meteorologia é sempre processo, nunca se findando, no modo como o Ser Humano tenta, sem sucesso, entender a Eternidade, pois o Ser Humano é finito, nascendo e morrendo. Este bananal é um grande tesouro, numa exuberância generosa, no modo como os patriarcas unem suas próprias famílias, e, quando este patriarcas morrem, as famílias se desintegram – é a força da união, e só tem talento unificador aquele que atua sob Tao, no perfume dos grandes líderes, e não de ditadores. Por exemplo, Eva Sopher, a guardiã do Theatro São Pedro de Porto Alegre: Eva era conhecida, amada e respeitada, sendo certamente uma das maiores portoalegrenses de todos os tempos. Aqui, o homem está bem sério, muito sério, na seriedade das almas íntegras e dignas. Seu pescoço é um pilar forte, inquebrável, sustentado tudo e todos, unindo planetas em torno do mesmo astro.


Acima, Encontro. Um Segall romântico, no deus Eros, unindo opostos, na função fortemente representativa do casal heterossexual, o qual, em público, inevitavelmente, representa Yin e Yang, desde o momento do enlace, alimentando colunas sociais, no fato de que o Mundo precisa da união heterossexual para manter a Vida Humana sobre a Terra. A mulher aqui está de perfil, como numa moeda, no valor inestimável do casal que se une com fidelidade e integridade, sem chances para vidas duplas, ou seja, outra esposa ou esposo, nos moldes ocidentais de Monogamia, um verdadeiro tabu: só é digno quem é uno, fazendo metáfora com a integridade universal de Tao, o único Deus, sem espaço para deuses, pois somos todos irmãos, filhos do mesmo ventre metafísico. Vemos folhagens e um gramado muito verde, intenso, exuberante, no modo como o Modernismo abraçou a tropicalidade, buscando uma identidade brasileira, com artistas como Tarsila do Amaral, sendo reconhecida Mundo afora; como na Bossa Nova, que conquistou o Mundo também, casando-se perfeitamente com o Jazz, no sentido de que o Brasil, em termos de Cinema, por exemplo, luta para obter uma identidade inconfundível, sendo quase impossível se livrar da influência hollywoodiana. A mulher veste um azul nobre, num majestoso céu limpo, secando roupas no varal pelos quatro cantos do Brasil, no modo como o grande líder é aquele que trabalha junto ao seu próprio povo, e todos trabalham, acreditando na unidade nacional e no dia a dia de labor recompensador. O decota da mulher tem linhas elizabethanas, num ícone feminista que reinou em um mundo de homens. A mulher tem um corte de cabelo moderno, atual, rechaçando ranços acadêmicos, buscando inovar e se plugar com o Mundo lá fora. O homem está vestido de modo mais austero e discreto, na seriedade do dia a dia de um escritório, de um ambiente de trabalho. Seu chapéu o protege do Sol, no modo como a Arte protege a sanidade mental humana. A mulher é pálida, contrastando com um homem mulato, na junção entre dia e noite, fazendo parte da mesma esfera. O homem está elegante, trajado para ir trabalhar, despedindo-se da esposa ou amante, dizendo: Está chegando a hora. O dia já vem raiando, meu bem. E eu tenho que ir embora. A cidade ao fundo é plácida e limpa, e traz tons de magenta, vibrante, feminino, na cor do interior do útero, na cor da feminilidade, como no filme Legalmente Loira, em que a protagonista é ultrafeminina, espalhando charme e perfume por onde passa, nos encantos da feminilidade, de mulheres arrumadas, elegantes e sedutoras. É a autoestima, fundamental. A cidade está limpa e deserta, plácida, no encanto da Paz que reina no Mundo Metafísico, sendo a Paz muito frágil no Mundo Físico, o qual tende, o tempo todo, à Guerra, infelizmente. E a Filosofia não muda o Mundo, mas muda o modo do indivíduo ver este Mundo; muda o relacionamento entre indivíduo e Mundo. E isso é um pensamento encorajador. Os olhos do casal estão tristes no momento da despedida, e suas mãos então enlaçadas, no encanto do namoro de pegar na mão no escurinho do Cinema, nos recatados namoros de outrora. Os ladrilhos da rua são como escamas de cobra, na serpente sedutora do romance, sempre seduzindo o Mundo na beleza liquidiscente de um casal apaixonado, pois a Amor é lindo, seja um casal heterossexual ou homossexual. Aqui, o casal está quase se beijando, como se tivessem vergonha de fazer atos públicos de afeto, temendo represálias. As rugas na testa do homem conotam experiência de Vida; conotam um trajeto percorrido, na carreira de um artista que constrói um histórico.


Acima, Morro Vermelho. Uma Madona pós moderna, brasileira, na cor de Nossa Senhora Aparecida, num aviso: os negros são nossos irmãos, no mesmo sangue estelar que corre em nossas veias psíquicas. É o poderoso binômio mãe/criança, na metáfora de que a dimensão acima é nossa genitora. É uma paisagem bem tropical, carioca ou baiana, nas delícias tropicais de uma fruta suculenta, ou de um peixe bem temperado. As palmeiras são frondosas, como as de Los Angeles, EUA, e trazem toda a sedução do farfalhar de folhas ao vento quente, tropical, no hálito arrebatador do Oceano, renovando os ares sobre a Terra, uma esfera tão dinâmica a nível biológico. Os troncos são elegantes, esguios, tocando o Céu, numa elegância minimalista, resultando em uma copa exuberante, farta, como nas cores de uma paleta de um pintor. As palmeiras são a força da Vida, enraizando-se profundamente, num caso de amor com as entranhas da Terra, colhendo água de lençóis freáticos, como veias e artérias drenando um organismo. É a vitória da Vida. Um dos seios da mulher é claramente delineado, fornecendo o leite essencial ao bebê. O filho está protegido, acolhido e confortável, no acolhimento de um lar onde reina o carinho, a atenção e o afeto, no que significa um Lar, como na colônia espiritual Nosso Lar, uma espécie de condomínio fechado metafísico, onde os habitantes são iguais em apuro moral, com corações cheios de Amor, a essência de tudo. Qual seria o sentido da Vida com o Ódio? Sentido nenhum. O mar azul ao fundo é acolhedor, e nos convida a um banho, num ritual social de purificação. O céu, poente ou nascente, tem uma cor intensa, tuttifrutti, e traz um perfume delicioso, fino, na essência do que importa. Podemos ouvir o barulho das ondas deste mar, sempre banhando a orla, beijando a areia e deixando frutos do Mar para nutrir este litoral tão tropical. As palmeiras estão dispostas de forma ordeira, e não da forma “caótica” como o faz a Natureza. Aqui, são palmeiras plantadas premeditadamente, revelando uma ordem, uma lógica, no modo como as cidades espirituais são frutos de Arquitetura e Urbanismo de espíritos elevados, de bom gosto. No quadro, ao fundo, vemos edificações de linhas extremamente simples, como em favelas, mas não vemos pobreza, e sim simplicidade, pois são as linhas simples o que constrói grandes obras, como a Brasília de Niemeyer, com traços que trazem aos ouvidos som melódico de Bossa Nova, na “languidez” brasileira, deitada eternamente em berço esplêndido. É uma vila pacífica, mas não vemos outras pessoas além da Madona e da criança. Um silêncio toma conta da cena, como no silêncio produtivo de um atelier. O chão é terroso, simples, sem frescuras ou pretensões, na acolhedora simplicidade, a qual nos faz sentir-se em casa, na simplicidade de um chinelo, como na orla, lugar onde as afetações urbanas perdem toda a força. De um dos lados da mulher vemos um cacto de duas partes, como dois testículos, no modo como a mortificação psíquica é uma sensação de castração figurada, e não literal, no sentido de que o Espiritismo nos aconselha a mortificar o espírito, e não o corpo. Do outro lado da mulher, uma folhagem farta, que guarda os segredos da fertilidade, escondendo vida debaixo de suas folhas. É a imprevisibilidade existencial, no modo como nada acontece exatamente do modo como prevíamos, pois qual seria o sentido de uma Vida totalmente prevista? A mulher calça sapatos simples, sem salto alto, na pertinência de alguém que sabe que salto alto não foi feito para se bater perna. A Madona e a criança tomam lugar central na cena, um papel protagonista. Há aqui um equilíbrio, uma serenidade, num artista que encontrou equilíbrio psíquico na hora de produzir. É o prazer das mentes produtivas, visto que o Trabalho é o caminho para a Felicidade. E não é desafortunado aquele que não produz? O rosto desta Madona é simétrico, equilibrado. Sua seriedade é realista, ponderada. Ela sente que uma grande responsabilidade foi jogada em suas mãos. Na extrema direita do quadro, do ladinho do Mar, vemos uma caixa branca fechada. É a Caixa de Pandora, a qual jamais pode ser aberta, como me disse um psiquiatra: Não desperte a fera que existe em você. O Id tem que ser mantido sobre o controle do Superego: Mente sobre o Corpo.


Acima, Paisagem Brasileira. Como eu já disse, o Modernismo Brasileiro partiu em busca de uma identidade nacional. Em um livro que li sobre a História da Cidade de São Paulo, uma respeitada socialite tinha dois salões em casa para receber convidados: um salão era de decoração clássica e tradicional, para recepcionar pessoas mais conservadoras; o outro salão tinha uma decoração moderna e despojada, para receber pessoas mais modernas e vanguardistas. Isso faz metáfora com a necessidade de cada pessoa ter dois olhos – um tradicional e outro moderno, visto que a transgressão tem que respeitar o tradicional. Aqui, temos linhas quadriculadas e simples, numa simples vila ou favela, mas aqui não vemos pobreza ou privação, mas cores alegres, brasileiras, numa vizinhança feliz, onde há harmonia e amizade entre os moradores. Há vários espaços em verde, com gramados verdejantes, sem espaço para um gramado debilitado ou queimado pela seca. Uma Lua plácida e cheia ao alto nasce de trás do morro, na sedução de noites tropicais enluaradas. Estas casas de linhas simples entram em harmonia com os conceitos modernistas de Arquitetura, em projetos que, mesmo tendo sido desenvolvidos há um século, permanecem atuais até hoje, no modo como a simplicidade é arrebatadora, impecável. As janelas deixam o ar passar e a casa respirar, em ambientes arejados e saudáveis, renovados, na missão que a Juventude tem de inovar e causar progresso. Elegantes ciprestes ficam eretos apontando para o Céu, como setas apontando para o alto, como pirâmides, dizendo-nos de onde viemos, falando-nos de nosso lar primordial – o único lar. Ao alto, os morros e as nuvens formam um só organismo liquidiscente, como vapor d’água se espraiando numa sauna, nos rumos curvilíneos da fluidez universal, sempre nutrindo, sempre fluindo. É uma vizinhança plácida, e não podemos ouvir barulhos desagradáveis ou perturbadores; podemos ouvir o som de uma orla que não aparece no quadro, e podemos também ouvir os grilos tropicais. Este quadro é um quebracabeça, com peças perfeitamente encaixadas, findando um mistério, um enigma. É como um artesão supremo, numa Divina Providência que rege a Vida dos Humanos na Terra, na perfeição de teias certeiras, em concepções que nunca dão espaço a falhas, numa forma de governo que o Taoismo diz ser a mais sutil e poderosa de todas. Esse diálogo entre quadrados e retângulos é meio mondriânico, num quadro sem simetrias clássicas, como na planta projetada para um apartamento, com diálogo entre peças assimétricas, buscando a funcionalidade. São ruas e quadras de uma cidade pulsante. Em uma certa parte do quadro, vemos quatro círculos discretos, como olhos observando a noite, formas orgânicas como frutas num pé de limoeiro, na abundância cornucópica de uma farta mesa, cheia de comida. São os olhos do artista observando o Mundo, tentando entender este a tentando ser entendido pelo mesmo. É uma tentativa de diálogo, de entendimento, do modo como é difícil a vida para um esquizofrênico, o qual tem dificuldade para se expressar perante o Mundo. Essas casinhas nos convidam para entrar, num modo de vida que o Taoismo diz para o líder não interferir: Não interfira na vida pacata do cidadão. Essas multicores trazem pluralidade, num Mundo em que as diferenças têm que ser respeitadas. Quando digo que sou eu mesmo, é porque estou a vontade. Se estou confortável, é porque estou livre. Por isso, a Liberdade tem a ver com a individualidade, com a identidade, num ser humano que é único, com personalidade própria e inigualável. E é esta identidade que o artista tanto busca, qualquer artista, pois não é insuportável e medíocre um artista que copia outros artistas? Apesar das influências serem inevitáveis, a identidade própria tem que ser praticada.


Acima, Perfil de Zulmira. Temos um perfil de rainha egípcia, altivo, em toda a beleza de uma descendente de africanos. Sua orelha é pequena e graciosa. Sua sobrancelha está delineada impecavelmente, arrumada. Seu olhar é sereno. O perfil é o perfil do próprio artista, austero, íntegro. Seu cabelo está aparado ao máximo, num corte moderno, despojado, como no cabelo joãozinho de uma Elis Regina, mínimo, num indício de feminismo, numa mulher que, apesar de não ter melenas longas, é ainda assim feminina, na praticidade do corte de cabelo curtinho, no modo como o Modernismo, de certa forma, buscou uma praticidade, uma lavagem, uma revolução. Seu pescoço é perfeito e forte como um pilar, e seu tom de pele parece argila úmida, como se a Zulmira aqui tivesse sido feita de barro e animada por um deus grego, no modo como Zeus criou a Mulher Maravilha. Este é o barro nas mãos de Segall. Esta Zulmira é jovem, sem qualquer fio de cabelo branco, e sua pele é intocada, impecável. Seu queixo é proeminente, altivo. Ao fundo no quadro, vemos estampas floridas, trazendo perfume e delicadeza, e o pescoço de Zulmira é um caule que, apesar de gracioso, é forte como concreto, numa espécie de flor forte, fálica. Esta Zulmira está resoluta, e as flores voam pelo quadro como numa brisa primaveril, como na estação em que as azaleias brotam, enchendo os olhos de cor, na festa da Vida, da procriação. A flor é símbolo da força vital que rege a Terra: apesar de tanta força, há delicadeza, como num vigilante de raio x de aeroporto – firme, porém gentil. Mais ao fundo, vemos formas que parecem cortinas ao vento, respirando pela sala e ventilando as ideias do Brasil perante o Modernismo, convidando o brasileiro a abrir a mente para novas formas de Arte, mas sem ser em detrimento da Arte Acadêmica, pois é possível o convívio entre diferenças. As cortinas aqui são coloridas, no modo como o próprio Modernismo se mostrou um movimento colorido e vibrante, brasileiro. As cortinas esvoaçantes deixam a luz inundar o atelier de Segall, e Zulmira ocupa todo o quadro com seu orgulho africano, num Brasil que saíra da Escravatura, a qual gerou sequelas sociais até hoje, sendo pobre grande parte da população negra brasileira. Isso traz à mente os rumores de que o próximo James Bond será interpretado por um ator negro. Como diz em uma canção de Tina Turner, não há muita diferença quando você vê além da cor da pele. A cultura afro é muito brasileira, muito baiana, e a Escravatura gerou moldes culturais inapagáveis no Brasil, e o Modernismo abraçou este fato, buscando o orgulho nacional. Zulmira ocupa o quadro aqui, e dá para imaginar como bela ela ficaria com uma coroa de rainha egípcia, principalmente da XVIII dinastia, a da lendária Nefertiti. E o Mundo é assim: impérios surgem e morrem, e o Modernismo trouxe toda uma ventilação, assinalando um momento de repensar. Como eu já citei aqui no blog o verso da famosa canção de Elis, é você que é mal passado e que não vê que o novo sempre vem. Cada geração com seus ídolos, e cabe à Juventude buscar uma identidade própria, como na sinergia estilística dos anos 80, numa revolução de atitude, jovem. Zulmira posa pacientemente, como se soubesse que ter calma é tudo, no modo calmo e pacato como Tao traz o novo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Uma Manada de Arte



Nascido no Japão e radicado no Brasil, Manabu Mabe teve uma infância pobre, trabalhando na lavoura, e, nos dias de chuva, aproveitando o tempo para pintar, nunca deixando o tempo livre passar em branco. Mabe é tido como pioneiro do Abstracionismo Brasileiro. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Peixe, Prato e Chaleira. Os peixes nadam livres pelo oceano da percepção, livres como o formato de olho de um antigo egípcio, navegando pela Arte, a qual só existe com Liberdade, como na revolução artística de Aquenáton. Mortos e aptos para o consumo, os peixes são a mortificação psíquica, a qual é importante para que o indivíduo não construa idealizações ou ilusões, no modo como o se livrar de expectativas é a receita para uma vida tranquila, sem solavancos de decepções ou prostrações. De um certo modo, a alma tem que “morrer”, mas, por favor, não leve ao pé da letra o que escrevo aqui. De um elegante e discreto tom de azul marinho, os peixes são a discrição japonesa, um povo limpo, polido e discreto, numa nação grandiosa, apesar o pequeno território. O minimalismo japonês é tão limpo, tão atento ao essencial, ao que importa. Apesar de mortos, os peixes estão vivos em sua beleza majestosa, no milagre de Jesus na multiplicação dos peixes, num legado espiritual que ultrapassa barreiras de idioma e nacionalidade. O prato é uma Lua envolta em brumas azuis, na sensualidade dos ciclos lunares, iluminando de forma tão sutil e branda, longe da luz agressiva do Sol, para o qual não podemos olhar diretamente. A Lua é o prazer gastronômico, regendo os frutos do Mar, alimentando redes de pescadores, numa Iemanjá enigmática, enchendo de beleza feminina os mares que regem o Ser Humano. Os peixes são como gêmeos univitelinos, idênticos, com exatamente o mesmo DNA, no modo como todos temos o mesmíssimo DNA espiritual, filhos da mesma Fonte, no modo como o conceito de Igualdade é indispensável. São como Yin e Yang complementando um ao outro, fazendo parte de um mesmo ser, de um mesmo peixe. É como se estivéssemos olhando para as duas faces de um mesmo peixe. Podemos sentir o delicioso cheiro de peixe fresquinho e frito, nas delícias na Cultura Popular da Cozinha Baiana, ou nas delícias da Cozinha Japonesa, a qual conquistou o Mundo com peixe cru, algo, há até pouco tempo, impensável na Cozinha Ocidental. É um Gollum, comendo peixes crus, vivos, ainda se debatendo entre os afiados dentes do monstrinho de Tolkien, numa fome por Arte. A chaleira aqui está quente, pelando, e podemos ouvir o zunido, o apito da chaleira, avisando que a água está em ponto de fervura, do modo como um artista atinge seu próprio “ponto de fervura”, conquistando seu próprio espaço e sendo reconhecido, finalmente reconhecido, na verdadeira luta que é uma pessoa batalhar por reconhecimento, por respeito – é a Luta da Vida, num Mabe que tanto laborou na roça, sonhando com uma vida melhor, com uma vida mais sofisticada, citadina, artística, superando um percalço social. Acima da chaleira, vemos uma área rubra, como o fogo de Marte, a estrela bélica, na luta diária de um artista em produzir e ser reconhecido. É a cor de tijolo das canchas de Tênis, na cor da agressividade que é necessária à prática do esporte, como um menino pobre que uma vez conheci, um menino de muita garra e talento para o Tênis. O vapor do bico da chaleira cozinha os peixes, num quadro em que os elementos conversam entre si. Podemos ouvir o som das ondas à beiramar, trazendo os frutos das entranhas da Mãe Iemanjá, a Nossa Senhora dos Navegantes. É o arquétipo de feminilidade, com guerreiros prontos para morrer pela Virgem, a imortal Elizabeth. A chaleira dá um aviso: não chegue muito perto sem estar protegido, pois a chaleira está extremamente quente, ou seja, temos que respeitar a chaleira, nunca chegando perto ao ponto de não reconhecermos Mabe. É como uma estrela com pontas cortantes: veja à distância; não chegue muito perto. O peixe tem o charme de escamas brilhantes, nas belezas da Criação de Tao, o Grande Criador. Abaixo do prato, vemos uma forma que parece ser uma gaivota, pronta para almoçar abocanhando peixes n’água. É a sede de viver, de comer, de ter prazer, de se realizar, de se libertar.


Acima, Rosas. Pinceladas vigorosas, quase impressionistas. As flores são delicadas, perfumadas e belas, em atributos femininos de passividade e brandura, ao redor de todo o ritualismo na entrada de uma noiva na Igreja, numa noiva pura e casta, que é entregue das mãos de um homem para as mãos de outro, numa mulher que nunca assume o controle sobre sua própria vida. É claro que isto é puro ritual, pois qualquer pessoa tem que ser dona de si, mas não deixa de ser uma cena bonita no casamento. À Mulher é delegado o poder de representar o Delicado, mas isso não quer dizer que a Mulher não possa “colocar o pau na mesa”. Estas flores são alvas, puras como copos de leite, no alimento materno, do modo como Tao alimenta seus filhos, como numa rainha Vitória da atriz Judy Dench, numa cena em que a monarca “coloca o pau na mesa” e mostra que não é palhaça e nem é paga para aguentar o próprio filho conspirando contra a própria Vitória. Aqui, a toalha da mesa entra em harmonia cromática com as flores, e é uma página em branco, como é cada nova página da vida de uma pessoa, e esta pessoa tem que decidir o que escrever, e pobre daquele que nada escreve. Como diz a grande Meryl Streep, um ator tem que ser uma página em branco sobre a qual o personagem escreve, do modo como eu já disse: as Artes estão umas dentro das outras, e quando um artista tem algo a dizer, a Arte encontra um meio, qualquer meio. Ao fundo, vemos um cenário não tão otimista, com tons que vão de um duvidoso cinza a um fechado e pesado negro, do modo como Mabe se sentia um escravo negro trabalhando na lavoura, sonhando em se libertar de tal “senzala” e fazer Arte; ser reconhecido como artista. É a dúvida cinzenta, debatendo-se entre um dia claro e uma noite escura, na inevitável dúvida existencial: O que existe entre a noite e o dia? O fundo escuro traz um certo peso, contrabalanceando elementos tão alvos e iluminados, como doces rosas em meio a desagradáveis espinhos, na inevitável dor existencial: Qual é sentido disso tudo? Aqui, a toalha é como brumas insinuantes, sensuais, envolventes, como no fascinante véu de uma noiva, encantando a todos no templo, sendo a estrela maior do acontecimento, dando à sisudez masculinidade um papel meramente coadjuvante, talvez lidando com o fato de que, num cenário preconceituoso, uma mulher tem que ser eternamente representada socialmente por um homem, no modo como uma mulher adota o sobrenome do marido, e nunca ao contrário, no inevitável machismo patriarcal, no qual é impensável um homem ser sustentado por uma mulher. Puro preconceito. A toalha é como uma nuvem de gelo seco, num casal recém enlaçado, dançando em frente aos olhos de todo o corpo social, no modo como a união heterossexual é aprovada, sendo o oposto, a homossexualidade, reprovado. A jarra é de um azul alegre, como no Céu de Brigadeiro que brilha enquanto escrevo esta crônica, na glória de um dia limpo, um dia de Tao, transmitindo a majestade de uma cena bela como puro cristal, no modo como o Universo é incrivelmente translúcido. É o invisível tomando conta do que é visível, no ditado de que, por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher. Aqui, as flores florescem festivas, cheias de Vida, num respiro de vida, de perfume, de plenitude, num Mabe apaixonado pelos elementos à sua volta, talvez pintando as coisas que via quando arava a terra, nos presentes que vêm da terra, como roseiras, a flor símbolo de Feminilidade e Maternidade. Sequer vemos uma pétala caída na toalha, num momento de vigor, de Vida, num ser respirando e procurando viver o máximo possível, na luta pela Vida. As flores são explosões de supernovas, terríveis e poderosas, na explosão de Vida que toma conta dos ecossistemas. É a Vida querendo copular e se desenvolver, no modo como às crianças é dado o exemplo das abelhas nas flores, quando se deseja falar às crianças sobre Sexo. Discretas folhas verdes adornam as flores, na cor dos gramados de Futebol, as arenas contemporâneas em que times competem entre si, na dura realidade de que a alegria de um time é a tristeza de outro, na inevitável competição social. Com quem Mabe compete? Um artista compete consigo mesmo?


Acima, Sem Título (I). O calçadão de Ipanema no Rio, no vaivém das ondas do Mar, sempre respirando, subindo e descendo, no fascínio de uma orla vaga, deserta, pronta para receber convidados, no encanto do vazio da beiramar, no modo como Tao é o vazio, como um copo, pronto para ser preenchido e, assim, servir ao Mundo. Podemos ouvir “Garota de Ipanema”, no tilintar sofisticado de Bossa Nova, num gênero musical que se tornou símbolo de sofisticação e bom gosto, numa derivação muito discreta do samba, um ritmo mais agitado, é claro, trazendo o modo africano de celebrar a liquidiscência universal, pois o Mundo traz inúmeros caminhos que levam ao mesmo destino, no sentido de que não pode haver preconceito em relação a este ou aquele caminho, visto que o Ser Humano é universal. Aqui, temos uma pele de zebra, em animais que aprenderam com a Evolução para, com sua estampa, “desaparecer” no ecossistema africano e, assim, proteger-se de predadores, no modo que só passa adiante os próprios genes os seres que se tornam espertos, como um camaleão, fazendo metáfora com a invisibilidade psíquica, com a discrição. São linhas orgânicas, aquáticas, com uma substância sendo abraçada por outras, como numa pororoca, trazendo o choque entre água doce e salgada, como no choque entre civilizações na Era das Navegações, em que a Europa simplesmente dizima os nativos americanos, sejam os incas, sejam os maias, sejam os índios brasileiros, sejam os índios americanos, na milenar capacidade do Ser Humano em ser o mais brutal, estúpido e cruel possível. Este quadro traz as águas que uniram, com naus, dois continentes, num gigantesco choque térmico, terrível, como a sensação de se colocar o dedo na tomada, numa sensação desagradável, numa agressividade excessiva, que trata de se brutalizar e destruir o belo. E não são as guerras comuns no Ser Humano? Talvez o indivíduo entra em guerra consigo mesmo. Aqui são como peixes de espécies variadas, numa riqueza biológica, no modo como um Mabe saiu de um Japão tão discreto para um Brasil tão exuberante, tão rico em Vida, no fascínio que o Brasil exerce ao redor do Mundo, num país que, apesar da pobreza, é rico a seu próprio modo, como numa Gisele prestigiando o ecológico Projeto Tamar, na Bahia. Aqui, são como seres do Mar guiados por Aquaman, uma versão pós moderna de Poseidon, o deus dos Mares. Os seres ouvem o apelo de seu senhor, e organizam-se, na tentativa humana de impor ordem e lógica aos mistérios da Natureza e do Universo, como galáxias, que se dispõem no Cosmos como conchinhas à beiramar, no continuum que permeia toda a Criação, toda a majestade de Tao, o Uno. Aqui, há ossos paleontológicos, num quebra cabeça enigmático que desafia cientistas a remontar a História do Mundo, de tudo. É um quadro que é uma reação química, como medicamentos sendo injetados num organismo, talvez um efeito nocivo de drogas maléficas, as quais agrilhoam vidas, destruindo estas. São como tatuagens, as quais marcam épocas da vida do indivíduo, do modo como a Arte pode marcar a vida de fãs, como me marcou o álbum de 1998 de um certo artista. A Arte marca épocas, do modo como o Cinema marcou o Século XX, como o filme Titanic marcou o fim dos anos 1990. É um quadro sem qualquer tensão, sem qualquer retilinidade racional, nas linhas insinuantes de uma serpente sendo esmagada pelos alvos pés de Maria, na aniquilação da Malícia e da Ambição, a qual tanto atrapalha a vida do Homem na Terra. É um rio que vai passando, sempre em processo, sempre fluindo, do modo como o Pensamento Humano também é fluidio, sempre se aprimorando, sempre evoluindo, sempre compreendendo melhor o Universo, num Ser Humano que encontra no crescimento a razão para a Vida. E não é o Mundo uma grande escola? Talvez a maior de todas? E não é um grande anfitrião aquele que acolhe tamanho trânsito?


Acima, Sem Título (II). A forma negra é um feto, no eterno retorno, quando o indivíduo retornar ao Lar, ao tão desejado Lar, deixando para trás todos os espinhos dolorosos existenciais. É também uma prisão, num indivíduo que já nasce escravo de um sistema, como em Matrix, quando o indivíduo, por meio do intelecto, dá-se conta de tamanho aprisionamento, no modo como a Filosofia é essencial, apesar desta não mudar o Mundo – o que muda é a percepção do indivíduo sobre este Mundo, e esta percepção, sim, pode e deve mudar, sempre evoluindo, como me disse uma grande amiga portoalegrense: Porto Alegre continua tudo a mesma merda, com o perdão do palavrão. Este feto é como um coração arrancado de um peito apaixonado, nas desilusões que assombram o indivíduo que sonha demais, que idealiza demais. O coração arrancado é a mortificação, quando a pessoa está cansada de tanto vagar sem rumo, adquirindo um Norte, por menor e mais modesto que este seja. E não é feliz aquele que se encontra, em meio a um Mundo que continua tudo a mesma merda? O fundo aqui é de um amarelo dourado, como na foto da cantora Shakira, pintada de ouro para anunciar a turnê El Dorado, num recado: ela vale ouro, logo, vale a pena o valor do ingresso. E o artista é feliz quando finalmente conquista o respeito das pessoas, dando a volta por cima e encontrando alguma lógica em um Mundo tão caótico e confuso, como peças de quebra cabeça embaralhadas, perdidas, desnorteadas, como na Diáspora. O ouro é o sucesso, o êxito, num pesadelo recorrente que tenho: estou dentro de um lugar e não sei como sair dele, num verdadeiro labirinto, trancado em um enigma, em uma boate escura e fedorenta, numa verdadeira prisão para a mente, do modo como Matrix é uma grande mentira social, uma mentira coletiva. Do lado esquerdo aqui, uma folha branca, que é a Paz, o ponto de autorreconciliamento, num momento em que a pessoa faz as pazes com o Mundo, parando de culpar este pelos problemas dessa mesma pessoa. Vemos duas formas ovais que parecem dois testículos, na fertilidade da mente artística, na concepção de um novo ser, de uma nova vida, num artista sempre atento à originalidade, sempre querendo trazer algo criativo, nunca repetitivo ou monótono, nunca óbvio. As linhas retas aqui nesta folha são linhas de um caderno escolar, como nos cadernos de caligrafia que preenchi no Ensino Fundamental, na tentativa educacional de preparar o indivíduo para o Mundo, buscando na caligrafia um símbolo de elegância, beleza e disciplina, na eterna cobrança sobre o aluno, para que este tire notas altas, no fato de que há certos professores que vão além da tarefa fria de ensinar e se tornam amigos de certos alunos. Ao lado das linhas, vemos borrões azulados, como uma caneta esferográfica que se quebrou e vazou, manchando de trauma o momento de uma pessoa, marcando, de forma trágica, um passo, um momento. E todos temos momentos de borrões em nossas vidas, e Mabe se deparou com o desafio de derrotar a Pobreza e engatar numa carreira artística de fato. A Vida é um desafio, e só obtém êxito quem tem espírito de aventureiro, como o diretor Fábio Barreto, que entrou em várias aventuras para fazer filmes. O “feto” está ligado à página branca por finos fios negros, numa ligação mínima, essencial e indispensável, no modo como o líder sábio sabe que, na hora de se tomar uma atitude, apenas o mínimo tem que ser feito. Dentro do “feto” há gotas de branco, que são a esperança em meio a um dia fechado de chuva. O interessante do Abstracionismo é que o espectador vê o que quiser ver, rendendo inúmeras interpretações, como em testagens em consultórios de Psicologia, em que o terapeuta mostra ao paciente imagens, e o paciente tem que dizer o que vê, possibilitando que, assim, o terapeuta chegue ao fundo das questões existenciais do paciente, fazendo um diagnóstico preciso, matemático, frio, científico, mortificado e sem ilusões tolinhas.


Acima, Sem Título (III). O fato de Mabe ter tantas obras sem título se deve ao aspecto de livre interpretação das formas abstratas, de modo que o que Joãozinho vê não é o mesmo o que Luizinho vê. Aqui, a forma preta é um cadeirante caindo em queda livre, aprisionado a um aparelho, fazendo metáfora com o fato de que todos somos cadeirantes, mas cadeirantes psíquicos. A Sociedade surge em solidariedade aos que enfrentam dificuldades, e há vagas em estacionamentos para certas necessidades de cidadãos, como paraplegia ou até mesmo idade, sem falar em gestantes. Certa vez vi um programa de televisão no qual um cadeirante estava com dificuldade para embarcar em um ônibus, e dentro deste, uma mulher, muito deselegante, disse “Vamos logo que eu tenho que trabalhar”, e o cadeirante olhou para ela e disse “Eu também tenho que trabalhar”. Ou seja, todos temos nossas dificuldades de embarque. A forma negra é uma formiga esmagada, mortificada, talvez servindo de pesquisa para um biólogo, no fato que, o que Tao faz, o Homem não faz igual, nem mesmo uma pequenina formiga. O quadro tem uma grande moldura branca, como uma janela com vista para um vale nevado, perfeito, alvo, numa neve imaculada esperando para ser deflorada pelos passos de descobridores e colonizadores, como nas terras devolutas do Continente Americano. Os quadros são janelas pelas quais podemos ver a alma do artista, e a este se entregam, revelam-se, esperando ser compreendidas e valorizadas, na busca de um artista pelo seu próprio fãclube, pelo seu público fiel. O fundo do quadro mescla branco com bege, entrando em harmonia cromática com a moldura em volta, numa terra muito bonita, onde a Paz tem um perfume delicado e fino, nas metáforas por trás dos perfumes: o comportamento minimalista é limpo, puro e perfumado, sem quaisquer excessos deselegantes e desnecessários, pois o excesso é sujeira, e a sujeira está fadada para ir privada abaixo, como uma mãe zelosa trocando as fraldas de seu bebê. A Vida é ter que trocar as fraldas de tempos em tempos, sempre se renovando, limpando-se, purificando-se, e a cor branca traz um peso metafórico grande, como na cor das vestes de médicos, enfermeiros, espíritas e umbandistas. E o Mercado traz às gôndolas sabões de roupas que prometem restaurar o branco original das roupas, havendo na máquina de lavar roupas uma metáfora, pois Tao é a grande lavanderia. E quem se lava, toma novo fôlego para seguir lutando pela Vida. Acima do cadeirante, um grande ovo, como no filme Alien, em que um ser extraterrestre altamente agressivo espalha terror, naquela pitadinha de agressividade que uma pessoa tem que ter para enfrentar a luta pela Vida, adquirindo espírito de jogador de futebol, sempre em busca do gol. Este grande ovo primordial concebeu o cadeirante, na relação entre criador criatura, no modo como um artista se sente pai e dono da própria obra, desenvolvendo uma relação de carinho e apego por certos trabalhos, na sensação de vazio que um artista tem quando uma obra sua é vendida, como um pai que vê o filho sair de casa para este estudar fora ou se casar. O cadeirante segura um trompete, e os anjos do Céu anunciam a Nova Era, mostrando que tudo na encarnação gira em torno da dimensão acima, a esta é o grande ovo gerador, a misteriosa fonte vazia da qual tudo veio. Mistério é imaginar o infinito, e este, se não existisse, não traria sentido, pois qual é o sentido de não haver Vida Eterna? Mabe traz um perfume no ar, um vento de renovação, trazendo o novo para a Arte Brasileira. Aqui, temos dois elementos que têm relação um com o outro, como um casal, que, na vida de casados, divide as tarefas, sendo bem sucedido o casamento entre pessoas que olham para o mesmo lado. São os opostos nas pilhas de energia, e, numa sinergia, geram as coisas. O grande ovo é uma Lua em eclipse, e um grande dragão engole o satélite, fascinando tribos indígenas na cor de sangue eclipsante. O ovo é uma grande nuvem negra, carregada de água, pronta para desabar e irrigar vales e rios. E o cadeirante espera por essa tormenta, esperando se purificar com as lágrimas da dor da Vida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Legado



O francês Fernand Léger sofreu influência de uma grande amizade – o cubista espanhol Pablo Picasso. É comum e normal artistas influenciar uns aos outros, pois isso tem a ver com a busca de referências que cada artista faz. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, A Grande Julie. A flor dourada é o tesouro da realização, no modo de uma pessoa se sentir orgulhosa de sua própria vida, de seus feitos. A flor é um Sol em si, emanando sua majestade por todo o sistema solar, alimentando seus filhos com luz e calor, na capacidade dos grandes líderes – a capacidade de distribuir. Um dos seios de Julie está claramente delineado, nos encantos da feminilidade, na capacidade da mulher de alimentar com leite o seu bebê, no ritual delicioso que é beber de uma caixinha de leite condensado, num momento de puro prazer, em que o indivíduo está totalmente confortável e livre, numa sensação de prazer libertador, no conforto de um lar. Os traços de Léger são simples, quase infantis, como um Basquiat, procurando se comunicar da forma mais clara possível, deixando para trás pretensões ou afetações vaidosas, abraçando o simples, como no claro e didático bestseller Sapiens, na capacidade do grande escritor em conversar com as mentes leitoras. Por trás de Julie há um fundo de negror profundo, como numa agência bancária fechada, à noite, às escuras, guardando o dinheiro, fazendo este estar seguro, como se fosse um banco espiritual, no qual o que há dentro do cofre é Amor Incondicional, sendo o dinheiro uma tentativa humana em conceber o metafísico, o pleno. Ao lado, uma grande cruz embasada por um fundo dourado de Klimt, na riqueza psíquica de Jesus, o Uno, aquele que crê que o Universo é um só, sob um só Pai, do qual tudo emana. A cruz é o peso existencial, o fardo, a vida material que o espírito tem que carregar até o momento do Desencarne, da libertação, da volta ao Mundo do Pensamento, onde a Matéria nada significa. À frente da cruz vemos uma bicicleta branca, no modo como um artista tem que praticar muito e trabalhar muito para atingir níveis de excelência, a qual é um autoaprendizado, nunca podendo ser ensinada por livros ou instituições de Ensino – é o desafio existencial. A bicicleta é o galgar do Tempo, e a passagem deste faz de nós seres melhores e mais depurados, trazendo a sabedoria, a qual é atenta ao minimalismo, ou seja, fazer só o que é necessário. Essa estrutura de bicicleta é um complexo intestinal, processando o alimento, alimentando a Vida em Sociedade, a qual não pode prescindir da Arte, nem da Liberdade de Expressão, pois a Arte só é possível na Liberdade; do contrário, é Pseudoarte, é uma piada. Vemos duas borboletas que formam uma bipolarização entre luz e escuro, no modo como a Vida tem que ser encarada nos bons e nos maus momentos. As borboletas são a fertilidade da Natureza, que faz com que lindos seres brotem de casulos feios e subestimados, na “transformação” do patinho feio em cisne. E o artista renasce a cada obra feita, sempre deixando para trás a pele antiga, como uma serpente trocando de pele, renovando-se. Esta Julie é forte e corpulenta, e parece que nada é capaz de atingi-la. Ela parece que usa uma armadura, como uma Mulher Maravilha, rechaçando projéteis do inimigo, protegendo a si mesma e protegendo aqueles que são indefesos, encontrando um propósito na Vida. Sua pele é cinzenta, na sobriedade dos tons de cinza, no charme das fotos em preto e branco, na simplicidade binária entre zero e um, fazendo com que uma linda estrela de Cinema se pareça com um espírito depuradíssimo, o qual habita a Dimensão Metafísica, reinando lá em tempos de prosperidade e Paz. Julie tem um cabelo rubro, como um fogo ardente, ou copo de vinho tinto, no prazer de não se encontrar culpa em um momento de recreação, de pausa, de descanso. Julie usa um apertado cinto espartano, que é a disciplina, num trabalhador que encara o trabalho a ser feito. E ela usa um colar de pérolas, as esferas filhas que giram em torno da mesma Mãe provedora. Julie tem semblante sério, observando o Mundo com realismo, sem maquiagens idealizadoras.


Acima, Criação do Mundo. É claramente um falo. Como é universal o patriarcalismo! Aqui, é um homem falo, impondo leis numa tribo africana. A cosmogonia fazendo metáfora com a Vida em si, no modo como é necessária a fertilidade sexual para que bebês sejam feitos. Pode ser aqui um deus da fertilidade, num princípio masculino de um macho alfa com seu harém, no machismo de que o oposto não é bem visto – uma mulher com vários homens, do modo como as prostitutas sofrem um estigma enorme. São os preconceitos do Mundo. O falo é a imposição de leis e de limites sociais, sendo uma advertência, quase uma ameaça – comporte-se; não ouse desafiar o grande falo, a grande régua reguladora. Por meio das leis, o Ser Humano obtém um certo controle sobre a Vida em Sociedade, buscando parecer-se ao máximo com a Dimensão Metafísica, onde a Ordem e a Paz reinam intensamente, ininterruptamente. É a intenção do Ser Humano de compreender o espiritual, o racional, o mental. Mas nem o Mundo e nem o Ser Humano são perfeitos, e a Ordem, na Dimensão Física, sofre abalos constantes, recorrentes, como na página policial de qualquer jornal; como na avidez de bandidos em roubar caixas eletrônicos. É o Materialismo, a busca pelo mundano, pelo vulgar, pelo perecível, do modo como, no Desencarne, a pessoa deixa um corpo para trás, deixando também para traz tudo de relativo a este mesmo corpo, como gênero – o espírito é assexuado, como na androginia dos anjos, que trazem o pensamento fálico racional, mas também trazem beleza, muita beleza e perfume. Aqui, o homem falo sorri, como numa rainha Elizabeth II, a qual aprendeu que sorrir em público passa aos súditos uma ideia de clemência, moderação, delicadeza, civilidade e graça, longe de soberanos tiranos, que oprimem o próprio povo, pois o líder que não é amigo do próprio povo, não mais é líder. Este falo é como um canhão, na gíria “canhão”, que serve para apontar mulheres feias, muito feias, ou seja, a ausência de beleza, de Yin, sendo puro Yang, na agressividade em campo de batalha, na cor de sangue de Marte, a estrela rubra, da Guerra, do soldado que sangra e perece. É como um cano de revólver ou o formato de uma bala, de um projétil, de um míssil, de um foguete. Como é universal o falo! Como no cacique de uma tribo amazônica, numa espécie de “resposta” ao poder natural que uma mulher tem de gerar filhos, amamentá-los e criá-los. É uma divisão de tarefas entre masculino e feminino, divisão na qual a própria mulher gosta de estar socialmente submetida a um falo regulador. Este homem falo é um obelisco ou uma abrasiva pirâmide, seja no Egito, seja nas Américas, e isso fala sobre a Verdade, o fálico fato, exposto à exaustão, trazendo clareza de intenções, como na graciosa Terra da Estrela da Manhã, onde a beleza reina e onde os males materiais são uma vaga e apagada lembrança. É a magia do Desencarne, uma etapa que espera por absolutamente todos nós, sem qualquer exceção. As pernas deste homem são robustas e fortes, como se tivesse a força para sustentar um corpo social, no modo como a Sociedade exige do Homem o desenvolvimento da força, no fato de que a Vida é feita de luta, muita luta. É um foguete ascendendo e desafiando as leis materiais da Gravidade, desafiando a Matéria, trazendo um sonho do Ser Humano, o sonho de conquistar o Cosmos à sua volta, no mistério que ainda permanece: O que é o Universo? Qual é o propósito disso tudo? O falo é a sensação de segurança, como ouvi de uma amiga falar de Portugal, um lugar onde há qualidade de vida, e não a insegurança dos grandes centros urbanos brasileiros. Aqui, o escuro opõe-se ao branco, como regras claras escritas em papel, como regras de um esporte ou como regras de trânsito, no modo como as regras ou são obedecidas, ou o Caos toma conta do Mundo. É uma convenção, um contrato coletivo, no qual os que não se comportam, sofrem penalidades. É um juiz apitando em um campo de futebol, sem dó nem piedade dos que cometem infrações. É a imagem que se tem de Deus – um patriarca. E o Mundo é criado com toda essa virilidade, no Homem tentando “imitar” a fertilidade da Mulher.


Acima, Desenho da Pista de Patinação da Cortina da Cena – uma tradução livre que fiz da obra, a qual encontrei em inglês na Internet. Aqui, temos o “caos” de uma festa, de um momento de interação social, no qual damas e cavalheiros se misturam, como frutas em um liquidificador para se fazer um suco. É um quadro colorido, que flerta com o Cubismo, com formas geométricas diversas e cores vibrantes, e podemos ouvir música esfuziante, e ouvir os gritos e cantos dos participantes da celebração, e podemos sentir o cheiro marcante de tabaco, pois nas festas os fumantes se sentem a vontade, sem as crescentes restrições sociais antifumantes. Aqui, os cavalheiros têm polidos bigodes, cuidadosamente delineados, preparando estes homens para o momento de acontecimento social, pois as festas, momentos passageiros de alegria e euforia, fazem metáfora com a alegria inabalável da dimensão acima. Findada a festa, a Vida segue em toda sua seriedade, como diz a canção: Tristeza não tem fim; felicidade, sim. Estar encarnado é isso – encarar uma manchinha negra no Sol, todos os dias. Aqui, vemos calçados masculinos e femininos dançando, arrastando-se pelo salão, na inevitável sujeira dos espaços festivos, pois, depois da festa, vem o momento de varrer o salão, e a pessoa tem que encarar a velha rotina de limpeza e manutenção. É a vicissitude se desdobrando, no ritual inevitável que é o ato de limpeza, um ritual pelo qual a pessoa tenta sondar o mental, o limpo, na limpa razão matemática, onde não há espaço para sofrimento nem sujeira, na frase eterna de um pensador grego: A Lei é a Razão, livre de Paixão, ou seja, livre de sofrimento, muito longe da terrível coroa de espinhos do Salvador. Este é um quadro que traz Música. Os olhos dos participantes estão abertos e atentos, talvez sondando no baile um amor, um caso amoroso, um namoro, na eterna carência afetiva do Ser Humano. Vemos formas arredondadas como confete em um baile de Carnaval, no modo brasileiro de se fazer metáfora com a força vibrante que une e rege o Universo – cada sociedade tem suas formas de representar essa força, na inevitável universalidade plural. Vemos também linhas retas, mas não são linhas agressivas, pois estão submetidas às diagonais, à falta de sisudez no momento da festa, com linhas retas subvertidas, divertindo-se na liquidiscência festiva. Aqui, as pessoas flertam umas com as outras, na magia de um momento de dança, pois, já ouvi dizer, é um bálsamo para a alma ficar molhado de suor de tanto bailar por uma pista de dança, num fato que já delineei aqui no blog: as Artes estão umas dentro das outras: O que seria da Dança sem a Música? O que seria do Cinema sem as Artes Plásticas? O que seria do Teatro sem a Literatura? Léger nos traz um momento de uma explosão, de um orgasmo, num momento breve, eternizado por pincel, tinta e tela. É como uma cadeia alimentar confusa, onde o Ser Humano busca observar lógica e ordem, na imposição de Razão sobre a Loucura, numa peça de Teatro que assisti na adolescência: Razão e Loucura abraçam-se ao final, na eterna lei de que tudo traz em sai própria contradição, um sinal do senso de humor de Tao, de Deus, como no divertido filme Dogma, no qual Deus é uma mulher, interpretada pela roqueira Alanis Morissette, filme no qual Deus é dito ser solitário, porém engraçado, muito bem humorado, o maior piadista de todos. O senso de humor traz o prazer liquidiscente do agradável líquido amniótico, na sensação de conforto e, consequentemente, de liberdade. Quando visitamos alguém, o anfitrião nos diz: Fique a vontade. E ficar a vontade é estar livre para se sentar onde e como quiser. Num momento etílico de uma festa, as pessoas, alcoolizadas, ficam muito mais a vontade do que se não estivessem alcoolizadas. Não estou falando mal do álcool, pois sou grande apreciador de vinhos. A sensação de álcool no sangue é uma imitação (tosca) da plenitude espiritual, uma espécie de orgasmo mental, que nada tem a ver com o orgasmo físico, carnal. Neste quadro, temos um orgasmo eternizado, numa “suruba”, só que mental, e não sexual. A cena teatral é o momento de interação social. A patinação é o prazer em se deslizar suavemente, na sensação de liberdade de voar.


Acima, Natureza Morta com uma Caneca de Cerveja. A caneca é o prazer de um drinque depois de um dia difícil, como na cena de A Rainha, em que esta está sentada e sozinha, bebendo um uisquinho para abrandar a dureza do dia. E não é maravilhoso tomar um drinque assistindo a um por do Sol? A caneca é a simplicidade, a ausência de pretensões, longe de um chá servido com xícara, pires e colher. A simplicidade informal aconchega, acolhe. Uma parte do fundo é em xadrez, como num tabuleiro lúdico, num jogo em que o indivíduo é desafiado ao máximo, tendo que raciocinar intensamente para matar o rei do oponente. E a Vida é um jogo em que cada um tem que aprender a jogar, aprender por si, embora seja bom ter pessoas sábias no Mundo, mas cada um tem que ser sábio por si – a construção de referência de conduta nobre é boa, mas não é o suficiente. A superfície desta mesa traz a intenção cubista de mostrar todos os lados de algo, e a mesa nos revela objetos estranhos, parecendo-se com ovos cinzentos, na cor cinza de um dia duvidoso, em que a dúvida existencial fica dividida: O que é a Vida – é tudo preto ou tudo branco? Ou é ambos? Mais acima no quadro, geometrizações mondriânicas, como um painel de controle intrincado, como numa cabine de aviação, num painel complexo o qual tem que ser completamente conhecido e dominado pelo piloto, no modo como os aviões são falos alados, fazendo metáfora com a liberdade de pensamento, com a plenitude espiritual, a qual não pode ser completamente compreendida na Dimensão Física. A fartura desta mesa é um lar abundante, numa mesa ao redor da qual os membros de uma mesma família compartilham de tal abundância, na metáfora que padres católicos dizem na igreja: Somos todos irmãos. Mas, apesar destes esforços clericais, o Ser Humano está sempre se desviando no caminho fácil, simples, que é Tao. O que é melhor – sujeira ou limpeza? Claro que é limpeza. Mas o Ser Humano é eternamente seduzido por sujeira, confundindo esta com abundância e fina complexidade. Na extrema direita, um pedaço de cortina azul, na cor primordial do Mar que gerou a Vida na Terra, no mistério humano: Pode haver Vida sem água e sem oxigênio? Por que estamos aqui na Terra? O que é a Terra e a galáxia desta? A cortina é de um palco de Teatro, na cena social, na qual todos temos um papel a desempenhar, numa ordem divina muito sutil (e forte), que é a Divina Providência, a qual tece teias perfeitas, regendo as vidas humanas em nome de uma realidade superior, metafísica, a qual corresponde ao “sangue estelar” que todos temos: Somos todos membros de uma família real, a única família que existe, pois o sobrenomes e dinastias mundanos perecem espiritualmente. O fundo aqui chamado de “mondriânico” traz uma riqueza, uma cornucópia em movimento, na demanda urbana de um grande centro citadino, com uma vida cultural intensa, com cinemas, teatros etc. É a sedução de um grande centro urbano como Nova York, fazendo metáfora com a vibração indescritível das cidades mentais, espirituais. É como uma planta artificial: esta pode se parecer ao máximo com uma planta de verdade, mas não é uma planta de fato, no modo como o Homem não imita o que Tao faz, o que Deus trama. Na extrema esquerda inferior, vemos uma forma estelar, na sedução de uma majestosa noite estrelada. Esta estrela é o talento de um artista, o qual brilha ao mostrar sua própria inteligência, pois isto é tudo o que uma pessoa tem que mostrar: Cabeça. A estrela é também uma aranha, caminhando cautelosamente, tecendo teias de perfeição apolínea, depurada, nas teias existenciais que nos envolvem. Podemos ouvir o som da cerveja sendo servida na caneca, e podemos sentir o odor de cevada. É um momento em que a pessoa se permite relaxar e descansar, pois a Vida não é só labor.


Acima, Homem com um Chapéu Azul. As linhas negras regem o quadro, trazendo limites sisudos para uma cena tão colorida e alegre. O homem segura um ramo com flores e folhas, as quais são a Vida em sua implacável força, como a beleza se impondo, assinalando a vitória da Mente sobre a Matéria. O homem habita o centro da cena, e está sério, na seriedade de um artista que labora em seu estúdio, tendo uma vida produtiva, mas não workaholic, pois aprendi que os workaholics não vencem, pois não respeitam a si mesmo e, também, não respeitam outrem, sendo assim o workaholic derrotado. O homem é pálido como uma folha branca de papel, esperando para que algo seja escrito, na folha em branco que é a Vida, esperando para ser preenchida pelas ações e pelas escolhas do indivíduo. O homem usa um chapéu de cor nobre, um azul del Rey, na metáfora do que é o “sangue azul”, sendo este uma referência mundana, pois só seria referência espiritual se não fosse excludente, no modo como um plebeu é excluído e tido como não nobre. A camisa do homem é colorida, trazendo o tom de diversidade, de pluralidade, no modo como as diferenças têm que ser respeitadas, no conceito de Igualdade: cada pessoa é única mas somos todos iguais, numa bela contradição. À esquerda, uma grande jarra, talvez de vinho, contendo o sangue, o líquido essencial da Vida, a seiva que permeia todos os seres vivos, na orquestra que é a Vida orgânica, na qual o humano encarnado está inserido, tendo este que lidar com as vicissitudes materiais, como doenças ou como simples incapacidade de querer enxergar além do Plano Físico, como os psicopatas, que não veem além da Matéria; não veem Tao, sendo este a nobreza eterna. A jarra é a água fertilizando terras, nutrindo sistemas, transparente como a misteriosa Matéria Escura, que une o Cosmos. À direita, formas que parecem ovos, na força da Vida em eclodir e trazer ao Mundo o novo, a Vida renovada, como num ninho de Páscoa, com mágicos ovos coloridos, com o aroma de chocolate delicioso, com o sedutor barulho do plástico da embalagem ser deflorado, havendo no interior oco mais Vida, como bonecas russas abrigando umas às outras, na metáfora do que é uma família, com suas várias gerações. Acima dos ovos, um arco, que é a Humildade, no sentido de que a pessoa tem que ser humilde e deixar de lado as megalomanias do Ego, o qual só atrapalha, pois o egocêntrico não consegue enxergar além do próprio umbigo. Estes ramos de flores parecem se mexer, como serpentes, sempre com Vida abundante e insinuante, como córregos tortuosos que são atraídos pela Força da Gravidade, a qual faz metáfora com o termo “pés no chão” – o Mundo é de quem é realista. Este quadro traz uma candura quase infantil, com formas que esbanjam simplicidade, rechaçando excessos gráficos. Linhas retas e tortuosas, ou seja, racionalidade e organicidade convivem juntas, trazendo opostos da mesma moeda. Essas linhas negras são serpentes que fluem por um ecossistema, respirando, vivendo, na força enigmática: O que é, de fato, a Vida? É um mistério insondável. Aqui, a cor azul tem destaque na cena, da cor do céu, da cor da liberdade como velejar num dia ensolarado, no encanto de um dia Sol ameno, nem muito frio, nem muito quente, no aspecto ideal que é o frescor matemático. As flores brancas clamam por Paz, num Fernand Léger que testemunhou a I Guerra Mundial. A Arte quer Paz, e não Guerra. As guerras desestabilizam sistemas e fazem a Arte se tornar invisível. E do ramo de flores, brota um ramo verde, como um irmão que nasceu diferente numa família, no modo como o ser diferente, na Vida em Sociedade, tende a ser marginalizado. O ramo verde é a esperança de um dia melhor, sem tantas quinas e arestas dolorosas. Este ramo também pode ser um dos braços do homem de chapéu, numa intenção integradora, unindo pessoas que, a princípio, nada têm a ver uma com a outra. É o desafio de um Ser Humano ver outro Ser Humano como igual, nas sofisticações diplomáticas, pois o diplomata tem o dom de ver e saber que o Ser Humano é universal. E o artista é uma espécie de embaixador, representando um Mundo melhor, onde o Pensamento reina.