quarta-feira, 6 de abril de 2016

Petit POA




Eu sei que Porto Alegre é uma cidade como qualquer outra, e que a vida é difícil em qualquer lugar, visto que o ser humano é universal. Mas POA, como é conhecida abreviadamente, do mesmo modo como morei nela, ela mora em mim, apesar de eu estar há mais de década novamente radicado em Caxias do Sul. Às vezes passeio por Portinho, e bato perna por tudo com tênis, gostando de curtir a cidade a pé mesmo. Morei lá de 1996, quando ingressei no curso de Publicidade e Propaganda na PUCRS, e fui embora em meados de 2002. É impressionante como Porto radicou-se em mim, apesar de eu não morrer de amores pelo calor senegalês do verão portoalegrense. Mas tudo isso é parte do pacote. Como uma grande amiga minha psicóloga disse-me:
- No meio do prazer, sempre haverá algo de que não gostaremos.

Eu fui membro do que o sempre irônico Luis Fernando Verissimo chama de SAPA – a Sociedade dos Amigos de Porto Alegre, uma “instituição” que define quem não faz enorme questão de sair da cidade para o litoral na temporada de praia. Os membros da SAPA enfrentam menos filas em cinema, supermercados, shoppings e estacionamentos e encaram menos engarrafamentos pelas vias da cidade. Tenho parentes que moram em POA e, sempre que posso, visito-os aproveitando para passear pela urbe, de preferência, como já disse, a pé, pois, já ouvi falar, não se conhece um lugar só andando de carro por este. Ainda falando em Verissimo, avistei-o recentemente passeando pelo shopping Moinhos de Vento, com pessoas pedindo para tirar uma selfie com ele, o qual nem desconfia que tenho um parentesco longínquo com ele. Já topei no mesmo lugar com a hilária e famosa comunicadora Tânia Carvalho. Falando em lugares, todo o entorno do bairro Moinhos de Vento é muito agradável. A rua Padre Chagas abriga cafés chiques e escritórios sofisticados, e a via é conhecida como “Calçada da Fama”, dado o grau de elegância de quem passa pela Padre. Ainda no bairro, tem o enorme Parcão, com rodas de chimarrão no gramado nos fins de semana. O bairro chama-se assim por ter tido moinhos trazidos por famílias de açorianos que ali se estabeleceram e plantaram e moeram trigo. Hoje é um endereço elegante, muito bem iluminado à noite. Muito caminhei pelo Parcão, com seus patinhos, tartarugas e pombas. Inclusive há um vídeo no Youtube de uma tartaruga do Parcão devorando uma pomba! Ponto obrigatório para levar a cachorrada para passear, num entorno residencial plácido e privilegiado – o Central Park gaúcho. Os portoalegrenses vivem muito bem. Até a top Gisele Bündchen foi flagrada por um fotógrafo amador passeando pelo parque, disfarçada com peruca, chapéu e óculos escuros. Porto Alegre é top!

O Brique da Redenção oferece aos domingos no enorme parque no coração do Bom Fim, tradicional bairro da cidade, uma feira de artesanato e antiguidades. Inclusive, um dos personagens da Escolinha do Professor Raimundo, ainda apresentada por Chico Anysio, era o Magro do Bonfa. É claro que nem todos entendiam que “magro” fazia alusão ao termo gaúcho “magrão”, que quer dizer “rapaz jovem”, e muitos não compreendiam que “Bonfa” é o apelido carinhoso dado ao bairro do Bom Fim. Falar nesse bairro, dê-lhe eu no Ocidente, o tradicional ponto de boemia portoalegrense que, ao meio dia, serve comida vegana. O som no Ocidente é diferenciado, e quase todas as tribos urbanas passam por lá. Pertinho tem o point dos punks. Durante a semana, a casa tem shows ao vivo e saraus - o Oci nunca para.

A Cidade Baixa tem o especial cinema Guion, que apresenta títulos os quais são difíceis de ver em outras salas da cidade. Aliás, Porto Alegre é boêmia, com inúmeros barzinhos, seja na despojada Cidade Baixa, seja no sofisticado Moinhos de Vento.

Eu sei que o Centrão de POA está para lá de decadente, mas eu gosto. Você não conhece Porto Alegre enquanto não andar pelas ruas sujas e lotadas centrais, num vaivém frenético de cidadãos cuidando de suas vidas. Uma vez aconteceu algo muito engraçado. Era meio dia e eu estava num restaurante no Shopping da Rua da Praia. Na última mesa bem ao fundo, sentados de costas para o resto do restaurante, estavam um senhor idoso e uma menina bem jovem mestiça aos beijos e chupões – claro que se tratava de um programa, pois ele oferecia a refeição e ela, em troca, oferecia beijos – e de língua. Coisas da vida. Noutra vez, numa bela manhã de Sol, estavam sentados em bancos da Praça da Alfândega um travesti e um senhor aposentado. O senhor aposentado estava totalmente escandalizado com a simples presença do travesti, o qual, por sua vez, não estava “rodando a bolsinha”, mas estava tranquilamente lagarteando no Sol, um cidadão como qualquer outro. E o travesti mal se importava com o olhar chocado do senhor aposentado. Noutra ocasião, pertinho dali, fui abordado por uma cigana, que leu minha sorte. Eu disse a ela que eu não tinha muito dinheiro, e mostrei que eu tinha apenas cinco reais guardados. Então ela disse-me:
- Tens um bom coração.
Que fofa! Compadeço-me com os ciganos, pois são um povo que sofre muito preconceito. As mães não dizem aos filhos que, se não se comportarem, “a cigana” os levará embora?

Assistir a uma boa peça teatral no Theatro São Pedro é uma experiência única, como “O Burguês Ridículo”, com Marco Nanini, “O Grande Mentecapto”, com Diogo Vilela, ou “Masterclass”, com Marília Pêra, ou ainda ao clássico do teatro gaúcho “Bailei na Curva”, sem esquecer da hilária “Cinco Vezes Comédia”, com parte do dreamteam de comediantes do excelente programa TV Pirata. Há um fino foyer no segundo andar da irresistível casa de espetáculos. Uma figura emblemática é a respeitadíssima dona Eva Sopher, uma espécie de guardiã do teatro, com seu famoso molho de chaves na mão, cumprimentando os cidadãos que prestigiam as encenações. Aliás, por falar em dona, em uma conversa que tive com Tânia Carvalho, ela disse-me:
- Não chame as mulheres de “dona” nem de “senhora”, pois elas odeiam, sentindo-se irremediavelmente velhas.
Lição aprendida, Tânia!

Minha família por parte de mãe é toda de POA, tendo eu memórias antigas, como as ruas majestosamente arborizadas e os cantos dos bem-te-vis. Até o gosto da água da torneira me marcou a memória. Por falar nisso, há um lugar belo na rua 24 de Outubro, que é o prédio antigo, mas bem conservado, da Estação de Tratamento de Água, a Hidráulica Moinhos de Vento. Ainda pelas vizinhanças, comi várias vezes em um restaurante que creio que não existe mais, o Sushi Express, um lugar em que eu tinha a certeza de que o peixe era bem fresquinho, item indispensável para se fazer um bom sushi, sashimi ou temaki. Falar em peixe, tem o diversificado Mercado Público da cidade, com o excelente restaurante de frutos do mar Gambrinus, no qual vi certa vez a bela jornalista Cristina Ranzolin. Há poucos anos o Mercado sofreu um incêndio que o destruiu parcialmente. Mas, com a energia de POA, o Mercadão renasceu. Eu lembro de quando eu estava passando em frente ao Mercado, tinha um pregador discursando, que disse:
- Deus ajuda, mas é preciso que a pessoa tenha vontade! – e as pessoas em volta aplaudiram.

Porto Alegre fica colorida em época de Bienal de Artes Plásticas. Falando em arte, é passeio obrigatório a Fundação Iberê Camargo, com o design arrebatador do arquiteto português Álvaro Siza Vieira. A vista para o rio Guaíba, o qual também chamam de lago, é espetacular, com uma boa cafeteria para se sentar e ver os barquinhos passando ao longe. O prédio inspirou-se sutilmente no Guggenheim de Nova York, mas a Iberê tem um charme pessoal. Ainda em museus, há a bela trinca no centro da cidade: o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Santander Cultural e o Memorial do RS, espaços sempre oferecendo opções culturais, um do ladinho do outro. Pertinho dali, há a Casa de Cultura Mário Quintana, o antigo hotel Majestic, no qual morava o célebre poeta que deu nome à casa. A cafeteria no topo também mostra o Guaibão. Aliás, o pôr do Sol do Guaíba é símbolo e patrimônio imaterial da cidade, podendo ser apreciado de vários pontos, como na Usina do Gasômetro que, com sua chaminé gigantesca, serve hoje como casa de cultura, onde fui certa vez a uma festa rave. Inclusive, Porto Alegre leva muito a sério disponibilizar ao público espaços culturais. Eu mesmo fiz, lá pelo ano de 1999, uma exposição no Solar Palmeiro, um casarão antigo restaurado da Praça da Matriz que foi transformado em casa de cultura. Pertinho dali, tem o Solar dos Câmara, que serve da mesma forma. Existe o desejo nos cidadãos de Porto Alegre de transformar em espaço de gastronomia e cultura o porto do Cais Mauá, aos moldes do que ocorreu em Buenos Aires, no Puerto Madero. Só que a captação de recursos é complicada. Mas ficaria belíssimo, e tornar-se-ia um ponto turístico prestigiado.

Fiquei impressionado com o ciclone que castigou a cidade em janeiro deste ano. Dizem que Porto Alegre ficou um cenário de guerra após a passagem do fenômeno. Parentes meus que moram em prédios altos tiveram que fazer muita ginástica nas escadas, visto que a energia elétrica sofreu colapso com a forte chuva e ventos inclementes, impedindo elevadores, ares condicionados e refrigeradores de funcionar, e muita comida teve que ser descartada. O que ocorre é que POA tem árvores antigas e frágeis, como em ruas como a Gonçalo de Carvalho, a qual dizem ser a rua mais bonita do mundo por causa de seu farto túnel de arborização. Falando em árvores, Porto Alegre é um espetáculo na primavera: os inúmeros ipês roxos ficam carregados de suas flores púrpuras, e as calçadas ficam tomadas de cor – existe algo mais chique do que uma calçada tomada de flores caídas, principalmente no bairro Moinhos? Porto Alegre tem mais a ver com Buenos Aires do que com o Rio de Janeiro.

Outro porém de POA é o vandalismo. Como dizia o já falecido professor Tatata Pimentel, Porto Alegre está pichada de cabo a rabo. Mas isso é um defeito de todo grande centro urbano. Falando desse singular intelectual que foi Tatata, que inclusive foi meu professor na PUCRS, tenho boas memórias do campus da Católica, com sua biblioteca rica e suas cafeterias. O cheiro de papel da biblioteca era sedutor. E Tatata foi um digno cidadão portoalegrense, sendo presença obrigatória no programa de debates culturais Café TV COM, do extinto canal televisivo do Grupo RBS.

Adoro a canção “Porto Alegre é Demais”. Se você não a conhece, busque no Youtube. É de uma delicadeza e bom gosto, com um delicioso piano. Alguns versos:
- Porto Alegre me dói, não diga a ninguém. Porto Alegre me tem, não leve a mal. A saudade é demais. É lá que eu vivo em paz!

Na ilustração desta postagem, a logomarca da Rede Pampa de televisão, que alude ao pôr do Sol do Guaíba, tal a representatividade desse show da natureza na capital gaúcha, numa cidade viva, com pessoas caminhando, tomando café e chope e fazendo atividade física. Bah, que tri!

As cidades estão em permanente processo de mutação e crescimento. Eu sou do tempo em que o supermercado Zaffari Higienópolis era o máximo, com uma disputada lancheria no segundo piso. Há muitos anos, a abertura do primeiro Mc Donald’s na cidade causou comoção. O outrora desértico entorno do shopping Iguatemi transformou-se em um bairro pleno e movimentado. Por isso é bom passear por POA, para observar as nuances das mudanças, numa cidade que cresceu muito desde o ano de 1996, como na avenida Carlos Gomes, com seus arranha céus executivos. Eu morei na rua Anita Garibaldi, no bairro Mont’ Serrat, que é muito gostoso de se curtir – eu era vizinho de bairro de Esther Pillar Grossi e vizinho de quadra do cônsul do Japão. POA crescerá ainda mais, tornando-se hoje rota de grandes shows nacionais e internacionais, tendo sido também sede da Copa do Mundo 2014, quando a cidade foi invadida pela cor laranja da torcida holandesa. A cidade é até às vezes citada na previsão meteorológica do canal internacional de notícias CNN.

Fiz muitos amigos em POA, e levo-os comigo.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Orlando, a cidade imortal





No início dos anos 90, fui por duas vezes ao estado americano da Flórida, uma vez no verão de lá, acompanhado pela família, e outra no inverno de lá, acompanhado por amigos. No verão americano, os parques temáticos da cidade de Orlando ficam apinhados de gente, principalmente turistas americanos, que vêm de todos os cantos dos EUA para se divertir com a família. O calor é senegalês, com pancadas de chuva passageiras – lembra muito o verão de Porto Alegre entre os meses de outubro e março nesta. As filas para entrar nos brinquedos são quilométricas, e a espera pode levar mais do que uma hora, esperando em pé. No inverno americano é mais tranquilo – o frio não é muito intenso e os parques estão bem menos assoberbados. As filas dos brinquedos são praticamente nulas e as filas nos restaurantes dos parques, também. Normalmente, os americanos são um povo gentil e comunicativo, sabendo receber bem o visitante, sendo treinado para fazê-lo. As famílias são discretas e educadas, e todos estão ali com o intuito de se entreter. A gentileza se manifestou quando derrubei um copo inteiro de Coca Cola em cima de mim mesmo, e nenhum americano ao redor deu risada. E é muito comum encontrar brasileiros por lá, um povo sempre disposto a deixar muitos dólares nos caixas dos americanos na Flórida. Os itens mais procurados são bichinhos de pelúcia, principalmente de Mickey e Minnie. Mas a imaginação do departamento de vendas é forte demais, e uma simples caneca temática de Alice no País das Maravilhas torna-se praticamente irresistível, com um apelo à fantasia referente ao legado de Walt Disney e pós Walt Disney. Em Orlando, nada morre - nem a infância.

Esqueça o que você sabe sobre parques de diversão no Brasil. Orlando tem opções que vão muito além dos padrões brasileiros de parques. Os sofisticados brinquedos são cuidadosamente criados e dispostos. A magia faz com que adultos sejam crianças novamente. E, como eu já disse, o apelo mercadológico é pesadíssimo – o turista está o tempo todo sendo tentado ao consumo. Por exemplo, existe um simulador de voo de Star Wars em um dos parques da Disney – é perfeito, e a pessoa sente-se como se estivesse realmente viajando pelo espaço. É um deleite, uma aventura, e o encantamento e a adrenalina dão um pulo dentro do coração do expectador. Então, findada a simulação, o turista, ao sair do brinquedo, entra direto em uma loja de souvenires de Star Wars e, no calor do momento, acaba comprando coisas que, de cabeça fria, não compraria, como eu, que adquiri um pôster. O apelo é tão forte que, ao entrar na loja, o turista é brindado com a canção tema de Star Wars, tocada no volume máximo. É tudo milimetricamente planejado para tentar o visitante a gastar dinheiro. Nada é colocado a venda por menos de um dólar. E a criatividade dos gerentes de marketing está o tempo todo matutando e bolando produtos que despertem a libido da aquisição, que tem a ver com a autoestima – brindo a mim mesmo ao comprar algo. Tempo é dinheiro, e o americano em geral está sempre fazendo negócios.

Ao ver o sucesso de seu próprio parque californiano, a Disneyland, Walt Disney fez uma especulação imobiliária na Flórida e deu corpo a um ambicioso projeto – a Disney World, que conta com vários parques compondo-a. Walt estabeleceu a seguinte diretriz: todos os que trabalham em seu parque, o fazem apenas por três horas por dia, para garantir que as pessoas ali trabalhem de bom humor e sem fadiga. Realmente, o polido e caloroso atendimento é um diferencial nos parques Disney. A presidente da rede brasileira de varejo Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano, por exemplo, tem a filosofia de que um cliente bem atendido é um cliente grato que sempre volta à loja, no caso orlandense, aos parques.

Infelizmente, Walt faleceu antes da conclusão das obras nos seus parques na Flórida, mas o sucesso da Disney World foi tanto que Orlando começou a aglutinar outros investimentos, e parques concorrentes estacionaram no estado peninsular. O resultado foi a construção de um complexo turístico vibrante em constante crescimento, servindo a uma demanda turística insaciável. O ramo hoteleiro de lá, por exemplo, prospera há décadas. E o próprio comércio fora dos parques tem sucesso também. No Brasil, claro que em escala menor, existe a região de Gramado e Canela no RS, que cresce incessantemente e se profissionaliza na questão de encantar o visitante: hotéis, restaurantes, parques temáticos, congressos, cafés, chocolaterias, lojas de artigos diversos como couros, móveis e souvenires, o Zoo, o Mini Mundo, o Natal Luz e o Festival de Cinema: tudo seduz o expectador e inspira este a gastar dinheiro.

Em ambas minha idas à Flórida, contei com os mesmos agentes de viagem, os quais viajaram com meus pais a outros lugares depois. Eram grandes grupos, e o entrosamento entre os integrantes embala o clima de passeio e diversão, como numa grande família, ocorrendo até um divertido amigo secreto.

Como eu já falei, a indiscutível vocação turística de Orlando começou com o gênio Walt Disney, que dizia que queria construir lugares onde pais e filhos pudessem se divertir juntos. Quando tudo começou com a californiana Disneyland, o universo de personagens de Disney já estava havia tempo incorporado ao imaginário pop mundial. Nos parques Disney na Flórida, há, por exemplo, o Epcot Center, cuja sigla quer dizer algo como “Projeto Experimental do Amanhã”. Em uma de suas partes, há os formidáveis, amplos e charmosos pavilhões dos países ao ar livre, que contemplam cultural e arquitetonicamente nações como, por exemplo, Japão, China, França, México e, é claro, com destaque, os EUA. Aliás, é muito fácil sentir o patriotismo dos americanos, visto que o pavilhão americano fica no centro do complexo de pavilhões. Muita coisa fabricada nestes países é vendida ali – uma pessoa de minha excursão comprou um autêntico sombreiro mexicano enorme! No pavilhão francês, almocei com meus pais uma comida típica parisiense. O lindo artesanato chinês, a preços módicos, também marca presença. Comprei um quimono no espaço japonês. Só que os parques em Orlando são tão grandes, e caminha-se tanto por eles, que pelo fim do dia o visitante tem que sentar em qualquer lugar para descansar. Mas é um cansaço grato.

Como o sucesso é um amante infiel, Walt revirou-se no túmulo com a Eurodisney, um parque que foi construído nos arredores de Paris e que, a princípio, fracassou retumbantemente. Saíram notícias na imprensa mundial do parque jogado às moscas, absolutamente carente de fluxo de pessoas para pagar o pesado investimento. Rendeu até uma boa piada na cerimônia do Oscar apresentada por Whoopi Goldberg:
- E não podemos esquecer do grande blockbuster deste ano, o “Jurassic Park”, que conta a história de um maravilhoso parque que é construído, mas tudo nele dá errado. O nome original deste filme era “Eurodisney”.
Ou seja, não sofra; faça piada. Mas, anos depois da derrota em solo europeu, o Grupo Disney decidiu mudar o nome para “Disneyland Paris” e, com uma nova filosofia de marketing, conseguiu salvar o parque do fechamento e dar a volta por cima.

Ainda na Flórida, há o Cabo Canaveral, famosa plataforma de lançamentos de missões espaciais americanas. Dentre os museus de naves espaciais e os muitos itens de souvenires, pode-se adquirir o sorvete de astronautas, que é sólido e seco mas, ao entrar na boca, derrete-se por inteiro. É um pouco deste tino mercadológico que o Brasil precisa ter, aproveitando, por exemplo, o potencial das praias do Nordeste.

Orlando também oferece o castelo Medieval Times, que é uma arena que reproduz as lutas de cavaleiros da Idade Média. O jantar medieval é um frango assado, comido com as mãos, como na época aludida. Nunca vou me esquecer que, tomado pelo entusiasmo dos combates, comecei a bater com meu caneco de ferro na mesa e, perto de mim, estavam sentados o rei e a rainha, atores do Medieval Times, é claro. E o rei, ao ver minha algazarra, fez-me um sinal de reprovação. Desculpai-me, majestade!

Nas atrações aquáticas, há o supercomplexo de piscinas e tobogãs Typhoon Lagoon, que só pode ser desfrutado no verão, é claro. Ainda na água, há o ótimo Sea World, com baleias e golfinhos que ameaçam encharcar quem estiver muito próximo dos grandes tanques d’água.

Tudo para o povo americano é muito prático. Nos hotéis, há lavanderias self service. Aconselho a quem nunca foi que, pelo menos da primeira vez, vá acompanhado de um agente de viagem especializado em Orlando. Como é uma cidade com muitas opções, o marinheiro de primeira viagem pode ser ver confuso e assoberbado. Um bom agente sabe peneirar as melhores opções e sabe dar dicas sobre onde fazer compras por bons preços.

No Brasil, o Beto Carrero World, em SC, tenta reproduzir alguma coisa da grandiosidade dos parques orlandenses. Mas os investimentos em um país pobre como o Brasil são tão tímidos que fica difícil compor um complexo gigantesco, mesmo porque, nos EUA, o povo, em geral a classe média, é rico, ficando mais fácil e viável a constituição de uma demanda turística consistente e forte.

O filme “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” mostra um Walt Disney sonhador e visionário, vivido por Tom Hanks. Persistente, o empresário adquire uma grande paciência para conquistar a confiança da escritora australiana P.L. Travers, detentora dos direitos de uso da personagem Poppins.

Como faz muito tempo que fui à Flórida, não pude apreciar o parque temático da franquia Harry Potter. Para os fãs do bruxinho, deve ser um deleite, com vendas de inúmeros artigos de souvenires e castelos construídos para seduzir o visitante. Orlando não brinca em serviço, pois, como a concorrência é atroz, competência é item obrigatório na hora de bolar atrações. E os gerentes dos parques sabem que, se não renovarem o leque de opções de tempos em tempos, perderão o público, que ficará entediado com atrações que não se reciclam. Não é insuportável um artista que passa a carreira inteira sempre cantando as mesmas músicas? Muito na vida tem prazo de validade. Os donos dos parques têm que estar o tempo todo vislumbrando possibilidades de se fazer negócio. Talentos medíocres não têm vez em Orlando.

Há cerca de vinte anos atrás, no festival de comunicação da PUCRS, o Set Universitário, tive a oportunidade de vez uma palestra da agente portoalegrense de viagem Tia Iara, que há várias décadas vem liderando o mercado de turismo na capital gaúcha. Tia Iara sabe que Orlando preocupa-se em encantar o cliente, e Iara, por sua vez, tem também que propagar esse encanto. O mercado de viagens para a Flórida é movido por pessoas que sabem vender sonhos como, por exemplo, no lindo desfile alegórico noturno no parque Magic Kingdom, da Disney, com inúmeras minilâmpadas para a iluminação, algo que poderia servir de referência aos desfiles da Festa da Uva de Caxias do Sul.

Recentemente, pessoas de minha família viajaram para a Flórida, e o fizeram por conta, sem agentes de viagem. Mas, com o dólar nas alturas, é melhor esperar o cenário ficar mais favorável ao turista brasileiro, que, em cenário de crise, tem optado por destinos turísticos nacionais, favorecendo assim o mercado doméstico. E vamos combinar que é um certo incômodo ter que ir a um consulado ou embaixada pedir humildemente por um visto. Mas Orlando merece, um lugar onde todos somos crianças! O apelo à memória afetiva é tão grande que, por exemplo, nos vemos amando os Flintstones e os Jetsons novamente. É impressionante a capacidade de tocar as mentes e corações das pessoas com tudo aquilo que permeia uma eterna infância. Os corações mais empedernidos se derretem, e o ceticismo vai por água abaixo. Conheço pessoas que foram céticas e voltaram encantadas. Não subestime o sonho de Walt!

Na ilustração desta postagem, uma silhueta que dispensa apresentações.

Orlando é uma cidade grande e sem violência. Passear por suas ruas à noite é um programa ótimo que não custa um só centavo. Mas, como é de costume nas redes hoteleiras americanas, não há café da manhã incluído – a pessoa tem que ir a um mercado e adquirir produtos para a refeição matinal. Orlando é programa para você ver como o capitalismo leva a sério o empreendedorismo de Tio Sam. Uma pessoa que viajou comigo para lá, disse várias vezes a seguinte palavra para definir aquilo tudo:
- Profissional!

Para resumir, Walt Disney ergueu um império que respira plenamente até hoje, com tentáculos que abrangem muito entretenimento, seja na forma de filmes, desenhos animados, gibis, música, canais de TV ou parques temáticos. Trata-se de um universo único, que escolheu Orlando para se espraiar em todo o seu esplendor que inspira outros empresários a seguir o deslumbrante e fértil talento de Disney, um verdadeiro desbravador, assim como Freud o foi para a Psicanálise. E Orlando é a terra da magia. Inesgotável.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Simplesmente Jô


         O maior entrevistador do Oiapoque ao Chuí, Jô Soares, infelizmente, anunciou recentemente sua aposentadoria de seu célebre talk show, que começou no SBT e parou na Globo. Quando iniciou o programa Jô Soares Onze e Meia, no fim dos anos 80, em agosto de 1988, no Sistema Brasileiro de Televisão, ninguém previu que o humorista tornar-se-ia um monstro entrevistador, surpreendendo, deslumbrando e entretendo gerações. Jô tem sensibilidade, inteligência e humor, uma trinca indispensável para qualquer um que queira ser host. Jô é um anfitrião, e seu programa é uma festa. Mas a festa acabou. Snif...
            O sobrenome Soares é dispensável:
- Você viu no Jô?
- Sabe quem o Jô entrevistou?
- Ontem assisti o Jô.
Inclusive, o nome do show não deveria ser “Programa do Jô”, mas apenas “Jô”. O slogan provocante, “Não vá para a cama sem ele”, é famoso, e traduz a veia cômica do carismático astro gordinho, pois, quem tem alma de humorista, sempre vai fazer piada, faça chuva, faça Sol. Jô dizia no SBT:
- Meu programa é Jô Soares Onze e Meia, às vezes 11:45, meia-noite...
Depois de se consolidar como entrevistador, Jô tirou mais uma carta da manga: tornou-se grande escritor de ficção, mais precisamente romancista policial. O best seller de estreia “O Xangô de Baker Street” até virou filme, com participação do próprio autor no elenco. A invejável carreira literária de Jô estende-se a mais três romances de mistério e assassinatos.
Tenho uma história engraçada para contar. Há muitos anos atrás, uma parente minha, que mora no Rio há décadas, estava caminhando na rua e, apressada, quase corria. E, bem na hora de virar numa esquina, deu de cara com o Jô e os dois acabaram se batendo um contra o outro, acidentalmente, é claro. Então minha parente pediu desculpas e Jô, conhecido por sua polidez impecável, perdoou-a gentilmente. Coisas das esquinas da vida.
Jô foi também “vítima” do ao mesmo tempo famoso e infame programa “Pânico na TV”, apresentado por radialistas da rádio paulista Jovem Pan 2. Na saída de um restaurante, provavelmente em São Paulo, a equipe do Pânico viu Jô saindo do estabelecimento e Jô, ao ver que seria impiedosamente assediado pelos “malas” do Pânico, conhecido por ser um programa de humor afiadíssimo, ácido e politicamente incorretíssimo, começou a correr desesperadamente para fugir das câmeras. Em ocasião posterior, Jô, que fazia uma sessão de autógrafos em uma bookstore, foi surpreendido e assediado pelo Pânico e, finalmente, deu-lhes uma rápida entrevista. Então os impiedosos piadistas deram para Jô calçar as famosas Sandálias da Humildade do Pânico, só que em tamanho GG. Jô entrou na brincadeira, calçou-as e bateu palmas. O humor fazendo piada do humor.
Em outra ocasião, a equipe do Pânico fez uma sátira e, um ator caracterizado como Jô, entrou num drive thru de fast food e pediu diversos sanduíches, devorando-os avidamente. O próprio Jô já declarou que é compulsivo em relação a comida, revelando a razão de seu sobrepeso. Jô disse que, quando se depara com uma torta, é incapaz de comer apenas uma fatia, e come o bolo inteiro. É claro que Jô se depara com vicissitudes da obesidade mórbida e, em sua casa, usa um elevador ao invés de escadas; no seu programa de TV, para se sentar na sua cadeira, ele precisa de uma ajuda de uma pessoa para lhe empurrar a cadeira e poder fazê-lo sentar. Mas Jô Soares tem uma cabeça tão arejada e sofisticada que lida muito bem com a obesidade e os problemas decorrentes desta. É a vitória do pensamento derrotando a matéria. Jô é um intelectual, afinal; e, como tal, dispensa frivolidades.
Se eu tivesse trabalhado na equipe do programa do Jô, faria algo que existe onde é gravado o programa da entrevistadora americana Ellen Degeneres – eu abriria uma gift shop ao lado do estúdio de gravação, recebendo as pessoas que vão ver ao vivo o programa, vendendo réplicas exatas da célebre caneca que Jô usa no talk show e comercializando produtos relacionados ao Jô, como livros escritos por ele e DVDs do Viva o Gordo. Ganhar um dinheirinho, visto que os americanos são os mestres do marketing.
Jô tem uma energia muito jovem e vibrante, sendo extremamente claro no que diz, e tem muita popularidade entre os jovens, que fazem questão de prestigiá-lo indo assistir ao show ao vivo. É claro que muitas de suas entrevistas descambam para a palhaçada. Que bom! Teve uma hilária, quando Jô entrevistava um apicultor, e este levou ao programa dois chapéus apicultores de tela, que protegem a pessoa das picadas dos insetos. Então Jô sugeriu:
- Vamos colocar esses chapéus? – e o apicultor concordou. Então imagine uma entrevista em que as duas pessoas estão usando chapéus de apicultor. Impagável. É claro que esta entrevista perdeu todo o caráter erudito e informativo, virando um número de circo regido pelo formidável gordo palhaço. Afinal, rir é ou não é o melhor remédio?
Jô encerra sua respeitável carreira de entrevistador com um saldo de muitas milhares de entrevistas feitas, deixando um legado televisivo e fazendo escola para quem quiser, no Brasil, ser um entrevistador de peso, ironicamente falando. É claro que não dá para dar conta nesta postagem da quantidade de gente entrevistava pelo querido gordo. É uma herança tão rica que não dá para dimensionar.
No programa “Calada Noite”, apresentado no canal pago GNT por Sarah Oliveira, Jô revelou ser um notívago, gostando de varar a madrugada para escrever e produzir, e reclamando do barulho que a cidade faz durante o dia, quando Jô está dormindo. Um vampiro do bem.
Uma das provas de sensibilidade de Jô foi quando entrevistou Thammy Miranda, a filha homossexual da cantora Gretchen que optou ser transexual e viver como homem. Durante a entrevista inteira, Jô teve a consideração de tratar Thammy sempre no masculino, sabendo que tudo o que um transexual quer é ser respeitado no gênero o qual escolheu. Em outra entrevista, Jô conversou com um travesti e, como este começou a desmunhecar, Jô entrou no baile também “desmunhecou”. Jô tem a sabedoria de entrar no ritmo. Jô é humilde; se não o fosse, não poderia ter construído o que construiu. O bom entrevistador é aquele que deixa o entrevistado fluir; é ser invisível. Não é insuportável o entrevistador que quer aparecer mais do que o entrevistado? Há uma pessoa, cujo nome não mencionarei, que tentou carreira como no ramo de entrevistas, mas não deu muito certo. Outra grande entrevistadora do Brasil é, sem dúvidas, Marília Gabriela, sempre com perguntas inteligentes.
Quando Adriane Galisteu estava no auge de sua primeira e maravilhosa Playboy, Jô a recebeu e, no meio da entrevista, ele virou a sua mesa e jogou o móvel no chão, só para ficar mais pertinho da então estrela estreante. Humor é isso – tem que ser soda, se não, perde a graça. Por falar nisso, Jô reclamou como, numa época em que emagreceu, as pessoas disseram:
- Emagreceu, perdeu a graça! – como um rei Momo perde a graça ao ser magro.
Quando entrevistou a supermodelo Naomi Campbell, ao introduzi-la, disse, em inglês:
- Ela era minha namorada, mas me chutou!
Outro momento ótimo foi a entrevista com a cantora Deborah Blando, cantora que estourara no início dos anos 90. Jô deitou e rolou com os palavrões em inglês e português que permearam a entrevista.
Durante toda a história do programa de entrevistas, uma banda jazzística excelente musicalizou o show, tendo, ao curso de sua história, várias constituições: conforme a época, era sexteto, quarteto ou quinteto, com o sempre bem humorado Bira e o não menos palhaço Derico. Em algumas ocasiões, Jô acompanhou a banda no vocal ou na percussão.
Quando entrevistou a então adolescente Angélica, ela estava lançando uma linha de bonecas. Então Jô, que aproveitou a deixa de que o programa que ela apresentava exibia seriados japoneses de super-heróis, pegou as bonecas e brincou com elas como se fossem os personagem voadores da TV nipônica. Angélica só ria. O que mais fazer em frente a tal gênio cômico? Relaxe e gargalhe.
Articulado e polilíngue, Jô vai deixar saudades como entrevistador, e também como excelente ator de comédia. O programa humorístico da Globo, o “Viva o Gordo”, trazia vários personagens em uma galeria única de tipos. Alguns deles:
- Alvarenga, com o bordão “Eu me odeio!”, dizendo que acreditara, por exemplo, no Plano Cruzado;
- O dentista tarado que assediava as pacientes, com o bordão “Bocão!”, ao examinar as mulheres;
- Uma senhora bem velhinha que bagunçava programas de TV;
- Um frei que se sentia tentado por mulheres belas, repetindo por quatro vezes a frase “Ai, meu Deus do Céu”;
- O Jornal do Gordo, para pessoas mais ou menos surdas, no qual Jô repetia as notícias aos berros e mímicas;
- No final de cada programa, um cara que esperava ver um striptease, mas que sempre acabava frustrado;
- Dalva Mascarenhas, uma mulher de bigode;
- O governador cujo nome era Trabalho;
- O injustiçado anão Atlas, com o lema “Só porque eu sou pequenininho”;
- O paquerador Décio, que dava em cima de ex-mulheres bem na frente dos atuais maridos, com o jargão “Não se deprecie, mulher”.
A abertura célebre do programa eram montagens que mostravam Jô interagindo com personalidades como Orestes Quércia, princesa Diana, José Sarney, Mário Covas, Diego Maradona, Margaret Thatcher, Ronald Reagan, Ulysses Guimarães e Mikail Gorbachev.
Quando Jô entrevistou o ator americano Patrick Swayze, este estava divulgando um filme no qual interpretava a drag queen Vida Boeme e, com muito bom humor, Patrick citou o personagem Capitão Gay de Jô no programa humorístico de TV – foi um encontro de atores.
Em outra entrevista lá pelo ano de 1992, veio à tona o assunto moda retrô, pois, na época, estava na moda um revival da moda anos 60 e 70. E Jô disse que estas décadas foram uma época tão estilisticamente horrenda que ele tinha um macacão com um coqueiro estampado, sendo que o tronco partia de uma das pernas da calça e a copa tomava conta de todo o peitoral.
A saída de Jô da Globo para o SBT foi espinhosa. Na ocasião, a Globo estudou proibir judicialmente Jô de usar o termo “Gordo”. No SBT, o programa chamava-se “Veja o Gordo” mas, algum tempo depois, o homem tratou de virar a mesa e consolidou-se como host de programa de entrevistas. Anos depois, Jô fez as pazes com a Globo e voltou à casa original, recebendo respeito e carta branca. É uma pena que este império todo tenha chegado ao fim. Difícil encontrar um host com tanta inteligência e desenvoltura. Uma era acaba. O que será de nós, agora que não vamos mais à cama sem ele?
Jô dizia que ser brasileiro é ser um palhaço, dadas as falcatruas nos bastidores do poder. No Jornal do Gordo, quando uma notícia trazia o termo “brasileiro”, Jô colocava um nariz de palhaço. Anos mais tarde, no talk show na Globo, um grupo de pessoas estava usando narizes de palhaço, e Jô disse:
- Estão fantasiados de brasileiros!
            Só você, Jô!
Felizmente, o Youtube tem muitos vídeos de entrevistas antológicas, postadas pelos fãs desse host inesquecível. A verdade é que Jô é deliciosamente imprevisível, como todo grande gênio. Único como toda pessoa virtuosa, que ganha a vida com seu trabalho e seu dom de tocar as mentes das pessoas. Um mágico.
Até as gêmeas caxienses Fabiana Koch e Karina Koch foram entrevistadas por Jô, pois na época estourara o escândalo da rainha da Festa da Uva que deixara a própria irmã desfilar em seu lugar, um fato só descoberto um tempo depois, numa revelação da mãe das meninas.
Artistas, empresários, modelos, artistas plásticos, jornalistas, intelectuais, escritores, diretores, estilistas, economistas, políticos, ministros, celebridades, atletas... Ih, muita gente passou pelo consagrado sofá do Jô, que é uma pessoa sem preconceitos, acolhendo pessoas das mais variadas, pois o bom entrevistador sabe que cada entrevista é uma história única.
Tem outra passagem ótima, envolvendo a socialite Narcisa Tamborindeguy. Jô estava tranquilamente lendo jornal à beira da piscina do luxuoso hotel carioca Copacabana Palace. A área de serviço do prédio Chopin, na residência de Narcisa, dava de frente para a piscina do hotel. Narcisa, ao ver Jô, começou a gritar desesperadamente:
- Jô! Sou eu, Narcisa. Jô! Olha eu aqui! – e Jô, discreto, fez que não viu nem ouviu. Sem desanimar, Narcisa pegou laranjas da sua fruteira na cozinha e começou a atirar as frutas na piscina, e Jô fingindo que nada acontecia. Descontente, Narcisa, ainda aos berros, começou a atirar laranjas no próprio Jô! Tudo para chamar a atenção de um dos homens mais amáveis do Brasil.