quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A Singularidade do Design Italiano




Falo pela primeira vez sobre o artista gráfico italiano Ettore Sottsass. Estava eu nesses tempos no site do majestoso Metropolitan Museum of Art de Nova York, meu amado Met, e vi que a instituição abria uma mostra sobre este designer italiano, o qual, antes disso, eu desconhecia. Filho de um italiano com uma austríaca, Ettore destacou-se no desenho italiano no pós-guerra, formando-se em Arquitetura pela Universidade Politécnica de Turim no ano de 1939, no início do conflito. Neste ano, Sottsass estaria completando 100 anos de idade, tendo falecido em 2007. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.

Acima, um divisor de ambientes. Um deus hindu, com vários braços e atributos. Uma aranha pós-moderna, colorida, abrindo os braços para seduzir uma mosquinha desavisada, enjaulando esta. A peça convida a colecionar livros, numa criatividade tão própria do Design Italiano. É uma dança cromática, alegre, festiva, carnavalesca, driblando as sequelas amargas da II Grande Guerra – o Mundo Pós-Guerra quer mais é se esquecer de Hitler e Mussolini, num pacto ocidental de reconstrução, assim como a Festa da Uva de Caxias renasce após o conflito. Este divisor de Ettore é o representante de um divisor de águas no Desenho Ocidental, e os padrões clássicos e tradicionais perdem força perante a reinvenção e a transgressão do Pós-Moderno, numa peça que, aqui, mesmo tendo sido feita há décadas, permanece fresquinha e inovadora, adorável e formidável, privilegiando uma casa que possua este divisor. É uma peça tão bela que dá quase pena de colocarmos objetos nela, como livros e enfeites em geral – é uma peça que se basta. Na parte inferior, vemos duas gavetinhas vermelhas, na cor vibrante do sangue italiano, no molho de tomate da tradicional pasta italiana. Estas gavetinhas são o segredo guardado da mente de Sottsass, no mistério do talento: o que faz uma pessoa ser talentosa e genial? É algo do espírito encarnado? De onde vem a criatividade? As gavetinhas são os segredos do Inconsciente, numa Caixa de Pandora, a qual jamais pode ser aberta ou ser exposta. O vermelho é o sangue derramado na II Guerra, o sangue de milhões de pessoas, como no Holocausto, na loucura e na demência do Nazifascismo. As gavetinhas são um segredo, um mistério, e cada um sabe o que guardar nelas, numa questão íntima e pessoal, privada, sigilosa, do pacto de confidência num consultório psiquiátrico: tudo o que é dito no consultório, no consultório permanece. No topo da peça, um retângulo que é a tela de um computador, em uma peça confeccionada décadas antes da Era Digital. A “tela” está no topo de tudo, como uma janela para se observar o Mundo, do modo como, hoje em dia, quem não está online, não está no Mundo, como em regimes ditatoriais, que tolhem a liberdade do cidadão em navegar pela web. Esta liberdade é a que vemos na mente de Ettore, livre em suas concepções, pois a censura é insuportável para o artista, como podemos imaginar como deve ter sido difícil a Vida Artística no Brasil durante a Ditadura Militar. Em todo este divisor, não vemos linhas curvilíneas ou orgânicas, e só podemos observar linhas retas, ainda que diagonais. A peça toda é uma explosão da mente do artista, como num Big Bang, espalhando-se por todas as direções, numa explosão de imaginação. Este divisor é tão formidável que quase nos dá pena de colocarmos algo em suas prateleiras, e outra impressão é a de que qualquer coisa ali ficaria bem exposta. O Design Italiano é genial, como na direção de arte da Copa do Mundo na Itália em 1990, onde pudemos ver a riqueza gráfica da italianada. A Itália soube reerguer-se após a queda do Fascismo, sepultando para sempre as limitações ditatoriais sobre o pensamento artístico. Na base de tudo, uma sólida pedra cinzenta, como um duro granito, como a Arte Egípcia exposta no Met. Esta base é o fundamento, a sustentação, do modo com um talento suporta a si mesmo, sustentando-se. Vemos algumas partes em branco, na cor da Paz. Mas vemos também algo em preto, num Ettore que tem uma visão abrangente de Mundo: os opostos convivem entre si. A maior de todas as tábuas é verde, na fertilidade de uma floresta vasta, na mente criadora de um Ettore fértil, num artista que não tolhe a si mesmo – Liberdade é tudo. Altamente simétrico, este divisor é uma obra de Arte por si só, mostrando um Ettore Sotsass digno de estar exposto no maior museu dos EUA, numa Nova York que respira Arte. A “tela de computador” ao topo parece ter um pescoço, dois braços e duas pernas, como um robô, como numa bombarrelógio, prestes a explodir – quando o artista tem talento, tudo o que aquele precisa é de persistência, pois o resto é questão de tempo. Respira-se o ar de vitória aqui. De cabeça para baixo, parece uma folha de plátano ou um cacho de uva, numa abstração que traz o pensamento racional e esquemático, com suas quinas e superfícies. O inevitável momento vem chegando. Não dá vontade de levar para casa?

Acima, um totem. O falo do Código de Hamurabi, impondo leis e obrigando o cidadão a ter um comportamento de elevação moral. Do contrário, a lei pune o cidadão. O falo amedronta: você quer ser preso? Não? Então, comporte-se. A palavra régua, em inglês, quer dizer ruler, ou seja, legislador. E não é a régua um falo, um cassetete de polícia? Os totens são assim, como um obelisco, cuja extremidade posterior é banhada pelo Sol antes do obelisco inteiro ser iluminado. Portanto, é um prenúncio de um novo dia, como um galo cantante. Em inglês, galo quer dizer cock, e este termo é, na linguagem vulgar americana, o pênis. Não é o falo uma cópia do pênis; o pênis é uma cópia do falo. Na verdade, o falo pouco tem a ver com sexo, anatomia e sexualidade. É um estabelecimento abstrato, como Madonna, ao ser entrevistada por David Letterman, chamou a atenção para o formato fálico de um microfone do estúdio televisivo. Aqui, o totem tem uma base bem simples, branca, cúbica, sem excessos gráficos, na brandura de uma bandeira clamando por paz, como nas paredes brancas do MOMA de Nova York. O falo é o Yang, o princípio masculino cósmico. Todos temos Yang. Uma grande amiga minha psicóloga disse-me que não devemos projetar coisas nossas em outrem, como, por exemplo, se eu projetar meu Yang em outra pessoa – temos que ser independentes psicologicamente. Todos precisam de virilidade, independência, autonomia. E não é patética uma pessoa que se coloca totalmente nas mãos de outrem? Acima do cubo branco, um padrão de listras, como numa camisa de sorveteiro, um lembrança doce de infância, como um pirulito – aí vem o falo novamente. Essa alternância entre branco e vermelho é um sinal, um aviso: não chegue muito perto; respeite o limite entre você e eu. É como a camisa do famoso Wally, dos livros Onde Está Wally?, fenômeno literário: onde está Ettore? O que ele quer dizer? Por que ele fez isso ou aquilo? Como todo grande artista, Ettore é um enigma, bem insolúvel, impossível de ser desnudado e de ser resumido em palavras. Acima das listras, mais um cilindro, desta vez multicolorido, com azul, verde e vermelho. O verde intermediário é um mediador, pois amarelo e azul estão em guerra, visto que são tão diferentes um do outro, não havendo entendimento recíproco. Então, o verde surge como diplomata mediador, em nome da paz, no sentido de que o verde é a junção entre o amarelo e o azul, ou seja, a verde é algo que este dois oponentes têm em comum, numa promessa de paz, como uma linhagem em comum – o Fascismo deve ter sido insuportável para as mentes criativas italianas. O verde é a neutralidade suíça, numa sala de negociação e entendimento. O verde se esforça. Mais acima, uma parte bem negra e densa, numa bruxa má de Disney, na cor da morte, da ausência de luz, no ódio entre as nações envolvidas na II Guerra Mundial. Aqui, o preto tem amplo destaque, mais gordinho ao centro, numa janela que se abre para o nada, como no Umbral espírita, um lugar horrível, onde a privação reina solta. O preto significa os horrores da Guerra, de qualquer guerra. Acima do preto, uma pequena peça branca, menor do que a base do totem, mas mantendo-se na missão de paz, mesmo esta peça sendo tão menor do que a guerra. Mais acima, uma bola achatada que lembra uma tangerina, na doçura da paz e do entendimento e, ainda assim, meio ácida, no prazer de um vinho adstringente, que cutuca a boca do provador. A tangerina é a produtividade de Ettore, tendo neste a fertilidade mental para produzir abundantemente, nunca parando de criar, como Tao, que está sempre criando. E, no topo de tudo, uma forma que parece ser uma tampinha de refrigerante, coroando tudo, na cor do sangue, do molho de tomate italiano, do modo como todos os seres humanos estão unidos por laços de sangue: todos filhos do mesmo Rei. A tampinha é a conclusão de tudo, num certo derramamento de sangue, mas numa promessa de paz. É um nariz de palhaço, trazendo alegria a um mundo tão dividido – a Arte tem o dever de unir as pessoas. Aqui, vemos um equilíbrio frágil, como se as peças estivesses empilhadas, sem um pingo de cola para uni-las. É a fragilidade da paz, e qualquer sopro aqui arruinaria tudo. Aqui, vemos hierarquia, como numa pirâmide social com várias castas relacionadas. Para os indígenas americanos, os totens tinham um poder mágico, dispondo divindades em hierarquia conforme o nível de elevação, do modo como o Espiritismo estabelece que há uma forte hierarquia entre os espíritos: os moralmente mais elevados governam os menos, como num elevador em um prédio. Este totem é um prédio deliciosamente estranho, incomum.

Acima, uma luminária. O patinho feio “torna-se” cisne. O fio elétrico é a conexão de Ettore com o mundo a sua volta – o artista encontra a si mesmo ao fazer Arte, colocando-se a serviço do Mundo e trilhando caminhos nunca antes trilhados, pois não há mérito em trilhar caminhos que já foram trilhados, na força da Originalidade. Na “cabeça” do pato, uma antena prateada, ligando as mentes em comunhão, fazendo a percepção passar por Ettore, e este chama a atenção de uma instituição tão séria como o Met – medíocres não têm vez no Met, na dureza de uma Nova York sedenta por Arte e inovação, como na prestigiada Parsons, escola de Design de Manhattan. A antena é um sinal sendo emitido incessantemente, interligando o Mundo, unindo mentes. O bico do pato é sensual, rubro, com vivo sangue pulsando, no sangue italiano de Ettore, vibrante como uma comida feita pela Mamma. Com o bico, o pato se relaciona com o Mundo, alimentando-se em uma fome insaciável, num artista focado em produtividade. Certamente, Ettore é inusitado, com uma imaginação monstruosa. A cabeça do pato é rósea, como um suculento bife de gado ou porco, na delícia que é Ettore. O tronco do pato é uma grande haste amarela, firme, voluntariosa, fazendo o bicho se curvar para se alimentar ou se hidratar, numa fome e sede infindáveis, de um artista que nunca parou. É o produto de limpeza Pato, matando os germes da mediocridade e trazendo a limpeza de uma mente criadora, pois Tao é isso: limpeza, pureza, minimalismo, simplicidade. Ao lado da haste dourada há um tubo que provavelmente é por onde passa o fio elétrico. É da cor do chocolate, no delicioso Design Italiano, na fragrância de chocolaterias de Gramado. O tubo marrom é um intestino, processando os alimentos, sempre em demanda orgânica, num organismo dinâmico e incessante. Junto à haste amarela, um triângulo negro, servindo de base de apoio para a haste, prevendo como o preto tornar-se-ia moda a partir dos anos 1990. O preto é uma nesga de dúvida, de escuridão, mas uma escuridão que jamais poderá ofuscar a festa de cores nesta luminária. Como diz uma canção em inglês: “There’s a little, black spot on the Sun today”, ou seja, “Há uma manchinha preta no Sol hoje”, na questão da encarnação: sempre haverá um ponto negro no Sol; sempre haverá algo de que não gostamos. O papel mínimo do preto aqui revela uma minimização da dor, transformando esta a um pontinho reduzido. Na base de todo este pato, um bloco oblíquo, estampado, alternando a base branca com manchinhas negras. Esta é a base de tudo, como o lago no qual o pato nada, com águas profundas, nunca totalmente alvas, mas com um quê misterioso, no mistério da existência: o que vai acontecer? Estas manchas são pequenas minhocas, movendo-se sensualmente na vibração da vida, sendo comida por pássaros famintos, talvez comidas pelo próprio pato. Esta é uma luminária sofisticada e inusitada, um item de luxo, algo feito de forma extremamente customizada, artesanal, nunca cabendo ser feita em uma esteira industrial – Ettore é para poucos. A luminária tem um movimento que nos faz achar que o pato está se curvando para obter água e comida, na incessante luta pela vida, num artista muito guerreiro, que nunca se “atirou nas cordas” – é a força da produtividade. A fria dignidade deste pato está em ser útil para iluminação, mas, ao mesmo tempo, é incomum, um artigo de alto luxo, muito mais caro do que luminárias convencionais. Ettore tem uma preocupação em colorir, nunca caindo no tédio monocromático, sempre trazendo combinações originais, evitando ao máximo o tédio e a obviedade, o suficiente para, repito, estar exposto no Met. É uma alegria colorida, jovial, sem ranço ou siso, num artista que nunca, de fato, envelheceu, como Leonardo da Vinci, que se manteve irreverente até o fim da vida. O que é melhor? Uma casa limpa ou uma casa cheia de pó? Você decide, pois Tao não é ditatorial. E a mente artística tem que voar livre. Aliás, qualquer mente tem que voar livre.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mago (Parte 6)




Falo pela sexta vez sobre o célebre artista MC Escher. As imagens analisadas aqui foram todas extraídas do site oficial do artista. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.

Acima, Convexo e Côncavo, litogravura de 1955. Quase ao centro do quadro vemos uma concha, como a de Vênus de Botticelli, emergindo dos mistérios profundos do mar e do universo, encabulada com a própria nudez, com cabelos de Gisele. A concha simboliza os efeitos do quadro, e não podemos dizer se é para fora ou para dentro. São ambas. O ilusionista Escher trata de subverter o óbvio, tornando-se um artista muito popular. A concha está à beiramar, perdida, representando o que é profundo e enigmático, com o cheiro de oceano, de vida, na gênese da Vida na Terra – viemos do Mar, segundo a Biologia. Bem ao centro, vemos uma imponente coluna, e não sabemos se a vemos de cima ou de baixo. A coluna é a força da Natureza, impondo-se e regrando a Vida. A coluna é mais firme do que os fundamentos geológicos da Terra, e é indestrutível, forte, impenetrável, fálica, erguendo templos e edificações, do modo como antigas civilizações lançaram mão das colunas para construções em geral, como um obelisco egípcio, anunciando o nascer sagrado do Sol, como no obelisco central de Buenos Aires, num símbolo de poder e dinheiro. A coluna é um símbolo fálico de construção, na força que ergue cidades, sempre falando a verdade fálica e clara. A coluna tem formas simples, distantes de estilos de colunas mais carregadas e decadentes. A simplicidade de Escher revela-se bem complexa. Ao pé da cena vemos dois lagartos gêmeos, simétricos em um par, contorcendo-se como em cio, desejosos por aspectos da vida material, como comida, sexo, água e oxigênio. Os lagartos são a força implacável da Natureza, uma força maior do que todas as bombas atômicas da Terra – o Ser Humano bem que tenta ser Deus. As línguas dos lagartos farejam, sempre em busca de algo relativo à existência carnal. Os lagartos são um Escher inquieto, instintivo, com muito tesão por fazer o que faz, como Tao, que está sempre criando. A coluna ao centro é um divisor de águas, fazendo com que tudo gire em torno de si. É um marco, como Jesus tornando-se o centro sobrenatural da História. É o antes e depois. Mais acima vemos uma mulher negra carregando um cesto, trabalhando, subindo e descendo as escadarias traiçoeiras de Escher. A mulher negra é elegante, e está comedida em sua própria função. Vemos um vaso de planta, no milagre da Vida que brota. A planta é a imaginação fértil, produtiva, sensual em seu desejo de viver, de existir, de fazer parte de um grande organismo geral, da Natureza, na sensualidade da relação de continuidade entre todos os seres vivos – a Terra é uma só. Vemos dois homens tocando cornetas, como se quisessem anunciar algo, e tocam em conjunto, do modo como os seres vivos vivem em comunhão. Seus acordes ecoam pela câmara escheriana, enchendo a cena de som. Atrás da mulher negra vemos uma vila pitoresca, no prazer da vida pacata, silenciosa e pacífica – Escher tem paz. Vemos um arco tapando parcialmente um homem em uma canoa em trânsito pela água, na fluidez do pensamento lógico e, ainda assim, criativo – de onde vem o talento? A canoa flui livre, sem embargos. Por duas janelas vemos árvores ramificadas, como veias e artérias que alimentam, como raios de trovão, na força da Natureza, na força da Vida fluindo implacavelmente, trazendo respiro e movimento – Escher é dinâmico, e seus quadros são como telas de Cinema, do modo como a Sétima Arte marcou o Século XX. Aqui, vemos mais uma vez a paixão de Escher por escadarias e arcos, numa Arquitetura Clássica, minimalista, sem frescuras nem sujeiras dispensáveis. A impressão que se tem é que tudo é um sonho fluidio, enigmático, e que o artista sonhou antes de produzir. Divertindo-se, Escher atiça o espectador. Há intersecção: a mesma escada que vai para lá, vai para cá, numa espécie de multiuso, como um canivete com várias funções, ou um celular com várias utilidades. Vemos dois homens subindo escadas de mão, só que cada um em um centro gravitacional. Em uma janela arqueada, vemos um vaso bem na beira, perigando cair e causar estrondo, no modo como uma catarse artística explode como uma bomba de Hiroshima, só que sem causar Mal nem destruição – é uma destruição simbólica, psíquica. Ao lado dos lagartos, guindastes erguem algo, em níveis diferentes. Escher é uma mente grandiosa, que atira para vários lados, como um deus hindu, com vários braços e atributos, ou como uma aranha, tecendo teias de sedução. Por fim, temos um homem solitário e encolhido, talvez dormindo, como o Escher sonhador, no seu labor solitário, curtindo os necessários momentos de solitude, como diz uma canção da banda Guns n’Roses: “Todo mundo precisa de um tempo só, consigo mesmo”.

Acima, Encontro, litogravura de 1944. Aqui, opostos se encontram, num cordial aperto de mãos, ao contrário dos obsessivos compulsivos, que não podem tocar em outra pessoa. Temos uma dança um tanto tribal, por assim dizer. É um quadro onde há música rítmica, e Escher se revela mais uma vez como mestre do jogo entre positivo e negativo. A sombra, o resto do homem branco, transforma-se no homem negro, uma integração racial, onde o preconceito não entra. É a promessa de um mundo mais unido, povoado por irmãos, e a Igualdade, a Fraternidade e a Liberdade tomam forma, pois já ouvi numa canção: “Não há liberdade sem amor; não há amor sem liberdade”. Os homens negros têm um nariz descomunal, como um bico de pássaro, na liberdade alada. Podemos ouvir tambores contagiantes, enchendo a cena de música. É divertido todos dançarem em torno do mesmo motivo, do mesmo Sol, da mesma Lua. Temos aqui um ativismo político, algo contra o preconceito, criticando o absurdo estúpido que foi a Escravidão: africanos arrancados de suas terras para o cruel trabalho não-remunerado. Escher tem esperança no Ser Humano. O aperto de mãos é o encontro consigo mesmo, numa pessoa que finalmente amadureceu e conciliou as contradições dentro de si. É o encontro consigo mesmo, numa pessoa que chegou à conclusão de que a pessoa tem que SER, independentemente de onde ESTÁ. Antes desse encontro, há sofrimento, há desarmonia, há conflitos consigo mesmo e com o Mundo. O artista encontrou-se na própria arte, encontrando o seu “fio-terra”, a sua ligação como Mundo. Pobre daquele que não entra em harmonia como mundo ao seu redor. Escher faz um majestoso aproveitamento de espaços, como sempre, e uma lacuna oval, quase no centro da cena, é o caldeirão comum, do qual cada um de nós veio. É Tao, a Mãe de todos nós. A lacuna é a sensualidade do vazio, da atração gravitacional, trazendo todos a seu redor, integrando, criando sempre. Temos um diamante negro e um diamante branco, iguais em majestade e preciosidade, só que cada um a seu modo, com estilos diferentes: as pessoas são diferentes. Parece um formigueiro movimentadíssimo, com formigas brancas e negras realizando tarefas, e não sabemos se há uma janela aberta para a luz ou se há uma janela aberta para a noite, num Escher sempre enigmático. E por que a dança? Porque a Arte une os povos, visto que, se o ser humano é universal, a Arte também o é. E grandes sucessos do Cinema varrem o mundo com sucesso, com películas aclamadas nos quatro cantos do Mundo, no apelo de pessoa para pessoa. E na cena final de Titanic, os espíritos ressuscitam nos pós-vida, todos reunidos novamente em torno de Tao, Nosso Pai, Nosso Útero – é a promessa do Reino dos Céus, trazida por Jesus. Aqui, toda a cena tem um movimento circular, como numa cadeia de reciclagem, seja numa usina de triagem, seja na Natureza em si. É a elipse da Vida, sempre girando, como numa galáxia girando em torno do próprio centro, no mistério vasto do Universo: o que é a Eternidade? O homem negro o homem branco são irmãos, mesmo pertencendo a raças diferentes, muito diferentes. No fundo da cena, vemos a contradição básica: ou vemos só o branco, ou vemos só o negro, nunca vendo ambos ao mesmo tempo. Já, no aperto de mão, vemos claramente os dois ao mesmo tempo, num Escher paciente, que trata de seduzir a mente do espectador. A cena toda é uma tela de Cinema, no brilho prateado da Era de Ouro de Hollywood, num quadro concebido em plenos anos 40, quando a II Guerra Mundial abalou o Mundo – Escher quer Paz. A cena é um apelo: façamos as pazes, pois guerras só deixam rastros de destruição e fome. É o sonho de ver Aliados e o Eixo apertando as mãos, mas um sonho distante, que, na prática, revela-se inviável. E a pessoa se dá conta que só pode ter Paz dentro de si, e que a Paz no Mundo é um sonho difícil, porém possível. O negro e o branco vieram da mesma Fonte. Logo, as guerras são uma estupidez de demência; uma perda de tempo. É como uma ciranda divertida, na inocência infantil, quando os preconceitos do Mundo ainda não atingiram o indivíduo – temos muito o que aprender com os pequeninos. No quadro, a desigualdade é esmagada, como os alvos pés de Nossa Senhora esmagando a serpente da malícia.

Acima, Espelho Mágico, litogravura de 1946. Narciso, afogando-se no próprio reflexo. Vasta é a imaginação escheriana. O espelho é uma espécie de portal, sendo penetrável e, ainda assim, impenetrável. O par de esferas não é fruto de reflexão, pois há de fato duas unidades. São os culhões de Escher, sempre corajoso ao enfrentar desafios gráficos. O título desta lito cai como uma luva, pois o espelho é um enigma: o que diabos está acontecendo aqui? O espelho está ao centro da base de superfície de pastilhas, num Escher preocupado em construir peça por peça. Como seriam os rascunhos de Escher? Quantos rascunhos ele fazia até conceber a obra em si? Será que ele “quebrava a cabeça” de forma persistente e perfeccionista, até chegar à concepção ideal? Qual é o segredo dele? E espelho é a divisão da esfera terrestre em dois tomos, fazendo do espelho um intermediador. Aqui, há sempre fluxo, entre dois pólos magnéticos. O espelho parece ser um obstáculo, um muro, um empecilho, mas, na verdade, é uma espécie de portal divisor de águas. Os seres alados aqui são mitológicos, com corpo de cão e asas de pássaro, como numa inimaginável mutação genética. Os desenhos sobre a base vão se transformando em seres em três dimensões, caminhando. Aqui, o que não é de um time, é de outro, fazendo de um time a contradição do outro time – Escher não deixa espaços inaproveitados, do modo como nada se perde na Natureza. O espelho, em alguns momentos, parece ser uma janela absolutamente translúcida e cristalina; em outros, um espelho de fato, brincando com o espectador. Do espelho brotam os seres da direita, formando o perfeito reflexo dos seres da esquerda. O espelho é uma superfície d’água, como Ana Terra de O Tempo e o Vento, olhando-se, admirando-se em vaidade, querendo ser mulher. E, aqui, o Narciso se afoga na charada de Escher, nesta “confusão organizada”. E por que as bolas? Por que estão ali? Este quadro tem uma simetria e, ao mesmo tempo, assimetria, pois o espelho entra como organizador e confundidor, nunca podendo ser classificado exatamente, do modo como Escher é indefinível, como todo grande homem. As bolas são dois olhos que observam o vaivém da cena, como os olhos embaralhados do espectador, que fica “vesgo” perante tal enigma. As bolas são o espírito esportivo de Escher, sempre jogando e brincando, dando uma bola dentro neste trabalho tão popular. E os seres alados não voam; só caminham. Por quê? Seria uma castração? Seriam asas de galinha, que pouco podem voar? É um artista com os pés no chão, sabendo que, se quiser ser reconhecido, tem que ter mérito para tal. E Escher faz por merecer. As bolas são planetas gêmeos, idênticos, circundando o mesmo sol, a mesma estrela, o mesmo ideal, num ideal de união. O espelho está na diagonal, irreverente, pouco se importando com conceitos acadêmicos. Será que Escher usou um espelho de verdade como modelo? Da superfície direita do espelho, brotam seres como se estivessem emergindo d’água, como num renascimento, saindo limpos e purificados, limpando todo o quadro, na pergunta básica de Tao – o que é melhor: uma casa limpa ou uma casa suja? Você decide, no livre arbítrio espírita – o espírito vai para onde quiser e pensa o que quiser. Fino e frágil, o espelho é o protagonista aqui. Sem ele, a cena seria monótona. O quadro todo é como uma frondosa copa de árvore, com folhas ricas e abundantes, no ritmo biológico incessante do eterno retorno à Fonte, como Neo em Matrix. As bolas são lados de uma mesma bateria, uma pilha, dando energia criativa ao artista, estimulando este com desafios – cada obra de Escher é um desafio para o próprio, e é claro que não deveria ser fácil conceber trabalhos tão singulares e curiosos. Apesar do dom, Escher teve disciplina, e esta disciplina se revela nesta energia magnética que une o planeta Terra, trazendo na bússola um divisor de águas na Era das Navegações, numa evolução inovadora. Escher é uma bússola, sempre guiando o espectador. Aqui, temos uma majestosa hera, sempre vivendo, sempre brotando, impondo-se na força implacável da Natureza, do poder desta.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Mago (Parte 5)




Falo pela quinta vez sobre o célebre artista MC Escher. As imagens analisadas aqui foram todas extraídas do site oficial do artista. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.

Acima, Ascendendo e Descendendo, litogravura de 1960, 28,5 cm x 35,5 cm. Não me canso de dizer que Escher tinha alma de arquiteto. Seus trabalhos privilegiam formas arquitetônicas, com muitos arcos, colunas, telhados, janelas e escadarias. Aqui, Escher, mais uma vez, revela-se o charadista do século: a escadaria sobe ou desce? Os homens sobem e descem atarefados, incansáveis, incessantemente trabalhando para realizar algo. A escadaria ambígua é a mente de Escher, numa genialidade que sempre instiga o espectador. Os homens estão todos encapuzados, misteriosos, idênticos uns aos outros. De repente são o mesmo homem, só que em vários momentos. Os telhados são meticulosamente construídos, telha por telha, num Escher construtor: teria ele obtido sucesso se tivesse uma firma de construção civil? Neste prédio as formas são belas e delineadas, sem excessos de arquiteto pretensioso e, apesar da escadaria enigmática ao terraço, é um prédio normal, sem charadas, e é um belo prédio, num projeto harmonioso, na busca de Escher pela beleza suprema. Existe em Escher uma certa Matemática, e suas formas são como frias equações, feitas na fria razão numérica. Há apenas dois homens além dos que estão subindo/descendo: um está de pé em um pequeno terraço, debruçado no parapeito, contemplando o trânsito frenético da escadaria mágica; o outro, senta-se numa escadaria mais ao térreo, pensando, refletindo, olhando para o vazio branco à sua frente, perguntando-se o que vem depois da vida na Terra, num Escher pensador e contemplador, sempre querendo retratar a vida de modo próprio e inconfundível. A escadaria traiçoeira é a contradição taoista: o orgulho arrogante é fraco; a fraqueza humilde é forte. A vida é feita de escolhas, e o olho do espectador tem que decidir se sobe ou desce, nunca podendo fazê-lo ambos ao mesmo tempo, no sentido dialético de que tudo traz em si a sua própria contradição, num sinal de senso de humor divino: Deus é um charadista, ou seja, Tao é um brincalhão. O prédio todo está envolto em brumas brancas, num mistério: o que está por traz da camada branca? Até onde vai o universo? O que é o infinito? A luminosidade alva ilumina o quadro todo, e as formas ficam delineadas por um Escher mestre em encontrar luminosidade e delinear formas. O branco é a paz, o entendimento, na missão da Arte de civilizar e guiar o Mundo. As escadarias são um ciclo vital, e tudo acaba caindo na mesma vala. Escher nos diz que, no momento em que achamos que estamos caindo, estamos subindo – isto é a Humildade. Quando você se acha uma lâmina de bisturi afiadíssima, é porque você não está muito bem, e está sendo arrogante; quando você se sente como uma tesoura cega, é porque você está bem, e está sendo humilde e pés no chão. E a pessoa humilde observa o restante das pessoas e as acha tão afiadas. E os capuzes são o mistério existencial, escuro, escondido, com coisas que a Divina Providência nunca revela fora do momento adequado. Quando uma pessoa tem que passar por um determinado momento, não há Cristo que impeça isso. E as formiguinhas trabalham incessantemente, nunca sabendo que o biscoito é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho. Escher não está aqui para dar respostas, mas para lançar dúvidas. É um desinformador, na humildade de um artista que realmente não sabe desvendar todos os mistérios do universo, de Tao. Podemos ouvir os passos dos homens encapuzados, e a Vida segue em seu ritmo, num striptease que nunca revela a nudez completamente, nunca entregando o jogo. E não seria extremamente tedioso se Escher fizesse obras óbvias? O óbvio é um ilusão; o mistério é eterno. Temos que conviver com o mistério da Eternidade, e nunca mataremos a charada escheriana. E é exatamente este mistério o que gera a eternidade. Aqui, os picos dos telhados são pontiagudos, agressivos, ameaçadores, e exigem que sejam observados à distância, exigindo respeito à mente de Escher. São como amargas seringas, contendo um remédio amargo, mas que cura. A Arte é um remédio que cura o Mundo. Qual é o propósito disso tudo? O que vem depois? Escher, em sua humildade, não sabe. Como é dito no divertido filme Dogma, Deus tem muito senso de humor. É um redemoinho, uma galáxia que gira em torno do mesmo Tao, havendo fluxo e contrafluxo. Yin e Yang beijando-se. O buraco negro é poderoso porque é invisível, discreto, tímido, humilde.

Acima, Preenchimento de Plano, litogravura de 1957, 37 cm x 31,5 cm. Não existe perda de espaço para Escher, e a imaginação do artista aproveita cada espaço, guiando nossos olhos entre positivo e negativo: na Natureza, tudo se recicla. Aqui, temos um plano biológico, cheio de vida. O termo preenchimento no título ilustra a intenção escheriana, sempre imaginando, com muita inteligência emocional, oportunidades gráficas. E não temos só seres vivos aqui, mas também um violão. Escher vê o Mundo de forma melódica, artística, e temos aqui uma grandiosidade, num artista que não usa muitas cores, sempre se contentando com preto & branco, na magia das contradições entre esses dois opostos. Vemos grandes peixes nadando, dando uma dimensão líquida e fluidia ao quadro, na fluidez da Vida, do modo como o Oceano é a Mãe da Vida na Terra, na semelhança linguística entre os termos, mãe, mar e Maria, numa Iemanjá que reina nas águas, arrastando tudo e todos consigo, reinando e abençoando os pescadores e navegadores, no feriado de Nossa Senhora dos Navegantes, em Porto Alegre. O peixe livre é a imaginação de Escher, do modo como um artista tem que se sentir livre, frustrando-se com a censura, com o veto, com a proibição ideológica. Vemos aqui também seres humanos – um branco e um negro, na diversidade racial do Mundo. Neste quadro, o pensamento de Escher mostra que a Vida vem de um só caldeirão biológico, de uma só fonte, uma só Mãe. Os seres aqui convivem em absoluta harmonia, nadando pelo quadro e misturando-se uns com os outros. Aqui, não temos conflito racial nem qualquer outro preconceito que cause cisão e separação, mas vemos integração num bioma autossuficiente, do modo como na Terra os seres estão incluídos em uma só esfera, sendo impossível haver Vida no espaço sideral – o Mundo é uma grande usina de reciclagem. Seria Escher um amante da Biologia? Vemos aqui um grande caracol, que é a lentidão paciente com a qual Escher produz suas obras, construindo tudo pedacinho por pedacinho, com passos de bebê, alheio ao ritmo frenético e estressante do mundo lá fora, isolando-se em uma bolha de silêncio e quietude, criando sempre, em seu próprio ritmo, sem estresse nem pressões – Escher é trabalhador, mas não workaholic. Também vemos aqui seres fictícios, como diabretes, frutos de mutações, do modo com a Mutação é a chave para a Evolução. Trata-se de um quebracabeça, com peças perfeitamente encaixadas, como na perfeição das teias tecidas pela Divina Providência, numa aranha existencial. Todos aqui respiram o mesmo oxigênio, compartilhando um mesmo útero primordial, numa irmandade, onde há igualdade e, ainda assim, diferenciação, numa contradição essencial. Vemos um canguru, provavelmente guardando um filhote em sua bolsa, do modo como Escher guarda em sua bolsa obras com um longo período de gestação, parindo quando acreditar que é a hora de trazer o “filhote” ao Mundo. No topo da cena vemos um elefante, no peso de um talento claro de se observar, impondo-se com sobrepeso, esmagando mediocridades e incompetências. Parece que todos estão se abraçando, numa orgia gráfica. O homem abaixo do elefante acena para o espectador, numa missão de paz e civilização, convidando as pessoas a integrar a cena e fazer parte dessa grande comunhão: estão todos dentro do mesmo saco, na simplicidade monoteísta: há um só Caminho. Escher nos mostra que em tudo há duas leituras, sendo uma a contradição da outra, do modo como razão e loucura fazem parte do mesmo pacote, como diz Tao: o difícil e o fácil fazem parte do mesmo trabalho. Uma leitura que faz sentido; outra, que não faz. É como lixo seco e lixo orgânico, fazendo parte da mesma limpeza. Ao lado do violão, vemos uma corpulenta serpente, retorcendo-se sensualmente, abrindo a boca para proferir veneno, banqueteando-se na cena repleta de vítimas potenciais. A serpente é a força da mente de Escher, na liquidiscência vital, do modo com a água é essencial à Vida na Terra. A serpente é uma montanha russa, com sua curvas perigosas e traiçoeiras, sempre se insinuando por entre a mata. É um intestino processando o alimento, funcionando na cena biológica. Vemos também uma lagosta com garras fortíssimas, num Escher que se apega profundamente ao labor, nunca largando por completo o vínculo com as próprias obras, sempre sentindo-se um pai que vê o filho saindo de casa; um filho indo morar sozinho – a obra, mesmo comercializada, sempre pertence ao artista que a concebeu.

Acima, Belvedere, litogravura de 1958, 29,5 cm x 46,2 cm. Há uma ambientação medieval, visível nos trajes das pessoas aqui. No topo da estrutura, uma bela dama observa o horizonte, num Escher vislumbrador de desafios e oportunidades artísticas. A dama está quase inacessível, exigindo muito esforço por parte do homem que quiser esta dama. Mais uma vez, a ilusão de ótica toma conta, com arcos entremeando-se, ludibriando as percepções do espectador. Abaixo da dama elevada, um senhor nobre também olha para o horizonte, só que numa direção diferente. O céu está enegrecido, sem esperança, e o recorte geológico de montanhas toma a linha do horizonte. São picos agressivos, como facas afiadas. Podemos ver um pequeno rio no fundo de um vale, alimentando com água as florestas ao seu redor. Dois homens competem um com o outro, disputando a dama elevada, que é o princípio passivo, numa goleira de futebol, como o vale atrai a água para si – a dama está numa posição superior e, ao mesmo tempo, inferior. A escada que dá acesso à dama é traiçoeira, prometendo dar um nó em quer quiser subir ao topo da estrutura. É uma teia traiçoeira de aranha, e os homens ascendendo estão enfeitiçados, inebriados pela dama, como espermatozoides competindo pelo mesmo óvulo, na corrida da Vida, da seleção natural. O homem abaixo da dama está alheio a essa competição mundana, observando os picos nevados de montanhas ao longe, na frieza da mente de Escher, estabelecendo divertidas ilusões de ótica, numa cabeça definitivamente pensante. Ao pé da cena, vemos um homem preso, atrás de grades. O que ele fez para chegar àquilo? Ele está com a cabeça para fora, louco para ser libertado, como o Espiritismo diz, quando questionado se um espírito gosta de estar encarnado, o espírita dirá: “Pergunte a um prisioneiro se este gosta da prisão”. É o cárcere da encarnação, da missão que o espírito precisa cumprir antes de se libertar, ou seja, desencarnar. Ao lado do homem gradeado, outro homem, sentado, manuseia um cubo mágico, que é um subconjunto da ilusão de ótica da qual Escher lança mão no quadro. O cubo é dinâmico em sua formidável contradição, formando uma charada insolúvel, assim como Escher forma charadas. O homem sentado contempla o cubo piadista, e está alheio à ânsia encarcerada do homem gradeado. Ao pé da escadaria, um casal começa a subi-la. O longo vestido da mulher é como um rabo de peixe, fluindo livre pelas escadarias. O homem aponta para a escadaria, convidando a mulher para acompanhá-lo. É uma cena de sedução, e o homem tem intenções ocultas para com ela, num Escher sedutor em sua arte. No lado direito, abaixo, mais uma janela gradeada e, ao lado, uma porta fechada, no cárcere da carne, da vida na Terra, na dimensão material, do modo como um psicopata não consegue enxergar além da dimensão material – é o mundanismo vulgar e criminoso, num espírito infeliz, o qual não tem nobreza para transcender e superar as vicissitudes da vida material, pois um psicopata não quer ser respeitado; um psicopata quer ser temido. É engraçado observar que a dama ao topo está num lugar inacessível, apenas acessível por um artifício, um improviso. Por que tanta inacessibilidade? Será que isso excita os homens que sobem, como numa ereção? Os telhados têm picos agressivos como os picos das montanhas, do modo como um artista precisa se diferenciar e ser original, evitando assim a competição medíocre e pequena. O homem mais ao topo da escada olha o opositor ascendendo, e parece disposto a fazer de tudo para tolher e eliminar o oponente, na agressividade da vida selvagem, como dois machos competem pela fêmea. O chão abaixo na cena é quadriculado como um tabuleiro de xadrez, num Escher habilidoso, que move-se com suas peças em estratégias inimagináveis, revelando maestria. O telhado alvo contrasta com o céu negro, pois sabemos que Escher é uma espécie de barroquista, tendo entendido o jogo entre claro e escuro. Os arcos são sensuais, deixando o ar circular, trazendo vida à cena, oxigenação – podemos sentir a brisa. Abaixo, na extrema direita, vemos ao fundo uma estrutura que pode ser o pedaço de uma pirâmide, apontando para o céu, como uma longa escada que leva à transcendência, num formato agressivo e abrasivo, como pastas de dente, que deixam os dentes ficar polidos. Símbolo de poder e renascimento, a pirâmide traz a dignidade da grande dama ao topo, inspirando e fascinando. A inacessibilidade é a virgindade, na Imaculada Conceição, no mistério da concepção divina, da dimensão acima da nossa, sendo aquela uma dimensão livre das influências da matéria.