quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A Mensagem de um Anjo




Certa vez fui presenteado com um livro ilustrado sobre Michelangelo, o qual expressou-se muito bem em Pintura e Escultura, ao contrário de da Vinci, que não se aventurou em esculpir – não estou aqui desmerecendo Leonardo. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Pietà. Estimo que no Mundo haja vários milhares de templos católicos e, fiquei sabendo, há na Terra menos de cem réplicas da Pietà de Michelangelo, e um destes privilegiados templos com uma réplica é a Igreja de São Pelegrino em Caxias do Sul. Lá, podemos apreciar a pouca distância cada detalhe desta obraprima de um dos dez mais expressivos artistas renascentistas. Lembro-me da freira que acompanhava a mim e meus coleguinhas da Escola, e a senhora disse-nos: “Olhem a tristeza de Maria ao ver o filho morto”. Em outra ocasião, uma prima minha mandou-me fotos digitais impressionantes de ângulos poucos vistos da Pietà, como nos fundos da escultura. Em São Pelegrino, podemos ver apenas a obra de frente, e o mesmo acontece com o Davi de Michelangelo na Europa – o correto seria podermos ver quaisquer obras sob todos os ângulos. Aqui, na Pietà, o dom de Michelangelo é assombroso, e parece que vemos tecidos, e não pedra. A textura têxtil é impressionante, e na escultura vemos uma fluidez sedutora, preguiçosa, adormecedora, e Jesus parece mais dormir do que estar morto. Jesus está amolecido, caindo sobre o ventre da mãe, retornando ao útero, do modo como o espírito desencarna e volta à colônia espiritual, no eterno retorno, como de no final de 2001- Uma Odisseia no Espaço: o feto retorna à Fonte, na silhueta de uma barriga grávida, do modo como o caixão é um útero, um receptáculo, na crença humana (e espírita) de que a Morte é uma simples vírgula, uma passagem, um trânsito, no sentido de Jesus desencarnar e ressuscitar – a Mente sobrevive à morte do Corpo. Maria e Jesus competem para ver quem é a grande estrela da cena, e Maria está ligeiramente ganhando esta “competição”, colocando-se no ponto mais alto e visível, exaltando a Dor como forma de expressão, numa catarse do escultor: a tristeza é “colocada para fora”, no poder terapêutico da Arte. Temos um Michelangelo que, nessa catarse, deixa de ser melancólico e doloroso, parando de sofrer pela inevitável Dor da Encarnação – não é o Mundo uma escola na qual aprendemos por meio das dores? A quase total nudez de Jesus mostra em minúcias a precisão do autor, e podemos ver cada veia salientando-se sutilmente na pele no Salvador. Vemos cada músculo definido e nítido, na busca do Ser Humano pela altivez atlética, pela beleza do corpo em forma, na forma como o Renascimento traz de volta ao Mundo Ocidental o culto pagão à beleza do corpo nu, sepultando a sisudez medieval que reprimia qualquer nudez. Com Michelangelo, e os outros mestres da época, o nu volta à moda, e o Ocidente nunca mais foi o mesmo. A maestria salta aos olhos em um dos pés de Jesus, o este membro repousa sobre um toco de madeira, e o Michelangelo abre na pedra um vão, dando a impressão de que o pé está suspenso, balançando, num aspecto de movimento, como no enigmático vão do MASP: a sensualidade reside precisamente no vazio, no vácuo, na vaga, como um copo, que é útil porque é vazio. Ao contrário da nudez atlética de Jesus, no corpo de um atleta sem uma gota de gordura no corpo, Maria está extremamente recatada em suas vestes, e sua cabeça está com um véu que tapa-lhe totalmente as orelhas e os cabelos. Podemos ver, no máximo, parte do seu pescoço, com uma certa tensão muscular. Vemos somente as mãos da Mater Dolorosa, e seus pés estão ocultos. As vestes da Maria são majestosas e luxuosas, dignas de uma rainha, e não de uma esposa de carpinteiro: Maria desencarnou e tornou-se “rica”. Jesus está num padrão de beleza masculina atual: magreza com músculos definidos. Podemos ver em seus joelhos o osso definido sob a pele. Cada detalhe dos dedos de pés e mãos são trazidos e, repito, podemos ver cada veia sobressaliente nos braços de Jesus. Podemos ouvir o choro de Maria, com sutis murmúrios, audíveis apesar de discretos. Jesus afunda confortavelmente no colo da mãe, no modo como o Espiritismo assinala a sensação deliciosa de fluidez na Experiência Extracorporal – Jesus parece estar dormente e não morto, descansando depois de um episódio tão cruel como o da Crucificação. Jesus sequer se lembra de ter sido crucificado, na vitória do desencarne: ressuscitar é uma passagem, e tudo de material é deixado para trás. O rosto de Maria é imaculado, jovem, sem qualquer ruga ou linha de expressão, na metáfora da Imaculada Conceição: a Dimensão Metafísica é intocada, “virgem”, longe das máculas inevitáveis da Dimensão Material, da Encarnação. Tudo nesta Pietà flui deliciosamente, e as pedras de mármore nobre que emolduram a cena, atrás da Pietà, também trazem, ironicamente, formas de fluidez, no sentido de que a Matéria está condenada à fluidez, ao “derretimento”, e que a Matéria, simplesmente, não é eterna, como nos relógios derretidos de Dalí e nos diamantes que, cedo ou tarde, “derretem” e danam-se. Na Vida Eterna, só o pensamento perdura, só o vazio, Tao, aquilo que não é feito de matéria. Os diamantes não são eternos – Marilyn Monroe que me perdoe.


Acima, A Criação de Adão. Para poucos é novidade de que a imagem que temos de Deus é a de um patriarca, com cabelos e barbas brancas, conotando experiência, como algo ou alguém que sempre existiu e sempre existirá – é o mistério do Eterno, Tao. Os corpos nus de Michelangelo são extremamente corpulentos, como “ratos de academia de Educação Física”, e é possível crer que isto influenciou posteriormente a obra de outro artista, Aldo Locatelli, cujos homens também são muito corpulentos. Ao contrário de Adão, Deus está vestido, mas com um traje sumário e vaporoso, como uma nuvem no céu, e podemos observar que o Criador também é um homem corpulento, apesar de claramente idoso. Na influência pagã, que moveu o Renascimento, este Deus está como um Zeus, o Rei dos Deuses, e pagão e não-pagão tentam se tocar e se misturar, mas este toque está quase consumado, num Michelangelo um tanto mortificado e desiludido pelo conservadorismo do Vaticano, pois, aqui, Adão e Deus quase se tocam, mas nunca se tocam de fato, num artista fazendo catarse de uma melancolia, de uma desilusão, de algo eternamente não-consumado. Apesar de extremamente próximos um do outro, Adão é um ser e Deus é outro ser, no sentido de Adão, ao ser criado, foi dotado de individualidade e livre arbítrio, num Adão que pôde optar entre Bem e Mal, e, como todos sabemos, optou pelo Mal, pela Serpente da Malícia, tendo decepcionado o próprio Pai e sendo expulso do Paraíso, onde só há espaço para o Bem. Adão mostra como não há ilusões em relação ao Ser Humano, como na obra de Tolkien, que não crê na bondade total humana, sempre observando o Mal sobre a Humanidade e sobre o Ser Humano. Imberbe, este Adão está aprumado, diferentemente da barba longa do Criador. Por que Adão é imberbe? Seria isto um sinal de polidez, de civilidade? Por que, ao menos no Ocidente, existe o hábito de se barbear? Este Adão é jovem, e tem sequer um fio de cabelo branco, num homem na flor da idade. A genitália é absolutamente desproporcional, num pintor querendo suprimir qualquer insinuação sexual ou erótica, como na nudez dos anjos barrocos. E por que os dedos não se tocam nesta imagem? Seria a decepção do Pai em relação ao filho? Seria o fato de que só há libertação quando desencarnamos? Quais são as dúvidas de Michelangelo? Aqui, Deus e Adão são verdadeiros deuses gregos, e a Idade Média “cai de podre”, trazendo à Europa uma nova era, junto ao boom das Navegações – era o “chuá” do avanço civilizatório, na sensual e exótica América, tomada de “selvagens” nativos. A Europa se impõe como paradigma civilizatório. Aqui, Deus está em um invólucro da cor de carne, no interior uterino, no mistério da Imaculada Conceição, e neste útero há vários anjos, muitos deles de cabelo encaracolado, como em esculturas clássicas gregas e romanas. Os anjos também estão nus, e observam a cena, apreensivos. Eu os chamo de “anjos” por assim dizer, pois eles não têm asas. São uma espécie de corte real, de séquito, e podemos ouvir um cântico celestial, afinado, fino, e um cheiro de perfume de sabonete, de banho bem tomado, na limpeza de Tao. Um dos braços do Criador envolve Eva, a qual observa tudo, numa Eva quase com medo, observando o marido que lhe foi imposto pelo Plano Divino. Já ouvi de uma feminista que Eva, o “segundo sexo”, é, na sociedade machista, uma espécie de arremedo barato, e que a obraprima do Criador é, sem dúvida Adão, a criação primordial, primeira, a intenção áurea do Criador, criando Eva mais por necessidade do que por inspiração. Portanto, nessa lógica machista, a mulher tem que estar submetida ao Homem. Pior: foi de Eva a ideia de morder a Maçã do Pecado. Ou seja, “as mulheres conspiram contra os homens”. Puro patriarcalismo, é claro. Um problema filosófico. Também nua, nesta Eva mal podemos ver o seios, ou seja, a Adão é permitida a nudez viril; a Eva não é permitida. É a história da “galinha” e do “garanhão”: a sexualidade feminina é tolhida.


Acima, Expulsão do Paraíso. A serpente tem papel central na história, numa forma antropomórfica – metade homem, metade animal. Ela enrosca toda a árvore do pecado, controlando esta. A cobra enforca a árvore, entregando o pomo da discórdia a Eva. A cena desdobra-se entre antes e depois: antes do pomo e depois do pomo. Antes, há a ausência da malícia e há a nudez de forma pura e natural; depois, a nudez torna-se pornográfica e proibida. É a perda da inocência. A serpente, com sua forma opressora e traiçoeira, sufoca Adão e Eva, e a forma bela do nu humano torna-se indesejada e banida. Na cena seguinte, à direita, a anjo, com sua fálica espada racional, expulsa o casal, condenando o Ser Humano à vida mundana e física, longe dos prazeres primordiais do Éden. A serpente enforca e sufoca a árvore, e a árvore é a vida natural, desprovida de malícia. A serpente enforca a inocência, aniquilando-a. A espada que expulsa é o pensamento racional, frio e matemático, expulsando o casal primordial, condenando a Humanidade à dureza da existência material. O anjo que expulsa está vestido de forma recatada, longe da vergonha nua de Adão e Eva. O sexo entra na mira da condenação moral, e a sexualidade se torna um problema para o Ser Humano: como posso ser fiel a Deus se sinto prazer sexual? A espada perfura o pescoço de Adão, e a racionalidade perfura as fraquezas mundanas do Ser Humano. A serpente traz a vida, e a vida é essencial à encarnação. A serpente é a liquidiscência vital, regendo a Natureza na dança do DNA. O Éden, em sua pureza, é a dimensão na qual o Ser Humano não tem dor nem vicissitudes, sendo um lugar onde tudo é lógico e natural. A expulsão fálica e a racionalidade impondo-se, trazendo todos aos problemas da existência carnal: como posso ter paz se tenho desejo sexual? A Árvore da Vida está tomada pela serpente, e a Malícia se impõe. No fundo da cena de expurgo, um céu relativamente claro, trazendo esperança à Humanidade, na promessa de um mundo melhor e menos doloroso. Na cena, a mulher tem papel central, cedendo à tentação da maçã, trazendo a Humanidade à condenação da matéria, entregando a Humanidade à danação. E por que essa danação foi trazida por uma mulher? Por que a mulher é o sexo frágil? A expulsão é a condenação à dureza da vida material, do mundo material, da vida pragmática, da encarnação. Nesse contexto, a mulher tem papel essencial, pois a dureza da encarnação é necessária à evolução do espírito – a vida não tem sentido sem dificuldades. A encarnação precisa ser repleta de dureza para valer a pena. De outro modo, de que vale uma encarnação sem vicissitudes, sem crescimento espiritual? Há aqui uma Eva antes e depois da danação: a de antes, tem o rosto puro e sem intenções más; a de depois, um rosto malicioso, quase carrancudo, como uma prostituta velha, entalhada pelo curso natural da vida. O Adão pós-expulsão tem o rosto sofrido e marcado ela experiência, num Adão consciente da dureza da vida. As rochas na cena são a dureza da vida. E o gramado verdejante é a fertilidade sexual, num casal responsável pela proliferação da espécie. O Adão pré-expulsão tenta segurar e dominar a árvore, falhando em sua empresa, sendo dominado pela malícia existencial. Na cena, a simples e pura nudez fica condenada moralmente, numa Europa medieval tão severa em relação a sexo e sexualidade, numa malícia só vencida após o Renascimento, no resgate pagão da nudez. A cauda da serpente é como uma cadeia de DNA, nos mistérios da Vida: o que somos e para onde vamos? O anjo expulsador veste cor de carne, no pecado carnal: precisamos de sexo para a reprodução e, ainda assim, rejeitamos esse mesmo sexo.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

De Modelo a Mestre




O francês Jean-Baptiste Greuze viveu durante o século XVIII e começou como modelo vivo de uma academia artística, logo tendo o rapaz chamando a atenção pelo talento de pintor em tela. Greuze começou a ter fama como exímio pintor e ganhar um bom dinheiro. Ele está exposto no Museu do Louvre e foi entusiasta do Iluminismo. Greuze, após a Revolução Francesa, morreu em dificuldades e pobre em 1805. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.


Acima, Princesa Varvara Nikolaevna Gagarina, óleo sobre tela de 80 x 63,5 cm. Ano de 1780-82. A princesa é delicada e desprovida de agressividade, na brandura angelical e virginal, como uma noiva – a estrela da noite. Greuze tem um traço extremamente suave e sutil. A pele alva é quase da mesma cor do vestido. É uma noiva pronta para ser devidamente desposada. Varvara não tem o controle da sua própria vida, e sua passividade é sedutora, excitando um homem a dar a ela toda a proteção da qual a princesa necessita. Seus cabelos crespos e escuros caem sobre os ombros. Os babados do vestido estão de acordo com a moda da época, e esses detalhes de vestimenta exercem fascínio, pois guarda os segredos e mistérios da feminilidade. Um macio e delicado laço azulado está perdido sobre um de seus braços, e tem um significado: a princesa é um presente recém-aberto, e o marido tem a missão de deflorá-la e resguardá-la, assim como os pais da moça a preservaram virgem até o casamento, pois, numa sociedade machista, o casamento é a coisa mais importante na vida de uma mulher, ao contrário do marido, cuja vida é centrada no trabalho e na vida pública, enquanto que, para a mulher, tudo o que resta é engomar os colarinhos do marido, sempre vivendo à sombra de um homem, seja seu pai, seja seu marido, seja o Papa. O sorriso de Varvara é extremamente sutil, a um passo de lábios sérios, e a moça jamais mostrará os dentes, pois mostrá-los seria uma indiscrição – a sociedade patriarcal tolhe a sexualidade e a liberdade da mulher, como, em uma entrevista, a cantora Cher afirmou que homens são um luxo como sobremesa: é ótimo tê-los, mas não morre-se por não tê-los(, e isto é independência). Há pouco tempo vi na rua uma menininha brincando com um boneco de bebê: o indivíduo já chega ao mundo com este inundando qualquer indivíduo de preconceitos. A passividade da princesa é a promessa de um mundo melhor, onde não há a necessidade de agressividade, mas é apenas uma promessa, pois, no mundo, no planeta Terra, na dimensão material, agressividade é necessária, sendo que, do homem, é cobrado o desenvolvimento da agressividade, enquanto que, da mulher, não é cobrado o mesmo, e uma mulher só desenvolverá agressividade se o quiser, quando que, como me disse uma grande amiga minha psicóloga, toda e qualquer pessoa tem que desenvolver agressividade, pois Yin e Yang, feminino e masculino, são de mesma importância. Aqui, neste quadro de Greuze, o elemento agressivo e arredio está representado na face feia e animalesca do pequeno cachorro. O cão é o guardião da donzela virginal, e rosna arredio para com qualquer homem que chegue perto da princesa. É o arquétipo do conto A Bela e a Fera, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau, na dança de sedução entre arames farpados ao redor de algo que deve ser resguardado, de modo que todos precisamos ser, ao mesmo tempo, Lobo e Chapeuzinho. A princesa brinca com o cão com uma guirlanda de flores de um discreto azul marinho, no sentido de que a discrição é sexy e pertinente. Varvara é discreta, e a serenidade de seus olhos traz calma e ponderação, numa sabedoria adulta em um corpo que mal acabou de crescer. O cachorro morde agressivamente a guirlanda, mostrando ter poder de fogo, ameaçando estraçalhar qualquer um que ousar chegar mais perto da sensualmente indefesa princesinha, como vi certa vez na TV a imagem de um casal japonês: ele, antipático e sisudo; ela, uma gueixa simpática e receptiva. Uma discreta faixa rosa envolve a cintura da princesa, na metáfora do róseo interior uterino, um recinto sacro e intocado, como no ventre da Imaculada Conceição. Em harmonia cromática com a faixa no quadro, duas rosas absolutamente afloradas, mostrando que a princesa já menstruou pela primeira vez, mostrando-se fértil e adequada para ser deflorada por um marido que faça jus ao enlace com uma descendente de monarca. Varvara está pronta para o “mercado”. Suas bochechas guardam um róseo muito suave, quase imperceptível. Seu delicado pescoço traz o perfume de frescor floral, numa moça muito bem criada e tolhida pelo rei, no sentido de que uma dama tem que ter um papel passivo, inspirando os homens a tratá-la como uma dama, pois, quando uma mulher impõe ser tratada como dama, deixa de ser dama: eu não inventei essas regras; o mundo é assim mesmo, machista. As rosas repousam sobre um móvel firme, na firmeza necessária ao homem que quiser ser o marido da princesa. Ao fundo, um céu noturno de uma noite amena e suavemente perfumada, como num sensual baile em uma noite fresca, com o frescor de Varvara. Mas não chegue muito perto, ou o cachorro morderá você. Varvara tem que ser apreciada à distância, de forma respeitosa.


Acima, Ovos Quebrados, óleo sobre tela de 73 x 94 cm. Ano de 1756. Este quadro tem um estilo quase barroco, com um considerável contraste entre claro e escuro: as pessoas banhadas por luz e o fundo mergulhado em obscuridade. É uma casa simples e pobre de plebeus, e não um palácio dourado de privilégios monárquicos, talvez prevendo o modo como o próprio Greuze morreria – pobre. A moça está prostrada, deprimida, triste com a vida. Talvez a jovem esteja triste porque um homem, pelo o qual era apaixonada, e ele a rejeitou. A moça está sem forças, e deixou cair uma cesta cheia de ovos, tendo dois ficando quebrados. A senhora idosa, talvez a mãe da moça, está furiosa com a atitude desleixada da jovem, pois, num contexto pobre, alguns ovos desperdiçados são uma perda grande. A idosa está apontando para os ovos e falando sobre o desperdício, e talvez grande parte de sua fúria resida no fato de que a moça pouco parece se importar com o ocorrido. Um homem jovem, talvez o irmão da moça, impede que a idosa puna a moça com severidade, e com um dos braços barra a atitude da idosa, a qual contém a mão do rapaz, não aceitando ser tolhida no ato de repreender a moça deprimida. Para a idosa, os ovos são mais importantes, enquanto que, para o rapaz, está claro que a moça quebrou os ovos sem perniciosidade. Num recolhido cantinho à direita, um menininho observa toda a cena, nunca tendo um papel importante na história, sendo apenas testemunha ocular do ocorrido. O menininho mal olha para a cena, e está ouvindo cada berro furioso da idosa; a criança aqui, sente que algo de muito sério está acontecendo, e o infante nega-se a participar, tomado de medo e receio, pois é ainda jovem demais para entender o mundo dos adultos. O menino está com medo de se envolver e entrar na mira da fúria da idosa. A criança começa a perceber que os ovos são importantes e têm valor, numa França que iniciou a Revolução Francesa por causa do preço do pão. A moça está alheia à cena toda, mergulhada em seus próprios lamúrios espirituais, sequer ouvindo os gritos da idosa. Atrás da cena, uma mesa desarrumada, num tosco móvel plebeu, aconchegante em sua simplicidade rústica, rústico como os modos agressivos da idosa. O rapaz é o autocontrole, o juízo que contém a fúria impensada. Já, a idosa é o puro e nu pecado capital da Ira. O rapaz pergunta à idosa se vale a pena imbuir-se de tanta raiva, pois, como diz Tao, a Paz é melhor do que a Raiva. A idosa é o modo como o plebeu pobre via o Mundo, numa França de abismos sociais cada vez mais gritantes, como no Brasil Contemporâneo. A fúria da idosa é a fúria crescente de um povo farto dos alienados luxos aristocráticos, pois um rei deposto é um rei que se afastou do próprio povo, como nos Romanov, da Rússia. E o menininho é uma nova era nascendo, na aurora da Idade Contemporânea, no imbatível paradigma da Democracia, a qual é tida como a forma mais respeitável de governo. Greuze tem um trabalho majestoso com a textura de tecidos e efeitos de sombra, numa maestria fotográfica. A moça prostrada é bela em sua tristeza, mortificando-se em relação às ilusões mundanas, colocando os pés no chão, não mais acreditando em Papai Noel. Os ovos quebrados são um coração despedaçado e ferido, como expectativas e ilusões estraçalhadas pela dureza do Mundo, pois, na Vida, deve-se evitar ao máximo a construção de expectativas, pois a expectativa precede a decepção. Há toda uma escuridão que se apodera de parte do quadro, na imprevisibilidade da existência: nada acontece exatamente como prevíamos. E o menininho está aprendendo a dar valor às coisas.


Acima, Aégina Visitada por Júpiter, óleo sobre tela de 147 x 195,5 cm. Ano de 1767-69. Toda a beleza da nudez. Aqui, há algo erotizado, pois Aégina está sendo descoberta contra a própria vontade. Seus olhos estão arregalados, e um pequeno pedaço de alvo lençol tapa-lhe minimamente o sexo, num certo recato de Greuze. Seu corpo monumental e seu lençol branco são a sedutora virgindade, como uma mata virgem, a qual jamais foi desbravada antes, no prazer da violação, do “estupro”. O epicentro do quadro é o corpo da estrela, e o resto, ao redor, está em segundo plano, num tom mais escuro – é como se houvesse um holofote sobre a modelo nua, numa ironia, pois Greuze já havia se desnudado para posar para pintores – mas o recato permanece no sexo de Aégina. A furiosa ave demoníaca é feia e agressiva, e quer desvelar a mulher opulenta, arrancando-lhe o lençol. Uma fumaça negra tenta tomar conta do quadro, querendo ofuscar a luz, como chamas de um incêndio, no calor do sexo, na sexualidade desta cena: algo sendo desbravado. Os seios de Aégina são perfeitos, dando inveja a muitas mulheres siliconadas. Ao lado, a aia, uma mulher mais velha e absolutamente recatada e vestida. A aia não tem muito poder sobre a cena, e não consegue evitar o inevitável estupro. A aia quer consolar a mulher nua. O princípio feminino está representado pelo espelho, repousado em um criadomudo – ironicamente, temos na cena uma criada. Na cena, vemos a destreza de Greuze em reproduzir tecidos. Junto ao espelho, um colar de pérolas, como as pérolas que caem das generosas mãos de Iemanjá, sempre abençoando seus filhos com os frutos do Mar. Aégina é uma Vênus anunciando um novo dia, e seu corpo parece ter perfume de talco, de um perfume fino, limpo. O corpo da mulher está impecavelmente depilado, numa mulher bem-tratada, bem-cuidada, cercadas de luxos e criados – uma aristocrata. Podemos ouvir os murmúrios de Aégina, relutante em se mostrar completamente, havendo exatamente aí o erotismo: o que não é mostrado dá margem à imaginação. É uma nudez que não entrega o jogo completamente, sempre provocando e causando o sentimento de “quero mais”. A ave furiosa grita agressiva, aterrorizando a virgindade branca de uma noiva entrando na igreja, num noivo pronto para deflorá-la em uma noite de cópula, sendo esta socialmente aprovada. Greuze revela uma suavidade impressionante, e o corpo nu parece etéreo. As cortinas negras abraçam a cena, como nas cortinas de um espetáculo teatral, na magia da cortina sendo aberta, e deflorada pelos olhos do público. É o “showbusiness”, o negócio de mostrar, e Aégina faz isso – mostrar-se. É dificílimo de se entender os manifestos de pessoas que são contra a nudez na Arte. Quando algo é feito com bom gosto, garbo e elegância, toda nudez é bem-vinda. Aégina é um delicioso chocolate branco, perfumado com baunilha. As mãos envelhecidas da aia mostram a passagem do tempo, e é só questão de tempo para a viçosa Aégina envelhecer. O recato das vestes da aia mostra o recato de um artista que não vê a nudez de forma maliciosa. A luminosidade sobre o corpo faz parecer que este própria emana luz, como numa Lua Cheia. Aégina parece não entender direito que ela própria é tão bela, e não entende a fúria da ave animalesca. Este é o charme de Aégina – não saber o quanto ela mesma seduz. É uma inocência e uma pureza. Ao pé do quadro, entalhes ornamentais na cama mostram ser a casa de uma aristocrata, num lar cheio de obras de arte e objetos bonitos. Os entalhes neoclássicos revelam uma fluidez gráfica, como no mar que sustenta a Vênus de Botticelli, a qual também está recatada e envergonhada, procurando cobrir seu próprio corpo nu. Aqui, as nuvens negras cheiram a enxofre diabólico, como na bruxa má de O Mágico de Oz. É o encontro da malícia com a pureza – seria a Monarquia o Mal e a Democracia o Bem? Aqui, a pureza vence por meio da luz e do esclarecimento, num Greuze iluminista, interessado na evolução psíquica do Ser Humano, no apuro moral emoldurado pelo Espiritismo. A negra ave é patética em sua avidez; é inumana. Aégina traz a polidez do Ser Humano civilizado, num pensamento racional e lógico que derruba a Monarquia e abre as portas para uma era que perdura até os nossos dias.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Recesso

O blog está de férias e volta entre fevereiro e março de 2018. Enquanto isso, confira o que já foi postado.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Adulto Criança


Afroamericano, Jean-Michel Basquiat marcou a Arte do fim do Século XX, sendo aclamado principalmente em Nova York, cidade que respira Arte. Foi namorado da posptar Madonna, e formaram um belo casal interracial de artistas, pois ambos eram pop. Com um charmoso e conveniente sobrenome que remete à França, Basquiat chegou a pintar um quadro para a capa do disco de remixes de Like a Prayer da cantora. Em sua simplicidade, Basquiat tinha um traço cândido e quase infantil, revelando a pura inocência que guia qualquer artista. As análises semióticas a seguir são inteiramente minhas.


Acima, Box. Agressividade de um boxeador, o qual ergue as mãos como se estivesse sendo abordado por um bandido armado, do modo como Basquiat tomou o Mundo de assalto, sendo um assaltante do Bem. Acima da cabeça, vemos algo como uma coroa de espinhos, na dor extrema da crucificação de Jesus, torturando, na dor existencial que acomete a todos, como rosas com espinhos. A coroa tem duas bolinhas vermelhas, remetendo a um headphone, como se Basquiat pintasse ao som de algo que apreciava, buscando inspiração musical para pintar, pois nada mais natural do que um artista gostar de outra Arte, de qualquer outra Arte, como me disse uma amiga artista, para a qual tudo a interessa, revelando-se ela uma cabeça grandiosa, sem mesquinharias. As luvas de Box erguem-se ameaçadoras, prometendo bater em alguém que chegue perto demais, num aviso: respeite a linha divisória entre você e eu. O boxeador é corpulento e forte, é claro, amedrontando e aterrorizando o oponente, reinado na arena de competição, como um verdadeiro gladiador. As obras de Basquiat não costumam ser minimalistas, e vemos um complexo conjunto de traços, formando camadas de detalhes infindáveis, como num muro extremamente pichado e vandalizado, nas cicatrizes inevitáveis da existência as quais contam uma história, um trajeto, uma proveniência, na acumulação existencial de experiências e aprendizado – Basquiat cresceu por meio da própria arte. A boca do boxeador parece estar aprisionada por uma focinheira de um cão agressivo, como um pitbull, ou como a claustrofóbica máscara que aprisionou o psicopata Hannibal Lecter no clássico O Silêncio dos Inocentes. Aqui, o boxeador está contido como nos instantes que antecedem uma briga de galos, pronto para ser libertado e extravasar toda a sua agressividade implacável, como um Mike Tyson arrancando com os dentes a orelha do oponente – o ser humano é tosco, e Basquiat explora isso com o próprio traço “tosco”. Apesar das cores coadjuvantes, o predomínio no quadro é entre o fundo branco e o corpo negro do boxeador, como na cor da pele de Basquiat, como David Bowie caracterizado como boxeador na capa do álbum Let’s Dance, ou uma Madonna boxeadora na capa de Hard Candy – não só o Mercado Fonográfico, mas o mundo da Arte é agressivo para qualquer um que queira prosperar, numa esfera competitiva, e Basquiat sabia disso. Os músculos do boxeador impõem-se, assustando quem quiser enfrentá-lo. Para Basquiat, não havia linhas divisórias muito claras, obtendo um efeito “míope”, desfocado, incerto, gerando uma estranheza que ganhou o gosto do espectador. Sobre a cabeça do boxeador, uma trilha que aprece um trilho de trem fazendo uma curva fechada, como na “Curva da Morte” da rodovia São Vendelino, onde certa vez quase sofri um acidente. Os olhos do boxeador são “vazados”, vazios, brancos, como na cegueira de animais que vivem nas profundezas oceânicas, ocultos ao Mundo, nunca sendo reconhecidos, condenados a uma vida de obscuridade, a qual é o temor de qualquer artista: não ser reconhecido nem valorizado, na luta pela afirmação profissional. O boxeador parece erguer os braços como se comemorasse uma sofrida vitória, triunfando sobre um oponente, este abatido, derrotado e esquecido. O boxeador é tosco, parecendo um primata pré-histórico. Como o ser humano é tosco, como dizia o mestre Tatata Pimentel, chamado os grossos de “macacos”. Eterno mestre Tatata!


Acima, Cabeças Empoeiradas. Há uma dupla de figuras humanas, mais parecendo ídolos de pedra da Ilha da Páscoa ou divindades incas, gravadas toscamente em relevo na pedra. Ambos erguem as mãos e abanam, como se quisessem fazer amizade com o espectador, estabelecendo um vínculo. O homem da direita sorri numa boca que parece ter sido desenhada por uma criança, como quase tudo em Basquiat. O fundo é negro, como numa noite encoberta, na dificuldade enorme de se prever o Futuro, pois nada acontece exatamente do modo como prevíamos, nas surpresas as quais a Vida nos reserva. Quanto ao homem da esquerda, não sabemos se este sorri. Ambos têm olhos grandes e arregalados, como esculturas sumérias, representando homens que olham incessantemente ao Céu, talvez esperando por uma revelação de ídolos extraterrestres, como na denominação de Cidade dos Deuses para a misteriosa cidade arqueológica de Teotihuacán. Os homens aqui têm cabelo arrepiado, eriçado como espinhos, e um respeita o espaço do outro. Entre eles há uma divisória esbranquiçada, como uma parede ou um muro, separando vizinhos, cada um em seu lote, em seu reino, em seu domínio, como dois grandes reis conversando, cada um feliz com o próprio reino, nunca querendo invadir o reino vizinho, na busca pela Paz, simbolizada pela cor branca. Basquiat brinca com a tinta escorrendo, nunca querendo perfeccionismo, como se soubesse que a intenção da vida NÃO é ser perfeita, mas cheia de percalços, os quais devem ser driblados com elegância olímpica e coragem. Apesar do enclausurante fundo preto, vemos aqui uma festa de cores, na candura de uma colorida caixa de balas ou bombons. Os homens parecem estar divertindo-se num baile de Carnaval, jogando muita serpentina pelo salão alegre. É um momento de brinde e euforia, numa festa onde a Harmonia reina, esquecendo-se aqui as diferenças entre os reinos da Terra – é o poder pacificador das festas, num ato de saúde coletiva. Os traços rabiscados aqui remetem a vasos sanguíneos, unindo os seres humanos sob o mesmo sangue, sob o mesmo tronco genealógico primordial, pois, se somos irmãos, por que há guerras? A Arte é o oposto da Guerra, pois nesta não há beleza, nem harmonia, nem bondade. Na face do homem da esquerda, vemos várias “formigas” negras caminhando em conjunto, talvez construindo um formigueiro, um lar onde possam trabalhar e, depois, repousar, num incessante labor. As formigas prometem entrar em reprodução e tomar conta do quadro e de tudo mais, como nas legiões de fãs angariadas por Basquiat, o qual caiu nas graças de quem ama Arte, no privilégio de ser devidamente reconhecido. O homem da direita está com ambas a mãos para cima, abanando a um amigo, num momento festivo eufórico, talvez bradando a passagem de uma escola de Samba, como no púbis da foliã fotografada ao lado do então presidente Itamar Franco, numa notícia que ganhou o Mundo – no Carnaval, tudo pode acontecer. O homem da direita tem o corpo avermelhado, no sangue de folião que pulsa no Carnaval. Já, o da esquerda tem o rosto alaranjado, como uma laranja ou uma bergamota, na acidez criativa de um artista que possui dentro de si uma saudável e necessária pitada de agressividade. Vemos um Basquiat incerto, como na cativante insegurança existencial do personagem Charlie Brown, o qual, no Natal, diz não se sentir tão animado para decorar árvores e dar presentes, sentindo-se humildemente como uma tesoura cega. E os olhos dos homens são esferas gravitando ao redor do mesmo sol, na dança incessante do Universo, regido pelo ritmo sensual gravitacional, como na dança entre as estações do ano. Os homens estão felizes, num artista feliz em ser quem é, no conforto existencial, o qual, porém, sempre trará uma pitada de dor – mas é só uma pitadinha.


Acima, Africanos Hollywoodianos. Basquiat fazendo menção à sua própria cor, anos antes de Obama ser presidente. Três faces humanas aparecem – a mais da direita repousa a mão sobre o queixo, como se estivesse pensando, filosofando, num artista sempre buscando possibilidades. Esta é uma obra-redação, pois há inscrições variadas pelo quadro, cuja cor predominante é o amarelo, a cor do Sol, do ouro, na ambição de vencer e ganhar o ouro olímpico. O quadro parece ser uma parede na rua, uma parede que já sofreu inúmeras violações e degradações, exibindo cicatrizes de vandalismo, uma praga de qualquer grande cidade ocidental. É o ouro do Oscar, a estatueta cobiçada, a qual só pertence a poucos privilegiados, na exclusão dos concorrentes que só foram indicados. Vemos duas pegadas azuis – uma maior e outra menor, como alguém com um defeito físico, com pés de tamanhos diferentes, nas dificuldades de quem não nasce normal, de quem não é previsível. É um “defeito” que acaba tornando-se um diferencial, uma vantagem, e o artista consegue vislumbrar o próprio lugar no Mundo, encontrando-se consigo mesmo, encontrando-se sempre dentro de si mesmo, nunca fora. É a pessoa que se nega a projetar-se em outrem, sabendo enxergar a si mesmo, sem projeções. O artista tem um caso de amor com a própria arte, amando esta, respirando esta, fazendo desta um propósito de vida, um norte existencial – quem não tem norte, sofre. Na parte inferior vemos um lindo azul caribenho, num mar delicioso, como um confortável útero. É como se Basquiat estivesse de férias, só que trabalhando, encontrando prazer em produzir. Também na parte inferior vemos um desenho de coroa, num Basquiat rei, dono absoluto de seu próprio reino, reinando livre pela Arte, alcançando reconhecimento. A parede é como as paredes de um surrado banheiro público masculino, com inscrições agressivas e chulas, numa sociedade que cobra implacavelmente dos homens o desenvolvimento da agressividade. Vemos seis estrelas azuis, só que há a inscrição Sete estrelas. O que será que aconteceu com a sétima estrela? Teria sido surrupiada? Não sabemos. E Basquiat tem que se contentar com apenas seis estrelas, no sentido de que, na Vida, não se pode ter tudo, precisando haver contentamento, pois já ouvi dizer: “A maior riqueza é se contentar com pouco”, como diz Tao: “Se o que você tem você acha que não é o suficiente, então você nunca vai ter o suficiente”. Este quadro realmente não busca por beleza, e Basquiat era assim, “feio”, cheio de atitude e estilo desbravador, como Freud para a Psicanálise. Realmente, aqui a beleza é ignorada, e a agressividade aparece exatamente para proteger o que é belo, feminino e frágil. As três faces são as Três Marias no céu, brilhando no enigma da existência: o que será o universo? E Hollywood aparece aqui como a terra do sucesso e da frustração, pois o Mundo do Cinema é repleto de sonhos que acabaram naufragando. É claro que Basquiat era um sonhador. Mas, ao mesmo tempo, ele percebia a necessidade de “feiura”, de atitude, como disse-me um psiquiatra: “Vivemos num mundo competitivo, e a agressividade é necessária”. Então surge a necessidade de diferenciação, e cada artista tem que buscar o seu próprio estilo, deixando uma marca inconfundível e indelével, como num lindo poema de minha falecida avó Nelly Veronese Mascia, que dizia que as estrelas coruscando no céu são os poetas mortos comunicando-se por Código Morse. A questão da violência vem aqui com a inscrição Gangsterism, mencionando as gangues de criminosos, poluindo o corpo social, na questão preconceituosa de ligar a cor negra ao conceito de bandido, como o músico negro Lenny Kravitz já foi confundido com um bandido.


Acima, Ironia do Policial Negro. Mais uma vez, entra em cena a questão racial. O policial usa uma elegante cartola, como um Sir Winston Churchill. Aqui, vemos a inscrição Negro que, em inglês, é um termo pejorativo e preconceituoso, ofensivo, num Basquiat enfrentando de frente a questão racial na América. O policial é de um discreto azul marinho, na discrição do policial, este zelando pela Lei e pela Ordem, como nas inscrições positivistas na Bandeira Nacional Brasileira. O rosto do policial é cadavérico, remetendo a uma caveira, como um deus de vodu, remetendo à Cultura Negra, como a inquietante Seção Africana do museu Met. O fundo é branco, clamando por harmonia, querendo colocar um fim no Racismo, o qual não tem finalidade, não tem virtude. É divertido observar o traço infantil de Basquiat, parecendo um desenho de uma criança na Pré-Escola. Basquiat quer Paz, inspirando-se na pureza infantil. O policial tem algo que parece ser um distintivo dourado, impondo autoridade, no poder de prender pessoas por desacato, como na personagem Phoebe de Friends, ao encontrar um distintivo perdido na rua e começar a fica embevecida com o poder representado pelo distintivo, do modo como o Anel de Tolkien corrompe almas honestas, destruindo o caráter de homens honestos e íntegros – Tolkien tem uma visão sombria sobre a Humanidade. A caveira mostra a finitude, o fim da encarnação, na danação da carne, na lei de que o que nasce, morre. Como tudo em Basquiat, vemos muitos traços afoitos e incertos, como uma criança explorando possibilidades de Arte e Criação, num Basquiat “grávido”, cheio de filhotes para colocar no Mundo, numa mente rica e inquieta, sempre criando, como se diz que Tao está sempre criando. O policial tem mãos que parecem ser garras de Wolverine, na agressividade necessária para que o Crime seja combatido e a Sociedade seja protegida, como na Liga da Justiça.


Acima, Sem Título. Vemos uma grande caveira pensativa, com cabelos ralos que parecem ser espinhos, como os raios de Sol, que não podem ser vistos diretamente, podendo causar cegueira. É um cabelo de militar do sexo masculino, sem chance alguma para beleza, como nas policiais femininas, obrigadas a usar um espartano coque. É a disciplina. A caveira está cabisbaixa, olhando para o chão, meio desanimada, deprimida, solitária. Sua boca não sorri, e usa dentes que parecem ser de ouro, ou dentes amarelados pelo tempo, como o papel envelhece e fica amarelo, na inevitável passagem do Tempo, o qual, apesar de extenso, passa rápido. O cérebro aqui divide-se em vários setores e gavetas, numa organização psíquica, com cada coisa guardada devidamente no seu lugar, numa vida organizada e estruturada. Os olhos estão mortificados, desprovidos de ilusão, não mais idealizando a Vida e o Mundo. No fundo temos um predomínio de rosa e azul, como num doce céu crepuscular, enchendo os olhos de cor. Há formas aqui que parecem ser cicatrizes, sucedendo cortes suturados, como na roupa de Mulhergato de Michelle Pfeiffer, como um Frankenstein, com partes de cadáveres unidas e trazidas à Vida. É um quadro rico em cores, como muito em Basquiat. As já mencionadas “cicatrizes” podem também ser interpretadas como os rabiscos de presidiários, contando os dias para sair da prisão, do modo como o Espiritismo diz: “O espírito gosta de estar encarnado? Pergunte a um prisioneiro se ele gosta da prisão”. Quanto a isso, esta doutrina é muito clara e enfática. Vemos na caveira algumas linhas vermelhas, como na Linha Vermelha do Rio de Janeiro, representando o sangue derramado pela Guerra do Tráfico. Aqui, estas artérias fazem o transporte de oxigênio e nutrientes essenciais, provendo o corpo social, numa Nova York tão sedenta por Arte e novidades, num vislumbre de oportunidade de Negócios, de Mercado. É uma cabeça pensativa. Os rabiscos parecem ser de uma criança que sequer foi alfabetizada. O cérebro toma ponto central no quadro, no modo como a Mente rege o Corpo. Os cabelos são uma grama sendo cultivada, impecavelmente aparada, talvez tolhendo pensamentos mais afoitos e imprudentes. Siso.