quarta-feira, 4 de abril de 2018

As Cenas de Pedro



Há anos vi uma retrospectiva de Pedro Weingärtner no Museu de Arte do RS, instituição que tem no próprio acervo obras de Pedro, um artista acadêmico de indiscutível talento. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Kerb, 1892. Vemos um baile rural, num PW apaixonado pelo Campo. Podemos ouvir a música tomando corpo, e o meio da sala pronto para receber dança. O lustre está decorado com abundantes flores, assim como as guirlandas mais à direita na cena. Do lado de fora da janela, pobres e negros observam, impedidos de fazer parte da elegante celebração – são os abismos sociais, numa sociedade excludente, estratificada, privilegiando uns e excluindo outros. É o sentimento de exclusão, de marginalização. Um cachorrinho viralata escapou para dentro do baile, e parece estar se divertindo com o evento. Vemos duas menininhas brincando com flores, entretidas com o acontecimento glamoroso, especial. O espaço vago no meio da sala é Tao, o vazio, a lacuna, a sensualidade de um recipiente vazio, como na vazia beiramar, sempre atraindo com a simples força gravitacional. É a sedução. A luz entra na sala, e é um belo dia de Sol. Ao lado das menininhas sentadas brincando ao chão, uma elegante senhora, talvez a mais elegante da festa, com um elegante chapéu de adorno – é a elegância, o bom gosto, o critério, a pertinência de uma mulher que sabe que uma boa apresentação ajuda muito na vida social. Na extrema direita inferior, uma pequena mesa com xícaras, copos e uma garrafa, talvez de vinho, no modo como o vinho celebra a passagem do tempo, conservando-se por muito tempo dentro de uma garrafa. Sobre a mesinha, um majestoso raio de luz solar, quente, acolhedora, num PW mestre em luz, em nuances de iluminação. O reconfortante raio de Sol é o consolo, é uma bênção, no simples prazer de sentir o Sol tocando a face do espectador, o qual é chamado a participar da festa, tornando-se personagem da cena de ação. O vazio no meio da sala puxa o espectador como o faz o buraco negro, avassalador, no poder de sedução dos bons artistas: atrair e fascinar quem ama Arte. Pelas janelas vemos um céu azul, limpo, cheio de certeza e clareza, trazendo só alegria para o baile, deixando a tristeza do lado de fora. Atrás da senhora elegante, um homem curvado com um chapéu na mão, talvez se curvando perante a bela dama, respaldando-a, sustentando-a, tornando-se o lado masculino dela – é a beleza do Yin protegida pela credibilidade do Yang. Podemos ouvir o incessante burburinho das pessoas no salão, num momento de interação social, de relacionamento. A casa está iluminada, aberta e arejada, num anfitrião receptivo, que acolhe os convidados, como uma socialite que adora dar pomposas festas. Quase abaixo do lustre enfeitado com flores, um gaúcho com poncho, com chapéu e bigode, parecendo ser o ex-governador Olívio Dutra, um homem que sintetiza muito bem o que é ser gaúcho. Vemos várias mulheres na cena, mas nenhuma tão elegante quanto a mulher sentada já mencionada. É também um momento de competição, para ver qual delas é a mais arrumada e bonita. Ao lado do gaúcho de poncho, vários homens de chapéu, não intencionando tirar o chapéu ao entrar em um lugar fechado, ao contrário do homem atrás da dama catita, que tirou o próprio chapéu. Como me disse uma intelectual, as festas são acontecimentos de saúde mental coletiva, como a Festa da Uva de Caxias, num momento em que a comunidade se une e celebra o lado bom da Vida. E, bem ao fundo da janela, uma paisagem vasta de campos, do modo como diz Tao: as pessoas admiram os palácios mas ignoram os campos, os quais vestem roupas maravilhosas, assim como as roupas da mulher chic.


Acima, Ninfas Surpreendidas, 1918. Esta é uma cena erótica de violação, nas figuras masculinas adentrando um recinto povoado por mulheres assustadas. Elas cobrem seus corpos nus escondem-se, com medo dos homens, que entram ruidosamente em cena, no jogo entre passividade e atividade, no qual as mulheres são passivas, desprovidas de agressividade, tendo que ser protegidas pela figura humana que tenta bloquear a porta e impedir que os profanadores entrem e “sujem” a sala. Vemos um PW apaixonado pela Antiguidade Clássica, nos detalhes arquitetônicos clássicos, remetendo o espectador a uma viagem no Tempo. Acima da porta, um furo, que é a vagina, como uma goleira tendo que ser protegida e resguardada pelo goleiro, impedindo que as bolas agressivas profanem a intocabilidade virginal das mulheres neste quadro. Antes dos estupradores entrarem, não havia malícia na sala, e as mulheres ficavam naturalmente nuas, de forma pura e inocente. Mas então vem a serpente da malícia do Éden, e Adão e Eva, antes inocentemente nus, tomam vergonha e se cobrem. Do mesmo modo, as mulheres sentem vergonha e se cobrem aqui – é o surgimento da Malícia, da sexualização. Uma das mulheres está de costas para o espectador, olhando corajosamente para os invasores, estes como inúmeros espermatozoides cobiçando o mesmo óvulo, num mundo competitivo, no qual é (muito) necessário o desenvolvimento de agressividade, no sentido da pessoa ser dona e senhora de sua própria vida. Podemos ouvir os gritos dos homens estupradores e os gritos das mulheres acuadas. As ninfas são arquétipos de feminilidade e fragilidade, sempre “fracas”, sempre precisando ser representadas por uma figura masculina: o pai, o marido, o patrão, o Papa etc. Este é o jogo de sedução entre Yin e Yang, na sensualidade da integração universal – estamos todos conectados, numa espécie de “internet” espiritual. A luz que vem da porta arrombada é agressiva, como uma ponta de lança, e é o desbravamento, do modo como, por exemplo, Freud desbravou a Psicanálise. É uma espécie de pioneirismo, na fome que move as cadeias alimentares, num leão faminto devorando um veado, no jogo de sedução entre vítima e agressor. Estas ninfas aqui são discretíssimas, vivendo num mundo de passividade, onde tudo gira em torno de beleza, no arquétipo de Vênus, a bela da Noite e da Manhã. Aqui, Marte vai à Guerra, odiando seu opositor, tentando saquear tudo o que puder em terras inimigas – é a feiúra da Guerra. Um dos homens aqui segura uma ameaçadora lança, e como dia Tao, nenhum homem sábio terá qualquer coisa a ver com armas, as quais são coisas terríveis. Os violadores aqui são soldados marchando por terras inimigas, onde não são bem-vindos. A luminosidade dentro da câmara é suave e branda, sem incidência agressiva de luz solar direta. Já, a luz estupradora que vem da fresta na porta é mais forte, mais impiedosa, sem a graciosidade das ninfas virgens – a sociedade machista impede que uma mulher adquira agressividade, como diz a sexy e agressiva Mulhergato a uma mulher que quase é violentada: “Você está sempre esperando por um Batman para salvá-la”. Temos em PW um talento cênico, como cenas de Teatro ou Cinema. As ninfas aqui estão apavoradas, com os olhos arregalados, incertas sobre o que acontecerá se os homens entrarem neste útero intocado. É um colono italiano que desbrava terras virgens, sulcando a terra, germinando-a e fazendo-a fértil. Este quadro não tem propriamente um centro, mas podemos dizer que a mulher tapando os próprios seios é algo perto de um centro. É o pudor que sucedeu a pureza. Outro homem que entrou toca um instrumento musical de sopro, e podemos ouvir sua melodia sedutora e dionisíaca, querendo hipnotizar as ninfas com um jogo de sedução. É exatamente a passividade feminina o que excita os violadores, e as ninfas precisam de alguém para defendê-las, numa espécie de “terceirização”, numa mulher que eternamente projeta em outrem o seu próprio Yang. É o poder da discrição: quanto menos, melhor. Afinal, ninguém pode se vender a um e noventa e nove.


Acima, Oferenda ao deus Pã, 1894. A paixão de PW pela Cultura Clássica. O deus pagão sustenta-se num pedestal, e seu sorriso é malicioso, lascivo, remetendo a prazeres que o Catolicismo, mais tarde, chamou de Sete Pecados Captais. A paisagem é paradisíaca, num bosque acolhedor e belo, numa dimensão metafísica, onde a Natureza e a rebeldia desta não prosperam. O chão é salpicado de flores silvestres, num “carpete” que convida ao descanso. Podemos ouvir os barulhos do bosque, como pássaros cantando, em uma melodia de Paz. Há seis figuras femininas no quadro, coroadas com flores e vestindo vestes clássicas, e podemos imaginar como PW obteve modelos vivas para construir esta obra – será que foi a mesma modelo para todas estas figuras pintadas? Uma mulher oferece um jarro, provavelmente de vinho, ao deus, no prazer dionisíaco da embriaguez, do modo como a invenção do vinho é tão antiga, tão ancestral na Humanidade. Outra mulher deita-se de modo a esconder seu próprio rosto na grama, talvez envergonhada, talvez chorando, ou talvez simplesmente dormindo, embriagada pelo conforto deste bosque tão edeníaco. Há apenas uma mulher de pé, e ela rechaça o deus, fazendo um gesto de renúncia, talvez representando a Igreja, negando as raízes clássicas do Ocidente. Esta mulher não quer oferecer algo a Pã, e destaca-se no quadro por sua pose em pé, não se deixando embriagar pelos prazeres capitais, num PW disciplinado, que encarava com seriedade e profissionalismo o próprio ofício. Uma das mulheres tapa os próprios olhos, como se não quisesse ver o deus, como um Édipo, que perdeu os próprios olhos por amar a própria mãe. Esta mulher “cega” não quer ver nem o deus, nem o bosque, e parece estar esperando por este momento passar, desinteressando-se pelo Paganismo. Outra mulher está de costas para o deus, e isto é uma renúncia, uma oposição, de alguém alheio a esta cena de oferenda. A mulher restante está com um olhar distraído, como se sua mente estivesse em outra dimensão, e esta mulher parece estar completamente entediada, alheia, morrendo de tédio e não fazendo parte ativa na cena. Em frente à imagem do deus, uma oferenda queimando, espalhando uma fumaça pestilenta pela pureza deste bosque. Alguns degraus conduzem ao ponto da oferenda, e os degraus são o caminho de depuração, de evolução moral e espiritual, e o Pã aqui não representa este apuro, bem pelo contrário; representa o Id, o princípio do prazer, como tirar uma boa soneca ou comer um bom doce. Como diz Tao, não há nada de errado em ser preguiçoso, pois a Preguiça leva ao Minimalismo, à Limpeza, ao Essencial. Apesar de fazer parte do título deste quadro, o deus Pã tem um papel secundário na cena. As mulheres e o bosque em si são os protagonistas, e este jardim não parece ter fim, num mundo tão repleto de Paz. Tudo aqui parece respirar em um só ritmo, e a beleza das mulheres funde-se com a beleza do bosque, numa cena tão rica em beleza. As flores brancas juntam-se às vestes claras das mulheres, numa identidade feminina. Mas, se tivéssemos que delinear o maior destaque desta obra, seria a mulher de pé, a qual parece lutar contra o deus endiabrado, mostrando a vitória da Virtude sobre a Malícia, como uma Nossa Senhora esmagando espontaneamente com os pés uma serpente. É um quadro de clara renúncia a algo. A mulher que renuncia está farta, saciada, na sabedoria de alguém que sabe quando tem o suficiente.


Acima, Tempora Mutantur, 1898. O casal de colonos trabalhando duro na roça. A mulher olha para os irremediáveis calos nas mãos, lamentando por não ter mãos de dama. Há aqui uma breve pausa no trabalho árduo, num brevíssimo intervalo. O homem calvo, datado pela passagem do tempo, olha para o nada, cansado, numa vida muito dura, que exige o máximo do trabalhador. Esta pintura foi há vários anos capa do guia telefônico do Nordeste do RS, ou seja, da Serra Gaúcha, num uso muito pertinente da obra, a qual ilustra o trabalho duríssimo que os colonos tiveram que empreender ao chegar nas terras devolutas serranas. A paisagem é cinzenta, incerta, pesada, e não temos aqui a alegria de um dia ensolarado, num Céu de Brigadeiro. Temos a dúvida existencial, numa vida toda dedicada ao labor, algo que acabou por marcar para sempre a cultura do descendente de colono, criando um culto ao trabalho, ao trabalho arduosíssimo, ardido, dolorido, na máxima: “Vá carpir um lote”. Como diz Maria Callas na peça Master Class, com Marília Pêra: duvido que você vá obter sucesso se não se dedicar ao má-xi-mo. As costas do homem estão curvadas, cansadas, na humildade de quem se curva perante a necessidade de labor contínuo, e o colono só não trabalhava no domingo porque a religião não permitia. As árvores estão cortadas para que deem lugar à lavoura, numa época em que o apelo da Ecologia ainda não existia. A roça está impecavelmente arada, preparada para a semente, na fertilidade da mente de PW, sempre imaginando cenas dignas de Arte. É um dia cinzento e frio, e o casal está aquecido pelo labor braçal. Ao fundo, vemos duas casas, talvez expelindo fumaça de suas chaminés, e podemos sentir no ar o agradável cheiro de madeira queimada, no aconchego de um lar com um fogão a lenha, com a família reunida ao redor do fogo, comendo e contanto histórias – a vida rural tem lá seus encantos. O longo cabo da enxada do homem é retilíneo, e representa o simples objetivo do trabalho: laborar para obter frutos. O colono, ao chegar na terra virgem, tinha todo um sonho, um objetivo, e o trabalho é o instrumento para se atingir tal meta – o colono não trabalhava a toa, sem metas. A roda, no canto direito inferior, rodando, é a passagem do Tempo, numa vida dedicada ao solo, à roça, e é um instrumento que é testemunha do esforço, num PW trabalhador em cada uma de suas pinceladas. PW mostra maestria ao delinear a vegetação, seja em plantas mais em primeiro plano, seja em último plano. As árvores cortadas trazem algo tolhido, castrado, num colono que não conseguiu concretizar todos os seus sonhos, tendo que se contentar com algum conforto, acordando muito cedo de manhã, num PW disciplinado, produtivo. Este é um quadro triste, mas não melancólico. O lenço vermelho da mulher é a Feminilidade, e é difícil ser feminina em um contexto laborioso tão duro, tão exigente. O colono tinha que se fazer forte se quisesse sobreviver, e um artista tem que saber se reinventar se quiser sobreviver, pois o importante na Vida é sobreviver a inúmeras hecatombes nucleares – o Mundo é dos fortes, e o colono se fez forte. Atrás da mulher vemos um pedaço de um córrego, na passagem da água, que tudo lava, que tudo de ruim leva embora. É uma vida de poucos prazeres, e molhar os pés no rio é um desses deleites. A mulher já não mais sustenta sonhos de morar na cidade, de ter uma vida urbana e sofisticada – ela está contentada com sua vida rural. Eles voltam para casa famintos após o dia de trabalho, e comer é um dos poucos prazeres dessa vida, marcando para sempre a Gastronomia Colonial. A terra devidamente arada tem um papel de destaque na cena, virando um personagem, tornando-se o motivo de orgulho do casal de camponeses. Provavelmente os filhos deles cresceram e saíram de casa, deixando o casal a sós, exatamente como os dois o foram quando recém-casados. A terra sulcada faz metáfora com os calos da mulher, e a terra é de um marrom cinzento que traz toda a seriedade e discrição de uma vida de esmero. E podemos ouvir o som dos quero-queros ao fundo, numa cena tão rural.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Vitória de Vincent



É com muito orgulho que informo que esta é a centésima postagem semanal no meu blog – o tempo passa, e rápido. Dono de uma história de vida trágica, Vincent van Gogh só foi reconhecido postumamente, tornado-se um nome altamente célebre no Mundo da Arte, marcando o fim do Século XIX na Europa. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, A Casa Amarela, 1888. Os traços incertos de van Gogh, nas naturais incertezas espirituais do Ser Humano. Temos uma rua plácida, com construções acolhedoras. É o desejo de estar em casa, acolhido, confortável. As pinceladas entram em profundo contraste com os velhos moldes acadêmicos, assinalando uma revolução estética, precedendo um século de mudanças que foi o XX. As árvores são frondosas, com cada folha pincelada, na exuberância da Natureza. As árvores farfalham ao vento, e temos aqui uma rua plácida, silenciosa, com pessoas passeando com tranquilidade. Os prédios têm traços simples, sem pretensões aristocráticas, sem arrogâncias. Um delicado toldo em rosa pastel é a proteção, o alento, a cura para a sensação de vulnerabilidade, em um lugar onde se sente extremamente seguro e especial. Não sabemos se a rua é pavimentada, e não sabemos se são paralelepípedos ou terra mesmo, trazendo dúvida intrigante, mistério: o que é a Vida? Na extrema esquerda vemos um poste de luz, que é o esclarecimento, a falta de dúvidas, na busca de um artista por seu espaço no Mundo. O poste é rijo e inflexível, difícil, na dureza do dia a dia da Vida, num atelier produtivo, mas que, infelizmente, traz um artista só reconhecido depois da morte, do mesmo modo como a Era Cristã só começou, na prática, tempos depois da morte de Cristo, numa espécie de “vingança”: finalmente a vitória, o devido reconhecimento, num van Gogh muito subestimado em vida, muito menosprezado, e, como diz Tao, aquele que é subestimando, vence. O azul do céu é majestoso, plácido, colorido, num dia glorioso de Sol, abraçando tudo e todos com sua generosidade e energia. É um tom de azul nobre, belo, num artista procurando buscar ver beleza na Vida, propósito. Abaixo de outro toldo, vemos um café com algumas pessoas sentadas, no encanto das cafeterias de Porto Alegre, no hábito cosmopolita francês de se sentar, tomar algo e apreciar o Mundo passando, no modo como o Brasil emerge no Cenário Mundial como grande produtor de Café. Vemos dois adultos e duas crianças atravessando a rua, na travessia existencial do Nascimento à Morte. Na extrema direita, vemos uma ponte em arco, ligando dois extremos, num artista querendo conciliar-se dentro de si mesmo, construindo pontes de acesso entre meta e sucesso. Na ponte, uma forma enegrecida que parece ser um trem passando, e podemos ouvir o barulho dos trilhos e o apito do trem, trazendo movimentação a um quadro tão silencioso e estável. O trem é o galgar da Vida, ligando pontos extremos, sendo que Norte e Sul se complementam, apesar de serem diferentes como preto e branco. É uma cidade pacata, num artista pacato, atordoado por um distúrbio mental que, na época, não obtinha diagnóstico nem medicamento apropriado. Esta urbe despretensiosa não é a vibrante Paris, o lugar onde o Mundo Ocidental se encontra, como nos inimagináveis tesouros do Louvre. E van Gogh traz o simples à tela, encontrando contentamento em não ser reconhecido ainda, ou, pelo menos, buscando encontrar. O artista aqui nos traz um desenho em perspectiva, como na Renascença. Do que será que van Gogh gostava em termos de Arte? De quais movimentos? De quais nomes? Porque ao artista é muito importante a busca por referências. E o trem ao fundo corta esta cena plácida, trazendo barulho e movimento, jorrando sua fumaça a este Céu de Brigadeiro, na sujeira inevitável do progresso. O trem traz as novidades, passageiros de outras bandas, interligando o Mundo, na busca pela integração da Humanidade, num artista tão ávido por se juntar ao Mundo.


Acima, Campo de Trigo com Corvos, 1890. Os corvos negros trazem um certo agouro, numa doença que avança irrefreavelmente. Os pássaros são a Morte, rondando a plantação, querendo comer o trigo, entrando em cena um espantalho, tentando inibir a fome negra do Destino. Ao mesmo tempo, os corvos esfomeados são a liberdade, num artista tão ávido por produzir, com tanta fome de sucesso, numa ambição existencial em se tornar uma superestrela. O quadro todo sem uma sensualidade de movimento, e a estrada que corta o campo agita-se como uma cobra, como um córrego de água, nutrindo a Vida. O amarelo do trigal é majestoso, dourado, brilhando à luz do dia. O trigal é a criatividade, a fertilidade da mente artística, sempre imaginando, sempre concebendo algo, na necessidade de “desova” do artista, imitando Tao, aquele que está sempre criando, na cornucópia da Vida, numa chuva fertilizante que nutre o trigal artístico. A estrada verde e marrom corta o quadro, e é o caminho da Vida, o rumo da existência, o itinerário da Encarnação. Não vemos qualquer figura humana aqui, e o trigal está jogado à própria sorte, vulnerável aos corvos, na vulnerabilidade catártica, do artista que “põe a cara a tapa”, pois, como me disse um artista certa vez, “nunca use a obra contra o artista desta”. O céu aqui não é muito ensolarado, e vemos pontos azulados em meio a pontos mais enegrecidos, juntando-se ao agouro dos corvos, que significam a Morte para todo o esforço do agricultor, como nas pragas que dizimam vinhedos – é a vicissitude material, encarnatória. Neste céu, duas formas redondas de nuvens mais claras, como dois olhos que observam a Criação, zelando pelo Mundo, como os olhos do Criador, sempre atento, sempre tudo vendo, mas nunca se descuidando nem do menor ser. São os olhos do artista sobre a própria obra, com amor de mãe. Trata-se de um quadro muito colorido, e traz alegria em meio a pontos depressivos, como os já mencionados corvos. Os corvos são a fome de sucesso, na busca ávida por reconhecimento, por consagração, no sonho de qualquer artista em vencer na Vida. O trigal dourado é sedutor, na riqueza das grandes obras de Arte, como um blockbuster hollywoodiano que estoura ao redor do Mundo, engordando bilheterias, numa Hollywood que nem sempre acerta: o insucesso acompanha o sucesso, e ambos são difíceis de se lidar. Aqui, vemos a Escuridão tentando se apoderar da Luz, numa batalha entre Bem e Mal, entre ambição e humildade. A estrada que corta o trigal é o Caminho da Vida, o único caminho, o caminho assinalado por Jesus, pois o Universo é um só, apesar do Ser Humano ser sempre seduzido por rotas secundárias. Neste quadro, a vida brota fortemente, e tudo pulsa em busca da Vida, seja na vegetação exuberante, seja na fome dos pássaros, seja na dança mesclada das nuvens. Ao fundo neste horizonte, o trigal se perde de vista, numa riqueza vasta demais para o Ser Humano entender, pois, como diz o Espiritismo, “Deus é o infinito”. O azul e o amarelo contrastam como frio e calor, e podemos ouvir o trigal dançando e farfalhando nesses ventos de mudança, de processo eterno, com tudo dançando integradamente, e é esta a sensualidade do Universo: estamos todos conectados, num van Gogh que existiu muito, muito antes do surgimento da Internet. E é aí que reside o “tesão” da Internet: Integração. Este quadro respira, vive, movimenta-se, num artista buscando na própria respiração a inspiração, de modo inconsciente, instintivo.


Acima, Lírios, 1889. Podemos sentir um suave perfume neste quadro, num van Gogh delicado, poético, cavalheiresco, dando flores galanteadoras a alguma mulher. Genitais da planta, as flores são o meio de reprodução, como tudo na Natureza visa o sexo para a perpetuação das espécies. É um quadro de cores agradáveis, combinando belos tons de azul com verde, e pitadas de amarelo, num quadro no qual o depressivo van Gogh encontra um pouco de alento e paz, num jardim de Paz e Harmonia. As folhas parecem dançar uma coreografia sensual ao brando vento, e tudo aqui entra em concordância e concórdia, numa figura da Paz, da harmonia entre os povos, numa promessa da Dimensão Metafísica, onde a Paz reina inabalavelmente, na simplicidade matemática do pensamento racional, limpo, lógico, alheio às adversidades da Dimensão Física. As flores deste rico jardim dançam uma só música, como numa pista de dança, num momento de interação social, como nos eventos religiosos, onde o coletivo toma força e acaba por unir as pessoas, mesmo que momentaneamente. O chão de terra aqui é róseo, cândido, como um delicioso presunto, e a terra é a base, a referência, onde raízes profundas se estabelecem e trazem segurança às flores, que estão acima do nível da terra, respirando. A terra é a âncora, a segurança, o sentimento de firmeza e pertencimento, na segurança do Lar, onde o indivíduo se sente à vontade, relaxando, tirando os sapatos e vivendo com simplicidade. Temos um van Gogh mestre em cores, um verdadeiro mago, como o célebre MC Escher, por sua vez já resenhado neste blog. São as grandes mentes que encarnam na Terra e marcam época, nos espíritos depurados, que já passaram por várias encarnações até atingir um considerável nível de aprimoramento moral. E van Gogh obteve uma “vingança”, sendo só valorizado depois de morrer, rindo lá do Céu de como o Mundo reconhece o erro em não o ter valorizado em vida. Este jardim convida-nos a deitar e dormir ao doce som do farfalhar das flores, e aqui temos uma ode à Beleza, ao bom gosto artístico. É como uma grande família, e cada membro carrega um pouco da beleza do quadro geral. Podemos ouvir o zunido de abelhas fertilizando o jardim, dando continuidade à marcha reprodutiva, ao desenvolvimento de um bioma, em uma época em que os ecologistas ainda não tinham aparecido. As flores se abrem ao Mundo, como se fossem um coral cantando, e o Sol as beija generosamente, numa cena tão reconfortante.


Acima, Noite Estrelada, 1889. Os céus deste quadro dançam em conjunto, numa dança tortuosa e sedutora, na beleza de uma noite. A Lua e as estrelas iluminam este céu, e os ventos varrem tortuosamente, como água em um rio ou lago. O tom dominante no quadro é o azul, tanto no céu quanto na terra. No solo, um pitoresco vilarejo onde reina a Paz, com as luzes das casas saindo de suas janelinhas, como aconchegantes lareiras em uma noite fria, junto ao fino e frio brilho das estrelas, como cristais preciosos, como relíquias cristalinas. A Lua rege esse céu, espalhando um brilho amarelado, como uma fatia de queijo, e um cipreste elegante vibra sua vegetação ao sabor desse vento noturno. O cipreste é escuro e misterioso, contrastando com este céu tão iluminado pelos corpos celestes. No vilarejo, uma torre pontiaguda parece ser uma igrejinha, um espinho fálico desfiando os céus, espetando e causando dor, como a coroa de espinhos do Salvador. O vilarejo fica num vale, e ao fundo vemos colinas voluptuosas, banhadas pela luz azulada desta noite enluarada. Este vilarejo tem muita Paz, e é a paz com a qual um artista produz em seu atelier, com a paciência para cada pincelada, e a cena é predominantemente colorida, mesmo que discreta. As próprias colinas parecem dançar, como numa Dança do Ventre, nas formas da Mãe Terra, desafiando desbravadores, do modo como temos em van Gogh um desbravador, adiantado o suficiente para não ser reconhecido em vida, do modo como um Elvis Presley foi avançado demais para o Século XX. Tanto a Lua quanto as estrelas têm uma aura, cercando tido, num céu que parece ser um Sol da Meia-Noite, num sexy limiar entre claro e escuro, entre noite e dia, num momento dúbio, onde os opostos encontram um pouco de concordância. É um limiar entre feio e belo, numa desafiadora linha tênue, enigmática. Por entre o vilarejo vemos arvoredos, na fertilidade criativa de van Gogh, as árvores farfalham ao vento noturno e a Noite beija este vale, abençoando-o. As formas voluptuosas do cipreste se rendem a este ritmo, a esta música, num quadro onde tudo dança a mesma valsa. A Lua e o cipreste formam opostos, dialogando nas duas extremidades do quadro. As estrelas fluem como em uma sopa, como conchinhas à beiramar, como inúmeras galáxias dispostas na vastidão do Universo. E van Gogh permanece um mistério, como todo grande artista.


Acima, Os Comedores de Batata, 1885. Trata-se de uma cena sombria, com uma fraca lamparina brilhando. A lamparina é a iluminação da inspiração, no momento em que uma ideia chega à mente do artista. O escuro é a imprevisibilidade da existência, nos meandros sombrios da Vida, onde pouco se sabe como, o quê e quando vai acontecer – as coisas nunca acontecem exatamente como imaginávamos que aconteceriam, e esse mistério é excitante. É a casa de uma família pobre, mas é aconchegante, e a travessa no meio da simples e tosca mesa tem muitas batatas, e ninguém passa fome aqui. Uma velha senhora serve em xícaras o que parece ser café. O líquido negro preenche as xícaras, e é negro como petróleo, e o ímpeto é a gasolina, o combustível de um artista. É uma cena de convívio familiar. Abaixo, na extrema direita, vemos uma chaleira envolta em sombras, discreta, em segundo plano, nunca se colocando no centro da cena, na questão de como a discrição é importante, pois aquele que é subestimado consegue surpreender. A chaleira é um van Gogh discretinho, sempre subestimado, e subestimado ele foi em vida, só sendo consagrado depois de bater as botas. Existe algo mais subestimado do que um artista que é reconhecido postumamente? O próprio Jesus Cristo só foi reconhecido postumamente, e se tornou o centro sobrenatural da História. Seria esta cena de van Gogh algo autobiográfico, que retrata a própria família do artista? Um senhor estende a xícara para ser servido pela senhora idosa. É a sede de se tornar célebre, sempre estendendo a xícara para ser preenchida. A xícara vazia é a sensualidade do vazio, do modo como as águas de rios correm para regiões mais baixas, regiões subestimadas, e poderosas como a Lei da Gravidade. Uma moça está de costas, nunca se revelando, sempre escondida e misteriosa, nos segredos da Feminilidade. Todos giram em torno da mesa, e o centro da mesa é Tao, o Uno, o Vazio, sempre acolhendo e atraindo, sempre provendo com batatas a família. Todos na cena vestem algo sobre a cabeça – é a proteção, o resguardo, a autoestima, algo relativo ao amor próprio. As pessoas giram em torno da mesa como mosquitos em torno da lamparina. A travessa com batatas é o nervo, o principal, o regente, sempre provendo, como uma mãe amamentando. E podemos ouvir uma conversa entre os atores da cena.


Acima, Terraço do Café na Praça Fórum, 1888. A majestosa cor dourada toma conta do café, brilhando como brilhou (e brilha) van Gogh. Estamos (querendo ou não) em Paris, no hábito cosmopolita de se sentar e tomar café. Várias pessoas são atendidas pelo garçom, que está de pé, vestindo um avental branco, neutro. O garçom é o instinto provedor, como o artista quer prover o Mundo com Arte, com ideias novas, com revoluções. Podemos ouvir o burburinho da clientela, conversando animadamente, emitindo opiniões intelectuais, produzindo Cultura. As mesas redondas são brancas, e trazem a paz de uma cena prazerosa. Mas o café não está todo lotado, e algumas mesas esperam por clientes, sempre atraindo, seduzindo, num lugar onde sempre cabe mais um, num lar generoso. Várias pessoas caminham pela rua de pavimentação colorida, alegre, na riqueza de uma cidade que tem vida cultural. Na extrema direita vemos uma vitrine multicolorida, como um mágico caleidoscópio, clamando por diversidade e respeito às diferenças. Mais acima, um pequeno galho de pinheiro, que protege contra a chuva, como um pinheiro de Natal sem enfeites, minimalista, leve. Ao fundo, uma parte mais sombria do quadro, com prédios enegrecidos, emitindo luz de dentro, na vida que pulsa na veia artística, como cidadãos felizes na proteção de seus respectivos lares. No céu noturno, vemos quatro majestosas estrelas brancas enfeitando o Céu, do modo como um céu estrelado é uma cornucópia de beleza, convidando o Ser Humano a sonhar com a beleza de um fino cristal, nobre – é a Dimensão Metafísica.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Amando Amaral



A intelectual Tarsila do Amaral foi uma das estrelas do Modernismo Brasileiro, movimento que revolucionou a Arte e rompeu com velhos moldes acadêmicos, trazendo frescor ao Século XX, numa onda revolucionária e impactante que desagradou os mais conservadores, pois, parafraseando Elis, “o novo sempre vem”. Obra de Tarsila já esteve no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, o MALBA, e, recentemente, Amaral ganhou mostra no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MOMA. Chic, não? Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, A Lua, 1928. Os mistérios dos ciclos lunares, nos mistérios do feminino, no oposto do Sol, pois, se não podemos ver este diretamente, podemos ver a branda Lua diretamente, numa suavidade feminina, numa Tarsila mulher expressando-se como tal, e temos em Tarsila o masculino também, numa artista que teve as bolas para ousar e transgredir, tendo coragem, apesar de sentir um friozinho na barriga. Aqui, temos uma cena solitária, sensual, e a Lua segue só no céu, cercada por sensuais brumas e nuvens, como véus mágicos de uma noiva estonteante, a estrela do casamento. A suave luz da Lua banha os céus, em curvas sedutoras, relaxantes, numa artista querendo relaxar e produzir no ateliê. É o enigma do luar: está noite mas, ao mesmo tempo, há uma certa claridade, nas noites claras tropicais de luar, do modo como os chineses se guiam pelo calendário nos ritmos lunares. Se o Sol é simples e direto, nascendo e morrendo linearmente ao dia, a Lua é mais complexa, alheia ao Sol, nos ciclos lunares que guiam os úteros menstruados – a Lua é linkada à Mulher. Estes céus têm um azul marinho discreto, fechado e denso, contrastando com as nuvens brancas, banhadas pela luminosidade do satélite natural. A cor desta Lua é amarelada, como se quisesse ser ouro e concorrer com o Sol para ver quem é mais belo. Este é um quadro sem linhas tensas, sem fálicos pensamentos racionais, sem a tensão do mundo dos Homens, sem guerras, sem tensões entre países, integrando o Globo sob a mesma mãe, ou seja, a Lua, pois, quando se viaja para o Exterior, até para os lugares mais longínquos, a pessoa fica espantada ao ver que, não importando onde está, a mesma Lua de sempre estará lá, unindo continentes, fazendo-nos humanos, igualando-nos. Esta Lua parece ser um colar dourado, adornando o pescoço de uma mulher nobre, numa Lua Minguante ou Crescente, sempre pulsando no seu ritmo de inchar e desinchar, como se respirasse como as ondas do Mar – a Natureza está toda interligada, numa única estrada, na sensualidade integradora de Tao, o Uno. Na porção terrestre do quadro, um gramado de um verde cinzento, discreto, perfeito como um carpete, convidando-nos a tirar os sapatos e sentir a suavidade desta grama divina, relaxante, reconfortante. Temos, cruzando este gramado, um rio curvilíneo, integrando-se à sensualidade fluidia da Lua e do Céu Noturno, deixando correr uma água fresca, pura, nutrindo as entranhas da Terra, num quadro tão paradisíaco como este, como se Tarsila soubesse como são acolhedoras as colônias espirituais da Dimensão Metafísica, do plano onde os arrogantes orgulhos mundanos perecem. E temos aqui uma forma enigmática: não sabemos se é um cacto ou uma figura humana. Se for um homem, ele parece abanar para a Lua, querendo falar com a noiva dos céus negros, seduzido pelo brilho suave e discreto dela, apaixonado por uma noite tão amena e gostosa, paradisíaca, ideal; se for um cacto, está absolutamente sem espinhos, sem as vicissitudes dolorosas e inevitáveis da Vida, num vegetal sem a agressividade espinhosa, num ser vivo relaxado e tranquilo, que não se sente obrigado a pegar em armas e matar seus irmãos – Tarsila era da Paz. Tudo neste quadro entra num só ritmo, numa só artista, na ambição de se unir ao Mundo e servir este, do modo como Tarsila o fez, sempre colocando sua inteligência a serviço dos outros seres humanos, merecendo reconhecimento nacional e internacional, ou seja, universal.


Acima, Abaporu, 1928. Este é um dos quadros mais emblemáticos da carreira de Tarsila. Não podemos ver se é um homem ou uma mulher, numa androginia, desprovida de sexo e de desejo sexual. O corpo está completamente nu, entregue, exposto, no sentido de que o artista coloca a cara a tapa, arriscando-se, ousando, equilibrando-se numa linha tênue, desnudando-se. Há aqui uma visão de perspectiva, como se o “fotógrafo” enquadrasse o modelo de baixo para cima, dando o efeito de desproporção. O pé e a mão são gigantescos, descomunais, como se, com seu peso, com a gravidade, estivessem puxando o corpo para baixo, aprisionando em uma dimensão inescapável, só escapável no momento do desencarne, na libertação do espírito. É uma pele bonita, homogênea, da raça branca, talvez um autorretrato de Tarsila. A minúscula cabeça está repousada no braço ao lado, como se estivesse pensando, pois Tarsila foi uma grande cabeça, acima de mediocridades. A cabeça tem cabelos negros curtos, talvez pela influência das tendências capilares da época, numa Tarsila moderna, cosmopolita, citadina, abrilhantando a cena cultural brasileira. Os olhos estão tristes, mergulhados em reflexão e Filosofia. Vemos um nariz delgado e não vemos boca, numa face minimalista, num quadro tão simples em formas, no poder da Simplicidade. Mais uma vez, vemos um cacto sem espinhos, sem amarguras, como se fossem pernas de mulher depiladas, femininas, preparadas para o Mundo, na questão da autoestima – cuidar-se, amar-se, aceitar-se. Ao fundo, um Céu de Brigadeiro, límpido, majestoso, rico em claridade, iluminando o Mundo e os seres deste. Esta forma humana repousa em um monte verde, suave, sem recortes de picos espinhentos, acolhendo como em um lar perfeito, reconfortante. As mãos não têm unhas, numa preocupação de Tarsila em se ater ao essencial. O pé tem unhas em quase todos os dedos, e o mindinho está carente, sem unha, desprotegido, na sensação desoladora de um morador de Rua, entregue à própria sorte, como um cachorro abandonado. Acima, regendo tudo e todos, um brilhante Sol dourado, como uma deliciosa rodela de laranja, trazendo toda a doçura da riqueza agrária brasileira. O Sol é um grande olho que tudo observa, banhando seus filhos, esbanjando vida e energia, nunca deixando de brilhar entre as esferas do Sistema Solar. É como uma moeda de ouro, trazendo a riqueza que é a Vida, por Terra, Ar e Mar, trazendo os seres vivos à Vida. É como uma bola de espelhos numa boate, exercendo fascínio, sendo, ao mesmo tempo, perigosa – não olhe diretamente para ela, no modo como uma nação é pacífica mas, se provocada, irá à Guerra. Precioso como uma pérola gigantesca, o Sol, um dia perecerá, e Tarsila traz o Sol para perenizar este, eternizando-o na forma de Arte, garantindo que, pintado aqui, jamais deixará de funcionar, na intenção artística de desafiar o tempo e os prazos de validade, na busca pela Vida Eterna – Tarsila quer se lembrada. Este quadro é maravilhoso em sua simplicidade, colocando na tela somente o essencial, trazendo a limpeza espiritual tão almejada pelos rituais de purificação humanos: banhar-se, escovar os dentes, lavar roupa e limpar uma casa. A pele desta figura humana tem um brilho saudável, viçoso, jovial, sem qualquer indício de rugas ou marcas de expressão, do modo como o pensamento racional não perece. Este Sol é como a explosão titânica de uma supernova, abalando as estruturas da Arte, trazendo o inevitável – a Evolução, e os novos capítulos vêm.


Acima, Antropofagia, 1929. Mais uma vez, o sol que parece uma rodela de laranja, na riqueza gastronômica popular brasileira, num refresco revigorante e delicioso, como foi a Arte Moderna Brasileira. O título traz dois corpos nus, entrelaçados um no outro, e um grande seio lactante é revelado, nutrindo a Natureza, no vínculo forte entre mãe e cria, no modo como a amamentadora dá tudo de si para o filho, do modo como uma cachorrinha que tive, que, ao amamentar a ninhada, ficou desnutrida, numa mãe sempre se doando ao máximo pelos filhos, numa Tarsila dedicada. As cabeças estão sem rosto, sem olhos nem nada, apenas cabeças carecas, numa Tarsila atenta ao essencial, ao mínimo, à elegância comedida. Estes corpos formam um só, como numa simbiose vegetal, onde um organismo beneficia o outro, e vice-versa. Ao fundo, uma grande folha de bananeira, nas densas matas virgens brasileiras desbravadas pelos portugueses, num fruto tão barato e nutritivo como a banana, no modo como o grande artista se torna alimento para os olhos do espectador, como Tarsila alimentou (e continua alimentando) inúmeros olhos. Um pouco abaixo da folha, uma forma que parece ser uma espátula vermelha, no sangue pulsante da Miscigenação Brasileira, numa mistura única, sem par no Mundo. É o sangue derramado nas guerras, que dizimaram os índios, que outrora foram senhores das Américas. Mais uma vez, a paixão de Tarsila por cactos, sempre sem espinhos, sempre gentis e suaves, na delicadeza contraditória da transgressão: violar e acariciar, ao mesmo tempo, sempre respeitando a tradição, apesar de contrastar com esta. Ao fundo, um céu limpo, sem nuvens cinzentas de incertezas existenciais, sem a dúvida cinzenta do que nos espera após o Desencarne. O quadro todo tem formas arredondadas, sem arestas a ser aparadas, e o seio descomunal tem papel central na história contada aqui, entrando em harmonia geométrica com o Sol, o provedor, o Senhor dos Planetas, o Tao provedor, o qual, apesar de nascer e morrer no horizonte, jamais se esgota, na estabilidade e na continuidade da produção de um artista, sempre criando, com uma mente inquieta, fértil como a Flora Brasileira. Os rostos sem face são como bonecos, seres estritamente espirituais, metafísicos, livres das vicissitudes existenciais, realizados em sua simplicidade, vivendo uma vida simples e prazerosa, na delícia do metafísico mortificante, que traz a existência racional, sem as marés traiçoeiras das emoções. A folha de bananeira parece tremular em uma brisa suave, e podemos ouvir o sensual farfalhar das folhas ao vento, um barulho aveludado, como uma dama caminhando e fazendo farfalhar o seu próprio vestido, num barulho minimalista, sutil, e, em paradoxo, poderoso e forte, pois a sutileza é uma onda de tsunami: curva-te e reinarás, diz Tao. É como um jardim fabricado, com plantas e gramados artificiais, de carpete, como uma casa confortável, cheia de prazeres de comodidade, um lugar que acolhe e traz a Paz ao filho que ali mora, no prazer de quem produz e contribui para com a Sociedade. Os tons de verde musgo trazem densidade e discrição, numa Tarsila também discreta, colocando a própria (aguçada) mente a serviço do Mundo.


Acima, Cartão Postal, 1928. Uma mãe macaca e seu macaquinho repousam alegremente em um galho – cada macaco no seu galho. Simples casinhas brancas e rosas trazem lares simples, acolhedores, sem as sobrecargas das vaidades humanas, que tanto atormentam a Sociedade. As folhas da árvore onde repousam os símios têm formas de coração, numa Tarsila tão apaixonada por Arte, tão envolvida em produzir com amor de mãe. O longo e forte rabo da macaca-mãe agarra-se ao tronco, como uma forte âncora, responsável por trazer estabilidade ao navio, fazendo Tarsila manter os pés no chão, concentrando-se em produzir obras dignas de reconhecimento. A vegetação é frondosa e abundante, brasileira. O Sol tem um formato oval, num mágico ovo de Páscoa, banhando de ouro as abençoadas terras tupiniquins, e abençoando Tarsila, a queridinha do Modernismo. Ao centro do quadro, parece ser o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, com suas rochas intimidantes e monumentais, enormes. Esta Baía da Guanabara tem uma água limpa, azul, deliciosa, e podemos ouvir o som de Bossa Nova, na tranquilidade morosa do carioca. Além do Pão de Açúcar, vemos mais formações gigantescas, num Rio de Janeiro abençoado por Deus, o Sol Criador, o fértil ovo. No lado esquerdo do quadro, duas palmeiras de proporções titânicas, desafiando a Lei da Gravidade, como na flora do Jardim Botânico do Rio, imperiais, altivas como os Orleans e Bragança. Ao lado do Pão de Açúcar, uma ponte, ligando lugares e pessoas; ligando Tarsila ao mundo de espectadores e admiradores. Aqui, temos uma tropicalidade idealizada, como a índia Iracema, de beleza arrebatadora.  A grande árvore à direita tem raízes fortes e profundas, trazendo estabilidade à copa, no modo como o Brasil se liga à Copa do Mundo, na tradição brasileira em torno do Futebol. A Arte se enraíza no indivíduo, provocando uma avalanche de percepções, pois, sabemos, a função da Arte é tocar o Humano, tornando-se indicador da Inteligência, do Metafísico.


Acima, O Pescador, 1925. As copas das palmeiras parecem aranhas, tecendo pacientemente suas teias, com uma precisão matemática. Parecem folhas de maconha, numa erva que anuvia o pensamento do usuário. Por todo o quadro vemos formas que parecem ovos, de várias cores, guardando vida dentro de si, esperando pela hora da desova, como um artista faz a desova de uma obra ou de uma exposição, esvaziando-se, colocando seus “filhos” no Mundo, com orgulho de mãe. A água aqui é doce e plácida, tranquila, muito calma, e o pescador exerce com calma e prazer sua função, captando um peixe em sua rede. O peixe é o alimento essencial e diário, na luta pela Vida, como índios homens de uma tribo, com a função de sair de casa e pescar ou caçar, na eterna divisão de tarefas entre homens e mulheres. O chapéu do pescador é a proteção, o resguardo, como usar filtro solar na beira da praia, na ação de precaução. A camisa e calça do pescador estão arregaçadas, não só para poder colocar os braços e pernas n’água, mas também para aguentar o calor tropical brasileiro. Mais ao fundo vemos morros arredondados que parecem seios femininos, na Terra Mãe, sempre provendo seus filhos, sempre exalando vida, como um belo chafariz, jorrando cornucópia, como as pérolas que Iemanjá dá aos pescadores, simbolizando a riqueza dos frutos do Mar. Como vemos com frequência em Tarsila, um céu plácido e limpo, glorioso, pacífico, sem as arestas do mau tempo, da chuva impiedosa, dos céus cinzentos e incertos da dúvida existencial – Tarsila retrata um Brasil ideal, paradisíaco, no desejo de ver o Brasil se tornando um lugar belo e harmonioso. Vemos pitorescas casinhas de pescadores, simples, convidativas, num lar que recebe o convidado oferecendo um cafezinho. Tarsila gosta dos biomas brasileiros, sendo uma amante da Natureza, numa época em que o Ambientalismo ainda não existia. Ao lado do pescador, uma planta de pontas afiadas, abrasivas, em meio a uma base inóspita, simbolizando o milagre da Vida, de um ser que encontrou força para prosperar na adversidade. Vemos também folhas gigantescas de bananeiras, num tropicalismo pré-Carmen Miranda e pré-Bossa Nova. Podemos ouvir o delicioso ruído de águas plácidas, como no reconfortante útero materno. Tarsila adora a simplicidade, e, em vida, deve ter sido uma pessoa simples, sem afetações ou frescuras. Inteligente.


Acima, Operários, 1933. Os rostos mostram a diversidade racial brasileira, com peles de vários tons, numa riqueza cromática, na diversidade. Ao fundo, as cinzentas chaminés industriais, jorrando fumaça aos céus, na “escravidão” industrial, onde tudo gira em torno de produtividade, exigindo o máximo de um operário, muitas vezes explorando este. Todos os operários aqui estão sérios, nunca sorrindo, numa vida dura e laboriosa, do modo como a Revolução Industrial trouxe uma nova escravatura, só que remunerada. Os prédios industriais aqui são impessoais, duros, num patrão que exige o máximo dos empregados. Seria este um manifesto político-social de Tarsila? Vemos apenas um homem de óculos, simbolizando a Intelectualidade, num trabalho duro que pouco exige da mente do operário, num trabalho subserviente, anônimo, que não traz muita realização pessoal. Os operários são anônimos tijolos em uma parede, indistintos, sendo apenas mais um impessoal peão no tabuleiro. Vemos tanto homens quanto mulheres, num mercado de trabalho aberto à diversidade de gênero. Vemos pessoas mais velhas e pessoas mais jovens, nas décadas que uma pessoa tem que trabalhar para poder se aposentar. É a passagem do tempo, e o indivíduo, involuntariamente, torna-se um agente desse sistema capitalista, onde tudo é dinheiro. Os operários olham diretamente para o espectador, trocando olhares, comunicando-se, expressando a cinzenta tristeza da vida de proletariado. Todos têm carteira assinada, e gozam de todos os direitos, num Brasil que não mais é exclusivamente agropecuário, num Brasil que está se industrializando, como no boom industrial chinês. A seriedade deste quadro é arrebatadora, e Tarsila faz questão de mostrar essa vida tão dura, de tantas horas de labor por semana. Talvez o operário esteja aqui de mau humor por se sentir mal-remunerado, na inevitabilidade do canibalismo capitalista, no qual o trabalhador acaba sendo lesado de alguma forma. É o Capitalismo, que só interpela quem tem dinheiro. Mais à direita, vemos um jovem negro, descendente de escravos, e o jovem, de algum modo, também é escravo, ironicamente, mesmo após o ano de 1888, na Abolição da Escravatura – a exploração do Homem pelo Homem não cessa.