quarta-feira, 9 de maio de 2018

Ele não era Mané



Certa vez ouvi que entende o mínimo de Arte quem sabe diferenciar Monet de Manet. Este morreu jovem – antes dos sessenta. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Almoço no Estúdio. Um belo e jovem rapaz está em primeiro plano. Ele olha para o lado, e não para o espectador. Ele está elegante, com ares aristocráticos, polido como um príncipe. Seu blusão é de um negro profundo, como uma noite encoberta de Lua Nova. É o mistério da Arte – o que é o talento? O rapaz está encostado na mesa, que traz comidas e bebidas no presente almoço. Seria isso no estúdio do próprio Manet? A luz entra pela janela, mas só ilumina com intensidade o rapaz e a mesa. À direita, um homem de elegante cartola fuma um cigarro após a refeição, no “vício” que um artista tem em fazer Arte. É uma cena de saciez, e o alimento já está sendo assimilado organicamente pelo estômago. Esta é a saciez que a produtividade dá a um artista, num sentimento de grande satisfação. Esta não é uma cena muito iluminada, como se fosse ao ar livre num dia de muito Sol. Na mesa, uma xícara de café, no sofisticado costume parisiense das cafeterias, ligando a Europa às fazendas brasileiras de produção de Café, um produto proveniente da “magia” exótica das terras do Brasil. Mais à esquerda, uma mulher, a empregada do local, segura um grande bule prateado, talvez cheio de café, e podemos sentir no ar o aroma irresistível de um bom café recém passado. A cor prateada é a reflexão existencial, na cor prateada da alma, no indivíduo frente a um espelho psicológico que lhe pergunta: “Quem és? Qual tua identidade? O que queres da Vida? O que vieste fazer no Mundo? Para o que tens aptidão? Qual teu dom? Como esperas de encontrar na Vida? Como será isso? Quais percalços enfrentarás? Quando verás que a Vida é luta?”. Mais atrás na cena, um grande vaso com exuberantes folhagens. As folhagens são a genealogia, a proveniência, num rapaz que, ao ser herdeiro de algum trono, tem que abraçar o destino, e fazê-lo com coragem e garbo, a fim de merecer o respeito do Mundo. Quem diabos sou? A folhagem é a Árvore da Vida, que teve o DNA e molda espécies inúmeras, dentre elas o Homo Sapiens. O que nos diferencia dos macacos? O que é ser humano? Qual o papel da Arte nessa genealogia histórica? Por que a Humanidade tem invenções como a Realeza e a sucessão monárquica? O que o direito divino de um trono tem a dizer? O que é o Reino dos Céus, esta dimensão acima da nossa? O que é o desencarne: uma maldição ou uma bênção? A senhora com o bule está discreta, em segundo plano, como se soubesse de sua própria função subalterna, secundária e, ainda assim, essencial. Seu corpo é opulento, e suas mangas arregaçadas mostram o labor do dia a dia, a labuta diária pela Vida. Na extrema esquerda inferior, objetos que remetem a itens bélicos, como elmo, espada e pistola. É o lado bélico de Manet, na luta diária por afirmação, em um mundo tão cético em relação a novos artistas, às novas gerações, às novas levas que reivindicam seu próprio espaço no Mundo. Seria o Mundo tão perfeito ao ponto de não mais precisar de novos artistas, de novos nomes? O elmo metálico é a “blindagem” psíquica, na necessidade da pessoa saber dizer “não”, na necessidade da pessoa não ser absolutamente passiva e ter uma necessária porção de agressividade, para se afirmar no Mundo, tendo ímpeto. Ao fundo de toda a cena, uma cor escura, imprevisível, nas incertezas existenciais de quem está em crise, de quem está desnorteado, catarseando aqui um sentimento de perda de Norte, como numa tempestade cinzenta em alto mar, virando navios e afogando marinheiros, como na tragédia ao fim de Moby Dick, com a “Fera do Mar” dizimando quase uma tripulação inteira. A baleia é a vida indomável, num trabalho de paciência que precisa ser feito: Como posso domesticar a Vida? Neste quadro, ouvimos um silêncio reconfortante, na comida sendo quietamente digerida.
 


Acima, Olympia. A imagem nos remete a uma cena de Titanic, em que Rose posa nua para o artista. Na cena, Rose, em tom humorístico, simula estar rodando uma bolsinha, símbolo da profissão mais antiga do Mundo – a Prostituição. Olympia repousa tal qual uma rainha, só que prostituta, como no clipe Material Girl, de Madonna, a qual reverenciou Marilyn Monroe, a eterna loira burra, num carisma que emplacou a imagem de gostosona e fã de diamantes e demais regalos de seus clientes, assim como no filme Moulin Rouge, em que a cortesã Satine tem a missão de seduzir um homem rico. Aqui, não temos um nu muito agressivo, e o sexo da prostituta está oculto, misterioso, sempre deixando um gostinho de “quero mais”, numa mulher que sabe provocar sem se entregar completamente. Seus seios são perfeitos, no auge de sua forma, e são ideais – nem grandes, nem pequenos. Ela usa um par de sapatos, os quais erotizam a cena ainda mais, pois é um nu que nunca se entrega completamente, e adereços como pulseira, brincos, colar e flor no cabelo surgem para vestir e, ao mesmo tempo, cobrir, como uma tarja preta, que estimula a curiosidade em um striptease. A cama é confortável e majestosa, e é o local de trabalho de Olympia. A cortesã não sorri, e está bem séria, levando a sério sua profissão, sabendo que nunca poderá deixar um homem enganá-la, explorá-la e ludibriá-la – ela é uma profissional. Ela se deita em uma coberta de estampa florida, trazendo ferramentas de sedução como beleza, delicadeza e perfume, seduzindo inúmeros clientes, tornando-se a grande estrela do prostíbulo. Pouco sabemos da vida real de Olympia. Talvez ela tenha vindo de uma família pobre, num contexto social carente e vulnerável, tendo decidido se prostituir para ter uma vida menos pobre e menos sofrida. Olympia, apesar do porte de mulher madura, é muito jovem, talvez adolescente, mas ela é ardilosa e já aprendeu os trâmites da profissão – nunca deixar um homem achá-la fácil demais, estando Olympia em pleno jogo de sedução. Nesta cena, Olympia – será que é um nome artístico, tão monumental? – recebe um regalo de um cliente: pomposas flores. A oferenda é trazida pela empregada negra, o que denota elevação social – ser servido por servidores. Olympia quer subir na vida e ser uma atriz de verdade, tendo muito sonhos de carreira. A empregada é negra retinta, tornando-se, assim, coadjuvante no quadro, nunca interferindo no momento de brilho da patroa Olympia. De forma ainda mais implícita, vemos um gatinho negro – símbolo supersticioso de azar – na extrema direita da cena, na sensualidade felina que traz candura misturada com agressividade, pois Olympia sabe que vive num mundo competitivo, em que muitas moças bonitas competem pela atenção do Mundo, num mundo em que todo mundo quer virar estrela – Olympia sabe, por instinto, como brilhar. Podemos ouvir o miar do gato, e temos em Olympia uma Mulhergato, sexy em seu chicote, domando e domesticando homens, num mundo machista, em que a sexualidade da mulher é reprimida. Temos em Olympia um desejo de libertação, um desejo de brilhar intensamente. É quase óbvio que Olympia é a grande estrela deste quadro. Ela o cruza de ponta a ponta, tomando tudo para si, numa força gravitacional implacável. Olympia e as flores formam um só corpo, fundindo a prostituta com os ritmos líquidos da Natureza, elegendo a prostituta à categoria de deusa. Como no rosto da ex-prostituta Bruna Surfistinha, Olympia tem cara de santa, cara de cordeiro inocente, como no rosto cândido de Evita Perón, do modo como um jornalista, certa vez, definiu magistralmente Britney Spears em poucas palavras: “Cara de santa, roupa de periguete”.


Acima, Argenteuil. O dia é ensolarado e majestoso. Estamos na beiramar, e o ar puro se espalha generosamente, inesgotavelmente. Um jovem casal é o centro da cena. Ela está vestida de modo recatado, com a maior parte do corpo coberto, e usa um elegante chapéu, que cobre cabelos presos, contidos em um fino penteado. Ela também carrega flores coloridas, provavelmente presente do homem ao Aldo, que está apaixonado, só tendo olhos para a moça, a qual não retribui o encanto e a paixão, e olha para o espectador. Ela está reservada, contida como o penteado espartano. Já, ele está voltado para ela, querendo abraçá-la, beijá-la e amá-la. É um amor não correspondido, numa cena triste, em que este homem está prestes a se machucar e acumular um ressentimento enorme, que dá uma dor existencial muito aguda, numa decepção, uma mágoa, uma cicatriz psíquica, do modo como, o tempo todo, corações se despedaçam em decepção e prostração amorosa, num jogo que expõe o coração a intempéries mil, no sentido de que a pessoa tem que aprender a proteger o próprio coração, a fim de privá-lo de tantas dores. Aqui, o homem está vestido de forma mais confortável, com uma simples camiseta de mangas arregaçadas, provavelmente um traje necessário para a prática de algum esporte náutico, algo sugerido pelas embarcações nesta cena, ondulando pelas águas tortuosas da existência, pelos labirintos da vida amorosa, colocando a pessoa tanto para cima quanto para baixo. Há um certo machismo na cena, pois à mulher não é permitido estar muito à vontade em termos de roupas, ao passo de que, ao homem, é permitido um vestuário mais confortável e informal, esportivo. O homem tenta seduzir esta mulher, mostrando que é um forte praticante, que é um campeão, um próspero macho alfa. Mas a mulher parece pouco se importar, e parece estar meio entediada com o belo desportista, o qual tem um generoso bigode. As listras na camiseta do homem trazem o contraste entre claro e escuro, típicos de esportes náuticos, e as listras bipolares são luz e sombra entremeando-se, produzindo contraste, nos altos e baixos do coração deste homem, que está prestes a se machucar enormemente. O homem carrega uma discreta bengala, num charme aristocrático. A bengala fálica corta a cena e resume atalhos, saindo do homem em chegando à mulher, na mente simples deste atleta – se ele quer algo, tem que batalhar para obtê-lo. Talvez o ar de desinteresse da mulher seja dissimulado, e talvez no fundo ela queira muito namorá-lo. Então, a mulher se faz de difícil, nunca se vendendo por um e noventa e nove – é um jogo de sedução, e a mulher tem a inteligência para capturar este homem, como uma aranha que tece sua teia e espera por uma desavisada mosca cair na armadilha. Mas o homem aqui está deliciado em cair nesta teia, e parece que há uma poderosa força gravitacional puxando o homem para perto da mulher, a qual, aparentemente, não quer este pretendente. A retilínea bengala é a Razão, curvando-se perante a Loucura do Amor, como os relógios derretidos de Salvador Dalí, perdendo o juízo e rendendo-se à inexatidão da Vida. Ao fundo, um belo mar azul, puro, limpo, convidativo, num belo dia para se namorar ao ar livre. Mais ao fundo, uma paisagem de um quieto vilarejo, com casinhas aconchegantes, neste homem que quer encontrar o caminho para casa, projetando na mulher este lugar tão convidativo, agradável e confortável – o homem quer ser seduzido. O Sol inunda esta cena, e o Céu e o Mar combinam com os traços de azul no vestido da mulher, formando um continuum, uma unidade, na sensualidade feminina mesclando-se com o Universo ao redor, trazendo Paz, Concórdia e Beleza – são os atributos femininos. Podemos ouvir o delicioso barulho da água remexendo-se sob os barcos, na sensualidade liquidiscente universal.


Acima, O Café-Concert. Aqui, o Impressionismo grita. Vemos uma cena tão parisiense e cosmopolita, numa Paris que, até hoje, permanece o epicentro do Mundo Ocidental, com o majestoso Museu do Louvre, dentre outras instituições. As pessoas parecem estar tomando cervejas, as quais brilham douradas na luz difusa de uma janela ao lado. Esta é a ironia impressionista: de perto, uma coisa; de longe, outra. São quadros que exigem ser observados com distância, num distanciamento respeitoso. Em primeiro plano, um casal. O homem está garboso, com uma bela cartola, a qual dá impressão dele ser mais alto. Seu bigode e cavanhaque grisalhos inspiram respeito, e, apesar de ser um homem de mais idade, conserva traços jovens de beleza, nunca tendo um aspecto muito envelhecido ou cansado. Nas mãos, uma bengala, a qual é quase ocultada. A bengala é o suporte existencial, a meta, o motivo de viver. Uma das mãos do homem repousa sobre a outra, e a mão de cima está curvada, num gesto de sofisticação e sabedoria, num senhor que sabe os valores do cavalheirismo. Seu colarinho branco brilha à luz, numa pessoa que sabe como é com se arrumar para ir a um elegante café. Já, a mulher ao lado não é tão garbosa. Ela tem uma assustadora “monocelha”, incapaz de depilar entre as duas sobrancelhas, com um aspecto meio repulsivo, descuidado, desleixado. Ela também tem um buço, algo que deixa qualquer mulher com um aspecto bem ruim, não inspirando ser beijada na boca. Ela fuma um cigarro e olha para o vazio, e ambos parecem estar pouco se importando um com o outro, talvez num casamento naufragado, arruinado, onde a faísca da paixão não mais vigora. Ela é jovem, mas isso não é o suficiente para fazê-la elegante ou graciosa. Em segundo plano, uma mulher de pé toma uma cerveja e, com a outra mão, apoia-se na cintura, numa pose de emancipação e independência, não pertencendo a outra pessoa, mas pertencendo a si mesma. É uma mulher muito mais interessante do que a mulher da monocelha. Podemos ouvir o burburinho dos frequentadores, e o barulho de xícaras, pires e colheres tilintando. Podemos também sentir o forte cheiro de tabaco, num lugar e numa época em que era permitido fumar em qualquer lugar, como me disse uma pessoa de minha família, a qual estava em um café em Paris e teve que sair do recinto, tal a intragável nuvem de fumaça tabagista no ar ali dentro. Em último plano, vemos um cabide com casacos e vemos também uma mulher de perfil, com um decote bem provocador, simbolizando a beleza e a sofisticação da mulher parisiense. O cabide é a utilidade, a dignidade, num artista que tem que ser útil ao Mundo. Manet mostra maestria no uso da luz, nas pinceladas impressionistas, as quais não são tão simples de ser concebidas. É uma cena não ensolarada, não ao ar livre, mas “indoor”, quase claustrofóbica, num ar viciado. Repousando sobre a mesa, um guardanapo azul, da cor celeste, numa promessa de liberdade e arejamento, longe de uma cena tão fechada, no sentido de que a pessoa tem que, às vezes, apenas precisar respirar o ar e olhar para um Céu de Brigadeiro. A mulher em segundo plano tem um anel dourado, provavelmente uma aliança, mostrando que pertence a um homem, quando, na verdade, ela pertence a si mesma, nunca deixando se dominar por qualquer homem, e isso é Feminismo: a mulher pode continuar sendo delicada, mas, ao mesmo tempo, tem que ser “espada”: é o autoencontro. Nada de errado nas roupas da mulher feia, mas ela tem, simplesmente, uma aura desleixada, deselegante, no sentido de que a autoestima é sempre bem-vinda e necessária.


Acima, Um Bar no Folies-Bergère. A garçonete é a grande estrela do quadro. Seu busto está decorado com belas flores, num decote provocante, mas não vulgar. Ela esboça um sorriso mínimo, quase imperceptível. Seu rosto é belo e harmonioso, e sua franja cobre-lhe a testa. Sua cintura é elegante e delgada, e suas mangas estão arregaçadas em sinal de trabalho, num bar badalado, da moda, extremamente frequentado. À sua frente, um pequeno copo com flores e água, simbolizando delicadeza, vigor e vida, sem falar em perfume, uma especialidade parisiense. Mais à direita, uma fruteira com frutas alaranjadas, talvez bergamotas, frescas, doces e deliciosas, no lado bom da Vida – o desfrute, livre das culpas pecaminosas. Sobre o balcão de mármore vemos muitas garrafas, símbolos da Boemia. A moça olha para o espectador como se este fosse um cliente da casa, e coloca-se à disposição do cliente, em pleno batente. Seu colar tem uma fita negra, que é o mistério, o imprevisível, e, na mesma peça, um camafeu recatado, catita, transformando a própria jovem em uma joia digna de ser pintada por Manet. Os botões verticais do vestido são as etapas da vida, uma após a outra, no itinerário existencial. São como estrelas no céu, só que devidamente ordenadas de forma matemática e geométrica, na imposição da Ordem sobre o Caos. Manet pega uma moça proletária e a faz aristocrata, pela sua beleza digna de retrato, longe de uma baronesa que desembolsa muito dinheiro para ser retratada por algum grande artista. Ao fundo, a paisagem boêmia, e podemos ouvir conversas acaloradas e risadas de salão, no momento de prazer eufórico que é a farra boêmia, como no Beco das Garrafas, bar carioca no qual se apresentava Elis Regina – a Boemia tem seus charmes. Vemos nesta cena bastante álcool engarrafado, num ser humano que tem que se cuidar para não cair no vício irrefreável. Ao fundo, vemos um majestoso lustre de cristal, que é um aviso: apesar de ser uma cena boêmia, é um lugar chic, refinado e elitizado, um estabelecimento que só recebe quem tem dinheiro para gastar ali, na melhor boate da cidade, como muitas e muitas casas noturnas glamorosas que viveram e morreram, pois, ironicamente, as casas noturnas estão, cedo ou tarde, invadidas pelo raiar do Sol. Esta moça, é claro, não integra a farra e as gargalhadas, mas está em pleno serviço, talvez querendo, no fundo, juntar-se aos clientes e tomar umas boas doses de álcool. À direita na cena, um cavalheiro encartolado e de bigode conversa com uma mulher que está de costas, num mistério: Quem é ela? Ela é o lado sisudo da vida, pois, quando a moça ao centro quer muito se divertir, a mulher de costas dá as costas para isso tudo, numa desilusão mortificante: viver a vida inteira na Boemia é uma ilusão. As garrafas aqui são coloridas e alegres, seduzindo com seus sabores degustáveis. A moça agarra-se ao balcão com as duas mãos, talvez como se estivesse num barco revolto, o qual está instável, assim como é instável a vida de um alcoólatra. A moça tem uma pulseira dourada, talvez presente de um admirador frequentador do bar, mas a moça parece ser à prova de ilusões, e não parece estar muito deslumbrada com os clientes garbosos e ricos do lugar. A garrafa logo ao lado da fruteira é a garrafa do seriado Jeannie é um Gênio, a qual refugiava-se ali dentro, na reclusão feminina, como ficar sozinha em casa pintando as unhas, não querendo, no momento,  muita interação com o homem do lado de fora, no sentido de que todos precisamos de um pouco de reclusão. A moça aqui está reclusa dentro de si mesma, e só vai se abrir ao Mundo quando bem entender.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Bonsoir, Renoir



Estrelão do Impressionismo, Pierre-Auguste Renoir é um dos maiores franceses da História, exaltado até de forma chauvinista por um personagem do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Nu no Sol. A luz do Sol entra sensualmente pelas folhas das árvores, numa tarde de temperatura agradável, e a modelo parece estar muito à vontade em sua simples nudez. Seus seios são voluptuosos, deliciosos como fruta madura no pé. A magia do Impressionismo toma conta do quadro, com pinceladas afoitas, dando movimento à cena. Pelo corpo da modelo vemos algumas “manchas” de luz solar direta, banhando sua pele alva, imaculada. A modelo veste uma pulseira e um anel, denotando ser rica, e não uma simples prostituta que tem que se prostituir para não passar fome. A pulseira dourada brilha como o Sol, seduzindo o espectador a entrar no quadro e beijar a modelo. Seus olhos e cabelos são negros, imprevisíveis e misteriosos, contrastando com esta cena diurna. A modelo está um pouco ruborizada, com bochechas róseas e saudáveis, esbanjando Vida. Podemos ouvir o canto dos passarinhos ao redor, num silêncio bucólico. A modelo está cercada de vegetação, como se a própria modelo fosse uma planta ou uma flor neste jardim, entrosando-se profundamente com a vegetação ao seu redor, como a sexy vilã Hera Venenosa, arquiinimiga de Batman. A modelo não olha para o espectador, mas está distraída por algo que foge ao quadro. A modelo parece estar psicologicamente distante, um tanto entediada com a função de posar. Seu anel brilha singular, fazendo metáfora com a preciosidade dos grandes talentos, dos grandes mestres como Renoir. A modelo tem um ventre abundante, digno de dançarinas da Dança do Ventre, como nas formas abundantes de Marilyn Monroe, a qual não se parecia com o padrão de beleza das modelos atuais: anoréxicas e subnutridas. A modelo é uma mesa farta de galeteria, na alegria de receber amigos em volta de uma mesa generosa, sem tratar o alimento como uma preciosidade, mas como uma necessidade. Os cabelos da modelo estão desgrenhados, desajeitados por uma brisa que varre a cena e provoca um delicioso farfalhar de folhas. É uma tarde quente de verão, e podemos ouvir as cigarras cantando sob o calor. Um pouco tímida, a modelo tapa seu sexo, provocando ainda mais o espectador. Talvez seja a primeira vez em que a modelo posa, num desconforto de principiante. A modelo e a vegetação são um só corpo, na sensualidade da integração universal, num único caminho, um único Tao – a sensualidade precisamente reside nesta interconexão, num Renoir que viveu muitos anos antes da Internet. A pele da modelo é clara e delicada, numa fragilidade de um caule de flor. Ainda assim, a modelo se impõe impiedosamente, arrastando tudo e todos consigo. Fascinante como uma musa, a modelo tem seios liquidiscentes, orgânicos, frágeis e fluidios, como um córrego de água, sempre fluindo, sempre nutrindo terras de um vale de videiras. Os seios são a Mãe provedora, como no busto sensual de uma Iemanjá, sempre nutrindo, sempre dando pesca farta aos pescadores, sempre generosa como uma mamma italiana fazendo polenta para a família. As folhas acariciam suavemente a pele da modelo, num quadro de prazer, de bem estar, de sedutora preguiça. Os seios parecem se movimentar, como sinos em pêndulo, como numa dança em torno de uma fogueira. Estes seios são naturais, e não de artificial silicone; não de fake news – notícias falsas. Tao é o natural.


Acima, O Almoço dos Barqueiros. Este é um dos quadros mais célebres de toda a carreira de Renoir. Pessoas jovens, bonitas e vibrantes reúnem-se com jovial alegria. Vemos uma mesa muito farta, com bons vinhos e uvas, na alegria de Baco: no vinho está a verdade, ou seja, o vinho traz alegria e libera a voz. É uma cena de celebração e flerte. É um dia ensolarado, como a juventude dourada de uma colônia espiritual, na Dimensão Metafísica, onde todos somos jovens e eternos. A toalha branca da mesa é a paz, a brandura, a limpeza, a beleza. É um lugar e um momento onde não há espaço para mágoas ou tristezas, como um bom grupo de amigos, no qual todos se divertem igualmente. As moças são elegantes, com chapéus aprumados, mulheres que fazem questão de se arrumar para ir a uma festa, mostrando ter autoestima, autoamor. O vinho tem papel importante na cena, trazendo cor e perfume, alimentando a alma. É um dia quente, e dois rapazes estão de camisa regata, com os braços à mostra, querendo mostrar seu vigor às moças. Um dos rapazes, à direita, está informalmente sentado, mostrando simplicidade e despretensão, numa pose alternativa, de um Renoir alternativo, imaginativo. Uma das moças, à esquerda, está beijando um cachorrinho, sendo o bicho alvo de amor. O cachorrinho é a afeição, o carinho, num quadro onde o flerte tem, por trás de tudo, a necessidade de Amor. Quase ao centro, em uma pose sensual, uma moça repousa a mão sob o próprio queixo, numa pose de alguém que está curtindo o momento e aproveitando a festa. Podemos ouvir conversas animadas e gargalhadas, em uma festa divertida e prazerosa. Mais um pouco à direita, uma moça toma um cálice de vinho. O vinho é a declaração de amor de Renoir à França, país que desenvolve vinhos de excelência mundial, sendo sinônimo de qualidade, trazendo orgulho nacional, no modo como o próprio Renoir se tornou um astro nacional francês. Apenas um dos homens na cena não usa chapéu, acessório que é sinônimo de elegância, sendo, em pleno século XXI, um tanto subestimado e fora de uso. É a alegria e a beleza de uma vindima, com agricultores cantando juntos enquanto colhem dos parreirais os preciosos frutos dos vinhedos. A magia das vindimas está na união, quando todos se unem em torno da uva.  Aqui, a mesa está charmosamente desarrumada, num apelo informal e acolhedor, rústico. Nesta festa não há espaço para a sisudez ordeira, a qual não combina com uma festa, mas com um escritório. Aqui, Renoir encontra prazer no trabalho, misturando sisudez com diversão. O toldo acima é a proteção da Mão Divina, abençoando seus filhos e amando os mesmos, como Aton abençoando Aquenaton. O toldo é o carinho do Lar, num lugar onde a pessoa goza de grande identidade, sabendo muito bem a que lugar a mesma pessoa pertence. É um momento de intensa interação social, e cada minuto é precioso com esses encontros e flertes, num momento em que a Vida em Sociedade revela o seu lado feminino, festivo, como uma Rainha da Festa da Uva, mulher madura como a uva madura, num arquétipo feminino, belo. Renoir mostra maestria na constituição do vidro dos copos e garrafas, usando sutis pinceladas em branco para obter o efeito cristalino, transparente. As uvas são a Vida, deliciosa Vida, sempre brotando e germinando, sempre provendo sangue ao organismo, no jogo sedutor do vampiro, ávido por sangue. Os chapéus na cena são o telhado do Lar, protegendo da chuva, numa cena tão veranil. Ao fundo de tudo, a Mãe Natureza, a vegetação, envolvendo todos com a seiva fluindo por suas veias, sempre respirando e vivendo. A moça quase ao centro, debruçada, sente a Vida fluir, deliciando-se com este simples momento de relacionamento. Olhando para ela, um homem está de costas para o espectador; o homem é o próprio Renoir, como um Hitchcock pintor, nunca querendo tomar espaço na cena, sempre observando invisivelmente, nunca querendo aparecer como um showman, um exibido.


Acima, O Camarote. Uma dama absolutamente arrumada e elegante assiste a um espetáculo. Ela usa joias e vestes nobres, com uma delicada flor no cabelo, símbolo de feminilidade. Sua pele é alva, quase fantasmagórica, e seus brincos parecem balançar suavemente. Podemos ouvir uma soprano em performance no palco. A dama veste luvas brancas, pertinentes em um evento de gala e excepcional. Aqui, o espetáculo não está no palco, mas sim nesta dama. Ela pouco parece se importar com o que ocorre no palco, como se soubesse que ela mesma é a mulher mais maravilhosa da noite. Ela olha ligeiramente ao lado do espectador, sem flertar com este. Seus lábios são cor de rubi, viçosos, vibrantes, loucos por um beijo, por uma noite de romance. Seu busto é generoso, farto, como de uma fêmea lactante, esbanjando vida, explodindo em fartura. Seu vestido contrasta entre claro e escuro, em elegantes listras. Seus olhos são de um azul profundo, e, aqui, a luz expande-se uniformemente, de forma difusa, e não podemos ver muitas sombras no rosto da dama. Ao fundo, em segundo plano, quase apagado, coadjuvante, vemos um homem que parece estar cochilando, um tanto entediado com o espetáculo, pouco se importando com este. Talvez tenha sido a dama que o convidou para o programa, e ele aceitou por ela, e não pelo espetáculo em si. O homem também está elegante e podemos vê-lo de luva. O homem sério é o respaldo masculino, a base, o pilar, e está, naquela noite, com a responsabilidade de acompanhar a dama, buscando-a em casa e trazendo-a de volta, talvez com o voto de confiança dos pais da moça. Esta cena tem uma ironia, pois junta tradição com vanguarda: no palco, sentimos que há uma ópera ou balé frutos de cultura erudita, tradicional, acadêmica; ao mesmo tempo, é um quadro impressionista, de vanguarda, no choque que ocorreu entre tradição e inovação, assim como a moderna pirâmide do Louvre, um museu riquíssimo em Arte Acadêmica. O sorriso da dama é extremamente suave, quase imperceptível, desafiando o espectador a detectá-lo, num Renoir envolto em nuances, em sugestões, tão frequentes no Impressionismo. Podemos sentir o perfume floral da dama, e o homem parece hipnotizado, adormecido, enfeitiçado. Resta saber o tempo que a dama demorou para se aprumar, pois, para uma mulher, a diversão não começa quando a mulher chega no evento ou festa, mas começa já no ritual de aprumação em casa.


Acima, O Passeio. É um quadro erótico, em que feminino e masculino se entrelaçam poeticamente. A mulher elegante e bela é “fraca e incapaz”, de forma erótica, é claro. Talvez ela esteja simplesmente fingindo que é fraca, tudo para inspirar o cavalheiro a conferir-lhe tratamento de dama, visto que a dama tem que ter uma posição passiva, pois, se impuser o tratamento de dama, deixa de ser dama – o homem tem que se sentir encorajado e inspirado. A mulher carrega seu majestoso vestido pelo bosque, e o homem estende-lhe a mão par auxiliá-la a caminhar. É claro que a estrela do quadro é a mulher, e o homem está contentado com um papel implícito. O homem tem vestes discretas e escuras, sóbrias. A mulher tem receio de sujar seu vestido no bosque, e o homem pouco se importa se ele mesmo vai se sujar ou não. O próprio bosque tem vestes majestosas, impressas com pacientes pinceladas impressionistas, parecendo competir com o vestido da mulher para ver quem é mais deslumbrante. Aqui, a mulher e o bosque fundem-se, formando um só corpo. É a sedução da Natureza, nos mistérios femininos, hipnotizando o homem aqui, estando este totalmente inspirado a tratar a dama como tal – é um jogo de sedução entre fraco e forte. O rosto do homem está quase encoberto pela sombra do chapéu, e não podemos ver as feições. O homem pouco se importa com isso, pois não intenciona aparecer mais do que a mulher, majestosa como uma noive em entrada triunfal na Igreja. Temos aqui, praticamente, uma cena de casamento, em que a noiva, em sensual atraso, finalmente entra de branco num templo, acompanhada do pai, que é o Yang. O chapéu da mulher também é elegante, e remete à reprise que o Canal Viva está fazendo na novela dos anos 80 Sinhá Moça, com Lucélia Santos no papel título. A sinhá é isso: pura feminilidade, mas é um personagem, e não uma pessoa, pois, no mundo real, cada pessoa tem que desenvolver, individualmente, seus próprios lados feminino e masculino. Mas, mesmo assim, este quadro é sedutor. Renoir tem um fascínio sobre o Feminino, retratando mulheres muito sedutoras e, ao mesmo tempo, puras. As mãos da mulher, aqui, são bem frágeis, como um caule de flor, inspirando os cuidados do homem seduzido. Como diz Tao, forte é fraco; fraco é forte. Existe toda uma força na passividade, na languidez e na preguiça, pois, como disse Luis Fernando Verissimo, as grandes obras da Humanidade resultaram da preguiça do Ser Humano. Dois exemplos: a roda, no sentido de fulano ter preguiça de coisas carregar nos braços; o telefone, no sentido de fulano ter preguiça de ir à casa do beltrano para conversar com este.


Acima, Rosa e Azul. Este quadro é uma das relíquias e orgulhos do Museu de Arte de São Paulo, e eu pude vê-lo no museu citado. Inclusive, uma moça ao meu lado disse a um amigo: “Eu não acredito que estou em frente a um Renoir”. Parecem as menininhas fantasmas de O Iluminado, tomando conta do museu, como nos filmes de Uma Noite no Museu, em que tudo no museu ganha vida quando chega a noite. E os grandes artistas dão vida às próprias obras. São meninas de famílias ricas, com poder aquisitivo para encomendar um trabalho de Renoir, uma prova de que o artista gozou de sucesso antes de morrer, o que é uma dádiva. As meninas estão trajadas para uma festa, vestindo o melhor de seu guarda roupa. Elas estão comportadas e calmas, algo impossível no comportamento de crianças pequenas. Estão de mãos dadas em expressão de carinho, quando todos sabemos que não é bem assim em qualquer famílias, com brigas inevitáveis de vez em quando. Renoir soube, em cada pincelada, reconstituir o complexo tecido dos vestidos, com uma textura muito rica e complexa, num trabalho de muita paciência, caindo nas graças impressionistas. São infantes com ares de realeza, num mundo de privilégios e exclusividades, na ascensão burguesa pós-Revolução Francesa, quando o Direito Monárquico entra em colapso e a Burguesia Francesa ascende vitoriosa, na Democracia Moderna. Este quadro é um quadro de vitória, de privilégio.  Há uma relação de interdependência, pois uma está de pé e a outra está sentada: a em pé é a Razão, a tensão atenta, o lado matemático da mente, sempre atento, sempre responsável; a sentada é a Loucura, a feminilidade, relaxada, dormente, buscando um lugar para chamar de lar. A cor rosa remete ao feminino, ao carnal, ao orgânico; a azul, ao pensamento, ao Céu, à abstração, ao racional e ao sisudo. Temos um Renoir dividido entre Razão e Loucura, nas duas faces de uma mesma moeda, sendo uma face a contradição da outra – na Luz, nada mais natural do que a Sombra. A faixa azul na menininha em pé é de um sofisticado brilho acetinado, transmitindo requinte, numa cena fina, chic. O sorriso delas é contido e discreto, suave, nunca mostrando os dentes. Seus cabelos estão devidamente aprumados e limpos, num dia especial, de festa. Ambas estão com as melenas atadas por laços, mesmo que estes apareçam discretamente no quadro. O laço é a Mente contendo e controlando o Corpo, na vitória da ponderação racional. Os laços são a disciplina de um Renoir dedicado, laborioso, pois quem não trabalha, não se expressa. Cada menininha está aprumada de forma cromaticamente harmoniosa: uma está quase todas em tons de rosa; a outra, de azul. Seus sapatinhos são novos, estreando em dia de festa, e a criança percebe quando está em uma ocasião especial, em dia de festa. As festas são acontecimentos de saúde mental coletiva, pois as festas unem os Seres Humanos em torno do que é celebrado. A pele das meninas é bem clara, intocada pelo Sol. O tapete aos seus pés é o privilégio social, o luxo exclusivo. É o respaldo de pais atenciosos, que fazem de tudo pelas filhas, amando-as e sustentando-as. É uma cena interiorizada, enclausurada, e não uma cena ao ar livre. Laços, cintos e fitas são as rédeas sobre um cavalo revolto e rebelde. O laço é o contentamento, como água, que desce ao nível mais inferior, precisando aceitar onde ela mesma está. Quem está contente, está bem; quem não se aceita, está mal. Aqui, as mãos dadas são a união que deve haver entre a Humanidade, mas em um Mundo em que a desunião é tão comum e abundante. As menininhas parecem ser feitas de porcelana, numa cena sofisticada, inspirando etiqueta, boa educação e discrição, num Renoir que entrega um trabalho competente e digno de respeito e admiração, provando, no osso, que é um bom artista. Como disse Silvio Santos: “Quem não tem competência, não se estabelece”. Como disse a intelectual caxiense Cleodes Piazza Ribeiro: “O que quer que faça, faça bem feito. Só isso”.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Gol de Vasco



Quando foi feito um concurso para eleger qual obra daria corpo ao famoso monumento de O Laçador, em Porto Alegre, Vasco Prado inscreveu-se com um modelo de claros traços indígenas, mas o eleito foi outro trabalho. Vasco permanece como um dos grandes artistas gaúchos da História, amando a sua Pátria Gaúcha. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Cavalo. O animal aqui está castrado, limitado, num mundo em que os sonhos são destruídos e abreviados. O pescoço está retorcido, como se o cavalo estivesse tenso, esperando ser atacado pela retaguarda. O cavalo está erguido por um mastro, do modo como as cidades espirituais estão acima da Terra. É como um futurista prédio do desenho animado Os Jetsons, em que enormes estruturas prediais são sustentadas por um frágil pilar, num minimalismo, em que a pessoa toca no chão o mínimo possível, ou seja, numa pessoa que recorre ao Mundano de forma moderada, limitada. É como as mulheres amam sapatos, principalmente de salto: o salto as ergue, as elege, as protege, fazendo-as se sentir verdadeiras princesas privilegiadas e mimadas. É como na canção Express Yourself: “Você precisa é de uma mão grande e forte que te erga a um patamar mais elevado, fazendo você se sentir uma rainha num trono”. É a magia do ritual de casamento, em que Yang envolve Yin, protegendo este. E é muito comum, principalmente nas campanhas publicitárias, ver o Homem acima da Mulher, sendo mais alto. Uma mulher já disse para mim: “Quero um namorado que seja mais alto do que eu”, do modo como Nicole Kidman teve que usar sapatos de salto baixo ao aparecer ao lado do marido tampinha Tom Cruise. O cavalo está aqui protegido, em um metafísico Monte Olimpo, e o contato com o Mundo Material é realmente evitado. O rabo do cavalo também está tolhido, castrado, impedindo-o de espraiar a magia elegante dos cavalos que correm olimpicamente. O sustentáculo é fino, querendo ser invisível, do modo como a Dimensão Metafísica é invisível aos olhos carnais, materiais. O sustentáculo é um falo, retilíneo e racional, observando o Mundo de forma clara e objetiva, sem lugar para emoções que desvirtuam os caminhos de um marinheiro seduzido por uma sereia, como Botticelli coloca Vênus seduzindo e entorpecendo Marte, num quadro pacifista, que sabe que o Ódio não é uma invenção de Tao, mas um capricho humano: a Paz é maior do que a Raiva. A base desta escultura faz parte do conjunto, e representa a referência, a base sábia que sustenta ideias, conceitos. A base é todo o trabalho árduo e minucioso de um artista dedicado ao labor. A base é o dia a dia do atelier, dando ocupação e propósito, pois já ouvi de uma poetisa: “Sem a poesia, o que faria eu desta tarde brumosa?”. O cavalo está espetado como churrasco, como uma borboleta espetada por um alfinete em uma coleção de borboletas mortas. É a mortificação espiritual, necessária porque liberta a Mente dos caminhos instáveis da Emoção, de um coração traiçoeiro, que sempre engana em seus meandros labirínticos que levam a nada. O cavalo parece estar fazendo “não” com a cabeça, na renúncia, no rejeito aos luxos frívolos mundanos, no sentido de que a pessoa, para ter o controle de sua própria vida, tem que saber dizer “não”. É como uma armadura, que repele flechas inimigas. E não tem o controle que sabe renunciar? Este cavalo é bem corpulento, meio obeso, numa fartura de cornucópia, numa mesa de banquete tão generosa, sempre nutrindo seus filhos, sempre acolhendo. É a generosidade, a qual é necessária, pois quem nutre Mundo é acolhido por este. Mais abaixo, vemos testículos, que representam a Coragem, a hombridade de vir ao Mundo e mostrar ao que veio. Também vemos o ânus desprotegido, e talvez esse seja o motivo pelo qual o cavalo esteja tão tenso, tão desconfiado, buscando proteger a si mesmo. É como se fosse um mítico cavalo alado, na liberdade mental que nutre a Imaginação e a Criatividade, liberdade esta capital para os artistas. Há nada mais triste do que um artista esmagado por um sistema totalitário, sendo este artista obrigado a ser limitado por ideologias, que limitam a visão. Pois este cavalo de Vasco Prado está de olhos livres, sempre atento, no mito novaioquino da “cidade que nunca dorme”, ou seja, do espírito desvinculado das fadigas materiais.


Acima, O Laçador. Símbolo de virilidade, O Laçador representa a Humanidade domando a Natureza, seja com cordas para atar os cavalos e o gado, seja com uma faca para carnear. Este laçador de Vasco é um tanto minimalista, pois não traz riqueza em detalhes. Podemos ver um laço, algo essencial aqui – leia-se o nome da obra –, e vemos vestimentas típicas da cintura para baixo. O modelo parece estar nu da cintura para cima, apresentando uma musculatura avantajada, como um Davi gaúcho. O rosto não tem feições, e este gaúcho parece estar olhando para cima, para as estrelas em uma noite clara de luar, no Cruzeiro do Sul abençoando as terras meridionais, e podemos ouvir o rico canto prateado dos quero-queros. É a identidade campeira do gaúcho, na quietude da vida rural, numa água de chimarrão sendo aquecida em um fogo de chão, junto com pinhões no inverno. Este laçador está com os pés ocultos, e seus pés estão fincados na base da escultura. Isso é o realismo, os pés no chão, na identidade gaúcha, que teve na Revolução Farroupilha sua tragédia fundadora. É sabido que o gaúcho tem um certo “bairrismo”, ficando atento aos gaúchos que fazem sucesso fora do RS. E a base de pedra desta obra é a terra gaúcha, o lar, a proveniência, na lei do eterno retorno – todos retornamos à base, à origem. De fato, o RS é um reino por si só, com terras vastas e peculiares. Quaisquer laçadores representam todo esse orgulho, e até hoje o gaúcho tem uma pontinha de sentimento separatista. É claro que RS jamais via se separar do resto do Brasil, mas o bairrismo é muito claro, havendo em Brasília um local em frente ao qual existe uma placa dizendo: “Embaixada do Rio Grande em Brasília”. O hábito do chimarrão, por exemplo. A base em granito é o sustentáculo, o pai, gerando seus filhos sobre o solo de uma terra que ousou desafiar o Imperador, como diz o Hino do RS: “Sirvam nossas façanhas de exemplo a toda a Terra”. Os laçadores são o ímpeto, o grito por identidade e liberdade, e o laço é o cordão umbilical, sempre ligando o bebê ao útero, à terra maternal, à dimensão onde todos somos livres, desencarnados. O laço é o fio de ligação entre todos os gaúchos, conectando todos sob o mesmo sentimento de semisseparatismo, um sentimento que é inofensivo se não for levado ao pé da letra. O laço é a linha de um novelo, tecendo as roupas típicas gaúchas, no trabalho cuidadoso de uma mãe zelosa, costurando pacientemente a roupa para seu filho. No RS há toda uma identidade rural, nas raízes do gaúcho, numa terra que um dia foi alvo de disputa entre Portugal e Espanha. O laço é o controle sobre a própria vida, num homem viril que se recusa a não ter o controle sobre sua própria vida. O laço é o grito de independência, de autonomia, de soberania, de masculinidade, nunca deixando que as terras gaúchas deixem de pertencer aos gaúchos. A tradição tosca gaúcha tem todo um reconforto, do modo como o selvagem Queequeg, do romance Moby Dick, o qual acabei de ler, é aparentemente tosco mas, no fundo, provou ter sangue azul e nobre, como no rei Aragorn de O Senhor dos Anéis: uma aparência tosca que traz um sentimento de bem estar. O estilo dos CTGs é assim, tosco, e belo, na beleza graciosa das prendas. Tenho orgulho de dizer que meu bisavô Joaquim Pedro Lisboa fundou o CTG Rincão da Lealdade, em Caxias do Sul. Nessa atitude tosca e “buenacha”, O Laçador é a vitória da autenticidade sobre a dissimulação traiçoeira. E o laço são os laços de sangue que ligam os seres humanos, como irmãos de uma mesma casa real, todos iguais e, ainda assim, peculiares a nível individual. O laço é a cobra peçonhenta sendo vencida pelo Homem, como Nossa Senhora esmagando a serpente maliciosa. A identidade dos Pampas é muito clara, pois vi, há alguns anos em Buenos Aires, um show de dança que provou ter traços inegavelmente gaúchos, tradicionais.


Acima, Modelo em Repouso. A modelo é voluptuosa, farta, saudável, nunca sendo uma modelo anoréxica que se curva aos ditatoriais padrões de beleza contemporâneos. Ela está confortável em sua própria nudez, na simplicidade de estar como veio ao Mundo. Seus seios parecem se movimentar suavemente pelos sutis movimentos dormentes, e a pose é de alguém em momento de contemplação, num momento em que tudo do que a pessoa precisa é de ar nos próprios pulmões. A genitália está escondida, reclusa, do modo como nudez e vulgaridade não precisam andar juntas. É o modo francês de lidar com simplicidade em relação à nudez. É um corpo farto, o qual significa satisfação, saciez, num artista satisfeito com a própria produtividade, no sentimento pacífico de realização – quem tem Paz é feliz, estando pacífico em relação a si mesmo e a outrem. A modelo está confortável, com autoestima, sem se preocupar com padrões estéticos. A modelo parece ser recém parida, numa pele sem máculas, como pele de bebê. Ela está em casa, relaxando, sem se preocupar com as vicissitudes do Mundo lá fora. É uma escultura que transmite tranquilidade, sedimentação, ponderação. Estar calmo é um prazer, uma dádiva. Nesta peça não há culpa ou preconceito, mas autoaceitação, autorrespeito, e podemos ouvir o sutil farfalhar da pele da modelo quando esta se move suavemente. Podemos ouvir a sutil respiração da modelo, com seu tórax inflando e desinflando. Aqui há Vida. É uma obra que convida à horizontalização, ao gostoso Pecado Capital da Preguiça. O semblante é plácido e relaxado, sem estar exposto aos estresses da Vida. É um rosto imaculado, sem traços de idade ou cansaço. Sobre a cabeça, uma forma que pode ser o cabelo ou pode ser uma toca ou chapéu, envolvendo e protegendo a cabeça. Esse invólucro é a Racionalidade, a vida intelectual, o sentar-se para ler um livro ou ver um filme, um cérebro que rejeita a mentalidade de que um ser humano só tem que trabalhar como workaholic, estando este mesmo ser privado dos prazeres intelectuais. É claro que Vasco Prado era produtivo e trabalhador, mas nunca ao ponto de não ter vida intelectual. Aqui, os seios fartos parecem estar cheios de leite, o que me faz lembrar de quando vi recentemente uma mulher no shopping amamentando seu nenê. É o milagre da Vida, da fartura, desta “caixinha de leite condensado” que nos nutre e nos fortalece. As pernas sutilmente cruzadas são a ponderação e o contentamento, numa modelo que senta e pensa, senta e conversa, senta e troca impressões. É uma conversa interessante numa aconchegante sala de estar. É a inteligência, a erudição, uma conversa divertida e enriquecedora, numa Elis Regina preocupada em gravar canções que fossem realmente interessantes, respeitando a inteligência do Público. É o eterno namoro da Arte com a nudez, como vi, certa vez em um atelier, exemplares de uma revista de nu feminino. Este “capacete” da modelo é o telhado, a casa, a proteção, a proveniência, num lar onde crianças são criadas em observância à virtude, à nobreza dos atos, ao discernimento entre certo e errado. O “capacete” é um abajur ligado, esclarecido, fruto de uma cabeça pensante. A modelo parece estar muito à vontade no atelier, pouco se importando com o olhar do artista sobre ela mesma. O ventre da modelo é farto como o de uma dançarina da Dança do Vente, numa refeição farta e suculenta, deliciosa. A modelo não fica perturbada com os olhares do espectador, o qual fica convidado e entrar e ficar à vontade, como o lar que é o Útero Materno.


Acima, Negrinho do Pastoreio. Uma das maiores lendas do Folclore Gaúcho, o Negrinho do Pastoreio conta a história de um menininho que, depois de ser executado de forma cruel – ficou amarrado junto ao um formigueiro até ser morto lenta e agoniantemente pelas formigas –, este Negrinho vai para o Céu em encontro com Nossa Senhora, ressuscitando depois de uma espécie de crucificação, só que sem cruz. Certa vez ganhei de presente uma faca de churrasco a qual trazia, na lâmina e na bainha, trechos ilustrados da lenda – nada mais gaúcho. Essa lenda não só assinala a influência negra no RS como também fala de relações sociais e de como os africanos e seus descendentes sofreram. Aqui, o Negrinho já está semimorto, parecendo estar adormecido, já no estágio final de óbito, depois de muitas horas de dor, tendo sido devorado vivo. É o eterno retorno: o Negrinho volta ao ventre imaculado da Dimensão Metafísica, libertando-se do Mundo, sendo recebido no plano acima, sequer se lembrando do que passou no momento da excruciante execução. Esquálido e abatido, o Negrinho mostra toda a inocência da criança, e está nu, exatamente do modo como estava no útero materno, retornando à Fonte. O formigueiro, a base desta escultura, é a estrutura social, num sistema onde cada indivíduo tem seu papel, restando aos negros pobres uma posição inferior, na base, na posição mais humilde e desprivilegiada. O formigueiro é o Mundo em seu ritmo frenético de labor, numa sociedade escravocrata, na qual ser negro era uma inevitável condenação. É uma escultura que fala de Racismo, a doença que ainda permeia a Vida em Sociedade. Aqui, o Negrinho está retorcido e inconsciente, como se sua alma já estivesse muito longe dali. O seu umbigo, a inevitável cicatriz causada pelo cordão umbilical, é a porta de entrada e de saída de uma dimensão melhor, e essa cicatriz é um lembrete: todos viemos de e vamos para o mesmo lugar. É claro que a pessoa desumana que condenou o Negrinho não tem compaixão, e essa lenda fala sobre piedade e covardia. O Negrinho e o formigueiro são um só corpo, um só momento dramático. O seu braço é ossudo, magro, abatido, numa realidade social em que a subnutrição é ainda realidade no Brasil, com crianças que não se desenvolvem adequadamente. É uma lenda brasileira, africana. Vemos aqui um corpo sem vida, um cadáver recém falecido, num vestígio de um processo de desencarne altamente complicado, insuportável. A lenda fala sobre tolerância e piedade, num mundo tão cruel, o mesmo mundo que crucificou o Messias. O gauchíssimo Vasco Prado entende que o Negrinho do Pastoreio abençoa as Terras Gaúchas, e o menino cavalga pelas noites dos Pampas, trazendo liberdade a todos os gaúchos, a todos os cidadãos da Querência. Ao morrer, o Negrinho se liberta.


Acima, Tiradentes. Com um semblante triste, Tiradentes olha para o Céu, mostrando-se um sonhador, um indivíduo que sonhou com um Brasil diferente, foi executado e virou mártir do Brasil. À sua frente, uma grande flor embasada por um longo caule e muitas folhas. A flor é um sonho germinando, é um ideal, uma meta. E essa flor foi ceifada pelo Império, num ato de repressão que teve como objetivo assustar o cidadão comum: se você não quer terminar como Tiradentes, não seja como Tiradentes. Do mesmo modo como as execuções de protestantes eram para servir de exemplo ao cidadão comum: se você não quer terminar como este infeliz na fogueira, seja católico, vá à Missa e fique quieto vivendo sua vida. Tenho uma vaga lembrança de infância, quando eu lia um livro sobre Tiradentes e, no volume, vi uma ilustração de partes esquartejadas de Tiradentes, expostas ao público, servindo de puro e simples exemplo. Depois de morrer de forma tão brutal, Tiradentes “ressuscita”, e o Império rui, dando espaço à República, do modo como há a representação dessa transição política da Praça da Matriz, em Porto Alegre: a República brilha vitoriosa e o Império é representado por uma besta horrenda, inferior e animalesca. Aqui, este Tiradentes veste uma grande túnica quase em forma de cone, e uma de suas pernas é revelada, numa perna ossuda e maltratada, praticamente apenas pele e osso. Essa magreza são os maus tratos que o mártir sofreu na execução. Aqui, a flor é um ideal, uma meta, a qual pareceu ser frustrada mas que, depois, ressurgiu vitoriosa. O semblante triste a abatido do mártir traz o tom dramático, de uma pessoa que, como Jesus na cruz, morreu absolutamente frustrada, desamparada e desnorteada. Na mesma coragem que Tiradentes teve para desafiar o Império, o artista tem que ter a coragem de produzir o melhor de si, do contrário, não se torna um grande artista. O aspecto metálico dessa obra é a dureza com a qual o mártir se deparou, numa dureza fria e cruel, na vicissitude que ceifou a vida de um homem. A base desta escultura é o argumento que Tiradentes fazia, contundente o bastante para irritar os poderosos, do mesmo modo como Jesus fazia críticas contundentes aos poderosos de sua época. Tiradentes não foi covardemente assassinado em uma emboscada, mas oficialmente processado e executado. Tempos depois, o Povo Brasileiro se deu conta da importância do mártir, pois, como já ouvi dizer, a Verdade é a filha do Tempo, ou seja, o Tempo coloca tudo em seu devido lugar. O pé de flor é o modo como a palavra de Tiradentes germinou após sua morte, anunciando, de forma muito prematura, os ventos de renovação que a República traria ao país. Visionário, Tiradentes é obra de outro visionário – Vasco Prado. E a Arte tem que ser assim: visionária. Do contrário, torna-se previsível e entediante. Esta flor metálica é a Vida em sua fragilidade, assim como a grande flor metálica em Buenos Aires, que relembra a Guerra das Malvinas – sangue sendo derramado. Esta é uma obra que tem que ser observada à distância, pois tem pontas cortantes, como em mãos e pés pregados numa cruz.