quarta-feira, 11 de julho de 2018

A Fera Fernando



AVISO: Antes de ler esta postagem, saiba que a próxima postagem, ao invés de acontecer na quarta-feira, acontecerá na sexta-feira seguinte. Depois disso, o blog normaliza e as postagens seguem sendo publicadas nas quartas-feiras. Boa leitura!

O portoalegrense Fernando Baril, o qual pertence à geração de meus pais, é um artista hiperprodutivo, produzindo cerca de trinta quadros por mês. Tenho a lembrança de ter visto o majestoso quadro Meus Jesuses certa vez na Casa de Cultura Mário Quintana, de Porto Alegre. Neste momento, Baril está tendo uma retrospectiva no Museu de Arte do RS. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Amarras I. Há compartimentos, do modo como a Vida em Sociedade é toda compartimentada em horas, dias, anos etc. Remete ao clipe Human Nature de Madonna, em que compartimentos claustrofóbicos oprimem o indivíduo, oprimindo características naturais como a Sexualidade. É como em Matrix, em que o indivíduo já nasce prisioneiro de um sistema, de um estado totalitário, em que a Liberdade é vista como uma ameaça, uma subversão – é por isso o título Amarras, como numa sessão sadomasoquista, em que o sádico tem que ter o controle a qualquer custo, com a submissão de um masoquista, que se submete a tal degradação, num vínculo conciso: um precisa do outro para ser feliz. Há grades como prisões, do modo como os submundos são prisões, quaisquer submundos, que são realidade paralelas, sem conexão clara com o Mundo em geral, gerando subvalores e conceitos que, fora da “gaiola”, nada significam na prática, no modo como nossos pais nos colocaram no Mundo para o Mundo, e não para um submundo, um mundinho em que os prisioneiros sofrem com uma apatia enorme – é o oposto da Felicidade, da Realização, do Realismo, dos pés no chão, no modo como muitas pessoas mergulham no Submundo e deste jamais saem, pois sair do Submundo é um desafio que requer um esforço enorme do indivíduo. Aqui, há vários rostos femininos, no modo como a sexualidade da Mulher é tolhida pelo Patriarcado, que é uma estrutura universal, em que Adão, ou seja, o Homem Primordial, rege o Mundo, havendo na Mulher um elemento que atrapalha o bom funcionamento da Vida em Sociedade. É uma misoginia sem fim. Vemos um bebê recém nascido, e podemos ouvir o choro dele, no trauma que é vir ao Mundo, saindo do acalento delicioso do útero, num indivíduo que já nasce um escravo, já nasce sem ser dono de si, obrigado a funções sociais, tudo goela abaixo, no ancestral modo humano de agir: Imponha regras; se estas não são obedecidas, force. É o egoísmo humano: “se eu estou bem, o resto que se ferre”. É um quadro sombrio, como nas celas escuras do filme Ilha do Medo, num artista buscando na Arte uma oportunidade catártica, um desabafo, uma autolimpeza espiritual, no poder terapêutico da Vida Cultural. Bem abaixo no quadro, uma forma que parece ser uma Lua Cheia, numa visão de beleza, muito longe da Escravidão, na estupidez de arrancar seres humanos da África e forçá-los a trabalhar, sob ameaça de Morte sobre estes. Este é o modo humano de agir: forçando. Esta lua é pura como uma hóstia, trazendo um pinguinho de esperança a um quadro tão fechado e opressor, no modo como os artistas brasileiros sofreram no Regime Militar, e Baril pertence a esta geração, a qual testemunhou de perto o que é ouvir um “cale-se”, o qual é frustrante para o cidadão artista. Acima no quadro, um recipiente de doação de sangue, mas ele está vazio, pobre, carente, precisando de boas almas, ou como num sistema opressor, que simplesmente suga o sangue de seu cidadão, como num país fechado, doente, com cidadãos miseráveis, o que o Taoismo chama de “guia torto”. Temos um Baril com a coragem de catarsear um sentimento sombrio, no modo como ser artista é botar a cara a tapa, esperando ser compreendido e respeitado. São como compartimentos de uma colmeia, num sistema em que cada indivíduo tem um propósito, um trabalho. É um quadro que mostra a vontade de libertar o Feminino, rechaçando um Patriarcado que, no século XXI, dá sinais de enfraquecimento, pois tudo é processo, e a Humanidade está em pleno processo de depuração. Ao lado direito da “hóstia”, um belo corpo de mulher, num biquíni sumário, no modo como a sensual mulher brasileira dá um jeitinho para fugir da opressão patriarcal.


Acima, Amarras II. A armadura é a blindagem psíquica, na necessidade do indivíduo saber dizer “não”, obtendo o controle sobre a própria vida. A armadura é a alma de guerreiro de um artista, num Baril que atua há décadas, conquistando o respeito do público. É a garra, a força, a vontade de vencer, tendo a força para virar as páginas e tocar a Vida para frente, sempre, pois a página, seja doce ou amarga, sempre tem que ser virada. É a proteção das eventuais flechas que podem querer atingir a pessoa, como críticas infundadas ou como subestima, na luta que faz um artista ao querer ser reconhecido. É o lado Yang da Vida. O fundo cor de rosa traz uma certa feminilidade, como na cor de um bordel, ambiente que “cheira” a sexo, na sensação de virilidade que toma o homem que vai para o puteiro. Ao lado da armadura, uma mulher toda fragmentada, analisada, seccionada em partes para que a mulher seja compreendida pelo Yang. A mulher está quase nua, com sutiã, com seios cônicos que mostram o auge de uma beleza. Mais abaixo, uma vulva desprotegida, como uma indefesa princesinha, a qual precisa ser salva pela fálica lança de São Jorge, matando o dragão da animalidade e purificando o Feminino, na vitória da Sabedoria sobre a Malícia. A cabeça da mulher tem vários buracos, como numa estrada irregular cheia de crateras, na provação que são os caminhos tortuosos da Existência, numa estrada cheia de curvas imprevistas, na aventura que é a Vida, na aventura que é a construção de uma carreira. A mulher sorri suavemente, com um sensual batom rubro, e está careca, como um feto, numa porção do ser humano, porção esta que nunca deixa de ser criança, no modo como é necessário que indivíduo mantenha-se sempre jovial, e nunca muito rançoso. Ao lado da mulher, uma rosa, o presente clássico do Dia das Mães, no reconhecimento da Feminilidade como co-construtora do Mundo, ao lado dos padrões patriarcais, numa união de forças: a mulher cuida da casa e o homem sai para trabalhar, numa sociedade, numa simbiose, no modo como cada artista tem que conciliar dentro de si seus próprios Yin e Yang, sempre atento para não projetar em outrem coisas deste mesmo artista. Logo atrás, terno e gravata, no traje oficial de um homem trabalhando, assumindo inúmeras responsabilidades, gerenciando negócio, o podemos ouvir tocando o telefone do escritório, nas responsabilidades de um homem adulto, que precisa sustentar uma esposa e filhos, numa angústia mínima: Será que vou ganhar dinheiro para sustentar os meus? Coroando o terno, vemos uma forma misteriosa, parecendo ser uma coroa com uma cruz na frente, talvez a Coroa Papal, na autoridade de uma elite sobre todo um sistema, numa hierarquia: padres, bispos, arcebispos, cardeais e Papa, na inevitável hierarquialização do Mundo. É o Direito Divino de um monarca, sendo o faraó um representante de Tao na Terra, mas num faraó que, na real, nunca será Tao de fato. São as ritualizações humanas. Mais ao fundo, duas cabeças também carecas, e a Calvície é o Realismo, a falta de construção de ilusões, na necessidade de um artista em se manter o mais real possível, rechaçando ao máximo quaisquer submundos dantescos. As sobrancelhas delineadas são a disciplina de uma pinça, no trabalho constante de um artista que trabalha consideravelmente, calando a boca daqueles que acham que os artistas são vagabundos imprestáveis. Mais ao fundo, há uma bela moldura torneada, a qual é a imposição de limites, no modo como é sábio um homem que sabe até onde pode ir, obtendo Humildade. Acima da moldura, um cabideiro, sustentando peças, organizando uma cena e dando ao artista um sentimento de organização existencial, na qual tudo está em seu lugar, exalando Paz, pois feliz é aquele que não declara Guerra contra si mesmo. A armadura e a mulher formam um belo casal, sendo faces da mesma moeda, numa cena que parece ser um casamento pós-moderno, revolucionário e, ainda assim, respeitando a Tradição, como dizia Osho: o bom rebelde sempre respeita a Tradição.


Acima, Cachorro. É uma cena de confinamento, do modo como a Carne é a prisão do Espírito, num Baril catarseando o sentimento de reclusão. O cão é o guardião do Lar, mas aqui está acorrentado, purgando dias e noites de aprisionamento. A etiqueta à esquerda, com o nome do artista, é a identidade, a identificação com algo, com algum grupo, num Baril respeitado pelos outros artistas plásticos de Porto Alegre. É como o código numérico no pingente de um soldado, ou no código de nossas carteiras de identidade, ou uma tatuagem numérica, identificando prisioneiros num campo de concentração, no sentido da Igualdade, no qual cada um de nós tem um número, e ninguém é melhor ou pior do que ninguém, como anônimos espermatozoides, competindo pelo mesmo óvulo. É a competitividade da Vida em Sociedade. O fundo do quadro, com pintinhas, é como um formigueiro cheio de formigas, sendo umas iguais às outras, trabalhando em conjunto em prol do formigueiro, em prol da grandeza da Vida em Sociedade. A partir desse número identificador, cada indivíduo precisa desenvolver sua própria identidade, sua própria diferenciação, e é da Igualdade que nasce a Diferença, numa contradição muito irônica. São as pintinhas de um dálmata, na concorrência entre cães de raça e viralatas, numa sociedade estratificada, piramidal, com uma aristocracia ao topo, num indivíduo que nasce escravo de um sistema opressor. As pintinhas são como uma chuva de piche, que suja ao invés de lavar, na sujeira inevitável da Dimensão Física. A caixinha aprisiona o pobre bicho, que tem que se contentar com migalhas, alimentando a Fé e a Esperança de que, após o Desencarne, existe uma vida consideravelmente melhor, sem desemprego e sem dor. A caixinha faz alusão à gíria “ficar na casinha”, a qual significa que cada um tem que viver sua vida sem incomodar os outros. O “sair da casinha” é o indivíduo que se excede e perde o foco da Vida em Sociedade, tornando-se uma pessoa marginalizada. A corrente é o elo entre as pessoas, num engajamento de rede, no qual há uma comunhão, uma vida em comum, no modo como a Unidade organiza o Universo: Todos são filhos do mesmo útero, e, ainda assim, cada um tem que ser ele mesmo, no processo de identidade no qual cada indivíduo tem que ser autodidata. Aqui, o cachorro tem um olhar esperançoso, de quem tem a fé de que um dia será libertado, podendo viver a Vida em plenitude, sem tantas correntes, sem tanto confinamento, sem tanta sensação de despertencimento, pois, na Dimensão Metafísica, o sentimento de pertencimento é supremo, constante e inabalável. Acima e abaixo da caixinha confinadora, fios que parecem ser elétricos, negros, agourentos, prendendo as percepções de um cidadão escravizado por um sistema. São cobras malévolas que enforcam e matam; são o curso de um rio altamente sinuoso e traiçoeiro; são minhocas sob a terra, fadadas a servir de alimento a um pássaro, a um sistema; são o oposto da Liberdade, construindo falácias ideológicas, no modo como o Ser Humano tem um talento para produzir ditaduras; são dutos intestinais da mente artística, sempre observando o Mundo de forma singular, na percepção pessoal de cada artista, havendo na Arte um canal para que uma mente se expresse sem imitar outrem. O intestino vai processando o cidadão, até eliminar este, num sistema em que a pessoa é uma mera bateria alcalina, desprezada depois de não mais servir ao sistema, numa metáfora da Psicopatia: quando o sangue da jugular seca, o vampiro parte em busca de outro pescoço. Temos um Baril que mostra o poder libertador da Arte, a qual deve ser acompanhada pela Liberdade de Expressão, pois, do contrário, não é Arte, mas uma propaganda comunista.


Acima, Jesus Cristo Cruzado com o Deus Shiva. Baril entende que o Ser Humano é universal, e nisso se incluem as religiões, pois é humano refletir sobre o Material e o Imaterial, do modo como o Monte Olimpo, para o grego antigo, significava um mundo metafísico, espiritual. É engraçado como os deuses hindus se parecem com aranhas, com várias patas, e cada braço é um atributo, mostrando deuses repletos de atributos, deuses estes que servem de referência espiritual ao indivíduo fiel. Jesus na Cruz é a imagem da humilhação, da danação, da dor, num homem que trouxe uma mensagem muito importante ao Ser Humano. Aqui, os braços superiores se ramificam como árvores, na semelhança entre o formato de vasos sanguíneos e de galhos vegetais, na força da Natureza, como poderosos raios e trovões, identificados como a divindade nórdica Thor, pois o Ser Humano busca explicações para o mundo no qual encarnou, e as religiões são essa tentativa cognitiva, no modo como a vastidão imensurável do Universo tem que, no frigir do ovos, ser atribuída a um Ser Supremo, a uma Inteligência Maior, e a crença em Deus, em Tao, é tudo o que resta ao Homem, pois não existe livro dizendo quem ou o que é Deus, no poder do Infinito, enorme demais para caber na cabeça finita do Homem. A Coroa de Espinhos é o peso de uma responsabilidade, no peso sobre a cabeça que reina, na majestade de ordem divina. Os vários braços nesta cena estão desmembrados, decepados, como num açougue. Uma mão segura um peixe, na Mãe Primordial que é o Oceano, e podemos ouvir o barulho de ondas arrebentando, no odor sedutor do Mar, a Casa Primordial de Tolkien, chamando seus filhos para o inevitável (e maravilhoso) retorno, na Lei do Eterno Retorno; outra mão segura um cachorro quente, símbolo da comida contemporânea, da Vida na Cidade, do modo como a fastfood é divinizada pela Cultura de Massa; outras mãos são robóticas, como máquinas, no modo como o Pensamento Racional faz metáfora com a Tecnologia Digital, na evolução técnica do espírito, e estas mãos sangram, como se fossem um robô humano, uma máquina com sentimentos, no modo como a paixão faz sofrer, numa cena de tanto sofrimento como a Crucificação; outras mãos usam luvas de boxe, na batalha diária de um artista em busca de si mesmo, em busca de ser compreendido pelo Mundo, pois a Vida é luta. No topo da Cruz, uma inscrição – será que em Hebraico? A data, do ano de 1996, traz aqui um microcomputador que, na época, era o chuá da Tecnologia, fazendo metáfora com o pensamento racional, que é necessário para abrandar sofrimento, na questão da mortificação espiritual, sendo esta exaltada pelo Espiritismo, sendo a mortificação, a morte das tolas ilusões, absolutamente capital no progresso existencial. Este Jesus calça um par de tênis, informal, jovial, despretensioso, na simplicidade das grandes mentes, das grandes pessoas, como numa Eva Sopher, certamente uma das pessoas mais respeitadas da História de Porto Alegre, com o famoso molho de chaves da guardiã do Theatro São Pedro, como chaves de um tesouro inestimável. Aqui, um portarretrato com Marilyn Monroe, figura tão constante na Pop Art, movimento que exaltou a Cultura de Massa do Século XX, como vemos também aqui uma lata de sopa tomate e uma garrafa de Coca-Cola, na inevitável industrialização global, numa ironia: vender uma obra de Arte que retrata bens de consumo. Esta Marylin fuma, no poder sedutor do tabaco, o qual prosperou em épocas em que ainda era permitida a plena propaganda da Indústria Tabagista. Vemos também uma pistola reservada, desativada, numa reserva de defesa, na necessidade do indivíduo desenvolver um tanto de Agressividade, num mundo competitivo, onde um indivíduo quer brilhar mais do que o outro. Também vemos um ratinho albino, significando a pureza com a qual um artista concebe algo, sem malícias, sem ambições, mas com zelo e propósito. O fundo do quadro é o Céu, é claro, na morada tão falada pela boca de Jesus, num conceito desenvolvido posteriormente pelo Espiritismo.


Acima, O Halterofilista. O modo como a Sociedade cobra do Homem o pleno desenvolvimento de agressividade, como no herói Hulk, que é 100% agressividade, sequer com uma pontinha de charme ou cavalheirismo, mas uma força bruta da Natureza, destrutiva como um vulcão ou uma tempestade. O halterofilista se esforça para desenvolver a musculatura o máximo possível, nunca contente, sempre querendo ter mais e mais músculos, no modo como a pessoa extremamente atlética tem que cuidar para não se tornar uma pessoa desinteressante, para não se tornar uma pessoa obtusa, que só sabe falar de atividade física, como vi num filme de Woody Allen, em que um casal se diz feliz por ambos serem vazios e nada terem de interessante para pensar ou falar. A beleza do corpo humano é ancestral, muito antiga, no modo do Ser Humano observar a obra de Deus, no modo como Deus concebeu Adão atlético, sem uma gota de gordura no corpo, como nos corpulentos homens de Aldo Locatelli, que são homenzarrões vigorosos, entalhados na dureza do dia a dia. Atrás do atleta, um alvo, na formação de um objetivo, que é vencer um concurso de Halterofilismo, superando todos os concorrentes, na versão masculina de um concurso de beleza feminino: o Homem tem que ser agressivo e a Mulher tem que ser vaidosa, no modo como o Ser Humano é um animal ritualístico, sempre tentando entender os mistérios universais. Aqui, o halterofilista tem um pênis desproporcional, como o de Adão na pintura célebre de Michelangelo, talvez um homem que tenha decidido ser musculoso por ter um complexo de pênis diminuto. Aos pés do alvo, um portaflechas, cheio de objetos pontiagudos e abrasivos, como pirâmides que representavam o temido poder do Egito Antigo. As flechas são a reserva bélica, à disposição para qualquer possibilidade de atrito, do modo como os republicanos nos EUA pregam o lobby das armas e acreditam que todo cidadão deva caminhar na rua armado. A questão do megamacho, do macho alfa, é expressada no corpo musculoso, como He-Man, o homem mais poderoso do Universo, no modo como Trump se sente o machão alfa. Mas essa polarização tem um oposto, que é a superfeminilidade, expressada nos sapatos femininos de salto alto que o halterofilista aqui usa. É uma latência, num indivíduo que pode ser muito macho e, ainda assim, feminino, nas inevitáveis contradições entre as forças opostas que regem o Universo, no discernimento taoista: se digo que algo é belo, é porque conheço o oposto, que é feio, no modo como o liso e o áspero são faces do mesmo trabalho – nada de errado em encarar dificuldades. Aqui, os pés do atleta estão pregados com pregos longos, como os pés de Jesus crucificado, no modo como um atleta tão desenvolvido sofre diariamente na luta por um corpão, como já ouvi na televisão: vida de halterofilista é sofrimento! A pessoa com corpão paga um preço tão alto por tal condicionamento físico, que esta mesma pessoa faz questão de se desnudar em público e mostrar o resultado de seu empenho e de seu sacrifício. Na cabeça deste atleta, uma explosão de elementos gráficos, como um garfo, uma câmera filmadora e óculos escuros, elementos do dia a dia que Baril traz como parte inevitável da Vida Contemporânea. O rosto do atleta está quase todo encoberto, como se tivesse vergonha de ser alguém sem vida intelectual. Este homem é prisioneiro do próprio corpo, numa cena um tanto sadomasoquista, num Baril que catarseia um sentimento de aprisionamento. O corpo cruza o quadro de ponta a ponta, como uma cidade pulsante e desenvolvida, num Arnold Schwarzenegger fisiculturista que brincou ao dizer que ele mesmo era o navio de Titanic, como o homem musculoso que leva o Mundo nas costas.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Não é Presente de Grego



O grego Doménikos Theotokópoulos, conhecido como “El Greco”, recebeu este nome artístico latino por ter construído grande parte de sua carreira na Espanha. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, São Martin e o Mendigo. O ato de Caridade revela uma hierarquia, numa contradição, pois o que era para ser um ato de Fraternidade e Igualdade, transforma-se numa diferenciação, na qual o ofertante é nobre e o mendigo é pobre. O santo está com ares de pura aristocracia, e veste uma armadura, repelindo flechas, sendo agressivo num campo de batalha, campo no qual o mendigo, desprotegido, facilmente morreria. Martin tem uma gola elizabetana, conotando autoridade de realeza, sendo o monarca um representante de Deus na Terra, numa hierarquia rígida e dura, amedrontando os que não se curvam perante esta, numa espécie de ditadura, a qual oprime o próprio cidadão. O cavalo branco é nobre e altivo, digno de príncipe, e tem um olhar triste e domesticado, domado, do modo como a Mente tem que domar os instintos animais do Ser Humano. O cavalo está comportado e comedido, sob total controle, no modo como o Ser Humano sempre quis ser a espécie dominante no planeta. Uma das patas do cavalo está levantada, e vemos um movimento de cavalgar, no modo como o cavalo se tornou símbolo de riqueza, poder e aristocracia, nos pulos olímpicos dos cavalos, superando barreiras, fazendo metáfora com a elegância olímpica com a qual o Ser Humano é convidado a vencer obstáculos e progredir no plano existencial, almejando crescimento espiritual, evoluindo sempre, no sentido da Existência: Crescimento e Depuração, no sentido de que nenhuma vida é em vão, como me disse uma médium: Não podemos nos “atirar nas cordas” e fugir da luta, como diz o Hino Nacional Brasileiro. É a exigência do Yang, que exige força do indivíduo, numa eterna luta de superação, na luta que é a Vida. Aqui, o mendigo está rendido, enfraquecido, dependente da esmola, num ciclo vicioso: Está na Rua porque pede uns trocados; pede uns trocados porque está na Rua. O objetivo da Caridade é dar uma ajuda temporária até que a pessoa adquira independência. Aqui, este príncipe montado oferta um fino manto, talvez de veludo, num mendigo que está como veio ao Mundo, no fato de que cerca de um bilhão de seres humanos vivem, hoje, na Miséria. O príncipe tem um olhar caridoso e carinhoso, num ato de amor de irmão para irmão, como me lembro de um homem, em um dia de gelado inverno caxiense, este homem andando de bermuda e chinelos – se eu estivesse com um casaco nas mãos, certamente eu o daria para o homem. O cavalo branco é a pureza das intenções; é a Virtude, valor propagado pelo Taoismo, o qual é a busca pelo Metafísico, pelo Pensamento, pelo Mental. O problema da esmola é que, horas depois de comer um pão dado, o mendigo estará novamente com fome, numa alta dependência. O manto do veludo flui como água, numa textura bela, no líquido uterino primordial que gerou a todos nós, e todos somos crianças da mesma Casa, o Lar Primordial onde reina a Igualdade e, ao mesmo tempo, a necessidade de cada um ser do próprio jeito. O príncipe segura uma fina espada agressiva, a qual é um aviso: Estou ajudando você, mas não chegue perto demais, pois, se você me desrespeitar, vai levar chumbo, no sentido de que uma nação pacífica vai à Guerra se a mesma nação for provocada por um vizinho. O príncipe e o mendigo têm traços semelhantes, como se fossem irmãos separados em algum momento anterior.  Os céus ao fundo são a promessa da Morada Eterna, e a Caridade é um símbolo do Divino na Terra, no modo como o indivíduo tem que viver sem expectativas, pois quem tem expectativa, frustra-se. Ao fundo, uma vila, talvez um reino, uma cópia grotesca do Reino Metafísico. O reino de pedra é o organismo social no qual cada pessoa tem que ter uma função clara, do modo como um artista tem que encontrar sua própria missão. Aqui, temos um contraste entre nu e vestimenta, expondo os abismos sociais do Mundo. O mendigo nu é a Simplicidade da Nudez, no modo confortável em que viemos ao Mundo, sendo as vestimentas ilusões, pois todos somos nus, sem exceção. Portanto, as classes sociais são ilusórias. E é dessa Igualdade que nasce o desejo de fazer o Bem.


Acima, Dama em um Casaco de Pele. É um olhar de Monalisa, talvez num El Greco querendo ser da Vinci. Os olhos são negros como o fundo do quadro, talvez o retrato de uma aristocrata, rica o bastante para encomendar um quadro. A pele de animal conota riqueza, pois não são vestes de uma mulher do Povo, da classe social inferior. Ela ainda ostenta dois anéis, no luxo das joias, entrando em choque com uma inteligência de Coco Chanel, a revolucionária, que estabeleceu que bijuterias cumprem bem a missão de adornar, pois, para CC, o que importa é o efeito, não importando se a beleza vem da riqueza ou da pobreza, numa Chanel de uma atitude de arrebatar o Mundo. Um delicado véu transparente cobre a dama, e o quadro nos convida a apalpar, acariciar e sentir a suavidade da pele e do véu, numa sensação reconfortante, no fascínio dos tecidos finos e requintados, que dão prazer ao toque, no mesmo prazer de um El Greco produzindo. O véu deixa transparecer discretamente um colar numa mulher que se arrumou toda para ser retratada, na questão da autoestima, na necessidade da pessoa, antes de amar os outros, ter que amar a si mesma. É uma mulher jovem, talvez nem com trinta anos de idade, e suas sobrancelhas estão devidamente delineadas e depiladas, como as de um Cristiano Ronaldo. Aqui, não vemos indícios gritantes de maquiagem, talvez num contexto social em que maquiagem era coisa de mulheres vulgares, de ou prostitutas. Seus cílios são discretos, a milênios luz de distância da moda dos cílios postiços. A manga que envolve a mão é de um bordado requintado, e a dama aqui está digna para um dia de festa, ou para um jantar muito fino, com pratos requintados à mesa. Sua pele é extremamente alva, como os alvos pés de Maria esmagando a Serpente da Malícia, numa imagem arrebatadora, cheia de metáfora. Sua cútis é alva como o casaco de pele, e os pêlos da vestimenta remetem a uma noite de Lua Cheia, numa loba uivando por uma floresta escura, na magia lunar, cuja magia é aqui representada pela dama, como no estonteante quadro de Pedro Américo, no qual a Noite é uma mulher com aspecto de deusa. Aqui, vemos uma boca formosa, digna da mais fina escultura grega, e suas bochechas estão coradas, pois não é uma palidez doente, mas uma palidez recatada, querendo ser pura como leite. Seus dedos são bem delicados, ameaçando quebrar a qualquer momento, na força que existe na fragilidade, na sedução de uma mulher que inspira ser salva de um maligno vilão de Disney, no vínculo erótico entre guardacostas e protegida. Seu cabelo é bem negro, assim como o fundo da cena. Por que será que El Greco optou por um fundo tão negro, como numa noite encoberta de Lua Nova? A escuridão faz parte da sedução aqui, como num aconchegante quarto escuro com uma confortável cama, convidando-nos a deitar e a esquecer do Mundo lá fora. Esta dama faz este convite, no modo como, dentro de si, o Yin tem que reinar, deixando o Yang para o Mundo lá fora. Há sequer um fiozinho de cabelo branco, simbolizando juventude, e já ouvi dizer: No Homem, cabelo branco é sabedoria; na mulher, desleixo! Na Inglaterra, o cabelo é importante, pois pintar o cabelo é coisa de mulheres do Povo, e mulheres da Aristocracia não pintam o cabelo, tendo em Diana uma bela transgressora, amadíssima pelo Povo e pelo Mundo. E os olhos negros da dama são profundos, num poço sem fundo, num abismo que se abre para o Nada, como na toca de Laracna de Tolkien, num domínio em que a dama é total e absoluta regente, desafiando homens a desbravá-la, a iluminar a aranha e extinguir mistérios desta, iluminando o Yin com a luz do Yang. Esta dama é um pedestal, uma forte coluna, e não sabemos direito para onde ela olha – se é para o espectador ou se é para além deste. É a magia de uma mulher arrumada.


Acima, Cristo Curando o Cego. Ironicamente, pouco antes de escrever aqui, li uma passagem do Evangelho na qual Jesus curou um leproso, numa divindade atribuída, capaz de curar qualquer doente, no modo como a Arte tem a capacidade de curar mentes. Neste quadro, temos uma perspectiva renascentista, arquitetônica, no resgate da Cultura Pagã Ocidental, mesclando o Clássico com o Cristão. Parecemos estar numa cidade italiana, talvez Florença, num lugar onde era atroz a concorrência entre artistas, querendo um ser mais célebre do que o outro, como algum rival tentou enquadrar da Vinci como homossexual, numa época em que ser gay era crime, mas nada fora provado. A inevitável concorrência está no Ser Humano e na Natureza. Vemos vestes vaporosas, finas e coloridas, num grego que, ironicamente, traz aqui a Arquitetura Grega, em arcos sensuais, vazios, que permitem a passagem da brisa e do ar, ventilando e nutrindo os seres com oxigênio, na obsessão de MC Escher por arcos. O chão é quadriculado, como num tabuleiro de Xadrez, num jogo em que um tenta devorar a inteligência do outro, num El Greco competindo consigo mesmo, e, aqui, as pessoas são peças num mesmo jogo, na cena social, na Vida Social, na qual cada integrante tem seu papel, sua particularidade e sua importância, havendo muita hierarquia: o que realmente importa é o Rei; o que menos importa é o Peão, na hierarquia da Vida Social piramidal, do modo como o Espiritismo afirma: há uma hierarquia forte entre os espíritos, mas uma hierarquia baseada em Amor, e não em Força, sendo a hierarquia espírita irresistível, pois não visa Poder; visa o Bem. O céu revela formas de mármore, na eterna fluidez da Natureza, num riacho sempre correndo, sempre nutrindo. É uma cena social, em que cada um faz o que quer e tem o seu papel. Aqui, Jesus não está exatamente no centro da cena. É uma cena assimétrica, com um objetivo nebuloso, e não podemos saber em torno do que a cena gira. Jesus cura o cego em um ato de Amor, de Irmandade. As pessoas em volto assistem a cena e fazem comentários, talvez contestando da divindade do Mestre, num Jesus que começara a ficar famoso e a atrair multidões, no poder carismático que só os grande megastars podem ter, numa época em que o stablishment das celebridades ainda não havia se estabelecido. O Ser Humano chega a um ponto em que é necessário acreditar em uma Inteligência Suprema, na vastidão do Universo, nos mistérios do Tempo: O que nos antecedeu e o que nos sucederá? Como é possível Deus sempre ter existido e como é possível que sempre existirá? É o enigma da Eternidade, a qual é grande demais para ser compreendida pela tosca Mente Mundana, a qual gira em torno da Matéria e nunca em torno do Pensamento. É um desafio científico enorme: O que faz um homem curar outro homem, usando na cura um simples toque e uma simples palavra? Aqui, Jesus tem um olhar atencioso, debruçando-se completamente sobre o problema do irmão, assim como dizem que o célebre médium Chico Xavier tinha uma energia arrebatadora, capaz de emocionar quem se aproximasse deste médium, como na atriz Glória Menezes, que se emocionou com a simples presença do mestre espírita, pois o Ser Humano é universal, e Jesus é universal. Temos aqui um Jesus humilde e discreto, desatento a teorias conspiratórias que acabariam por crucificá-lo. Aqui, as pessoas observam a cena de cura, e muitos veem Jesus como um feiticeiro mal intencionado, um Jesus representante do Diabo, inspirando assim a execução na Cruz. É um dia claro de Sol, e claras são as intenções de Jesus, colocando-se a serviço do Mundo, curando e libertando este, pois tudo o que importa é Saúde. Jesus se revela saudável, e sua mão cura quem tem agonia, como um bom psicoterapeuta, que expõe com clareza os fatos ao paciente. E Jesus foi uma espécie de médico, mas num Jesus que nunca ambicionou glórias e riquezas mundanas, no caminho da Humildade, a qual é necessária para o aprendizado existencial, pois o arrogante nada aprende, nada cresce.


Acima, Laocoonte. As serpentes são agressivas, más, traiçoeiras. Elas atacam impiedosamente os homens, numa visão do Umbral, a dimensão de sofrimento aludida pelo Espiritismo. Os corpos aqui são monumentais, esculturais, e a nudez faz metáfora com a exposição do Ser Humano aos apelos umbralinos da Malícia e da Ganância – o Homem é escravo do próprio Homem, e cada um coloca-se por si no Umbral, no conceito do Livre Arbítrio, pois o espírito vai para onde desejar ir. As rochas aqui são duras, áridas, escuras e cortantes, numa cena sem consolo ou reconforto, mas num lugar onde há só sofrimento: são nossos irmãos, que sofrem; não são monstros ou demônios, pois demônios não existem. O céu está um tanto encoberto, sem a beleza de um Céu de Brigadeiro, sem raios de Sol capazes de acalentar e nutrir com energia. Aqui, a Serpente do Éden reina absoluta, açoitando almas de pouco apuro moral, pois este é o objetivo da Existência – os toscos, que têm pouco apuro, ficam no Umbral. Quase ao centro do quadro, um cavalo marrom, que é a Liberdade, a Independência, e este cavalo, com sua elegância olímpica, está livre do açoitamento infernal, cavalgando livre em escolhas felizes, sem o sofrimento do Umbral. O cavalo é um espírito avançado que está no Umbral para tentar salvar seus irmãos, estendo a mão a estes, só que, quem não quer ser ajudado, ajudado não é, na prostração depressiva, na qual o indivíduo não dá sinais de luta, de esforço ou superação, nem ao mesmo mostra o mínimo desejo de estar bem, como espíritos miseráveis que têm pena de si mesmos. Ao fundo no quadro, uma cidade, que é o Reino dos Céus, mas um reino inacessível aos imorais, aos ladrões, aos mentirosos, aos sociopatas ardilosos. Este reino é uma promessa distante, muito distante, destoando completamente da dor do Umbral: há um fundo infinito abismo separando o Céu do Inferno, e o indivíduo tem que escolher para qual lado vai. Os três homens mais à esquerda estão em agonia, machucados e doloridos, lutando contra si mesmos, rangendo os dentes de raiva, sem muito espaço para o Amor em seus corações, pois quem não se ama, não ama o Mundo. Esta cidade no quadro tem rica e graciosa arquitetura, sendo esta concebida por espíritos depurados, finos, boa gente – é a dimensão da Felicidade, do Labor e do Prazer. Por outro lado, as serpentes malévolas em um terreno tão pobre e árido, tomam conta da dramaticidade da cena. Estes animais são famintos, e nunca estão satisfeitos, como uma pessoa ambiciosa, que nunca está completamente saciada – se o que você tem, você acha que não é o suficiente, então você nunca terá o suficiente e, consequentemente, não terá Paz, pois a Ambição é a mãe da Guerra, e esta não é obra de Deus, mas obra do Homem. Na extrema direita da cena, vemos três formas humanas em pé, discretas, retiradas na cena, numa elegância comedida. São os espíritos livres, apaziguados, tranquilos, e não estão sofrendo; estão ali para tentar resgatar seus irmãos do Umbral, como certa vez tive um sonho:

Eu estava machucado, esfolado e sangrando, e eu estava jogado numa poça de lama. Então apareceu para mim uma moça muito bonita e simpática, chamada Júlia, e ela tinha cabelos lisos e negros, na altura dos ombros. Ela me estendeu e mão e me retirou da poça, e então me levou para um círculo de pessoas que conversavam sentadas. Uma dessas pessoas pegou um equipamento que parecia ser um celular, e deste saiu um fluído quentinho e reconfortante, com cheiro de remédio, e este fluído lavou a lama que estava impregnada em mim. Eu fui ajudado por uma irmã benévola.

Neste quadro de El Greco, os espíritos livres encaram a cena com serenidade, nunca se desesperando, pois o desespero traz sofrimento. Estes espíritos estão esperando pacientemente por uma oportunidade para ajudar os irmãos que sofrem. E temos um pintor que faz maravilhas ao retratar corpos atléticos usando basicamente claro e escuro, na eterna beleza da Nudez na Arte.


Acima, Madona e a Criança com Santa Martina e Santa Agnes. É um quadro insinuando uma certa simetria, mas não uma simetria óbvia, num meio termo. Nossa Senhora joga um olhar zeloso sobre o bebê, numa metáfora que serve para o Ser Humano entender o que é o Divino, o que é a Divina Providência. Ladeada por dois anjos, a Madona deixa estes admirar o menino, no sentido de que as asas são a Liberdade, o Livre Arbítrio, algo radicalmente oposto aos sistemas ditatoriais, os quais oprimem o cidadão, retirando deste sua Liberdade, pois já ouvi numa canção: Sem Amor, não há Liberdade; sem Liberdade, não há Amor. E não ama aquele que liberta? Não seria a Opressão o oposto do Amor? A Madona veste roupas majestosas e vaporosas, muito finas, dignas de Realeza, sendo coroada Rainha, sem nunca ter de fato reinado na Terra, refutando o Mundano e abraçando o Psíquico. Aos pés da Madona vemos três querubins, os quais são a Fertilidade, a Imaginação. Os querubins são as crianças divinas, as quais somos todos nós, concebidos de forma imaculada, no esforço do Ser Humano em entender o Metafísico. Dos dois lados da cabeça da Madona, vemos nuvens, as quais insinuam formas de cabeças de querubins, na infinita fertilidade da mente produtiva, do modo como Tao está sempre elaborando, no prazer em trabalhar, em produzir, em contribuir para o Mundo. O menino brinca com a sua mãozinha abraçando a mão da Mãe, numa criança que está recém interagindo com o Mundo ao redor, num indivíduo que precisaria de mais de três décadas para crescer, amadurecer e espraiar pelo mundo poderosos pensamentos, poderosos o suficiente para dividir a História em duas. É um quadro que esbanja imaginação e fertilidade. Aos pés da Madona, reverenciando a Mãe Divina, as duas santas, num quadro de identidade mais feminina do que masculina, num bebê que ainda não é homem. É o útero divino da Imaculada Conceição, limpo, perfumado, seguro, confortável, irresistível. A santa da esquerda segura um ramo que parece ser de trigo, na abundância da cornucópia espiritual, sempre alimentando mentes, trazendo fartura ao Mundo, como no milagre da multiplicação dos pães. Esta santa está ao lado de uma cabeça de leão, que é a liderança divina de Jesus, o qual, de forma humilde, tornou-se um verdadeiro rei entre os Homens, com o título de “Rei dos Reis”. É o Rei Leão regendo a floresta, irradiando majestade como o Sol, nutrindo Mundo com sua luz que guia, no modo como Jesus soube guiar as pessoas (e segue guiando até hoje). Esta santa veste uma cor dourada, no ouro das obras faraônicas, numa tumba de Tutancâmon sendo descoberta, com seus tesouros desenterrados e expostos em museu, no modo como o Ser Humano precisa entender que, no desencarne, nada de material segue o espírito, pois nunca ouvimos falar que “vão-se os anéis e ficam os dedos”? A santa da direita veste vermelho, no sangue divino que corre nas veias de todos nós, como em O Código da Vinci, romance que fala sobre uma linhagem do sangue de Jesus sobre a Terra. Só que pouco importa o sangue material – é o imaterial o verdadeiro sangue. A santa segura um pequeno, manso e frágil cordeiro, o qual é a dedicação ao Divino, num ser “domado”, domesticado e dócil, como um cavaleiro domando seu cavalo, trazendo Paz, placidez. Podemos ouvir os anjos cantando em louvor, e a cena exala um perfume fino e delicioso, numa temperatura agradável, fresquinha.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Dose Cavalar de Arte


O brasileiro Emiliano Augusto Cavalcanti de Paula Albuquerque e Melo, ou simplesmente Di Cavalcanti, foi um tropicalista entusiasta. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus.


Acima, Macumba. A faca com sangue é agressiva, assassina, talvez carneando um animal para este servir de almoço, no modo como o Sexo Masculino é representado por uma lança, um falo agressivo, na obrigação social de um homem se fazer competitivo e agressivo, como espermatozoides concorrendo pelo mesmo óvulo, no universalismo do Patriarcado. Não sabemos quem ou o que a arma feriu; só sabemos que houve alguma injúria, uma agressão, como nos rituais de Umbanda ou Macumba, nos quais animais são sacrificados, servido de oferenda a deuses ou divindades, num Brasil tão marcado pela Cultura Afro, num DC empenhado em representar esse país em suas singularidades culturais. Vemos uma figa, símbolo de boa sorte, numa mão fechada, que bloqueia más vibrações ou más influências, bloqueando espíritos obsessores, rechaçando estes, conferindo Paz à pessoa que se protege, que se ama. Uma grande lança retilínea atravessa a mesa, dando continuidade à agressão da faca, numa religião que fortalece o Yang da pessoa, deixando esta protegida de pessoas que a queira ferir, como na armadura da Mulher Maravilha, na necessidade da pessoa saber dizer “não”, como prega a Psicologia, na ironia de que a MM foi criada por um psicólogo. Vemos um tambor, instrumento essencial a este culto afro, na gíria “batuqueiro”, que designa os adeptos da Umbanda, como em um casamento de familiares meus em Salvador, BA, um país afro à parte! Na festa, entrou uma banda do estilo Olodum, com poderosos tambores contagiantes, deixando sequer um convidado ficar parado, algo muito exótico para mim, que sou gaúcho e estou acostumado a casamentos mais tradicionais. Aliás, na Umbanda, é permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo, pois as religiões afro são cultura de resistência, erguida por escravos e os descendentes destes. Nada mais natural: trata-se de uma religião dedicada aos socialmente desfavorecidos, e nisto se incluem os homossexuais. Sobre a mesa, vemos duas imagens de divindades afro, esculpidas de forma simples, sucinta, clean, dando apenas a estrutura básica da imagem, da divindade. Uma das imagens tem uma grande lança nas mãos; a outra imagem tem no meio das pernas o que parece ser um pênis descomunal. São duas imagens bem masculinas, sem graciosidade feminina, sem os encantos femininos de uma Iemanjá. Neste quadro, há vários elementos agressivos, como uma longa corneta, instrumento que se junta ao tambor para sonorizar as cerimônias religiosas. Atrás das imagens de homens “machões”, uma janela que guia para um dia claro e majestoso, na sensação gloriosa de elevação espiritual que têm os adeptos dessas religiões afros. São ritos que dão uma sensação de descarrego, de descarga de consciência, de catarse, dando ao indivíduo a sensação de desfrutar de um dia tão limpo e aconchegante, como numa gloriosa cidade espiritual, onde a harmonia reina de forma inabalável. As religiões, já me disse uma médium, são caminhos diferentes que levam ao mesmo destino, ou seja, Tao. Este quadro é bem brasileiro, extremamente vibrante e colorido, como é um terreiro de Umbanda, num lugar em que o indivíduo busca se conectar com o divino, com o agradável, com o liquidiscente. Aqui, temos um baile de Carnaval, pois este é pura expressão de Cultura Popular Brasileira, na herança dos tambores africanos, num caldeirão cultural único no Mundo, do modo como o próprio Di Cavalcanti se tornou um ícone de cultura nacional, expressando o seu próprio país de forma tão contundente. Na outra extremidade da figa, um rosto feminino, belo, trazendo um pouco de perfume frente a elementos tão fálicos.


Acima, Mulata com Pássaro. Os mulatos são símbolo da Miscigenação Brasileira, como vi certa vez uma pessoa que era uma mistura de negro com japonês, ao contrário dos EUA, país no qual, normalmente, não há muita Miscigenação. Esta musa está cercada de flores, símbolos de feminilidade, beleza e graciosidade, e podemos ouvir o piar do pássaro que a mulher carrega nas mãos. O pássaro é a Liberdade, a Fauna Brasileira, única no Mundo. O pássaro é carregado com carinho, estando protegido nas mãos de uma mãe zelosa, dedicada. O pássaro está no ninho, num lar, num lugar onde há o forte sentimento de pertencimento. Temos aqui uma Ísis tropical, encantando o Mundo com canções de Tom Jobim, cujas melodias podemos ouvir aqui, no topo da Música Brasileira, da Identidade Nacional. A mulher está nua, coberta somente pela vegetação, como uma índia nua, em harmonia com a Natureza ao redor, como numa Eva no Éden, antes do Pecado, andando com naturalidade nua, sem malícia ou vergonha. O seu pescoço é adornado por um colar com três cordões de pérolas, como nas Três Marias no Cinturão de Órion. As pérolas são ovos, são a fertilidade feminina, como numa mãe generosa, que coloca muitos ovos, aumentando a família, alimentando o Mundo. As pérolas são casulos cheios de Vida, no mistério da Vida: O que esta é? Atrás da musa mulata, arcos brancos, como nos traços de Niemayer em Brasília, no estilo brasileiro de Arquitetura, com traços simples e impactantes, sem exageros visuais, sem arabescos ou frescuras excessivas, no poder da Simplicidade, a qual todo Ser Humano deve aprender em Vida, rechaçando os excessos sujos, pois Tao é limpo. Também vemos bandeirolas dependuradas, como numa colorida e divertida festa junina, e podemos ouvir o som de Música em um dia de festa, as quais são atos de saúde mental coletiva, no poder terapêutico da Arte. As bandeirolas tremulam ao suave vento, como numa cidade de Salvador, com brisa de temperatura amena o ano inteiro. A mulher está se olhando num espelho, sem notar a presença do espectador. O espelho é símbolo de Feminilidade, pois corresponde ao lado belo da Vida, ao lado suave e perfumado da existência, lado este que exige ser protegido pelo Yang, o qual está a serviço do Yin, apesar do Patriarcado ser tão forte no Mundo, desde sempre, nas ancestrais diferenças culturais entre homens e mulheres, ao contrário da Aurora do Século XXI, no qual a Mulher, finalmente, começa a se igualar ao Homem. A mulher e a Flora parecem ser um só ser, numa relação de continuidade. A mulher não sorri, mas também não está triste ou decepcionada, pois está num momento de reflexão, em frente a um espelho existencial, num Brasil querendo adquirir identidade. As flores parecem que brotam da mulata, a qual se torna uma espécie de feiticeira, de fada da floresta, como numa Galadriel de Tolkien, uma feiticeira guardiã de uma terra enigmática e bela. Bem ao fundo, além dos arcos minimalistas, uma paisagem de um Céu de Brigadeiro, num dia glorioso em que o Sol brilha do Oiapoque ao Chuí, unificando uma nação, dando identidade e orgulho, os quais são necessários a qualquer nação. Vemos colinas que se fundem com as formas graciosas eróticas da mulata, na sedução da Mãe Terra, que desafia homens a desbravar terras virgens, como no caso do continental Brasil. Vemos árvores frondosas, na força da Natureza em encontrar meios para a Vida, a qual é uma luta diária. E as pérolas da mulata são estrelas numa farta constelação, desafiando enigmaticamente o Ser Humano a desbravar o Universo por meio da Ciência. As pérolas são ovas de salmão, jogadas n’água com a missão de se desenvolver e prosperar, resultando na luta pela Vida, pela sobrevivência, na necessidade do indivíduo se fazer forte para virar as páginas e tocar a Vida para frente. As flores são a riqueza brasileira, na abundância de espécies tão exóticas, o que fascina a imaginação de países menos tropicais, como a Inglaterra. A mulata parece ser feita de barro ou argila, nas mãos de um artesão, com na lenda em que Zeus animou uma figura de barro e originou desta a Mulher Maravilha, ou como Deus fez Adão do pó. Ser artista é querer entender como Tao opera.


Acima, Natureza Morta. Os peixes estão mortificados, no termo espírita de Mortificação: “Mortifique o Espírito; não o Corpo”. Mortificar-se é abandonar ilusões e viver na Verdade, no Plano da Realidade, sem ilusões materialistas. O peixe morto, aqui, simboliza esse ato de desprendimento, de libertação, pois o espírito mortificado consegue enxergar a Vida com clareza, varrendo dúvidas como se varre um chão sujo. As garrafas transparentes são o vazio de Tao, como uma janela que, vazia, tem a capacidade de mostrar a paisagem ao espectador, como na janela aqui, com vista para uma cidade desenvolvida e limpa. As garrafas transparentes são a Matéria Escura, o enigma do fluido invisível que une o Universo, como a água une os seres aquáticos, como na sensual sopa primordial internética, que une os Seres Humanos, no poder da integração, na família cujo pai/mãe é sempre o(a) mesmo(a): o Deus em mim reconhece o Deus em você. Aqui, as garrafas já cumpriram sua missão, que é fornecer o vinho, o sangue da Vida, sempre cobiçado psicopatas vampiros, parasitas assassinos que permeiam a Vida em Sociedade, como uma praga permeia um vinhedo saudável. Aqui, a janela é Tao, sempre belo em seu vazio, em sua indefinição, em seu mistério: O que é o Nada? Coroando a janela, uma forma simétrica decorativa, na igualdade entre Yin e Yang, ou como no penteado da rainha Elizabeth II, na simetria clássica, como duas épocas separadas por um marco, como foi a passagem de Elizabeth I na História Inglesa. Esta é a ambição do Ser Humano – marcar época, numa fogueira competitiva de vaidades, na inevitável competitividade social, a qual começa desde cedo, já na Escola. Apesar de mortos, os peixes ainda parecem nadar vivos, e seus olhos revelam o instinto por alimentação, como no milagre de Jesus ao multiplicar os peixes nas redes dos pescadores. Os peixes são irmãos de uma mesma família, como na grande família de Tao, o patriarca supremo, mas um patriarca que não tem os preconceitos do Patriarcado. Este não é um quadro extremamente iluminado, e tem um tanto de obscuro, de mistério, da dúvida acerca do que nos espera após o Desencarne: Para onde vou? Ou para onde volto? Os peixes aqui são relativamente coloridos, na festa da Vida, num mar farto, abençoado por Iemanjá, presenteando os pescadores com fartura, como a massas de fiéis na Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, na imagem de uma Virgem Maria cercada de seus filhos, que são os fiéis. É uma imagem de fartura, de cornucópia, como na mesa farta em uma galeteria, na cultura gastronômica de abundância do Imigrante Italiano no RS. Aqui, temos um DC com certas linhas retilíneas, apesar de oblíquas, como um diamante lapidado, exercendo fascínio, dotado de valor simbólico: o material precioso simboliza o divino, mas este material não é o divino em si, o qual é Nada, ou seja, é a ausência de Matéria. São as metáforas humanas, nas simbolizações semióticas. Os peixes nadam pelo quadro, como se tivessem ressuscitado e ido para um plano superior, onde a Vida reina sempre, sem interrupções. A luz natural da janela banha a mesa, e os peixes brilham como em um aquário colorido. Os peixes são a luta pela Vida, como salmões que lutam bravamente contra a correnteza do rio, chegando exaustos ao seu destino e, então, expelindo os óvulos e o esperma, gerando ovas que voltarão, pela mesma correnteza, ao ponto de partida, dando continuidade aos ciclos vitais. Podemos sentir o cheiro de Oceano, em um bom restaurante de sushi, no qual podemos ter a segurança de que o peixe está fresquinho, numa relação de confiança, pois Tao é honesto e limpo, tendo integridade, sendo uno. E podemos ouvir o barulho d’água fluindo, num ruído delicioso, apaziguador e relaxante.


Acima, Samba. A nudez feminina é tratada com naturalidade, revelando seios belos, na beleza da Mulher Brasileira. No quadro, temos uma miscigenação brasileira, numa mistura de sangue de várias partes do Mundo. A protagonista é a mulher de saia amarela, dourada, como uma dama dourada de Klimt, na riqueza cultural brasileira, na cor dourada que acompanha o brasileiro na torcida por uma Copa do Mundo, como na cor do cartão Ourocard, do Banco do Brasil, na promessa de um Brasil melhor e mais nobre, como diz o nome da ONG “Brasil Sem Grades”. O amarelo é a cor do Sol e da gema do ovo, na esfera que faz brotar a Vida no Território Brasileiro, trazendo a fertilidade do solo do país e da mente do brasileiro, numa mistura de ritmos e estilos musicais, como, por exemplo, no romance “O Cortiço”, em que uma mulata hipnotiza ao dançar pelo exótico Samba, o qual é um fruto de Cultura Popular Brasileira: veio do povo e com o mesmo povo permanece, como a Festa da Uva de Caxias do Sul. No quadro, a mulher à frente é uma espécie de rainha, de representante. Ela carrega folhas que parecem ser louros, celebrando a vitória do Samba como legado nacional, e único. O seio da mulher é revelado como o seio da célebre Cicciolina, a atriz pornô italiana que tentou carreira política, exibindo às câmeras um dos próprios seios, revelando uma mulher que tem orgulho em ser mulher, como Sharon Stone, que, ao ser entrevistada por uma repórter que perguntava por que a atriz aparecia nua nos filmes, a estrela disse à entrevistadora: “Você é uma mulher – você tem vergonha de ser mulher?”. Amém! E Arte é isso: ver o Mundo com naturalidade. A mulher posa com uma das mãos na cintura, sinalizando que é dona de si mesma, e não vítima dos preconceitos patriarcais, como em sociedade radicais nas quais a mulher é castrada para não ter prazer sexual, como na Roma Antiga, quando mulheres não podiam beber vinho em público. Apesar do Patriarcado ser universal, Di Cavalcanti faz um manifesto em prol da beleza. Atrás da grande dama, vemos outra mulher, de traços mais negros do que aquela. A mulher em segundo plano também exibe um dos seios, que são símbolo de maternidade, carinho e cornucópia, como é Tao, a Mãe Provedora, sempre atenta aos próprios filhos. A segunda mulher usa um chapéu, que é a proteção, o resguardo, a discrição de um artista que não quer aparecer mais do que o próprio trabalho. As duas mulheres sambando estão cercadas de homens que tocam o Samba. Três deles estão alegres, participando da festa, mas há um homem cabisbaixo e deprimido, completamente alheio à euforia e ao alto astral da roda de Samba, a qual é como uma roda de Chimarrão, integrando os membros da cadeia em torno de uma boa conversa e boa música. O homem triste é um DC catarseando todo um sentimento de solidão, abandono e melancolia, sentimentos negativos que são aqui combatidos pela animação do ritmo contagiante, fruto da herança afrobrasileira. Apesar de estar cercado de pessoas alegres, o homem triste se sente irremediavelmente só, numa carência afetiva enorme, e a Vida é isso: quando sentimo-nos sós, não conseguimos interagir com o Mundo ao redor. O homem deprimido está solitário, vagando pelas ruas de uma cidade, sonhando em ter uma pessoa especial. Este homem está sem Norte; não está centrado, e vai nadando por um melancólico lago o Patinho Feio, o qual, depois de um tempo, descobre-se cisne, como uma Fênix renascendo; como uma Tieta voltando triunfante a Santana do Agreste. Ao fundo da cena, os morros voluptuosos fazem metáfora com os seios das mulheres da cena, revelando beleza grandiosa e titânica, no continuum que permeia a Natureza e a Vida em Sociedade. Acima do homem deprimido, um homem de vermelho dançando, entusiasmado, com os braços erguidos em euforia, observando a beleza geológica dos morros/seios. O vermelho é o vibrante sangue brasileiro, com pessoas exuberantes, diferente das mulheres de outras culturas, como em sociedades em que a Mulher é ainda propriedade do Homem. Os seios revelados são um afã de libertação, como no seio exposto de A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix.


Acima, Sem Título. O cavalo é o porte, a elegância, num animal que fascina o Ser Humano desde sempre, sendo sinônimo de elegância, força e graça. É um quadro bem colorido, vibrante, com brasilidade, no tom de DC. O animal está em pleno galope, como um gaúcho cavalgando livre por suas terras, reivindicadas na Revolução Farroupilha, ou como nos rebeldes irlandeses, querendo se separar da Inglaterra. Cavalo e cavaleiro são um só ser, numa harmonia, num vínculo de amizade e carinho, do modo como um artista se torna amigo da própria obra, sendo o dono de uma obra, apesar desta poder ser comercializada. O cavaleiro toca uma corneta, como a corneta de chifre dos vaqueiros, e anuncia algo, talvez uma revolução, uma guerra ou uma boa nova, espalhando pela beleza da vida ao ar livre a mensagem de Liberdade, a qual está linkada ao conceito de Amor e Fraternidade. Então, podemos ouvir o som da corneta, e o som ecoa pelos campos, anunciando quem é o dono desta terra. O cavaleiro, ao domar o bicho, torna-se símbolo da vitória da Razão sobre a Animalidade, num garbo que doma e domestica, transformando um ser selvagem em um ser civilizado e fiel. Este cavalo é bem corpulento e bem nutrido, transmitindo a ideia de Saúde. Mas há um aviso: cavalgar pelos campos é delicioso, mas pode lhe enlouquecer se cavalgar demais. Ou seja, o cavaleiro não pode se exceder. A corneta anuncia algo, como uma campanha publicitária, como um galo que anuncia um novo dia, nos domínios do macho alfa, estabelecendo ordem e hierarquia dentro de um galinheiro, no instinto do macho alfa, um instinto bem animal, porém algo que nutre a Sociedade Patriarcal – será que esta existe por causa de um instinto animal? Se o existir por causa disso, a Racionalidade tem que derrotar tal instinto animalesco, como em sociedades em que mulheres começam a ganhar força no Corpo Social, na mensagem humanista do Espiritismo. Este é um quadro onde há amizade, fidelidade, numa relação de confiança e interdependência, como numa simbiose, em que dois organismos, dois seres se ajudam mutuamente, na capacidade do Ser Humano em converter a Natureza a seu favor. Este quadro é como uma colcha de retalhos, alegre e diversificada, como numa tendência contemporânea de Decoração, onde, em um mesmo piso, vemos lajotas de diferentes cores e estilos, celebrando a Diversidade. Aqui, podemos certamente ouvir o som do galope, esmagando o capim, no cheiro da Vida ao Ar Livre, como me disse o produtor de Cinema Luiz Carlos Barreto, o qual disse gostar do cheiro de bosta no campo, algo exótico para um carioca. O fundo do quadro tem formas geométricas retilíneas, um pouco cubistas, como faces de um mesmo diamante, fascinando por seu brilho, num talento que fascina por sua inteligência, do modo como, diz a História, Jesus era uma pessoa altamente inteligente – é a vitória da Mente sobre o Corpo, êxito este representado aqui no Homem domando o Animal; é a vitória do Ser Humano no Mundo Civilizado. Cavalo e cavaleiro parecem olhar para a mesma direção, numa parceria bem sucedida, em que dois se tornam um só, formando uma só Vida. Também podemos ouvir o relinchar do bicho, numa cena de felicidade, de prazer, no deleite que é um animal devidamente domesticado e treinado. É um quadro de exímio equilíbrio gráfico, fazendo metáfora com o equilíbrio que o cavaleiro tem sobre o bicho, num critério equilibrista de DC, como um artista de Circo, o qual é um local, antes de mais nada, de Arte, no talento circense existente no Showbusiness, repleto de palhaços que querem entreter o Mundo. Esta é uma cena de Liberdade, de corpo aberto no Espaço, como na Nudez, que faz metáfora com a Simplicidade que traz o prazer de uma vida simples e produtiva, sem as corriqueiras vaidades humanas, vaidades estas que têm a capacidade de destruir a Paz, Paz esta que é inabalável na Dimensão Metafísica, no plano mental e racional.