quarta-feira, 3 de abril de 2019

All right with Albright (Tudo certo com Albright)



Ivan Albright teve a maior retrospectiva de sua obra ocorrendo no Met de Nova York em 1997, centenário do nascimento do artista. Competitivo pintor detalhista mundialmente famoso, Ivan teve como irmão gêmeo um escultor e como pai um conhecido pintor (!). Inicialmente arquiteto, Ivan evocava gênios como Albert Einstein para se expressar. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Autorretrato n 16. 1982. Temos aqui um Ivan amante do Impressionismo, certamente. Sua calvície mostra experiência e sabedoria, com seus cabelos brancos que deixam muito claro, a Ivan, como é o Mundo. Seu olhar não se dirige diretamente ao espectador, mas para outra direção, talvez compreendendo que estava idoso e que o Desencarne estaria perto, como se adivinhasse a data do seu próprio dia de morrer. É um homem um tanto tristonho, um pouco decepcionado com a dureza e as vicissitudes mundanas, talvez um homem que, apesar de velho, é ainda repleto de sonhos, sendo uma vida pouco tempo para este desenrolar, num Ivan achando a Vida breve demais, num processo que se desenrola na velocidade da Luz. Os tons de azul predominam no quadro, no azul celeste das colônias espirituais, em cidades apolíneas onde o céu é de um azul vibrante, intenso, sem qualquer sinal de nuvens que possam deixar o tempo encoberto, numa luminosidade divina que, apesar de intensa, não ofusca os olhos, num Sol que não exige o uso de protetor solar. A gola de sua camisa o deixa elegante, e a gola lembra o formato de uma ave voando livre, na Liberdade que precisa existir em um sistema para que seus artistas prosperem e produzam fartamente. É o desejo de Liberdade que o Desencarne satisfaz. Este Ivan pintado lembra um pouco o escritor Luis Fernando Veríssimo, num homem que, apesar das dificuldades naturais da existência, consegue obter uma forma de se comunicar claramente com o Mundo, fazendo do limão uma limonada, convertendo, ao seu favor, um patinho feio que se torna cisne. Os seus olhos não são simétricos, mas tortos, como se olhassem para direções diferentes, como de um camaleão, numa discordância, num conflito, talvez catarseando uma sensação de guerra interna, com um olho progressista e, o outro olho, conservador. Podemos ouvir um sutil respirar, num homem ainda com vida, na natural dúvida existencial, como nas fascinantes inseguranças do personagem Charlie Brown, um menino cheio de vulnerabilidades, sempre se sentindo um tanto “fora” do Mundo, nunca se sentindo absolutamente normal, como num episódio em que Charlie diz, a um amigo, que na época de Natal ele, Charlie, não conseguia se sentir tão animado como ficam animadas as crianças em geral nesta época. Aqui, Ivan tem um nariz redondo, quase como o de um palhaço, no aspecto circense que domina as Artes, havendo no Circo a magia de entretenimento que faz com que as pessoas esqueçam, brevemente, do duro Mundo que as cerca, havendo na figura do palhaço o modo humano de produzir Humor e Sátira. É a beleza da Arte. Aqui, a careca de Ivan é um espaço vazio, aberto, como uma folha em branco, prestes a ser preenchida, como a beiramar, na sensualidade do Vazio, do vago, na dignidade de um copo, o qual, ao ser usado para se beber algo, consegue encontrar um sentido para a Vida, e feliz do artista que se sente útil ao Mundo, num Mundo duro, tão enigmático na hora do indivíduo perguntar a si mesmo qual o lugar desse mesmo artista no Mundo, como num Van Gogh, que se suicidou, tal o vazio existencial, num artista que só foi reconhecido postumamente. Ao fundo na cena, pinceladas vigorosas que parecem ser folhas outonais caindo, no estágio final da vida de Ivan, com os galhos nus se mostrando de forma nua e crua, numa carreira que tanto legou à Arte nos EUA. É o galgar do relógio, marcando impiedosamente o Tempo, dando a nós na Terra algum tempo, alguma chance, no desafio do autoencontro. Na parte bem inferior do quadro, um botão da camisa. O botão é o Mundo, desafiador, amedrontador, um Mundo conquistado por um artista tão inconfundível.


Acima, Hail to the Pure. 1976. Uma poderosa figura feminina, com sorriso enigmático de Monalisa, um tanto olhando para o espectador, um pouco olhando para o nada. Ela está cercada de coisas, de tesouros, e seu cabelo é rebelde, parecendo espaguete, no modo como o artista se alimenta do próprio labor, pois trabalhar é, realmente, indispensável. Ela usa uma flor de adorno, como uma Billie Holiday. A flor é a fertilidade, a inspiração fértil, no novo desafio para um artista quando este se depara com uma tela em branco, pronta para ser pintada, num labor que não tem como cair na mesmice. A mulher veste uma gola exuberante, digna de rainha, e usa um broche em forma de um homem idoso, um velho patriarca, na imagem que temos de Deus como um patriarca, como Zeus, o rei dos deuses gregos. Este velho senhor está dormindo, talvez morto, e é carregado pelo útero de carinho da mulher, uma estrela que se destaca como Whitney Houston na capa do álbum de O Guardacostas, com um Kevin Costner coadjuvante, sutil. É o Yang gravitando em torno do Yin, como uma pessoa que faz do labor um norte existencial. A mulher usa uma maquiagem pesada ao redor dos olhos, numa pessoa vaidosa, que se apruma e se gosta. A mulher está pronta para um baile. Ao lado da flor no cabelo, a figura de uma menininha, talvez o passado da mulher, na doce infância, uma fase da Vida, fase marcada pela simplicidade, pela inocência, nas amizades construídas por puro carinho, sem os interesses do mundo dos adultos. Neste quadro, os tons de cinza fazem uma dança harmoniosa, numa força gráfica digna dos cliques do fotógrafo famoso Sebastião Salgado, num Ivan que não precisa de cores para constituir uma imagem forte. Esta mulher está cercada de roupas finas e privilégios, e parece estar confortável em meio a tantos privilégios, na sensação suprema de acolhimento ao recém desencarnado, recebido de volta ao Lar Psíquico, cercado de muito carinho por seus irmãos, no modo como, não me canso de dizer, somos todos príncipes filhos do mesmo Rei. O problema do Ser Humano é que esta irmandade psíquica é totalmente esquecida aqui, na Terra, e os abismos sociais e as guerras tratam de mostrar de forma nua e crua as grosserias humanas. Ivan tem um trabalho absolutamente minucioso, feito com infindável paciência, fazendo metáfora com a Paciência Divina, sendo esta inesgotável, pois a obra de Tao é eterna, e imaginar que jamais morreremos é uma ideia descomunalmente poderosa – jamais morreremos! Ao lado da menininha vemos uma forma que parece ser uma roda, como a Roda do Tempo, no modo como a invenção da Roda revolucionou a História do Ser Humano, no desenrolar da história, no desenrolar do trajeto existencial, numa Elis Regina sendo ouvida na estrada, no tocafitas, nas mesas de centro feitas de uma roda de carroça, numa roda onde há o prazer de uma boa conversa, como numa sessão de psicoterapia, nas suntuosas salas de estar metafísicas, no prazer de conversas que podem durar muito tempo, sem causar fadiga. Esta mulher está vestida de modo recatadíssimo, e é como as vestes majestosas de uma mata virgem, na beleza das roupas maravilhosas usadas pela paisagens ao ar livre, na dificuldade humana em parar um pouco para contemplar essas roupas maravilhosas das florestas, um indício do bom gosto majestoso de Tao, o Grande Arquiteto. Os cabelos da mulher são como várias minhocas revoltas, numa colônia, numa sociedade, numa família, e cada minhoca se sente em casa, confortável, na gloriosa sensação de se estar num lugar para chamar de “Lar”. É uma mulher jovem, sem rugas, como toda uma vida ainda por vir, no modo como um artista, por mais velho que se seja, sempre se sente jovem demais para morrer, no fato de que o Tempo passa rápido. Suas sobrancelhas são como duas lagartas, prontas para serem reveladas ao Mundo na forma de lindas borboletas, no mito de Cinderela, a “vingança” para com os que subestimam esta ou aquela pessoa.


Acima, Memórias do Passado. 1927. Temos aqui uma técnica que lembra muito a Renascença, na técnica de grandes mestres daquela época, talvez num Ivan amando tal período. É uma mulher já de meia idade, cabisbaixa e pensadora, meio triste, olhando para o nada, talvez pensando sobre escolhas mal feitas durante a Vida. Ela parece estar se despindo, talvez tímida perante Ivan. Ela tem um recato sensual, como uma virgem sendo abduzida por um tarado. Seus seios são macios como almofadas, numa sala de estar confortável, num sofá que faz com que percamos as defesas e abramos nossos corações em uma boa conversa. Coloridas flores, em um quadro um tanto esmaecido de cores, adornam o cabelo da modelo, na beleza de uma Primavera Renascentista, um período que trouxe irresistível frescor a uma Europa que ainda respirava ranços medievais – são as novas ondas, sempre vindo avassaladoramente, na forma fértil do cio primaveril, havendo no artista alguém disposto a colocar na Arte toda essa força implacável. As flores são alegres, mas numa alegria que é dominada por um quadro que é, de forma geral, triste e desanimado. A modelo simplesmente não consegue sorrir, e olha constrangida para baixo, talvez se arrependendo de certos momentos da Vida, no fato de que não há como retroceder no Tempo e reparar os erros, cabendo à pessoa, simplesmente, crescer e aprender a viver melhor. Ela reluta em mostrar os seios, e seus dedos brincam com os cadarços do que parece ser um espartilho. Os espartilhos são o símbolo da opressão patriarcal, reprimindo a mulher, reduzindo-a, humilhando-a, condenando-a a um eterno papel coadjuvante, sendo raras exceções as mulheres que transcendem tal condenação patriarcal, mas mulheres que, ainda assim, estão fadadas ao papel de mera fêmea, sempre num nível abaixo ao do homem. Um tanto acima do peso, a mulher lembra a antiga estética que via na mulher obesa algo belo e sensual, no modo como os arquétipos de beleza variam de época para época, havendo hoje a estética semianoréxica, em mulheres condenadas ao papel de frágil moça, sempre precisando de um Batman para salvá-las. O pescoço da mulher mostra uma mulher que não mais é uma mocinha, e seu rosto já traz alguns sinais de idade. Mas, apesar disso, ainda é bela, mesmo em meio a tantos percalços existenciais. Seu cabelo tem um aspecto natural, e não parece ter recém saído do salão de beleza, num cabelo espontâneo, sem muitas afetações ou pretensões. Esse espartilho e o fundo do quadro são escuros, incertos, numa pessoa com muita dificuldade em vislumbrar alguma coisa do futuro, num futuro que pode reservar muitas, muitas surpresas, cabendo à pessoa só prever alguma coisa, mas nunca muita coisa – são as peças pregadas pela Vida! Seus dedos são delicados, talvez de uma mulher que nunca exerceu um duro labor na roça, sem calos. Os cadarços são como cobras num antro, num ambiente de malícia, de fofocas, de mentiras, num mundinho a parte, num submundo em que as mentiras prosperam e correm soltas, numa vidinha tóxica e viciosa. Esses cadarços são os grilhões da sociedade patriarcal, no pesadelo encarnatório que nos divide entre homens e mulheres, resultando numa sociedade excludente. Aqui, a luz é suave, e não se trata de um belo dia de Sol, num parque cheio de árvores verdejantes e águas límpidas. O título do quadro mostra uma pessoa imersa em lembranças, muito imersa, numa pessoa se arrependendo dos próprios erros, lamentando por ter tido feito esta ou aquela escolha, pois quando há o arrependimento, há o crescimento, e o sentido da Vida é exclusivamente o crescimento, a depuração, o fazer de nós mesmos pessoas melhores, fazendo com que a pessoa não queira voltar para momentos imaturos da Vida. Este é o lado belo da velhice – a sabedoria. Talvez, a mulher aqui deva estar se dando conta de que magoou alguém, crescendo aqui o sentimento de reparação, de desculpas, numa pessoa que se liberta de futilidades e começa a observar o Mundo do jeitinho que este é, pois na Vida não há controle remoto, de modo que não é possível voltar ao passado. A moça aqui está com um tanto de amargura, num remédio amargo que faz bem.


Acima, Retrato de Dorian Gray. 1943. Este quadro foi pintado exclusivamente para o filme homônimo, dirigido por Albert Lewin. A história conta que um homem, Dorian Gray, faz um pacto com o Diabo, pedindo a este para ser jovem e belo para sempre. Em troca, um retrato mostraria toda a decadência física e moral de Dorian. Esta pintura fez de Ivan um artista famoso, num quadro que traz a marca registrada de Ivan – o detalhismo, mostrando a decrepitude humana, como na visão sombria que Tolkien tem do Ser Humano, colocando este como fraco perante as tentações mundanas, como dinheiro e poder. Nesta obra, podemos sentir o cheiro de podridão, como uma insalubre casa de acumulador compulsivo, num mundo caótico, num deprimente apego às coisas, ao material, ao físico, no apego próprio de espíritos sem muita depuração moral. Então, o Diabo entra na história, e este retrato é o próprio retrato do Umbral, a dimensão de sofrimento onde vagam espíritos que simplesmente não aceitam o seu próprio Desencarne. Claro, é um quadro horroroso, e maravilhoso. Dorian aqui está bem calvo, e sua face é cadavérica, praticamente uma caveira, no modo como as ambições carcomem o caráter o homem. É como uma pessoa enterrada viva, presenciando cada passo de sua decomposição, vagando intermitentemente por vales escuros de temperaturas insuportáveis, como um mendigo absolutamente maltrapilho, decadente, podre, como um leproso sem tratamento médico, testemunhando sua própria decadência. O cenário em torno é excessivo, decadente, sujo e desnecessário, num apego muito grande pelas coisas, pelos produtos de supermercado, numa Sociedade de Consumo que “empurra” produtos inúteis, sempre visando arrancar dinheiro do consumidor. É uma verdadeira obsessão. Em cima de uma mesa, um gato negro, como na elegância do Egito Antigo, havendo no gato uma personificação de sofisticação, elegância e um tanto de agressividade. O gato é a vaidade, o egocentrismo, numa pessoa narcisista – ou seja, um psicopata –, que se acha, simplesmente, Deus, o centro do Universo. Então, o psicopata, em seu irremediável apego material, simplesmente não aceita a morte do seu próprio corpo físico, uma morte que tem data para chegar, como num despertador: acabou o tempo! As roupas de Dorian são imundas, sujas, horrorosas, como na roupa de um cadáver em um caixão. Suas mãos estão ensanguentadas, como se tivesse matado alguma pessoa ou animal, como um animal carnívoro, devorando avidamente uma presa, na competitividade da Vida em Sociedade, no machismo que tolhe o homem que não quer ser homem e tolhe a mulher que não quer ser mulher. O cenário aqui é cheio de demônios e de pesadelos, que assombram Dorian, atormentando-o, desprovendo-o de Paz, de consolo, de alegria. É uma dimensão em que não há contentamento, numa ambição que faz com que a pessoa sempre queria mais e mais, e, como diz Tao, se o que você tem, você acha que não é o suficiente, então você nunca vai ter o suficiente. Então, o acumulador vai se enterrando vivo em meio de objetos inúteis, num lugar fétido, cheio de fezes de ratos e de teias de aranha, num verdadeiro cenário de filme de terror, ou numa mansão mal assombrada, num lugar horrível, muito distante da depurada arquitetura da Dimensão Metafísica. O Umbral é um lugar onde não há pensamento – só há coisas. Novamente evocando Tao, pensamento é tudo; matéria é nada. Tudo o que Dorian tem que fazer, aqui, neste momento de degradação extrema, é rezar, pedindo ajuda para que um anjo amigo o retire de tal lugar decrépito. Só que a oração tem que ser feita com sinceridade, e não apenas da boca para fora. Um anjo estende a mão para Dorian, sugerindo a este que se livre da ambição material. Mas Dorian só poderá ser ajudado se ajudar a si mesmo. Quando o espírito tem dificuldade no exercício do desapego, não há anjo capaz de retirar este espírito do Umbral. Esta cena pintada por Ivan traz um vazio existencial enorme, num empobrecimento moral gigantesco. E, se assim continuar, a degradação só aumentará.


Acima, Retrato de Mary Block. 1957. Temos aqui um retrato digno de rainha, como Elizabeth II. A senhora está altiva e comportada, como se soubesse que inúmeros olhos a olham. Um de seus braços está nu, revelando afiadas unhas rubras, como um tubarão esfomeado, trazendo terror aos mares, num tubarão que fareja de longe o cheiro de comida. Esta mão está adornada com joias, e os dedos são como uma aranha furtiva, tecendo pacientemente sua teia, numa posição passiva, que espera que uma presa desavisada fique colada à ardilosa teia, como um psicopata constrói ardilosas teias para controlar as vítimas e manipular estas. O outro braço está recatado, vestido com uma luva negra de luto, num recuo, um recato, uma reserva, numa pessoa que quer estabelecer um limite claro entre vida social e vida privativa, deixando o Yang no Mundo lá fora, sendo mais Yin dentro de casa, como cozinhar macarrão para o namorado e com este compartilhar uma garrafa de vinho, na simplicidade que deve pontuar a vida privada, a vida íntima: dinheiro, poder, fama, influência, sucesso – é só deixar tudo isso no lado de fora de casa, no Mundo. Esta rainha fita impiedosamente o espectador, como um alfinete. Ela quer obter controle, sabendo de tudo o que ocorre em seu reino. É o olho onisciente de Sauron, o grande vilão de Tolkien. O “trono”, o vestido e as cortinas trazem toda a minuciosidade de Ivan, num realismo que se aproxima de uma foto. A pele desta rainha tem um lustro, como um móvel tratado com óleo de peroba, numa sala arrumada, limpa e perfumada com o odor do óleo, numa rainha recebendo convidados em uma sala bonita, porém simples, pois limpeza, beleza, luz e leveza compõem um continuum. A face desta rainha já mostra que se trata de uma mulher que já passou da meia idade, pronta para abraçar a velhice. Mas, mesmo que não seja mais uma garota, esta rainha está no auge da virilidade, tendo integral controle sobre a própria vida, numa altivez que faz metáfora com a soberania da nação por ela regida. Só que são rugas suaves, minimizadas, numa pessoa que se gosta e se cuida, preparando-se na hora de vir a público, com uma aparência que faz metáfora com as belezas naturais e arquitetônicas do reino. Suas mãos repousam sobre o colo, no perfumado e confortável útero da Imaculada Mãe, a qual é aqui representada por esta mulher de carne e osso. É a figura materna, no aleitamento, num limpo e confortável berço, como na deliciosa sensação de liberdade e paz no que os espíritas chamam de Experiência Extracorporal, as EECs, quando a pessoa tem uma amostra do que a espera após o Desencarne – tenha esperança! Esta rainha usa um colar com uma roseta, na magia das rosetas em igrejas, cheias de cores de vitrais, na magia de um domingo de Páscoa, com um ninho de ovos coloridos e encantadores. A roseta parece girar, como se estivesse marcando tempo ou trazendo ordem a um universo de caos. Na roseta há a metáfora com a unidade de um reino, com tudo girando em torno do regente. Para esse mecanismo funcionar de fato, o regente tem que ser o mais simples e minimalista possível, aproximando-se, assim, de Tao. E tudo gira em torno de Tao porque este não é feito de matéria, mas de pensamento, e quando mais fino, espiritual e materialmente desapegado for o regente, melhor será o trabalho de regência. Quando o regente é ganancioso, o mecanismo da roseta não funciona, resultando em sistemas caóticos onde reina a confusão, num regente incompetente e egoísta. O detalhismo de Ivan é gritante, e podemos observar isso nas estampas do vestido e das cortinas, fazendo-nos perguntar quanto tempo ele levava para construir cada quadro. A rainha aqui não está sorrindo como um agradável sol radiante sobre as terras do reino. A rainha aqui está séria, como num dia nublado, com a dúvida que resulta do embate entre Luz e Escuridão. Seu brinco de pérola é elegante e discreto, e é como uma límpida gota de orvalho em um bosque de Aurora, no alvorecer de um novo dia, quando um anjo mensageiro pega em nossa mão e nos guia por um túnel de luz, na superioridade angelical, acima de ser homem ou ser mulher.

Referências bibliográficas:

GRECO, Alessandro. Ivan Albright. Disponível em <www1.folha.uol.com.br>. Acesso 27 mar. 2019.

Ivan Albright Obras. Disponível em <www.google.com>. Acesso 27 mar. 2019.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Mote Brasileiro



Djanira da Motta e Silva era brasileiríssima, sempre retratando cenas da Cultura Popular Brasileira. Amiga de Jorge Amado, pintou um quadro especialmente para o escritor. Djanira tem uma de suas obras pertencendo ao Museu do Vaticano. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Caboclinhos. 1962. Um quadro que traz música brasileira, e podemos ouvir a melodia e a batida dos músicos, no fascínio que o Brasil exerce sobre o Mundo. As verdejantes palmeiras se agitam à brisa suave, numa agradável temperatura salvadorense. A vegetação é fechada, como uma sala de estar à meia luz, num chão acarpetado e almofadas confortáveis. Podemos sentir o cheiro de pratos típicos da cozinha baiana, ou o cheiro de uma boa feijoada. Não é a toa que Djanira foi amiga do amado Amado, pois eram ambos grandes entusiastas das tradições populares do Brasil, como uma Patricia Pillar, a qual sempre defende o Cinema Brasileiro. Os frutos maduros nos pés enchem o quadro de perfume, na doçura de sobremesas como cocada, pé de moleque ou rapadura, com vistosas baianas vendendo doces no Pelourinho – o que é que a baiana têm? Este quadro está prestes a receber Carmen Miranda, no balanço de seus quadris tão sensuais, encantando o Mundo com a doçura sulamericana, numa doce banana. Aqui, é uma sensual noite clara de luar, com jardins cheios de grilos barulhentos, como namorados se beijando à luz do luar, numa cena doce, numa noite amena, digna de cidade espiritual, num lugar onde não há extremos excruciantes. Podemos ouvir um sambinha, ou uma banda de pagode, e a mocinha no canto esquerdo inferior dança, balançando sua cabeleira, na sensualidade da mulher brasileira, a qual sai de casa de manhã cedo com o cabelo úmido perfumado, recém lavado. Seu vestido é da cor de Iemanjá, um ícone de cultura popular. O azul é a Mar que provê os pescadores, enchendo as redes de farturas, enchendo as mesas, numa mãe benevolente, sempre suprindo seus filhos. A moça samba ensandecida, balançando seu vestido e seduzindo com seu perfume cítrico, tropical, como no escândalo da vulva de Lilian Ramos com o então presidente Itamar Franco – é um jogo de sedução entre poder e beleza. O chão aqui é terroso, como numa formidável adega, engarrafando os sabores da terra, das entranhas do Mundo, no sangue de vinho que pulsa nas veias do Salvador, e nós como “vampiros”, bebendo de líquido tão sagrado. Os rapazes aqui estão descalços, numa informalidade, como caminhar descalço dentro do conforto do lar, um lugar em que nos sentimos pertencendo a algo, a algum organismo maior, que acolhe vários filhotes em embaixo do mesmo guardachuva. Apenas uma das pessoas aqui é negra, um rapaz bem ao centro da cena, tocando seu tambor, nas miscigenações brasileiras, nos abismos sociais moldados no Brasil Colônia. O restante dos personagens aqui são brancos ou pardos, e cercam o negro, no modo como o Brasil nada teria se tornado se não fosse a força dos escravos negros – devemos tudo à África. É a estupidez e a crueldade humanas, arrancando pessoas do Continente Negro, condenando seres humanos (e os descendentes destes) a uma vida negra, dura e cruel – este é o dom humano para a maldade, sendo esta sempre embalada pela ambição, a eterna ambição de seres humanos que nunca estão satisfeitos, pois é uma virtude saber quando se tem o suficiente. Aqui, as flautas rubras são fálicas, numa vareta que vai fundo no útero e engravida alguém, na inteligência de um macaco, que pega a vareta para obter alguma outra coisa. A flauta é uma agulha terapêutica de injeção, surgindo para curar por meio da dor, num remédio amargo que surte forte efeito, no modo como não devemos reclamar da Vida. Aqui, temos uma festa, um momento de euforia para escapar momentaneamente de um Mundo tão duro, tão escravocrata, tão de árduas tarefas diárias de uma dona de casa, a qual se “mata” para manter uma casa limpa e organizada. Os pés descalços são a simplicidade, a ausência de desconfortáveis formalidades, como uma apertada gravata. Nesta cena, as diferenças raciais e sociais são esquecidas, e os seres humanos se juntam em torno de um bem comum, como a Música, ou seja, a Arte, tendo esta o poder de unir as pessoas – Arte é capital.


Acima, Jogo de Dados. 1974. Uma cena comum, num simples boteco, com cavalheiros bebendo cachaça e jogando dados, talvez num inocente momento de diversão, talvez com dois alcoólatras compartilhando um vício. Ao fundo, a bandeira do Brasil, numa Djanira patriota, orgulhosa da própria nacionalidade. Os homens estão com um semblante tranquilo, talvez entediados, talvez numa vida improdutiva e monótona. O ambiente é um tanto claustrofóbico, fechado, opressor, num pé direito que parece ser baixinho, apertando os dois jogadores. É um quadro em que predominam linhas retas e tensas, com pouco espaço para curvas, como na exceção do círculo na bandeira. Podemos ouvir um cavaquinho, no casamento da Boemia com a Arte, como dizia Cazuza: “Se não houver boemia, não vai haver poesia”. O chão é marrom, terroso, numa Djanira adepta à simplicidade, no amor pelo chão do seu país, um chão fértil, onde brota inspiração, motivo para pintar, numa artista disposta a divulgar e “vender” o país, num Brasil que ainda tem muito a ser reconhecido internacionalmente. O semblante dos homens passa a impressão de não estarem se divertindo muito, talvez afogando as mágoas num copo, talvez precisando frequentar grupos de apoio, num Alcoolismo que, há algum tempo atrás, não era visto como doença (tratável), mas como desvio de conduta: “O Fulano? O Fulano é um baita safado; fica bebendo por aí”. Esta sala é como uma jaula, na prisão que é a dependência química, numa grande cilada, como uma mosca numa ardilosa teia de aranha. E Djanira era assim – viciada em Arte, num vício benéfico, produtivo, numa pessoa feliz, que se encontrou em seu próprio trabalho. A garrafa e os copos espalham pelo ar o cheiro de pinga, no canto da sereia que é a substância viciante, com tantas pessoas no Mundo imersas nesse fundo de poço, pois, na dureza da Vida, a tendência do indivíduo é querer fugir, encontrando na droga uma válvula (falsa) de escape. Vemos uma janela vermelha, rubra como plátanos outonais, rubra como o sangue cheio de substância tóxica, no sangue derramado de vidas desperdiçadas, com pessoas no auge da juventude, sendo tolhidas pela jaula que pode se tornar a Boemia. As cadeiras e as mesas são duras, truncadas, desconfortáveis, colocando o indivíduo numa situação de desconforto, de incômodo, desafiando a pessoa a reerguer a própria existência, no enorme desafio que é para a pessoa sair do fundo do poço e recolocar a Vida nos trilhos. Os homens estão agasalhados, num dia não muito quente, na insuportável sensação de extremos climáticos do Umbral, uma dimensão em que se perde a noção de Tempo e Espaço, como no copo de álcool pode haver um grande desnorteamento. E a bandeira nacional permanece incólume, impávida, com seus conceitos positivistas de organização e superação, numa Mãe Nação que nunca desiste dos próprios filhos, como se esta mãe soubesse que a paciência divina tem que ser eterna e incondicional, numa força superior sempre disposta a perdoar e esperar que o indivíduo, finalmente, cresça – a Vida não tem significado sem vicissitudes. Portanto, o indivíduo tem que espírito guerreiro, sempre. Não podemos ver aqui os pés dos cavalheiros, num clima de pés fora do chão, fora do Mundo normal, com pés se apoiando num plano ilusório, falso, como se fosse uma tábua bamba no assoalho, traiçoeira, enganadora, ceifando vidas, na eterna chance que temos em dar a volta por cima, estando encarnados ou não. Vemos, aqui, também uma porta aberta, escancarada, que é a Liberdade – entra quem quer; sai quem quer. É a Liberdade de Escolha, o Livre Arbítrio, a prerrogativa que a pessoa tem, e cada um faz de sua própria vida o que quiser fazer. Os dados são a aleatoriedade, a falta de rumo, numa pessoa submetida aos caprichos do acaso, como um saco de plástico voando, sem referência, sem segurança, sem firmeza, sujeito aos caprichos insanos do vento sem sentido. É uma Djanira com os pezinhos fincados no próprio labor.


Acima, Moças na Praia. 1964. Uma leve cena de prazer, na beleza do Litoral Brasileiro. É uma cena perfeita, onde tudo se encaixa harmoniosamente. O Mar é absolutamente plácido, de temperatura amena, deliciosa. As regatas trafegam tranquilamente, ao sabor do benevolente vento, uma brisa amena. O horizonte é de um céu limpo, nem nuvens cinzentas de dúvida existencial. Este quadro foi produzido no ano do Golpe Militar Brasileiro, e, nos anos que se seguiram, o cidadão, simplesmente, não podia ter senso crítico. Este é um quadro despolitizado, sem mensagens contundentes, sem contestações de juventude, e, como o governo vigente, tem-se a impressão (falsa) de perfeição estatal, a impressão de que o Brasil era, simplesmente, perfeito, com um governo apolíneo e impecável. Naquele momento histórico, era o lema “Brasil – Ame-o ou deixe-o”. Quem queria ficar, tinha que se refugiar na cidadania cor-de-rosa, nos inocentes versos “Um barquinho a deslizar no profundo azul do Mar”. As três meninas estão entretidas com o Mar, e estão totalmente recatadas, sem trajes de banho, mas com vestidos de passeio. São os cidadãos comportados, que não contestam o governo; cidadãos desprovidos de miolos. A areia é limpíssima, sem qualquer indício de cidadãos porcos que jogam o lixo na areia. O cachorrinho está comportado, domesticado, no modo como o governo “domesticava” o cidadão, no conceito de “boa criança”, como no filme Aeon Flux, num futuro em que o estado controlava totalmente o cidadão sob a dinastia tirana dos “Goodchild”, sendo “uma boa criança” o cidadão que simplesmente não pensa nem tem a liberdade para ter uma opinião sobre algo – é do interesse do ditador oprimir o próprio povo. Nessas meninas, duas parecem ser gêmeas, sendo guiadas e controladas por uma irmã mais velha, numa hierarquia dentro de casa, quando o indivíduo se prepara para a inevitável hierarquia do Mundo lá fora, havendo no Lar um subconjunto da Sociedade, numa relação de continuidade. Esta irmã mais velha é o controle estatal, num momento crítico em que o artista brasileiro tinha poucas opções, na despolitização da Jovem Guarda, por exemplo. É o conceito do Big Broter, o irmão maior que controla os irmãos num estado claustrofóbico, cheio de câmeras de controle, sendo inaceitável a liberdade de um cidadão, com estados opressores que simplesmente impedem que o próprio cidadão possa sair do país. Uma dessas menininhas é comportada e aceita o controle; a outra menininha é mais rebelde, e quer se libertar e viver, talvez entrar no Mar. São os dois olhos da pessoa – um moderno e outro conservador, havendo em cada um de nós lados opostos. A irmã mais velha está chamando a irmã rebelde, mas esta não se importa, porém será punida por sua insubordinação. A menina rebelde quer viver, numa Djanira querendo viver, respirar, produzir e ser aquilo que se espera de um artista de fato – produzir pensamento. O cachorrinho também está domesticado, tolhido e controlado, no modo como a pessoa tem que disciplinar os próprios impulsos, fazendo um diálogo (harmônico) entre Ímpeto e Juízo. Uma lúdica bola está sobre a areia, mas a cena não é convidativa para uma diversão, num cachorro que não está brincando nem aproveitando o dia. A bola está inerte, na sensação de inércia que tomava conta do artista brasileiro de então. A menina rebelde quer se aventurar, talvez cutucando um estado opressor, talvez empreendendo um esforço heróico, no desejo de transgressão, de rebeldia, havendo no Governo Militar uma forte figura patriarcal, num patriarca desconfiado e rigoroso, duríssimo, numa figura paterna de controle e, eventualmente, violência, numa Djanira que se viu obrigada a se curvar perante tal figura patriarcal, na genialidade de Chico Buarque, no versos “Afasta de mim este cálice, pai”, evocando a figura do patriarca supremo, fazendo um trocadilho de “cálice” com “cale-se”, numa sofisticação fina demais para ser detectada pelos filtros censuradores estatais – os artistas de então observavam a necessidade de sutileza.


Acima, Nossa Senhora Aparecida. 1971. Esta imagem me remete à minha visita, com minha família em uma excursão, ao então recém construído santuário de Nossa Aparecida, e lembro do cheiro de cimento novo, num templo muito, muito suntuoso. Aqui, temos a Padroeira do Brasil em um poder icônico enorme, num sinal de Cultura Popular, na mais brasileira das santas. Um elemento chave é a cor da pele da santa, num Brasil negro, num passado cruel escravocrata, numa mensagem divina: Somos todos irmãos, e as classes sociais são ilusões. A santa tem um formato piramidal, numa forma agressiva, de flecha, no modo como a Fé é uma espada poderosa, lutando pelo Bem e pela Justiça, na Cruz de Malta, o símbolo dos guerreiros cristãos. É a espada que fere a falta de Fé do Ser Humano, sendo este um ser fraco, facilmente seduzido por sinais auspiciosos humanos, sinais como o dinheiro. A santa está vestida de modo extremamente recatado, e sequer podemos ver seus pés, algo muito diferente de Iemanjá, a qual é uma figura sexy, provocante, sedutora, uma verdadeira diva. Suas mãos estão em prece, e apontam para o Céu, o Reino dos Céus, a promessa que Jesus fez antes de morrer brutalmente. Não se sabe se há uma Dimensão Metafísica, portanto, é preciso ter Fé, e os que têm mais Fé estão acima dos que têm menos, numa hierarquia espiritual, na qual a Luz elimina a Escuridão. A coroa da santa é a promessa de um reino, um reino mais maravilhoso do que qualquer reino sobre a face da Terra. É como a sedução da cidade de Gramado, um lugar feito para encantar o turista, e fazer com que este, é claro, gaste muito dinheiro na cidade, na eterna tendência humana em colocar o dinheiro acima de tudo – é assim mesmo... O cenário atrás é elegante, belo, como formas aristocráticas neoclássicas, como formas em dourado, na enigmática riqueza da cornucópia metafísica, a qual é a dimensão onde não existe a fadiga nem as chagas da Terra – existe uma vida após a vida na Terra, e aquela é uma vida maravilhosa, com pessoas envoltas em luz. O chão é de um vermelho terroso, da cor do sangue derramado pelas cruéis chibatadas nas costas de inúmeros escravos, com punições que eram feitas na frente de todo o restante da senzala, como um aviso: Se você é escravo, aceite isso, senão... Então, a cor da pele da santa tem todo um apelo social, histórico, num Brasil em que há (ainda) tantos pobres de cor preta. Então, na Fé, há uma válvula de escape, uma esperança de que na Dimensão Metafísica há trabalho, mas não há sofrimento. As vestes da santa são majestosas, digna da mais elevada rainha do Mundo, numa igreja que faz uma metáfora com a Virgem Maria, nos mistérios da Imaculada Conceição, na dimensão em que os filhos de Tao são concebidos espiritualmente, sem as vicissitudes da carne – não é só Jesus o bendito fruto de Imaculada Conceição. É uma deliciosa pera, suculenta e doce, no modo como Tao se inspirou para produzir as frutas, tão variadas e deliciosas – uma bênção. Aqui, as vestes da santa são majestosas como os campos ao ar livre de um reino, na beleza e na saúde da vida ao ar livre, na Liberdade, num reino tão abençoado e belo, havendo no monarca uma projeção – seus súditos projetam Tao em seu respectivo líder. Qualquer líder que se afaste de Tao, deixa de ser líder. Temos uma Djanira um tanto minimalista, limpa e simples, e não podemos ver o rosto da santa, como as pessoas que, em entrevista para a televisão, não querem se identificar, numa santa protegendo os inocentes, numa santa que é uma poderosa aliada na questão do apuro moral na Terra. São as fés humanas, na universalidade da elevação espiritual, e cada sociedade tem sua respectiva santinha, e as aparências são superficiais: Nossa Senhora Aparecida é universal, adquirindo apenas outras roupagens. Este é um quadro absolutamente simétrico, equilibrado, como uma pessoa com problemas psiquiátricos, equilibrando-se quimicamente por meio de medicação. Podemos ouvir os cânticos de glória dos fiéis, no poder da santa em arrebatar multidões, como uma poderosa diva pop, conquistando a Fé e os corações. A Virgem é limpa.


Acima, Parati. 1966. Uma plácida paisagem, num lugarejo pacato, silencioso. Paz. Podemos ouvir o som de todos os pássaros. A Arquitetura Colonial Portuguesa é bela, e todos os prédios e casas aqui estão impecavelmente pintados, num lugar que é cuidado com muito carinho pelas pessoas que ali vivem. E não é feliz aquele que aceita e ama o lugar onde vive? Como diz um espírito elevado no filme Nosso Lar: Para mim, não há melhor lugar para se viver nesta galáxia do que nesta cidade espiritual. E aquele que entra em cabo de guerra com seu próprio lugar, fica com um mal estar existencial enorme. Aqui, temos a beleza do Brasil Colônia, na exuberante Flora Brasileira, no verde vivo e vibrante, muito longe das cores desmaiadas europeias. Sequer podemos ver um único habitante, e todos devem estar recolhidos em trabalho ou descanso, num silêncio que convida a uma soneca, uma siesta, no pecadinho da Preguiça, no modo como há em Portugal um folclore de piadas que coloca o brasileiro como preguiçoso! A cruz branca à direita está acima de tudo e todos, e só é superada pelos morros ao fundo. Isso remete à construção da Catedral de Caxias do Sul, um templo erguido sobre uma alta pedra, no ponto mais alto da cidade então, num aviso claro: A Igreja está acima de todo o corpo social. Aqui, é uma cruz paladina, contrastando com o fundo escuro, como se emanasse uma luz intensa, na missão de guiar os seres humanos, num Brasil ainda não dominado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Esta cena fica num limiar entre claro e escuro – ou está amanhecendo, ou escurecendo. A luz não está em plena força, num limiar interessante, em que “todos os gatos são pardos”. O céu parece estar prestes a receber uma majestosa Lua Cheia, na magia tropical de noites quentes, repletas de grilos cantando, no poder da Vida, da Natureza. É a poderosa Natureza Brasileira, seduzindo pesquisadores, com uma variedade muito ampla de seres vivos, na empreitada portuguesa em colonizar uma terra selvagem e encantadora. As palmeiras parecem tremular gentilmente, como a bandeira nacional do Brasil, numa Djanira que era, por si só, uma bandeira na qual a própria artista projetou o amor pelo Brasil. Este quadro foi pintado em plena Ditadura Militar, e esta placidez do vilarejo era a dourada intenção primordial dos militares, proporcionado aos brasileiros a proteção em relação ao Comunismo, o qual, na época, assustava o Bloco Capitalista. A Igreja, então, fica tranquilizada com o Golpe, evitando o fechamento de templos brasileiros pelos comunistas. Aqui, a Natureza ao redor é o útero floral, e as casas são como cristais incrustados neste vale fértil, um ventre fértil, provendo seus filhos na Agropecuária. Bem ao fundo, uma grande colina pontiaguda, como se fosse uma espada que quisesse desafiar os deuses no céu, na agressividade desbravadora dos corajosos colonizadores, desvirginando matas e, é claro, escravizando os índios, os quais, por tanto tempo, foram os donos e senhores das terras americanas – é a cruel agressividade europeia, no antigo modo estúpido humano de fazer as coisas. Vemos na cena um cercadinho, que é a contenção, o limite, o siso, numa pessoa bem comportada, longe das transgressões rebeldes. O cercadinho é como um berço, numa Mãe zelosa que nunca se descuida de seus filhos na Terra. O cercadinho é como palitos fincados no chão, como colonos que, com muita coragem, esforço e privação, fincaram seus pés em solo brasileiro, no modo como, na Vida, é preciso ter força, muita força. E é esta a coragem que os artistas tinham que ter na Ditadura Brasileira, num momento em que o Governo era um terrível olho onisciente, fascista, num estado que era uma verdadeira senzala – uma prisão dentro de outra prisão, que é a Encarnação. Este quadro, em formato horizontal, é uma foto. É uma cidade cuidada com muito amor, e o artista não tem que amar o que faz? É uma vizinhança feliz, só que numa opressão estatal que queria, de modo artificial, manter a Paz, com intenções nobres e, ao mesmo tempo, intenções desprezíveis.

Referências bibliográficas:

Djanira da Motta e Silva. Disponível em <www.catalogodasartes.com.br>. Acesso 20 mar. 2019.

Djanira da Motta e Silva. Disponível em <www.ebiografia.com>. Acesso 20 mar. 2019.

Djanira da Motta e Silva. Disponível em <www.elfikurten.com.br>. Acesso 20 mar. 2019.

Djanira da Motta e Silva. Disponível em <www.escritoriodearte.com>. Acesso 20 mar. 2019.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Hilma de Corpo e Alma



A sueca Hilma af Klint é considerada uma pioneira do Abstracionismo. Espiritualizada, Hilma alegava que espíritos a guiavam para que a própria Hilma fosse uma mensageira, uma mera executora de pinturas. Af Maria, que modéstia!  Klint está, neste momento, tendo uma grande retrospectiva no Guggenheim de Nova York. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Altarpiece. Aqui, temos um altar, um caminho de evolução, de depuração, como nas várias séries escolares, da Pré Escola ao Ensino Superior, almejando a excelência, no modo como as universidades formam suas elites. São inúmeras manhãs acordando cedo e estudando na sala, num esforço diário, numa luta. O grande Sol acima é Tao, o Pai de Todos, a grande força criativa que rege todas as dimensões do Universo, havendo no Sol a figura patriarcal que traz, infalivelmente, a luz de todos os dias, numa certeza, numa credibilidade, no modo como o Antigo Egito, em geral, só podia ser governado por homens, num machismo que perdura até hoje, em plena era em que a Digitalização e a Democracia igualam os Seres Humanos – ou busca igualar, em nobre intenção. É o grande prato de ouro, sobre o qual todos se apóiam, com muita classe e elegância, no modo como os espíritos depurados são finos e exalam um perfume irresistível, numa Hierarquia suave, sutil, porém fortíssima, indestrutível, estando a Vida em Sociedade repleta de Hierarquia, como nas famílias, nas escolas, na Vida como um todo. O fundo negro é a incerteza, no fato de que não há frias provas científicas de que existe uma dimensão acima da Dimensão Material. A pessoa, portanto, tem que ter fé sem ter certeza, o que é um grande desafio, uma verdadeira prova espiritual. Este degradê colorido é um puríssimo prisma sendo decomposto em todas as cores, numa alegria festiva, carnavalesca, nos lugares abençoados metafísicos, onde só há beleza, juventude, força e certeza, numa vida plena, numa vida incrivelmente abençoada, numa vida que revela as intenções nobres de Tao para com os próprios filhos. É a dança das cores, numa explosão de percepção, no arcoíris da Paz, o arco que traz a renovação da certeza, como o Desencarne é uma verdadeira ressurreição, no modo como o egípcio antigo, por meio da mumificação, almejava a Vida Eterna, onde nada perece. Temos aqui um formado piramidal, numa escadaria que leva aos Céus, num Hilma inclinada à depuração, acreditando na Ressurreição, no fato de que a Vida na Terra está fadada à danação, como diz uma célebre canção: “No fim, todos nós perdemos nosso charme”. O apodrecimento cadavérico é um grande desafio à Fé da pessoa, tendo esta que se inclinar em ideias nunca comprovadas. A pontinha desta pirâmide é negra, no sentido de que a pessoa tem que se despir de expectativas, observando o Universo de forma isenta e desidealizada, realista. É a pirâmide da Maçonaria, uma organização de muita hierarquia, um “Clube do Bolinha” no qual mulher não entra. O Mundo considera a mulher um cidadão de segunda categoria, e as próprias mulheres se consideram cidadãos de segunda categoria. Hilma sabe que desencarnará e que deixará para trás seu corpo feminino, ressuscitando como um anjo andrógino, sem sexo. Este grande Sol está cercado de muitos raios pontiagudos e agressivos, exigindo que mantenhamos distância; exigindo que não olhemos diretamente para ele. É um grande gongo, cujo badalar abala tudo e todos, como um vulcão inclemente explodindo, engolindo cidades inteiras. Ao redor deste astro rei, um círculo azul, uma espécie de aura, de aureola, no formato do planeta Terra, uma esfera que, vista de longe, é uma singela estrelinha azul. Esta pirâmide á ambiciosa, e quer mirar e atingir em cheio este alvo. É o objetivo de vida, a meta, o norte, e dinheiro nenhum pode dar norte à vida de qualquer pessoa. Este degradê cromático é como as paletas de cores de gráficas, oferecendo todo um leque para a pessoa escolher a tonalidade certa, nas múltiplas opções da Vida, num lugar onde há inúmeras funções a serem desempenhadas.


Acima, Sjustjärnan. Um namoro com Leonardo da Vinci, na célebre obra deste, no Antropocentrismo Renascentista, em que o Ser Humano é o centro do Universo – mas o homem, aqui, é o centro, e não a mulher... No quadro, a palavra “evolução”, no sentido da Vida, que é uma verdadeira escadaria, a qual tem que ser galgada com esforço olímpico, sendo a Vida uma grande escola, a maior escola de todas. Aqui, este homem tenta se equilibrar, buscando um centro, um ponto de apoio, no modo como o artista busca se equilibrar por meio da Arte, querendo ser respeitado como artista, como pessoa importante e fundamental à Vida em Sociedade. Este homem está numa bolha de sabão, livre, leve e solto, na leveza do alto astral de pessoas bem humoradas, no modo como rir é o melhor remédio, havendo na Comédia um bálsamo às dores existenciais. Toda esta obra busca um equilíbrio, e o quadro tem um contraste, com metade clara, metade escura. É o modo como, na luz, nada mais natural do que a noite, numa artista observando a dança entre dia e noite, nos opostos regendo o Cosmos, como nos contrastes majestosos do mestre Escher, amplamente comentado neste mesmo blog – dê um search para “mago” e pesquise aqui. Há duas esferas opostas, cada uma regida por um homem, e cada um destes segura uma cruz, no modo como o Cristianismo é uma história bela e trágica, nos ensinamentos apolíneos de Jesus e no fim trágico e doloroso do Messias. São dois mundos, regidos por deuses diferentes. O homem ao centro também segura uma cruz em cada mão, no modo como o Espiritismo é, na prática, um ramo do Cristianismo, e orações cristãs são amplamente feitas em centros espíritas. Este homem ao centro é Jesus, crucificado, exposto ao Mundo, humilhado cruelmente, numa época em que o proclamado Reino dos Céus era incompreensível ao homem comum, ao homem tosco antigo, havendo em Jesus um homem não só à frente do próprio tempo, mas à frente de todos os tempos. Pelo quadro há formas de caracóis, ou conchas marinhas, como uma infinita escadaria circular, majestosa, com elegantes mulheres, em estonteantes vestidos, descendo graciosa e elegantemente tais escadarias, num lugar onde a elegância não é exceção, mas regra. Jesus chama o Ser Humano a evoluir e crescer como espírito, pois, cedo ou tarde, o espírito começa a perceber e aceitar a necessidade de depuração, havendo na Encarnação uma escola muito, muito boa, a melhor de todas. Este quadro quer uma simetria equilibrada, mesmo com opostos são desiguais. É como a Humanidade tendo sua história marcada entre antes e depois da encarnação de um homem. E a Sociedade exige que seja um homem, nunca uma mulher, num lugar onde eles podem tudo; elas podem nada. Estaria Hilma nos chamando a uma evolução, em que os gêneros vão se tornar iguais? Temos aqui as duas faces da Lua, numa face em mistério, jamais revelada ao Ser Humano, em segredos de estado, segredos divinos, com segredos que só podem ser revelados em outra dimensão, em outra vida, pois, da Vida, pouco se sabe... Este homem crucificado abre os braços para voar como uma paladina ave, buscando comida e desbravando ecossistemas, com sua afiadas garras agressivas, capturando camundongos desavisados. É a Humanidade alçando voos de tecnologia, querendo ir a Marte e voltar a salvo, num Ser Humano nunca satisfeito, sempre querendo mais, na inclinação do espírito em viver em um mundo onde a Paz tem um silêncio ensurdecedor. Este homem parece estar se exercitando com um polichinelo, preparando-se para a Vida, ficando mais forte, evoluindo e crescendo como homem, fazendo metáfora com as pessoas malhando em academias, almejando a plena forma e a força para enfrentar as inevitáveis dores da Vida. Este homem está em cima do muro, indeciso, numa Hilma catarseando um sentimento de indefinição, de insegurança. São as almas se debatendo entre o Bem e o Mal.


Acima, Svanen. Os cisnes do dia e da noite se entrelaçam, num abraço muito envolvente, com Yin e Yang se complementando. São como duas cobras em coito, na fúria de um momento de selvagem cio. Formam um brasão, um objeto aristocrático, um escudo cheio de honra e orgulho. Os cisnes se beijam em uma cena romântica, num grande filme de amor, no que é, segundo uma amiga minha psicóloga, o segredo da Vida – é o Amor, que mexe com minha cabeça e me deixa no cio, digo, assim. Aqui, temos um grande equilíbrio simétrico, num exercício de compensação, de equivalência, como dar um imóvel usado como entrada para a compra de um imóvel novo, como numa fria equação, havendo na Matemática a beleza do Pensamento Racional. As asas batem em liberdade, na realização do Desencarne, como um anjo se libertando e mergulhando num túnel de luz, sendo guiado por amorosos anjos guias, anjos que, quando encarnados, eram ignorados pela dureza do Mundo Material. Bem ao centro do quadro temos formas aristocráticas, no modo como, de forma metafísica, somos todos sangue azul, fazendo metáfora com os sangue azul na Terra – a Dimensão Material é um grotesca cópia da dimensão acima daquela. Neste brasão há um saco, talvez um útero, o receptáculo universal, a grande barriga criadora que nos colocou no Mundo, nutrindo-nos. Este saco é esférico, como a Terra, a grande bolha orgânica de vida selvagem que nos expeliu e inaugurou nossa Encarnação, numa etapa difícil, cheia de percalços que, no fim das contas, causa muito Bem e muito crescimento ao indivíduo, como benéficas colheradas de um remédio amargo. Mais acima da bolha, formas douradas que formam um falo, num orgulho ereto de um impávido obelisco, na tentativa humana de compreender a Vitória e a Realização, havendo um verdadeiro culto às celebridades que se tornam bem sucedidas, cabendo, ao resto das pessoas (comuns), contentar-se com o fato das mesmas simplesmente terem sobrevivido. É uma hierarquia mundana, e a pessoa bem sucedida é imitada pelas pessoas comuns, como o paradigma capilar contemporâneo feminino, num cabelo de Gisele. Aqui, há uma dança das horas, nas horas passando e marcando as tarefas do dia, como o badalar pontual, infalível, num despertador tocando e expulsando a pessoa de seu cantinho de gostoso pecado capital da Preguiça – a cama, adorada caminha. Aqui, um X corta o globo de Norte a Sul, no esforço humano em compreender este pequenino planeta no qual inocentemente nascemos, num planeta cercado por um Cosmos tão vasto que se torna infinito. Aqui, temos o poder chamativo do contraste, no modo como há inevitáveis contrastes entre as pessoas, pois cada pessoa é única, altamente singular e especial, ficando todos iguais perante à Urna Eletrônica. O fundo do quadro é formado por quatro quadrados, como uma casa sendo pacientemente construída, como tijolos de vidro, que deixam a luz solar passar, na elegância de uma pessoa autêntica e verdadeira, uma pessoa na qual sabemos que podemos confiar, num anjo transparente, no amigo Anjo da Guarda, no fato de que Tao jamais nos deixa sem guia, e cada um de nós tem, sempre, um Anjo da Guarda – o problema é que nem todos nós no sentimos acompanhados e guiados. Esses cisnes são dois anjos – um da Vida e o outro da Morte, no reloginho que existe em cada um de nós, um reloginho que nos avisa de que é hora de voltar para o Lar. É uma Rosa dos Ventos cíclica, recebendo a força dos ventos, como uma tempestade de granizo destruindo parreirais, nas forças naturais avassaladoras, no modo como o espírito encarnado sofre fortíssima influência de tais forças, sendo um verdadeiro dom gravitar acima da Natureza e ser uma pessoa espiritualizada. Esses dois cisnes estão brigando, num momento de raiva, na agressiva competitividade do Mundo, num contexto em que irmãos se tornam rivais numa quadra de tênis, num Mundo sedento em saber qual dos dois é o melhor, o macho alfa. Aqui, é como uma bomba atômica explodindo em todas as direções, no poder do artista em se tornar uma tempestade.


Acima, Svanen No. 17, Group IX, Series SUW. Aqui, há uma enorme centralização, num Norte que guia os navegantes, numa grande estrela que guia os observadores, numa Hilma desejosa de se encontrar, de encontrar Norte para sua própria vida. Tudo girando em torno de um pequenino ponto central, numa sensação de organização, no modo como falta Norte à pessoa deprimida e desestimulada. Aqui, temos um labirinto desbravado, solucionado, com seus meandros traiçoeiros sendo desvendados, numa luz que simplesmente rechaça quaisquer dúvidas, solucionando um enigma que antes tanto desnorteava e enganava. É como numa hierarquia, numa torre social na qual o centro de tudo é um rei ou uma rainha, com tudo se organizando em torno da pessoa mais importante da pirâmide social, com a face de uma monarca reproduzida nas notas de dinheiro, numa sensação de Ordem, em que todo o corpo social se mantém unido e coeso ao redor de uma figura no topo de um pódio. A cor do fundo é de um tijolo, na exata cor da superfície marciana, havendo na cor do sangue o símbolo do deus da Guerra, nos banhos de sangue em que irmão assassina irmão. É a cor do pó de tijolo das quadras de tênis, num espaço em que é essencial ter vontade de vencer, havendo no jogo um centro, um objetivo. Aqui, temos um verdadeiro alvo, desafiando o jogador a acertar bem no centro, como um médico fazendo um diagnóstico preciso, fincando seu alfinete bem ao meio da questão, observando com muita clareza o que há de errado com o paciente. Este nervo central, como no nervo de um dente, é cercado por círculos que se dividem em meias luas, com várias cores, num quadro diversificado, no modo como o bom líder tem que entender a peculiaridade de cada um de seus súditos, como numa família, havendo uma elevação hierárquica na figura do irmão mais velho, como no termo “Big Brother”, num programa televisivo em que os “irmãos mais novos” são monitorados e controlados, no modo como Papai do Céu vê tudo o que fazemos – é como se fosse uma tela de Cinema, numa tela mostrando com clareza cada um de nossos atos. Aqui, é como um vale profundo, num pontinho bem no fundo, na força gravitacional do que puxa tudo para baixo, numa força magnética irresistível, no modo como Tao é este profundo vale, como água, procurando sempre o espaço mais baixo, numa água que precisa aceitar onde está – a pessoa deprimida não quer aceitar onde está, ficando, assim, sofrendo. É como o buraquinho no topo de um vulcão, expelindo furiosamente suas catarses, querendo se libertar, querendo simplesmente criar asas e fugir de um mundo tão duro e descolorido – pergunte a um prisioneiro se este gosta da prisão. Aqui, é como um sistema solar, com a figura central patriarcal do grande astro, com os planetas ao redor, num universo em que as coisas funcionam por meio da pura Lei da Gravidade, num sistema que, para funcionar, é necessário que a figura do regente seja (altamente) respeitada, pois um corpo social entra em crise e colapso a partir do momento em que o líder se distancia do próprio povo, vide a situação atual da Venezuela, no que Tao chama de “guia tortuoso”. Aqui, é como o Som se propagando pelo espaço, como uma gota que cai bem ao centro do balde, causando uma comoção ondular que vai se apoderar de todo o corpo social. É uma pessoa brilhando, numa explosão que a faz uma estrela, no enigma que é o “ter brilho” – não há livro que ensine. Há um mistério nas estrelas, pois não sabemos dizer ao certo o que as faz brilhar, e assim é Tao, um mistério que jamais será solucionado, resultando na Vida Eterna, a maior manifestação de poder que pode existir. É uma supernova estourando em todas as direções. Aqui, temos um reino unido, pacífico e próspero, no desafio que é se tornar um líder respeitado pelo Povo. A crise acontece a partir do momento em que o centro se desfaz, causando desnorteamento e confusão. Aqui, temos um degradê de depuração, havendo no minúsculo centro uma imensidão de Fé e Libertação. São as várias camadas geológicas de uma esfera, na curiosidade científica em cortar e analisar.


Acima, The Dove No. 2, from Group IX Series SUW/UW. Um formato de coração, talvez numa Hilma romântica. Neste coração há uma unidade, uma conciliação, como duas pessoas apaixonadas que resolvem morar juntas, na magia de um casal apaixonado tomando café da manhã e trocando beijinhos. Aqui, é como o sistema sanguíneo, com veias e artérias dividindo as tarefas, havendo o sangue limpo e o sangue sujo, na demanda do dia, na demanda de um trabalho, de um labor. É como na Vida em Sociedade, em que há uma divisão de tarefas, e aquele que não tem tarefas, sente-se isolado; sente-se fora do Mundo. Na porção inferior vemos a magia de um prisma, na beleza das cores de um monumental lustre de cristal, como o grande lustre no Hard Rock Café Gramado, com várias esferas de cristal reproduzindo a silhueta de uma guitarra. Aqui, é como uma majestosa cortina, mergulhando um cômodo no breu e convidando ao descanso, como um guerreiro que, depois de sua missão na Terra, merece um longo descanso. Este quadro tem uma candura feminina, com um rosa delicado e um vermelho vibrante, nas cores do interior uterino, como no cenário pink em que Marilyn Monroe cantou que os diamantes são os melhores amigos de uma mulher (!). Esta grande esfera se apodera do quadro, como uma grande joia reluzente, na dificuldade humana em entender a verdadeira joia é o pensamento; a falsa joia é a joia física, material. A base deste quadro é negra como a asa da graúna, embasando todo um mistério, como um assassinato narrado por Agatha Christie, havendo nos mistérios algo de divertido, desafiando a pessoa a desvendar algo, no modo como o Universo eternamente desafiará o Ser Humano, havendo neste a imortal curiosidade científica, com os cientistas se debruçando sobre a indecifrável Eternidade, a Eternidade que nos espera após a morte do corpo físico. É o breu da noite, só que, aqui, sem estrelas. Mas o prisma alegre desafia a escuridão, trazendo um consolo e uma promessa, nos vastos salões suntuosos onde festas elegantes são feitas, na apolínea agenda social de um lugar limpo e bem administrado, melhor do que qualquer prefeitura sobre a face da Terra. Temos aqui duas serpentes entrelaçadas, num encontro, como uma pessoa sensível que percebe a necessidade de adquirir agressividade, pois cada um tem que partir em busca do que lhe falta, e é importante que eu não me projete em outrem. Há aqui um vermelho bem vibrante, num show de Flamenco, na cultura intensa espanhola, na beleza das manifestações artísticas que surgem das misteriosas entranhas da Cultura Popular, como o Samba, o Jazz etc. Em oposição à parte vermelha, ao lado, uma parte mais sisuda e discreta, num contraponto, na necessidade de Discrição, na humildade da pessoa realista, uma pessoa que resiste às tentações do Ego. Esta grande esfera constitui um aspecto de vidro opaco, não muito translúcido, como um filtro, uma proteção, revelando algo consideravelmente arejado, nunca fechando portas, sempre ventilando, como um homem de palavra, um homem que jamais se venderá por uns pilas, pois honra e virtude não estão a venda. É a questão da Honestidade, que é um aspecto de Tao, sendo este a elegância eterna. Há neste quadro delgadas linhas brancas, com se estivessem cheias de seiva, cheias de Vida, alimentando uma planta, na circulação do precioso sangue vegetal, na indelével incapacidade humana em reproduzir aquilo que foi feito por Tao. É o Globo Terrestre, esta grande escola que exige o máximo de seus alunos, como um lutador de Boxe, jamais se atirando nas cordas, sempre percebendo a necessidade de um espírito guerreiro, cheio de vontade, num jogador que entra em campo para ganhar. Este é um quadro um tanto simétrico, e é como no Brasil, com as águas do Rio e do Mar se encontrando e, ainda assim, nunca se misturando, numa manutenção de identidade, com duas pessoas que, por mais unidas que estejam, conservam as respectivas personalidades.


Acima, They tens mainstay IV. Um quadro rico, como joias em um tesouro, só que joias abstratas. O fundo alaranjado traz sabor e cor, e formas curvilíneas e liquidiscentes tomam conta do quadro, num cenário em que não há espaço para linhas retas racionais, muito menos para arestas agressivas. É uma cena orgânica, como comida sendo assimilada pelo aparelho digestivo. Vemos várias espirais, como conchas ou escadaria curvilíneas, num lugar de Arquitetura tão rica e enigmática, no sonho enigmático de um arquiteto inspirado, empenhado em fazer coisas que fujam do convencional, do medíocre, num lugar em que a inspiração corre solta, sem repressões ou interrupções, num ato de encorajamento, fazendo com que a Arquitetura da Terra se pareça com uma pura intenção; uma pura pretensão. As espirais são psicodélicas, como nos anos 1960, e a Arte e o Estilo passaram a adquirir suas cores vibrantes, numa espécie de LSD mental. É um quadro doce, que parece ter sido feito por uma ou mais crianças. As espirais são túneis, como num certo filme antigo que mostrava humanos miniaturizados, injetados dentro do organismo de um paciente, em ambientes fechados, como uma sala de estar convidativa, cheia de conforto e simplicidade, cheia de carpetes macios e almofadas doces, convidando ao formidável pecado da Preguiça. São como túneis de um formigueiro, num labirinto o qual só as próprias formigas entendem, com túneis que proporcionam a viagem do Tempo e no Espaço, como no termo científico “Buracos de Minhocas”, túneis que fariam com que Tempo e Espaço fossem abreviados, proporcionando a viagem do Ser Humano para qualquer recanto do Cosmos. As espirais são uma Torre de Babel vista de cima, com sua espiral ascendente, como no interior do Guggenheim de Nova York, uma grande espiral que convida o espectador ao esforço de caminhar nesta estrada nunca truncada, nunca interrompida. É como um sorvete de máquina, com sua sedutora espiral doce, no adorável pecadinho da Gula. São os túneis intestinais, com todo um trajeto, todo um itinerário previsto, como num roteiro de viagem. O maior de todos os círculos aqui está na parte superior da cena, e remete a uma roseta de igreja, no puro e transparente Coração de Maria, a Benevolente Mãe que sempre acolhe incondicionalmente. É uma roda, uma mandala que vai girando, na dança das estações do ano, na capacidade de uma pessoa em contemplar a Natureza e em concluir a maestria da Mente Criadora. É um cristal muito nobre e fino, nas finas mansões da Rua Eterna, lugares acima de qualquer sonho arquitetônico na Terra. Temos neste quadro várias linhas em espiral que cortam a cena, como uma mola propulsora, como um ioiô, no vaivém das ondas do Mar, sempre respirando, sempre vivendo, sempre tendo uma vida produtiva. Aqui, é como um organismo de lar, e cada elemento se sente em casa, à vontade, numa sinfonia harmônica, como dentro de uma empresa, com cada pessoa tendo uma função específica, desde o diretor até a senhora da limpeza, sendo difícil para este mesmo organismo prescindir de alguém ali dentro. Mais ao Sul do quadro, uma joia multicolorida, composta sete círculos, uma joia muito rica, que faz uma assembleia de pedras antes dissociadas, encontradas em lugares diferentes da Natureza. É a riqueza da Vida em Sociedade, na tentativa humana em entender que a morte do corpo físico é uma grande ilusão, num Ser Humano sempre em busca do Eterno. Estes espirais são túneis traiçoeiros claustrofóbicos dos filmes de Alien, com uma tenebrosa criatura destrutiva caçando seres humanos por seus meandros, como um Minotauro no labirinto, sempre à espreita, como um artista que está “aprontando alguma”. É como o remoto jogo de Pac Man, dos anos 1980, em que fantasmas letais habitam um labirinto, como num castelo assombrado, na ilusão que se desfaz com o simples nascer do Sol, o nascer da Percepção, quando a lança do pensamento racional de São Jorge assassina o dragão do terror, trazendo paz ao reino e esclarecimento às mentes turvas.

Referências bibliográficas:

Hilma af Klint. Disponível em <www.curiator.com>. Acesso 13 mar. 2019.

Hilma af Klint. Disponível em <www.pt.wikipedia.org>. Acesso 13 mar. 2019.

Hilma af Klint Obras. Disponível em <www.google.com>. Acesso 13 mar. 2019.